Capítulo Nove: Winky, o Elfo Doméstico
NOTAS DA AUTORA
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Barty Crouch não se mexeu nem falou enquanto o senhor Diggory depositava o elfo no chão aos pés dele. Todos os bruxos do Ministério se viraram para o senhor Crouch.
Observando a cena, Sollaria supôs que aquilo significava que o elfo trabalhava para a família Crouch.
Ela estalou a língua, contendo um sorrisisinho; o senhor Crouch não parecia muito confiante agora.
Durante alguns segundos o bruxo permaneceu paralisado, os olhos ardendo no rosto branco, olhando para Winky. Então, ela pareceu voltar à vida.
— Isto... não pode... ser — balbuciou o homem. — Não...
Contornou rápido o senhor Diggory e saiu em direção ao lugar em que o bruxo encontrara Winky.
— Não adianta, senhor Crouch — gritou Diggory para ele. — Não há mais ninguém aí.
Mas o senhor Crouch não parecia disposto a aceitar sua palavra. Eles o ouviram andar por todo o lado, as folhas rumorejarem ao serem afastadas para os lados, na busca.
— Que constrangedor — murmurou Sollaria, olhando para as próprias unhas para não ter que assistir à cena que se seguia.
Amos Diggory pareceu ouvi-la e concordou sombriamente, contemplando o corpo inconsciente de Winky.
— O elfo doméstico de Barty Crouch... quero dizer...
— Pode parar, Amos – disse o senhor Weasley baixinho. — Você não acredita seriamente que foi o elfo?
Sollaria quis revirar os olhos para o senhor Diggory, mas se conteve.
Elfos não tinham permissão para possuir uma varinha, muito menos para portar uma. A pessoa que conjurara a Marca Negra usara uma varinha, tinha voz de homem e era bem mais alta que Winky.
Definitivamente era um humano.
Winky provavelmente fora pisoteada ou acertada por um feitiço por acidente. Talvez até mesmo pelo próprio feitiço dos funcionários do Ministério...
— A Marca Negra é um sinal de bruxo. Exige uma varinha — comentou Arthur Weasley.
— É — disse o senhor Diggory —, e havia uma varinha.
— Quê? — exclamou o senhor Weasley.
— Olhe aqui. — Amos Diggory ergueu uma varinha e mostrou-a a Arthur. — Estava na mão dela. Então, para começar, violação da Cláusula Três do Código para o Uso de Varinhas. Nenhuma criatura não humana tem permissão para portar ou usar uma varinha.
Nesse instante ouviu-se mais um estalo e Ludo Bagman aparatou bem ao lado de Arthur Weasley. Parecendo sem fôlego e desorientado, ele girou no mesmo lugar, com os olhos cravados no crânio verde-esmeralda no céu.
— A Marca Negra! — ofegou ele, quase pisoteando Winky ao se virar, intrigado, para os colegas. — Quem fez isso? Vocês apanharam quem fez? Barty! Que é que está acontecendo?
Bartemius Crouch voltara de mãos vazias. Seu rosto continuava branco como o de um fantasma e torcia tanto o bigode em escovinha quanto as mãos.
— Onde é que você andou, Barty? — perguntou Bagman. — Por que é que você não assistiu à partida? E o seu elfo ficou guardando uma cadeira para você... Gárgulas vorazes! — Bagman acabara de notar Winky caída aos seus pés. — Que foi que aconteceu com ela?
— Estive ocupado, Ludo — disse o senhor Crouch entredentes, mal movendo os lábios. — E o meu elfo foi estuporado.
— Estuporado? Por gente nossa você quer dizer? Mas por quê...?
De repente o rosto redondo e reluzente de Bagman revelou ter compreendido; ele ergueu os olhos para o crânio, baixou-os para Winky e, em seguida, ergueu-os para Bartemius Crouch.
— Não! — exclamou ele. — Winky? Conjurou a Marca Negra? Ela não saberia fazer isso! Para começar precisaria de uma varinha!
