Capítulo Dezessete: Pansy Abre o Coração
NOTAS DA AUTORA
↯ Por favor, não se esqueça de deixar seu voto e seu comentário! 🌅
________
No domingo de manhã, Sollaria foi acordada por um ruído baixinho que ela logo descobriu tratar-se de um barulho de choro.
Alguém estava chorando, pensou ela sonolenta.
Um tempo passou até que ela abriu os olhos, de repente sentindo-se muito desperta.
Alguém estava chorando.
Ela abriu as cortinas que estavam fechadas ao redor da cama e se pôs de pé, dobrando os dedos dos pés devido à frieza do chão.
As outras camas estavam vazias e as cortinas, abertas. Com exceção das de Pansy Parkinson.
Pansy.
Será que ela deveria...?
O coração de Sollaria ficou muito pequeno depois de ouvir um soluço.
Pansy estava sofrendo.
Havia dias que ela não comia direito. Parecia quieta e solitária e desprovida de emoções.
Ela não aparecia em algumas aulas e, quando aparecia, ficava de cabeça baixa.
A única vez em que parecia ter esboçado alguma reação havia sido na noite anterior, quando estava conversando com Roselyn Greenbriar na Sala Comunal da Lufa-Lufa.
Roselyn.
Sollaria caminhou até a cama de Pansy, mas logo se deteve.
Deveria dizer algo? Fazer algo?
Pansy merecia seu consolo, depois de tudo?
Sollaria comprimiu os lábios, sentindo-se de repente muito pequena por pensar uma coisa como aquela.
Não interessava quem fosse; Pansy era um ser humano e cometia erros. Era apenas uma criança até então... E estava sofrendo. Ela também tinha sentimentos.
Pansy também tinha um coração.
Pansy também amava alguém.
Pansy também merecia sua empatia.
Sollaria ergueu a cabeça e afastou lentamente as cortinas da cama da colega.
Pansy esfregou rapidamente os olhos assim que Sollaria apareceu diante dela, mas não havia como esconder as marcas avermelhadas debaixo daqueles olhos gélidos.
- Cai fora, Potter.
Sollaria não se mexeu.
Pansy estava encolhida na cama, abraçada ao travesseiro. Parecia desolada.
- Eu estou falando sério, Potter. Saia daqui e me deixe em paz.
Sollaria comprimiu os lábios em uma linha fina.
- Eu sinto muito, Pansy - murmurou ela, sentando-se na beirada da cama. - Pelo que quer que tenha acontecido com você. Ninguém merece passar por momentos ruins, ainda mais sozinha.
A outra não disse nada sobre Sollaria ter se sentado na cama sem permissão.
- Por que está aqui? - perguntou Pansy baixinho. - Não tem nada melhor para fazer além de me ver chorar como uma criancinha boba?
Sollaria olhou para as próprias mãos.
- Estou aqui porque imagino que precise de um apoio. De alguém para ouvi-la.
- Não tenho nada para dizer a você. Não tem nada de errado acontecendo comigo.
Sollaria ergueu as mãos em sinal de rendição, levantando-se.
- Não mesmo - assegurou Pansy, e Sollaria desconfiou que ela tivesse dito aquilo mais para si mesma do que para a ruiva.
Quando Sollaria virou as costas, no entanto, ouviu Pansy murmurar algo.
Sollaria girou nos tornozelos, esperando; Pansy deixou escapar um suspiro.
- Meus pais... - admitiu ela com dificuldade -...meus pais descobriram algo sobre mim. E eles... - Pansy se sentou e colocou o travesseiro sobre o colo, concentrada na tarefa de afofá-lo -...Eles não estão muito felizes comigo. Porque o que eles descobriram...
A voz dela foi sumindo.
Sollaria caminhou em direção a Pansy.
- Eu não sou normal - completou baixinho. - Não de acordo com eles.
Sollaria sabia muito bem do que Pansy estava falando, mas ela não poderia dizer nada sem comprometer Draco Malfoy ou Roselyn, então apenas ficou em silêncio.
Pansy olhou para cima, para Sollaria, os grandes olhos verdes cintilando devido às lágrimas que ameaçavam cair.
- Você é inteligente, Potter. Diga-me... Sou uma tola, não sou? Por me apaixonar. Por me permitir ser frágil. Por ser anormal. Uma doente. Nem mesmo pessoas como você gostariam de ficar perto de mim se soubessem. - Ela esfregou os olhos na blusa do pijama.
