Capítulo Trinta e Quatro: Além das Palavras


NOTAS DA AUTORA

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Aquele não havia sido um dia fácil.

Durante toda a manhã e a tarde, Sollaria ficara em silêncio, pensando sobre todas as mudanças que poderiam ocorrer em sua vida em razão daquele beijo.

Durante o almoço, mal conseguira comer, limitando-se a tomar três colheradas de sua sopa de batatas. Se alguém havia percebido qualquer mudança em seu comportamento ou em seu semblante, ninguém comentou.

Ela até tentou focar nas aulas, mas era completamente difícil, principalmente porque Draco estava sentado há menos de trinta centímetros de distância. Ela estava plenamente consciente de que, vez ou outra, ele lançava olhares em sua direção, e depois desviava, como se para não ser notado.

Parando para pensar melhor, ele fazia aquilo com muita frequência.

"Por Merlin, como podia ser tão alheia à realidade? Estava óbvio agora..."

Pelo menos, ele estava respeitando seu espaço. Não se afastou, mas também não disse nada. Apenas parecia querer estar em sua companhia, ainda que fosse para ficar em completo silêncio, e Sollaria era grata a Malfoy por isso... até certo ponto. O silêncio entre eles, normalmente confortável, agora pesava.

Pior do que tentar evitar Draco em todos os momentos do dia era ter que encarar mais uma longa sessão de Oclumência com Snape. Sollaria sentia que essas aulas particulares estavam drenando o que restava de sua energia mental, e, embora entendesse a importância de dominar a técnica, cada encontro com o professor era um lembrete de que ela ainda tinha um longo caminho a percorrer.

— Concentre-se, Potter — Snape disse, a voz baixa, mas cheia de frieza. Seus olhos escuros observavam cada pequena mudança na expressão de Sollaria. — Se você continuar assim, qualquer um poderá penetrar sua mente com facilidade.

Sollaria respirou fundo, tentando focar, mas tudo o que conseguia pensar era em Draco, no beijo, e no que aquilo significava para eles. Sua mente estava em um turbilhão, e bloquear os pensamentos parecia impossível.

Snape franziu o cenho, percebendo a falta de progresso.

— Não vai conseguir se esconder atrás das suas emoções, Potter. Se não conseguir dominar suas fraquezas, estará vulnerável.

Ela sabia que ele estava certo. Mas naquele momento, com a cabeça cheia de pensamentos sobre Draco, a última coisa que conseguia fazer era controlar o que estava sentindo. A tensão acumulada desde o beijo tornava a tarefa de Oclumência ainda mais exaustiva.

— Se não conseguir bloquear o que sente, será apenas questão de tempo até que isso a destrua — continuou ele, com a voz carregada de desprezo. — Você não tem o luxo de falhar.

Sollaria fechou os olhos por um momento, tentando bloquear o som das palavras de Snape, porém a exaustão, tanto mental quanto emocional, já estava tomando conta. Ela não dormira direito na noite anterior — sua mente não parava de reviver o momento com Draco.

Ela tentou mais uma vez, mas os pensamentos continuaram invadindo sua mente. O rosto de Draco, o toque dele, o medo de que tudo estivesse diferente agora.

Snape soltou um suspiro impaciente.

— Pode ir. Já percebi que sua mente está em qualquer lugar, menos aqui. — Ele a dispensou com um gesto da mão. — Mas entenda que, até dominar isso, sua fraqueza será usada contra você.

Sollaria deixou a sala rapidamente, mal conseguindo segurar a frustração. A cada sessão com Snape, parecia que suas emoções estavam ainda mais fora de controle.

Enquanto caminhava pelos corredores de Hogwarts, o coração acelerado e a mente ainda confusa, ela sabia que o que mais a preocupava naquele momento não era o fracasso nas aulas de Oclumência. Era o que seria de sua amizade com Draco.

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Sollaria passou a quinta-feira em silêncio, evitando qualquer contato prolongado com Draco. Ela sabia que aquilo não poderia se estender por muito tempo, mas não tinha certeza de que estava pronta para enfrentar seus sentimentos, muito menos o medo e a vergonha que a consumiam.