— E tinha uma — lembrou Diggory. — Encontrei-a segurando uma, Ludo. Se o senhor não se opõe, senhor Crouch, acho que devíamos ouvir o que ela tem a dizer em sua defesa.
Crouch não deu sinal de ter ouvido Diggory, mas este pareceu tomar o silêncio do outro por concordância. Ergueu a varinha e apontando-a para Winky disse:
— Enervate!
Winky mexeu-se fracamente. Seus grandes olhos, que eram castanhos, abriram-se e ela piscou várias vezes de um jeito meio abobado. Observada pelos bruxos em silêncio, ergueu o tronco aos poucos e se sentou. Avistou, então, os pés do senhor Diggory e lentamente, tremulamente, ergueu os olhos para fixar seu rosto; então, mais lentamente ainda, olhou para o céu.
Ela soltou uma exclamação, olhou a clareira em volta, agitada, e irrompeu em soluços aterrorizados.
— Elfo! — disse o Sr. Diggory severamente. — Você sabe quem eu sou? Sou do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas!
"Elfo"?
Ele sabia o nome dela! Por que a estava tratando tão mal?
Sollaria cerrou os punhos ao lado do corpo, sentindo o sangue ferver. Será que ele gostaria de que se dirigissem a ele como "bruxo"?
Winky começou a se balançar no chão para a frente e para trás, a respiração saindo em fortes arquejos.
— Como você está vendo, elfo, a Marca Negra foi conjurada aqui há alguns instantes — disse o bruxo. — E você foi descoberta, pouco depois, logo embaixo dela! Sua explicação, por favor!
— Eu... eu... eu não fiz isso, meu senhor! — Winky ofegou. — Eu não sei de nada, meu senhor!
Amos Diggory, no entanto, vociferou:
— Você foi encontrada com uma varinha na mão!
Ele balançou a varinha diante dos olhos arregalados de Winky. Harry deu um passo adiante e o queixo dele entreabriu-se.
— Ei... é minha! — disse.
Todos na clareira olharam para o garoto.
— Perdão? — disse Amos Diggory incrédulo.
— É a minha varinha! — repetiu Harry. — Deixei-a cair!
— Deixou-a cair? — repetiu o bruxo incrédulo. — Isto é uma confissão? Você se desfez dela depois de conjurar a Marca?
Sollaria e Hermione trocaram um olhar de tédio antes de voltarem a atenção à cena que se seguia.
— Amos, lembre-se de com quem está falando! — disse Arthur Weasley, muito zangado. — Acha provável que Harry Potter conjure a Marca Negra?
— Hum... claro que não — murmurou o senhor Diggory. — Desculpem... me empolguei...
— Em todo o caso, não a deixei cair lá — disse Harry, indicando com o polegar as árvores debaixo do crânio. — Dei por falta dela logo depois que entramos na floresta.
O olhar do senhor Diggory endureceu ao se virar mais uma vez para Winky, que estava encolhida aos pés do bruxo.
— Então você encontrou a varinha, não foi, elfo? E você a apanhou e pensou em se divertir com ela, é isso?
Sollaria deu um passo à frente.
— Eu venho em defesa de Winky, senhor.
Todos olharam para ela.
Sollaria respirou fundo, ciente de que tinha a atenção de todos sobre si, e então disse, lenta e claramente para que todos pudessem ouvi-la:
— Primeiro, ela tem um nome. O nome dela é Winky. Segundo, a voz que ouvimos era de um homem, a altura era de um ser humano e é pouco provável que Winky consiga fazer uma coisa dessas — ela olhou do elfo para o senhor Diggory, então ergueu uma das sobrancelhas, fingindo uma expressão inocente —, a não ser que estejamos considerando que o senhor Crouch regularmente ensine Magia das Trevas para os seus empregados.
Um silêncio profundo instaurou-se entre os presentes, que olhavam de Amos Diggory para Bartemius Crouch um pouco constrangidos.
Amos Diggory tinha um olhar horrizado. Sollaria tinha um sorrisinho inocente nos lábios.