Pena era o que Sollaria sentia por Pansy, por ela ter sido criada em um berço de ouro, mas em uma família incapaz de lhe dar amor e aceitação. De lhe ensinar os verdadeiros valores da vida.
Dinheiro, nome, status sanguíneo e aparência... Era o que importava para pessoas como as da família Parkinson. Como se isso fizesse alguma diferença depois que todos estivessem mortos!
Pansy não tinha culpa de ter nascido em uma família ruim como aquela. Não tinha culpa por viver em uma bolha... mas ela tinha conhecimento de que aquilo era errado e, mesmo assim, escolheu não mudar, não refletir mais a respeito de seus privilégios e de seu preconceito ilógico. Daquilo ela tinha culpa.
Sollaria tocou o queixo de Pansy para que a garota a encarasse nos olhos, e então ofereceu um pequeno sorriso.
- Você não é uma tola por se apaixonar, Pansy. Você é humana. É diferente. E isso jamais será uma fraqueza. É uma arma muito poderosa, na verdade. O amor - completou ela ao ver o olhar confuso no rosto de Pansy. Sollaria deixou escapar um curto suspiro. - Foi assim que minha mãe morreu, sabia? Ela se sacrificou por Harry porque o amava. É por isso que ele está vivo. É por isso que ele é o Menino-Que-Sobreviveu. Porque a minha mãe, a minha mãe nascida-trouxa e comum e desprovida da racionalidade mágica, como muitos de vocês dizem por aí daqueles que vieram de famílias trouxas, deu a vida por ele. Ela se colocou entre Harry e Você-Sabe-Quem, e pediu para que fosse morta no lugar dele.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Pansy.
- E-Eu... Eu não sabia. - Sua voz não era mais alta que um sussurro.
E por que se importaria se soubesse? Era o que Sollaria queria cuspir, mas sabia que aquilo vinha de uma parte amarga e machucada de seu coração que precisava se curada.
Ao invés disso, respondeu:
- Isso, Pansy, não é tolice. Não é uma fraqueza. É o maior ato de bravura que alguém poderia realizar. Permitir-se amar, permitir-se sentir amor, puro e verdadeiro. Identificar-se com alguém de modo que você sente como se a pessoa fosse... fosse seu coração fora do peito e pensa que sem ela nada faria sentido.
Sollaria voltou a se sentar na cama e pegou as mãos de Pansy, apertando-as com gentileza.
- E você se fortalece quando a pessoa está junto de você. Isso é amor. E isso é lindo. E isso não faz de você doente ou anormal. Isso faz de você quem você é. Isso faz parte de nós e nos tornamos mais suscetíveis ao amadurecimento e à empatia e à felicidade no momento em que nos apaixonamos, porque você sente que a pessoa é uma parte crucial de você e ela te torna uma pessoa melhor. Você se doa por inteiro para ela, e ela por você. Isso não é uma doença, Pansy. Isso... Isso é lindo.
Sollaria esperava que Pansy a expulsasse dali ou fosse rude com ela, mas jamais esperaria pelo que veio a seguir.
Pansy deitou a cabeça no colo de Sollaria de modo quase inconsciente, e deixou as lágrimas rolarem livremente.
Sollaria não esboçou reação nenhuma, pois era óbvio que Pansy precisava daquilo.
- Você não entende, ninguém entende...
De maneira um pouco desajeitada, mas gentil, Sollaria passou as mãos pelas mexas escuras do cabelo de Pansy.
- O que é que você acha que não entendo, Pansy?
Pansy fechou os olhos, como se isso pudesse impedi-la de sentir vergonha pelo que diria em seguida. Ela pareceu compreender que Sollaria sabia muito bem do que estava falando.
- O nome dela é Roselyn Greenbriar - Uma confissão. - Ela é da Corvinal e é mais velha. Ela é tão... tão linda. Tão doce. Tão gentil... Eu não poderia jamais descrever o que eu sinto quando... Quando eu estou ao lado dela.
Sollaria continuou passando a mão pelos cabelos de Pansy, como se o que ela tivesse dito não fosse nada diferente de uma conversa despreocupada sobre o clima.
Porque, de fato, não era. Pelo menos para Sollaria. Não era nada diferente, e não deveria ser. Por que aquele era um assunto tão... indesejável? Repugnante? Não deveria ser, deveria? Deveria ser algo casualmente discutido, como fazem quando querem puxar algum assunto e falam sobre o clima. Ah, os britânicos adoram falar sobre o clima, ela sabia muito bem disso. Então por que não tratavam assuntos como aquele como tratavam as trivialidades? Não deveria ser um problema, não deveria ser matéria para repúdio ou marginalização.