Na hora do jantar, sentou-se à mesa da Grifinória com Harry, Rony e Hermione. Havia alguns dias que não conversava com eles, fosse pela correria do dia a dia, fosse porque estava exausta demais para sequer tentar socializar. No entanto, decidiu que talvez passar um tempo com os grifinórios fosse lhe trazer alguma espécie de alívio ou distração.

Ela logo percebeu que não conseguiria se distrair totalmente: a cada dois minutos, sua atenção se voltava para a mesa da Sonserina, procurando a cabeça loira de Draco. Quando percebia o que estava fazendo, tornava a brincar com a torta de frango em seu prato ou tentava acompanhar a conversa de Harry, Rony e Hermione.

Naquele momento, Hermione estava discutindo com Harry a respeito da Segunda Tarefa do Torneio Tribruxo.

Pelo que entendera, a próxima tarefa seria no fim de fevereiro e Harry tinha que decifrar alguma pista contida no ovo de ouro que capturara na Primeira Tarefa.

"Mas sempre que o abro, ouço o que parece ser o grito de um espírito agourento", explicara seu irmão gêmeo.

— Talvez você tenha que lutar contra um desses — sugeriu Rony, enquanto dava uma mordida em seu terceiro frango frito.

— Não seja idiota, Rony — ralhou Hermione, torcendo o nariz. — O grito deles é fatal a quem ouvir. Dumbledore jamais os colocaria em um perigo dessa magnitude...

Sollaria não fez comentários, embora sua mente a tivesse levado para o dia em que Dumbledore a colocara diante de um dementador de verdade, pensando que, talvez, ele não estivesse tão lúcido assim.

— Ah, para. Dumbledore colocou quatro adolescentes para passar por dragões de verdade. Ele não podia estar são quando aprovou uma ideia dessas — rebateu Rony. Ele se virou para Sollaria. — E você, Sol? Está muito quieta. O que você acha que pode ser a Segunda Tarefa?

Ela ergueu a cabeça e encontrou os olhares de Rony e Hermione, que a encaravam com expectativa, e depois de Harry, que a observava com certa curiosidade.

— E-Eu... Eu não sei. — Ela deixou escapar um suspiro. — Eu não faço a mínima ideia. Desculpe, Harry. Não sei como ajudar no momento. Talvez devêssemos pedir ajuda a Sirius e a Remus.

Rony parecia decepcionado; Sollaria geralmente tinha uma resposta para as suas dúvidas ou uma solução para seus problemas.

— Credo, o que aconteceu? Você está um desastre — comentou o garoto.

— Uau, Ronald, quanta sensibilidade — escarneceu Hermione, tomando um gole de seu suco.

Sollaria olhou para as pessoas ao redor, tentando ignorar a pergunta de Rony.

Aos poucos, os alunos iam se retirando em pares, trios ou grupos, retornando para suas respectivas salas comunais.

Lançou um último olhar para a mesa da Sonserina, apenas para checar se Draco estava bem, mas ele já havia ido embora com os outros garotos do quarto ano.

Ela se voltou para os três grifinórios e forçou um sorriso tenso.

— É impressão sua. Eu estou ótima, só... muito dever de casa. É isso.

— Você tem certeza? — questionou Harry, abrindo um sorriso. — Se precisar que eu meta uma azaração em alguém...

Ela tentou sorrir, mas parecia mais difícil do que deveria. Ultimamente, até mesmo aquilo exigia um esforço que ela não estava acostumada a fazer.

— Obrigada, Harry, mas isso não será necessário.

Ela resolveu acompanhá-los até a Torre da Grifinória após o fim do jantar, em uma tentativa de se distrair. Se voltasse para as masmorras, tinha medo de que Draco a convidasse para praticar a valsa para o Baile, como vinham fazendo às terças e quintas.

— Sol, se não quiser dizer, não precisa, mas você e Malfoy estão bem? — questionou Hermione, baixinho, um tempo depois, enquanto Harry e Rony subiam as escadas do terceiro andar alguns degraus à frente, conversando sobre Quadribol.