— Acho que podemos resolver a questão descobrindo qual é o último feitiço feito por esta varinha — pronunciou-se enfim uma bruxa do Ministério.
— Eu não estava fazendo mágica com ela, minha senhora! — guinchou Winky, as lágrimas correndo pelos lados do nariz achatado e grande. — Eu estava... eu estava... eu estava só apanhando ela, minha senhora! Eu não estava fazendo a Marca Negra, minha senhora, eu não sei fazer!
— Não foi ela! — afirmou Hermione. Ela parecia muito nervosa, dizendo o que pensava diante de todos aqueles bruxos do Ministério, mas, ainda assim, decidida. — Sollaria estava dizendo a verdade sobre a pessoa que vimos! Winky tem uma vozinha esganiçada e a voz que ouvimos fazer o feitiço era muito mais grave!
— É, era uma voz humana — disse Rony.
— Bem, logo veremos — rosnou o senhor Diggory, sem parecer se impressionar.
Winky estremeceu e sacudiu a cabeça freneticamente, as orelhas abanando, quando o senhor Diggory ergueu a própria varinha e encostou-a, ponta com ponta, na de Harry.
— Prior Incantato! — bradou o homem.
Sollaria ouviu Hermione prender a respiração, horrorizada, quando um crânio com uma enorme língua de cobra surgiu no ponto em que as duas varinhas se tocavam, mas era uma mera sombra do crânio verde no alto, parecia até feito de uma espessa fumaça cinzenta: o fantasma de um feitiço.
— Deletrius!
E o crânio difuso desapareceu transformado em um fiapo de fumaça.
Aquilo não provava absolutamente nada. Mostrar o feitiço não queria dizer necessariamente que Winky era a responsável por ele. Ela dissera que apenas recolhera a varinha.
Na opinião de Sollaria, aqueles funcionários metidos e grosseiros deveriam sair procurando pelo verdadeiro culpado, e não ficar perdendo tempo com quatro adolescentes e um elfo doméstico aterrorizado.
"Então", disse o senhor Diggory com um tom de furioso triunfo, fixando Winky, que continuava a tremer convulsivamente.
— Eu não estava fazendo isso! — guinchou o elfo, seus olhos revirando aterrorizados. — Eu não estava, eu não estava, eu não sei fazer!
— Você foi apanhada com a mão na botija, elfo! — rugiu ele. – Apanhada com a mão na varinha culpada!
— Amos — disse Arthur Weasley em voz alta —, pense um pouco... pouquíssimos bruxos sabem fazer esse feitiço... onde ela o teria aprendido?
— Talvez Amos esteja insinuando — disse o senhor Crouch, a fúria reprimida em cada sílaba —, o que, diga-se de passagem, é exatamente o que a senhorita Potter questionou, que eu rotineiramente ensino meus criados a conjurarem a Marca Negra?
Seguiu-se mais um silêncio profundamente desagradável.
Amos Diggory abriu e fechou a boca, constrangido.
— Senhor Crouch... de... de jeito nenhum...
— Você agora já chegou a denunciar as três pessoas nesta clareira que menos provavelmente conjurariam aquela Marca! — vociferou Crouch. — Os irmãos Potter... e eu! Suponho que você conheça a história deles, Amos?
— Claro, todos conhecem... — murmurou Diggory, parecendo extremamente sem graça.
Sollaria cruzou os braços, satisfeita.
— E espero que se lembre das muitas provas que tenho dado, durante a minha longa carreira, de que desprezo e detesto as Artes das Trevas e aqueles que a praticam — gritou o senhor Crouch, os olhos saltando das órbitas outra vez.
— Senhor Crouch, eu... eu nunca insinuei que o senhor tenha alguma coisa a ver com isso! — murmurou Amos Diggory, agora corando por baixo da barba castanha e curta.
— Se você acusa o meu elfo, você acusa a mim, Diggory! Onde mais ela teria aprendido a conjurar a Marca?
— Ela... ela poderia ter aprendido em qualquer lugar...