Por que as pessoas eram tão horríveis umas com as outras?
- Ela é uma garota muito bonita. Eu a vi ontem com você na festa. Vocês pareciam felizes.
- E estávamos... No começo. - Pansy suspirou. Ela havia parado de chorar, mas não havia saído do lugar. Talvez não percebesse o que havia feito. Que havia se mostrado vulnerável a ponto de invadir o espaço de Sollaria e deitar com a cabeça no colo dela. - Mas então os pais dela... Eles ficaram sabendo que estávamos trocando cartas extremamente... amigáveis. Eles não gostaram muito daquilo, e ameaçaram-na de tirá-la daqui. Não tirá-la apenas de Hogwarts, de mim... Eles queriam tirá-la do país. Mas ela conseguiu convencê-los de que estavam enganados. Roselyn começou um namoro de verão.
- Draco - murmurou Sollaria.
- Isso - continuou Pansy amargamente. - E eu tentei falar com ela no Expresso, mas ela disse que talvez fosse melhor se nos distanciássemos, porque ela suspeitava de que os pais haviam colocado os elfos domésticos da família para vigiá-la. Então ontem, quando ela me convidou para acompanhá-la na festa da Lufa-Lufa... Eu achei que teríamos uma chance, mas...
- Ela terminou com você - concluiu Sollaria.
Pansy assentiu.
- Disse que gostava de mim, mas que eu lhe lembrava tudo do que ela mais queria fugir: dos pais e dos ideais puristas e preconceituosos deles. Disse que eu era uma memória constante daquilo que ela mais quer, porém jamais poderá ter, ao mesmo tempo que sou um constante lembrete de que ela deveria pensar como eu, ser como eu. E ela... Ela não é assim. Ela não aprova nossos ideais. Ela disse que planeja se mudar da Mansão Greenbriar assim que sair de Hogwarts, para nunca mais ter que sofrer a pressão que os pais colocam sobre ela. Ela pretende abrir uma floricultura em Hogsmeade ou no Beco Diagonal e ter a independência financeira dela antes que os pais a deixem sem nada. Ela disse...
Uma lágrima desceu sobre o nariz de Pansy e caiu na coxa de Sollaria, mas ela não se importou.
- Ela disse que se depois de tudo isso eu for uma pessoa mais madura, tiver refletido sobre minhas crenças e ainda gostar dela... Ela disse que eu deveria procurá-la. Eu fui uma idiota... Achei que ontem tudo ficaria bem entre nós...
Pansy abraçou as próprias pernas e crispou os lábios.
- Bem - começou Sollaria com o máximo de cautela que conseguiu reunir -, talvez Roselyn tenha um ponto, não é?
Pansy encarou-a boquiaberta.
- Quero dizer... Você acha mesmo que é melhor do que alguém porque tem gerações e gerações em sua família de pessoas inteiramente bruxas? Você acha mesmo que isso era possível sem que houvesse relações incestuosas e, consequentemente, os filhos nascessem fora do padrão do que eles consideravam "perfeitos"?
- Acho que já ouvi algo assim sobre a família Black - murmurou Pansy.
- Sua vida foi uma mentira, Pansy. É impossível que em séculos de sua linhagem não houvesse alguém que tivesse se casado com um trouxa ou nascido um aborto. Isso acontece com todas as famílias bruxas e isso é completamente normal. Portanto, você não é mais pura do que eu. E também não é melhor do que ninguém apenas porque veio de uma família antiga, rica e puro-sangue. Hermione Granger, por exemplo, é mais inteligente que todos nós juntos!
Pansy fechou os olhos, talvez para esconder uma careta de desgosto.
Sollaria se inclinou e delicadamente tirou uma mexa de cabelo que caiu sobre os olhos da garota, a voz suave quando disse:
- E eu posso não ter tanto dinheiro quanto você, ou vir de uma família rica e tradicional... Minha mãe podia ser uma trouxa tola e comum... - Ela se aproximou um pouco mais do ouvido de Pansy. - Mas eu poderia destruir cada um de vocês se eu quisesse, e eu não preciso de uma varinha para fazer isso.
Pansy se sentou imediatamente.
- Isso é uma ameaça?
Sollaria passou os dedos pelos cabelos, despreocupada.