Sollaria brincou com o anel em seu dedo, evitando encarar a amiga diretamente. Era como se o nome dele sozinho a trouxesse de volta àquela noite e ao que ainda não conseguia entender.

— Bem que dizem que você é a bruxa mais inteligente da nossa série. O que faz você pensar isso?

Hermione deu de ombros, embora suas bochechas tivessem adquirido um leve tom rosado.

— Ah, por favor. Vocês nem estão se falando. Eu faço quatro matérias com vocês e parece que tem uma muralha entre os dois. Depois da forma como você entrou na aula de Runas Antigas ontem, eu achei estranho e fiquei te observando. Vejo como mal está comendo também, Sol! Fiquei preocupada com você, e logo percebi que tem algo a ver com Malfoy, especialmente porque vi como não parava de olhar para ele durante todo o jantar. Se não quiser falar, eu entendo, mas caso precise, sabe que estou aqui, não sabe? Sei como é difícil isso de estar brigado com um amigo.

Hermione, por fim, ofereceu um sorriso gentil e deu um leve aperto no ombro de Sollaria.

Sollaria não soube muito bem o que dizer. Ela piscou algumas vezes, tentando assimilar o que a amiga dissera.

Até pensou em contar que o problema entre eles não tinha nada a ver com uma briga entre amigos: por um milésimo de segundo, a frase "Draco e eu nos beijamos" quase escapou de sua boca, mas ela conseguiu resistir ao impulso. Embora provavelmente Hermione pudesse ajudá-la a lidar com isso de uma forma mais racional, não tinha muita certeza se queria falar sobre seus sentimentos por Draco Malfoy com ela, sobretudo quando não era segredo para ninguém que Hermione não era exatamente a fã número um dele.

Percebendo a batalha interna da amiga, Hermione se apressou a dizer:

— Não se preocupe, não precisa me dizer nada se não quiser. Eu sei que você vai resolver tudo, do seu jeito. Só... lembre-se de que você não precisa passar por isso sozinha.

— Obrigada pelo apoio, Hermione. — Sollaria deu-lhe um breve abraço. — Eu fico muito feliz por tê-la como amiga.

Hermione assentiu com um sorriso compreensivo, e as duas continuaram subindo as escadas em silêncio, lado a lado, enquanto o som distante das risadas de Harry e Rony preenchia o ar.

_________

Na manhã seguinte, enquanto se preparava para sua corrida matinal, Sollaria suspirou diante do espelho. Ela estava exausta. Não apenas fisicamente, mas mentalmente. Precisava de uma distração, algo para tirar Draco de sua cabeça.

O frio intenso do lado de fora fez com que ela optasse por treinar nos vestiários. Fazia algum tempo desde que se dedicara aos exercícios de força, e isso parecia ser a solução perfeita. Ao menos, era o que esperava.

Quando entrou no vestiário, parou bruscamente. A luz já estava acesa.

Seu coração deu um salto.

Quem estaria ali tão cedo?

Ao perceber que havia hesitado por muito tempo, respirou fundo e fechou a porta atrás de si para evitar que o vento gélido preenchesse o espaço.

Ela tirou o enorme casaco que usava por cima das vestes de treino e largou-o na entrada, caminhando em direção à porta do banheiro.

— Olá? Tem alguém aí?

Nada.

O silêncio do local de repente foi interrompido pelo som abafado de uma música vindo da sala de equipamentos.

"Shot through the heart, and you're to blame
Darlin', you give love a bad name..."

Quando ela abriu a porta, viu quem estava lá.

Era Draco.

Ele estava levantando uma barra pesada, os músculos dos braços tensionados, e seu rosto levemente úmido de suor. Sollaria congelou.

Desde quando Draco malhava?

Seu estômago revirou, e ela sentiu um calor inesperado nas bochechas.

— Malfoy? — A palavra escapou antes que pudesse se segurar. Sua voz soou estranha, mais alta e aguda do que pretendia.

Draco largou a barra no chão com um baque e se virou.

— Oi, Sol. — Ele parecia surpreso, mas não desconfortável.

Ela, no entanto, estava. E muito.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou, quase sem pensar. Era uma pergunta óbvia, mas sua mente estava uma bagunça, ela sabia disso.