— Precisamente, Amos — interveio Arthur Weasley. — Ela poderia ter aprendido em qualquer lugar... Winky? — disse ele bondosamente, virando-se para o elfo, que se encolheu como se este bruxo também estivesse gritando com ela. — Onde foi exatamente que você encontrou a varinha de Harry?
Winky estava torcendo a barra de sua toalha de chá com tanta violência que o pano se esfiapava entre seus dedos.
— Eu... eu a encontrei... encontrei lá, meu senhor... — murmurou ela — lá... no meio das árvores...
— Está vendo, Amos? — disse o senhor Weasley. — Quem quer que tenha conjurado a Marca poderia ter desaparatado logo em seguida, deixando a varinha de Harry para trás. Uma ideia inteligente, não ter usado a própria varinha, que poderia tê-lo denunciado. E Winky aqui teve a infelicidade de encontrar a varinha momentos depois e de apanhá-la.
— Mas, então, ela deve ter estado a poucos passos do verdadeiro responsável! — disse o senhor Diggory com impaciência. – Elfo? Você viu alguém?
Winky começou a tremer mais que nunca. Seus olhos imensos piscaram indo do senhor Diggory para Ludo Bagman e dele para o senhor Crouch.
Então ela engoliu em seco e disse:
— Eu não vi ninguém... ninguém...
— Amos — disse o senhor Crouch secamente —, estou muito consciente de que normalmente você iria querer levar Winky para interrogatório no seu departamento. Mas vou-lhe pedir que me deixe cuidar dela.
Os braços de Sollaria penderam ao lado do corpo.
Ó, não...
Ele seria capaz de despedi-la mesmo ela sendo inocente?
O senhor Diggory fez cara de quem não achava a sugestão muito boa, mas ficou claro para todos ali que o senhor Crouch era um funcionário tão importante no Ministério que o outro não se atreveria a recusar o pedido.
— Pode ficar tranquilo de que ela será castigada — acrescentou o senhor Crouch friamente.
Sollaria imediatamente sentiu pena de Winky.
A garota segurou a mão da amiga, como se a cena fosse muito dolorosa para assistir. Hermione apertou sua mão, como se a entendesse. As duas compartilhavam um senso de justiça inabalável, e não havia nada mais frustrante do que não poder fazer absolutamente nada pelo pobre elfo naquele momento.
— M-m-meu senhor... — gaguejou Winky, olhando para o senhor Crouch, seus olhos rasos de lágrimas. — M-m-meu senhor, p-p-por favor...
O senhor Crouch encarou o elfo, seu rosto ainda mais agressivo, cada ruga nele profundamente marcada. Não havia piedade em seu olhar.
Por um momento delirante, Sollaria pensou que ele fosse desferir um tapa no rosto de Winky, mas não foi isso que ele fez.
— Esta noite Winky se portou de uma forma que eu não teria imaginado possível — disse ele lentamente. — Eu a mandei permanecer na barraca. Mandei-a permanecer ali enquanto eu ia resolver o problema. E descubro que ela me desobedeceu. Isto significa roupas.
Quando um elfo doméstico recebia alguma peça de roupas diretamente de um de seus patrões, isso queria dizer que ele seria liberto de seu vínculo com a família a que servia.
Em quase todas as vezes, pelo que Sollaria sabia, os elfos domésticos sofriam muito ao serem despedidos. Talvez o único que ela tinha ciência de que via aquilo como algo positivo e de fato libertador, era Dobby, o antigo elfo doméstico da família Malfoy.
— Não! — berrou Winky, prostrando-se aos pés do senhor Crouch. — Não, meu senhor! Roupas não, roupas não!
Era horrível assistir a como Winky se agarrava à sua toalha de chá enquanto soluçava sobre os sapatos do senhor Crouch.
— Mas ela estava assustada! — explodiu Hermione aborrecida, soltando a mão de Sollaria. Ela encarou o senhor Crouch. — O seu elfo tem pavor de alturas, e aqueles bruxos estavam fazendo as pessoas levitarem! O senhor não pode culpá-la por ter querido sair de perto!