- Não. É apenas um fato.
Ela pousou uma das mãos no joelho de Pansy e a encarou para que a morena compreendesse que estava sendo sincera.
- Eu não estou tentando intimidá-la, Pansy, mas acho que você poderia tentar rever os seus conceitos. E não porque eu estou te falando isso ou para que Roselyn te aceite de volta.
Os olhos de Pansy se encheram de lágrimas mais uma vez, contudo, ela nada disse.
- Mas por você mesma, e porque sabe que é o certo... porque sabe que não há uma justificativa plausível para que pense ser melhor do que alguém e porque sabe que, no fim do dia, todos sangramos da mesma cor e vamos para debaixo da terra como todos os outros seres vivos deste mundo.
Pansy comprimiu os lábios e desviou o olhar, como se estivesse lutando contra algum pensamento. A expressão naquele rosto belo e angelical era de uma frieza que jamais poderia ser descrita.
Sollaria inclinou-se mais uma vez, buscando a total atenção da colega.
- A visão perversa dos seus pais sobre a nossa sociedade não significa que você deve enxergá-la assim. Talvez Roselyn ter terminado com você seja a motivação necessária para que decida como deseja ser... odiada por todos, mas sendo acolhida por pessoas capazes de sentir alguma empatia por você, ou odiada por todos e sendo solitária pelo resto da vida, tendo um casamento frustrado e infeliz com alguém que não te ama e tampouco te respeita.
Sollaria ficou em silêncio, aguardando uma resposta. Uma reação. Algo que indicasse que Pansy havia compreendido o que ela dissera.
Passado um tempo, ela ergueu as sobrancelhas, imaginando se a morena se dignaria a responder. A garota, no entanto, tinha a cabeça baixa quando respondeu:
- E-Eu... - A voz de Pansy falhou. - Eu não sei... Eu não sei c-como eu...
Sollaria tocou o queixo de Pansy e ofereceu-lhe um sorriso.
- Que tal começar sendo gentil? Quando a mudança vem do interior, tudo ao nosso redor também muda. Mas não se preocupe... É preciso ter paciência. Tudo no seu tempo, certo?
Sollaria se esforçou para dar um sorriso para a garota diante dela e se afastou em direção ao banheiro para lavar o rosto.
- Sollaria, espere - chamou Pansy. - Quero dizer, Potter.
Sollaria olhou para ela por cima do ombro e sua expressão suavizou-se, revelando indulgência.
- Bem, "Sollaria" é o meu nome, não é?
Pansy não respondeu. Ao invés disso, perguntou:
- Não vai dizer que eu deveria pedir desculpas?
Sollaria acenou negativamente com a cabeça.
- Apesar de querer lhe dizer que eu apreciaria se o fizesse, não acho que isso seria o suficiente, Pansy.
Sollaria deu um suspiro e caminhou até o próprio malão, tirando de dentro uma bolsinha com seus produtos de higiene.
- O pedido de perdão precisa ser feito com sinceridade, e não porque você sabe que é o que eu gostaria de ouvir de você. Às vezes, a gente simplesmente tem que mudar e reconhecer o nosso erro. Com o tempo, as feridas abertas poderão ser curadas e isso tudo pode ser deixado no passado.
Se Pansy pensava em considerar o que havia dito, Sollaria não fazia ideia. Tampouco virou-se para ver se ela ouvira suas palavras antes de entrar no banheiro e fechar a porta atrás de si, deixando Pansy imersa nos próprios pensamentos.
Assim que Sollaria saiu do quarto, descobriu que já era hora do almoço. Aquilo a deixou um pouco surpresa consigo mesma, afinal, ela não era do tipo que dormia até tarde.
Ela passou distraída pela antecâmara com um livro em mãos e, ao fazer menção de tocar a maçaneta da porta de entrada, um falso pigarrear chamou-lhe a atenção.
Draco estava sentado em uma das poltronas com Nyx no colo. Ele acariciava os pelos brancos da gata, que ronronava alto a cada vez que o garoto passava as mãos pela superfície macia de seu corpo, os olhinhos azuis fechados de prazer.
Draco, por outro lado, encarava Sollaria com um olhar quase vazio - embora ela pudesse perceber que ele escondia algo por trás daquilo. Esconder as próprias reações era o modo de Draco de reagir.
- O que houve? - questionou Sollaria ao notar que ele não diria nada.