Draco caminhou até o toca-discos e abaixou o volume da música; depois, enxugou o suor da testa com a barra da camisa.

— Não consegui dormir. — Sua voz era casual, mas algo em seu tom a fez sentir que havia mais do que ele estava deixando transparecer. — Faz alguns dias, na verdade.

"Será que isso tem a ver com o beijo?" O pensamento atravessou a mente de Sollaria, mas ela rapidamente o empurrou para o fundo.

— Eu também não — murmurou ela, distraída, enquanto caminhava até os pesos.

Houve um breve silêncio entre eles, um silêncio que ela não soube como quebrar. O olhar de Draco queimava em sua pele, mesmo quando ele fingiu se ocupar com os próprios exercícios. Ela pegou uma barra, mas sabia que não conseguiria se concentrar.

— Desde quando você treina? — perguntou, na tentativa de mudar o assunto e se distrair.

Por que ela estava falando com Draco?

Vá embora, Sollaria, pensou.

Dê meia-volta e vá embora.

— Desde as férias. Nunca comentei porque... sei lá. Não achei que fosse importante. — Draco a observou, e Sollaria sabia que ele estava tentando avaliar sua reação. — Normalmente treino com Nott, Zabini, ou às vezes Crabbe e Goyle. Aliás, foram eles que nos ensinaram um monte de coisa.

Sollaria assentiu, forçando um sorriso tenso, mas seus pensamentos estavam longe.

Ela começou a levantar a barra, mas a sensação de estar sendo observada era esmagadora. Sabia que Draco estava prestando atenção em cada movimento dela, e isso a fazia querer sair dali o mais rápido possível.

— O que foi? — perguntou de repente, largando a barra no chão com mais força do que o necessário. — Eu não queria atrapalhar. Pode continuar.

Draco piscou, surpreso, e sorriu de leve.

— Você não está me atrapalhando — disse ele, parecendo genuinamente confuso. — Só que... percebi que você está finalmente falando comigo. Isso significa que nós estamos...

Sollaria sentiu o coração acelerar. Ele ia falar sobre o beijo, sobre o "nós". Não estava pronta para isso. Nem de longe.

Antes que Draco pudesse continuar, a música explodiu nos alto-falantes.

Sollaria, sem pensar, havia aumentado o volume com um toque sutil de magia.

Draco se virou para ela, os olhos cheios de perguntas, mas ela apenas deu um sorriso forçado, quase nervoso, enquanto tentava retomar o exercício.

— Certo — murmurou ele, a voz quase abafada pela música. — Quando você estiver pronta para conversar, me avisa.

Ele pegou sua barra de pesos e voltou a malhar, mas Sollaria sabia que as coisas talvez estivessem um pouco longe de serem resolvidas. O silêncio entre eles, misturado ao som alto da música, não disfarçava a tensão no ar.

Ela tentou se concentrar no exercício que estava executando, mas sabia que Draco estava a poucos metros, e a tensão entre eles parecia impossível de ignorar.

Eles continuaram em silêncio, cada um focado em seu treino, como se a música fosse uma barreira entre o que realmente precisava ser dito.

Depois de alguns minutos, Sollaria deixou a anilha que utilizara no chão, sentindo os músculos da parte de trás das coxas queimarem, mas era uma distração bem-vinda. Draco fez o mesmo, o som dos pesos ecoando pela sala.

Ele se aproximou do toca-discos e abaixou o volume da música.

— Bom treino — disse ele, de maneira casual, mas sua voz ainda carregava algo que ela não conseguia decifrar completamente.

Sollaria forçou um sorriso tenso.

— É, você também.

Ela carregou os halteres e anilhas até o armário, querendo sair dali antes que a tensão se tornasse insuportável.

Draco hesitou por um momento, mas acabou apenas assentindo antes de sair na frente.

Sollaria suspirou profundamente quando ele desapareceu pela porta. O ar parecia mais leve agora, mas o nó em seu estômago continuava. Nada havia sido resolvido, e ela sabia que uma conversa entre eles era apenas uma questão de tempo.

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