O senhor Crouch deu um passo atrás, desvencilhando-se do contato com o elfo, a quem ele examinava como se fosse algo imundo e podre que contaminava seus sapatos muito bem engraxados.
— Não preciso de um elfo doméstico que me desobedeça — disse ele friamente, erguendo os olhos para Hermione. — Não preciso de uma criada que esquece o que deve ao seu senhor e à reputação do seu senhor.
Winky chorava tanto que seus soluços ecoavam pela clareira.
Seguiu-se um silêncio desagradável, que foi interrompido pelo pai de Sollaria, ao dizer baixinho:
— Bom, acho que vou levar o meu pessoal de volta à barraca, se ninguém tiver objeções a fazer. Amos, a varinha já nos informou tudo que pôde, se Harry puder levá-la, por favor...
O senhor Diggory entregou a varinha a Harry e ele a embolsou.
— Vamos, vocês quatro — disse Arthur Weasley em voz baixa. Mas Hermione não parecia querer arredar pé; seus olhos ainda miravam o elfo soluçante. — Hermione! — chamou ele com mais urgência.
Hermione se virou e acompanhou Sollaria, Harry e Rony para fora da clareira, embrenhando-se entre as árvores.
— Que é que vai acontecer com Winky? — perguntou Hermione no instante em que deixaram a clareira.
— Não sei — respondeu o senhor Weasley.
— O jeito como a trataram! — disse Hermione, furiosa. — O senhor Diggory chamando-a de "elfo" o tempo todo... e o senhor Crouch! Ele sabe que não foi ela e ainda assim vai despedir Winky! Não se importou que ela tivesse sentido medo nem que estivesse perturbada, era como se ela nem fosse humana!
— E ela não é — disse Rony.
Hermione se voltou contra ele.
— Isso não significa que não tenha sentimentos, Rony, é repugnante o jeito...
— Hermione, eu concordo com você — disse o senhor Weasley depressa, fazendo sinal para a garota continuar andando —, mas agora não é hora de discutir os direitos dos elfos. Quero voltar à barraca o mais depressa que pudermos. Que aconteceu aos outros?
— Nós nos separamos — disse Rony. — Papai, por que todo mundo estava tão nervoso com aquele crânio?
— Eu explico tudo quando estivermos na barraca — prometeu ele, tenso.
— E onde estão Percy, Bill e Charlie, papai? E Sirius e Remus? — indagou Sollaria, caminhando agora ao lado do pai.
Ele coçou o queixo.
— Acho que devem estar de volta à barraca. Nos separamos um tempo depois no meio daquela baderna. Eu quase fui pisoteado!
Quando alcançaram a orla da floresta, depararam com um obstáculo. Havia ali uma aglomeração de bruxas e bruxos assustados, e, quando viram o senhor Weasley caminhando em sua direção, muitos foram ao seu encontro.
— Que é que está acontecendo na floresta?
— Quem conjurou aquilo?
— Arthur, não é... ele?
— Claro que não é ele — disse o senhor Weasley impaciente. — Não sabemos quem foi, parece que desaparatou. Agora, me deem licença, por favor, quero ir me deitar.
Ele passou com os quatro jovens pela aglomeração e voltou ao acampamento. Tudo estava silencioso agora; não havia sinal de bruxos mascarados, embora várias barracas destruídas ainda fumegassem.
Charlie meteu a cabeça pela abertura da barraca dos garotos.
— Papai, que é que está acontecendo? — perguntou ele no escuro. — Fred, George e Ginny já voltaram, mas os outros...
— Estão aqui comigo — respondeu Arthur, abaixando-se pra entrar na barraca. Os quatro foram atrás dele.
Assim que viu Sollaria aparecer na sala de estar ricamente decorada, Remus correu até ela e exclamou:
— Sollaria, graças a Deus. — Abraçou-a com força e passou a mão pelo seu rosto. — Está ferida? Algo dói?
Ela riu.
— Estou bem, Remus.