- Se divertiu muito ontem? - O tom de voz de Malfoy era cortante e frio como lâminas, e era como se elas estivessem sendo jogadas na direção dela.
Sollaria caminhou até ele e fez carinho em Nyx, sem desviar o olhar do amigo.
- Sim. Eu me diverti bastante. E você? Por onde andou?
Ele colocou Nyx infantilmente contra o peito, forçando Sollaria a interromper as carícias.
- Por aí.
Sollaria bufou ao perceber que ele só daria respostas vagas.
Ela se sentou no braço da poltrona e cruzou os braços.
- Vai me dizer por que é que está agindo como um mané ou o quê?
A mandíbula de Draco se enrijeceu. Ele fechou os olhos, os cílios claros fazendo uma leve sombra em suas bochechas.
- Só estou... preocupado com você, está bem? - A voz dele não passava de um sussurro.
Sollaria tocou-lhe o braço, fazendo com que ele abrisse os olhos.
- Que motivos teria para ficar preocupado, Draco? Eu estou bem.
Draco virou o rosto para o outro lado, evitando os olhos de Sollaria.
- É que... Bem... Diggory é mais velho, não é? E se ele... E se ele estiver esperando que vocês... - Ela viu o pomo de adão dele subir e descer. - E se ele estiver esperando que você... sei lá...
Ele deixou a frase morrer, parecendo meio sem jeito, mas Sollaria sabia exatamente o que ele queria dizer.
Sollaria deixou escapar uma risada, então tocou com delicadeza o queixo de Draco, fazendo com que ele a encarasse. Ela deu um sorrisinho ao notar o constrangimento do amigo, cuja face adquirira um tom rosado intenso.
- Eu sei cuidar de mim mesma, Draco. Eu já sou bem grandinha. Mas agradeço a sua preocupação.
_____
Na segunda-feira de manhã, Sollaria vestiu algumas peças de roupa que encontrou em um brechó trouxa do Beco Diagonal que, de acordo com a vendedora, eram o mais apropriado para os treinos de Quadribol.
Consistia em uma espécie de top justo e uma calça justa que mais parecia um short comprido, por ir até um pouco acima dos joelhos. Nos pés, ela colocara um tênis surrado que, segundo a moça, eram os mais indicados para treino e corrida.
Ela fez um rabo de cavalo apertado bem no topo da cabeça e, sentindo-se de repente muito exposta, desceu para o Hall de Entrada.
Cedric ainda não estava lá quando ela chegou; Sollaria se perguntou se não estaria cometendo um enorme erro ao decidir manter aquele compromisso, ainda mais ao notar que o sol ainda nem havia surgido no horizonte.
- Bom dia, Sollaria. - A voz de Cedric tirou-a de seus pensamentos.
Ele vinha de um corredor que ela sabia que dava nos porões, e usava uma espécie de shorts largos, uma blusa branca sem mangas e tênis parecidos com os dela.
Sollaria abraçou o próprio corpo, um pouco desconfortável. Com um bocejo, replicou:
- B-Bom dia, Ced.
Sem encará-la, o rapaz gesticulou para a grande porta de carvalho e perguntou:
- Podemos ir?
Sollaria mexeu em algumas mechas de cabelo que haviam se soltado enquanto o seguia porta afora.
- Então - disse ela depois de um tempo em silêncio, apreciando o céu crepuscular -, que tipo de exercícios vamos fazer?
Ele esfregou o queixo, pensativo, antes de apontar para o campo de quadribol.
- No vestuário tem alguns pesos que podemos usar para os braços, e podemos nos aquecer e correr pelo campo, auxiliar um ao outro com os exercícios, esse tipo de coisa.
O ar da manhã ainda conservava o frio da noite anterior, mas à medida que o céu adquiria uma coloração amarelo-alaranjada, anunciando o iminente nascer do sol, a brisa gélida ia sendo substituída por um frescor mais ameno comum ao início de uma manhã de verão.
Os únicos sons que se podia ouvir era o do farfalhar das árvores que circundavam o campo de quadribol e o canto dos pássaros, que começavam a sair de seus ninhos e alçavam voo à procura de alimento.
- Acho que podíamos começar com alguns alongamentos, não acha? - perguntou Cedric, esticando os braços acima da cabeça.
Alguns tempo depois, os dois começaram uma corrida silenciosa ao redor do Campo.
- Queria que tivéssemos alguma música - murmurou Sollaria, ofegante, quando o suor começou a escorrer pelo seu pescoço e o sol já tinha aparecido havia mais de meia hora.
Alguns alunos já começavam a surgir, reunindo-se nas arquibancadas para tocar instrumentos ou apenas para ficar de bobeira.
- Bem, agora temos - retrucou Cedric, contendo uma risadinha enquanto indicava com a cabeça um grupo de terceiranistas que ensaiavam uma escala musical de forma muitíssimo desafinada. - O que acha de alguns abdominais?
Os raios solares incidiam sobre eles agora de forma que não havia como não sentirem uma onda sobrepujante de calor percorrendo-lhes os corpos.
Eles trabalhavam em sintonia - um de frente para o outro, as pernas entrecruzadas -, erguendo-se ao mesmo tempo, de modo que seus olhos sempre acabavam se encontrando, embora Cedric fizesse o possível para não encará-la.
- Cinco para as oito - sinalizou Cedric, arfante, depois de um tempo. - Acho que deveríamos ir se queremos chegar a tempo para o café.
Sollaria, que estava de olhos fechados enquanto passava as mãos pela grama, abriu-os imediatamente e se sentou.
- Você não espera realmente que eu apareça assim - ela apontou para o pescoço, que parecia brilhar devido ao excesso de suor - para o café da manhã, não é? E o jeito que eu estou vestida... Preciso tomar um banho e me trocar e...
Cedric se levantou e estendeu a mão para ela.
- Não vejo problema no jeito que está vestida - objetou ele enquanto acenava para alguém nas arquibancadas.
Sollaria espanou um pouco da terra e da grama que grudavam em seus shorts antes de seguir o amigo em direção à saída do Campo.
- E não é como se ninguém mais suasse, mas você pode fazer como quiser - continuou ele. - Acho que vou tomar um banho antes também.
Ao chegarem ao Hall de Entrada, encontraram vários alunos circulando pelos corredores, a maioria convergindo em direção ao Salão Principal.
- Acho que nos vemos amanhã, certo? - Sollaria encostou no braço de Cedric de uma forma peremptoriamente amigável antes de rumar para o corredor que a levaria até as Masmorras.
Ela passou pela porta de entrada da Sala Comunal e atravessou a antecâmara, cheia de primeiranistas correndo ao redor do sofá em uma espécie de brincadeira.
Quando passou para a Câmara Principal, viu, encostada à mesa central, Pansy conversando com Draco, Blaise e Theo. A expressão no rosto dela parecia... leve. Sollaria notou que ela segurava Nyx no colo, e parecia perfeitamente contente com isso enquanto ria de algo que algum deles havia dito.
Sentindo-se um pouco nervosa e acanhada, Sollaria caminhou na direção deles, tentando transparecer confiança.
- Oi, gente. - Ela encarou a outra garota. - Oi, Pansy! Vejo que você e Nyx são amigas agora... Que bom que veio se juntar a nós.
Podia-se dizer que aquilo era uma espécie de convite - uma oferta tácita de paz entre as duas.
Os garotos ficaram tensos de repente, como se pensassem que aquilo não fosse uma ideia muito prudente.
Pansy, no entanto, não escarneceu ou menosprezou Sollaria. Pelo contrário; ela quase conseguiu abrir um sorriso.
- Bom dia, Sollaria.
E então todos ficaram em silêncio; Theo foi o primeiro a quebrá-lo.
- Achei que não fossem ter treinos de Quadribol esse ano. Por que está vestida assim?
Sollaria cruzou os braços diante do peito, lembrando-se da conversa que havia entreouvido antes da festa da Lufa-Lufa. De repente, ela se sentiu desconfortável com a atenção que os quatro agora lhe davam.
- Não estamos. Eu fui treinar com Cedric. Duas horas por dia, todas as manhãs. Mas não sei se isso dará certo.
Blaise trocou um olhar zombeteiro com Theo e umideceu os lábios. O tom em sua voz era de provocação quando disse:
- Ora, Potter, então quer dizer que agora você está comprometida?
Ela coçou a testa, incomodada.
Passou os olhos pela sala, buscando uma forma de sair daquela situação. O relógio indicava que já passava das oito e cinco. Se quisesse tomar café antes das aulas, precisava se apressar.
- Que isso, Blaise. Somos só amigos.
Draco, que esteve em silêncio desde que Sollaria apareceu, fez um barulho (que mais pareceu um chiado) e saiu, como se não estivesse com paciência para ouvir aquilo.
- O que é que deu nele? - indagou Sollaria, confusa.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top