Ele olhou para Harry e puxou-o para um abraço também.
— Eu não sei o que aconteceria conosco se vocês se machucassem. — Uma voz atrás deles foi ouvida.
Sollaria olhou para Sirius e sorriu, abraçando o padrinho do irmão.
Ele estendeu o braço, chamando Harry, que se uniu a eles.
— Graças a Deus todos vocês estão bem — murmurou ele.
Depois que se afastaram, Sollaria se jogou em um dos sofás, exausta.
Bill estava sentado à pequena mesa da cozinha, apertando um braço com um lençol, que sangrava profusamente. Charlie tinha um rasgão na camisa e Percy ostentava um nariz ensanguentado. Fred, George e Ginny pareciam ilesos, embora abalados.
— Pegou ele, papai? — perguntou Bill bruscamente. — A pessoa que conjurou a Marca?
— Não. Encontramos o elfo de Barty Crouch segurando a varinha de Harry, mas não ficamos sabendo quem realmente conjurou a Marca.
— Quê? — exclamaram Bill, Charlie e Percy, juntos.
— A varinha de Harry? — disse Fred.
— O elfo do senhor Crouch? — disse Percy, parecendo estupefato.
Com alguma ajuda de Sollaria, Harry, Rony e Hermione, o senhor Weasley explicou o que acontecera na floresta.
Quando terminaram a história, Percy parecia chocado.
— Bem, eu talvez compreenda o lado dele em querer "se livrar" do elfo, porque apesar de não ter sido ela, as pessoas falam. E homens como ele se importam muito com a imagem. — Ele fez uma pausa. — Mas eu sinto pena do elfo. Ela não fez nada de errado. Foi como Hermione disse... Ela só estava aterrorizada. Então embora eu respeite o senhor Crouch, achei a atitude dele...
— Desumana? — sugeriu Hermione, frustrada.
Percy balançou a cabeça.
— Desnecessária — respondeu Percy, indo verificar o bule de chá na cozinha.
Fred e George trocaram um olhar e depois se viraram para olhar Percy.
— Isso quer dizer que você tem um...
— Cérebro? — George completou a frase do irmão gêmeo.
— E um coração? — adicionou Fred, fingindo estar maravilhado.
Percy lançou-lhes um olhar de tédio.
Enquanto colocava açúcar no bule e mexia, deixou escapar um suspiro e disse:
— Eu sei que somos completamente diferentes. Sei que gosto de seguir regras e estudar e fazer tudo que é o oposto do que todos vocês gostam. Sei que sou apaixonado pelo meu emprego e gosto de trabalhar no Ministério, mas isso não significa que eu não perceba quando algo de errado ou de injusto acontece lá dentro. E eu sei que quase ninguém lá dentro presta. É tudo um jogo de poder e de interesses.
Ele serviu o chá para todos em silêncio e então entregou a xícara para cada um dos presentes, que olhavam para ele com curiosidade e surpresa.
Depois que o choque inicial passou, Rony quebrou o silêncio.
— Bem, agora que todos sabemos que Percy não é de todo um cuzão, será que alguém pode explicar o que significava aquele crânio? Não estava fazendo mal a ninguém... por que esse escândalo todo?
Hermione bufou.
— Eu já falei... é o símbolo de Você-Sabe-Quem, Rony — disse Hermione, antes que mais alguém pudesse responder. — Li sobre ele em Ascensão e Queda das Artes das Trevas.
— E não é visto há treze anos — acrescentou Remus em voz baixa. — É claro que as pessoas entraram em pânico... foi quase o mesmo que rever Você-Sabe-Quem.
— Não estou entendendo — disse Rony, franzindo a testa. — Quero dizer... é apenas uma forma no céu...
— Rony, Você-Sabe-Quem e seus seguidores projetavam a Marca Negra no céu sempre que matavam alguém – respondeu Sirius, inclinando-se para encarar o garoto. — O terror que isso inspirava... você não faz ideia, era muito criança. Mas imagine a pessoa chegar em casa e encontrar a Marca Negra pairando sobre ela, sabendo o que vai encontrar lá dentro...
Houve um silêncio momentâneo.
Então Bill, levantando o lençol do braço para verificar o corte, disse:
— Bem, não fez nenhum bem à gente esta noite, quem quer que tenha conjurado aquilo. A Marca Negra afugentou os Comensais da Morte no momento em que a viram. Todos desaparataram antes que chegássemos bastante próximos para arrancar a máscara deles.
— Comensais da Morte? — perguntou Harry. — O que são Comensais da Morte?
Sollaria ergueu as sobrancelhas, espantada.
— Sabe, Harry, às vezes eu me esqueço de que você não foi criado no mundo mágico. — Ela passou a mão carinhosa e pacientemente pelo ombro do irmão. — Talvez seja hora de você começar a pegar alguns livros sobre o Mundo Bruxo para poder compreender melhor algumas coisas. "Comensal da Morte" é o nome que os seguidores de Você-Sabe-Quem davam a si mesmos. Acho que vimos o que restou deles hoje à noite, pelo menos os que conseguiram ficar fora de Azkaban.
— Não podemos provar que eram eles, querida — disse o pai. — Embora provavelmente tenham sido — acrescentou desanimado.
— É, aposto que eram! — disse Rony repentinamente.
— Mas o que é que os seguidores de Voldemort... — começou Harry.
Todos se encolheram.
— Desculpem — disse Harry depressa. — Mas o que é que os seguidores de Você-Sabe-Quem pretendiam fazendo aquelas pessoas levitarem? Quero dizer, qual era o objetivo?
— O objetivo? — Sirius deu uma risada desanimada. — Harry, essa é a ideia que fazem de uma brincadeira. Metade das mortes de trouxas quando Você-Sabe-Quem estava no poder foi feita de brincadeira. Imagino que eles tenham tomado uns drinques esta noite e não puderam resistir ao impulso de nos lembrar que um grande número deles continua em liberdade. Uma reuniãozinha simpática — terminou ele desgostoso.
— Mas se eles eram realmente os Comensais da Morte, por que desaparataram quando viram a Marca Negra? — perguntou Rony. — Deveriam ter ficado felizes de ver a Marca, não?
— Usa o cérebro, Rony — disse Bill. — Se eles eram realmente os Comensais da Morte, se viraram de todo o jeito para não serem mandados para Azkaban quando Você-Sabe-Quem perdeu o poder, e contaram um monte de mentiras de que ele os forçara a matar e torturar gente. Aposto como sentiriam ainda mais medo do que nós ao ver que ele estava voltando. Negaram que estivessem metidos com Você-Sabe-Quem quando ele perdeu o poder e voltaram às suas vidinhas de sempre... acho que o Lorde não ficaria muito satisfeito de ver essa gente, não é mesmo?
— Então... quem conjurou a Marca Negra... — disse Hermione lentamente — estava fazendo isso para manifestar apoio ou amedrontar os Comensais da Morte?
— Bem, essa reflexão é interessante, Hermione. E vou-lhe dizer uma coisa... somente os Comensais eram capazes de conjurar a Marca. Eu ficaria muito surpreso se a pessoa que a conjurou não tivesse sido um dia Comensal da Morte, mesmo que não o seja agora... Olhem, é muito tarde, e se sua mãe ouvir falar do que aconteceu vai morrer de preocupação. Vamos dormir mais um pouco e depois tentar pegar um portal bem cedo para sair daqui.
Assim que se despediram, as três garotas voltaram para a outra barraca, fecharam-na e se jogaram cada uma em sua cama, exaustas.
— Estava tudo indo tão bem... — murmurou Ginny no escuro.
Ela se pegou pensando nos momentos felizes que tivera com a família, com Sirius e Remus, Cedric, Astória e Draco ainda naquela noite. E tudo fora esquecido rapidamente quando o terror instaurou-se no acampamento.
— Estava tudo bom demais para ser verdade — respondeu Sollaria baixinho, antes de se virar para o outro lado e cair no sono.
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