38 - Dolores Frank
Cristina deveria estar na sala de música, apenas esperando.
Comprar briga com Charlie não parecia uma coisa tão difícil pra mim, e de fato não era. Por isso não planejei, Patrícia teria considerado imprudente mas improvisar as vezes é bem mais eficaz do que falar um texto decorado.
Tentei me distrair durante todo o dia antes de chegar o momento, mas não tinha funcionado bem. Tantas coisas podiam dar errado, tudo podia dar errado.
O tempo todo a imagem da cabeça de Charlie esmagada pelo troféu aparecia na minha mente. Isso me dava vontade de fingir que estava com infecção intestinal e ir para casa deixando todo o plano para trás. Porém, quando lembrava de tudo que ela fez, da humilhação que passamos na festa, eu tinha certeza que queria ver ela morta.
E claro, na nossa última conversa ele havia prometido que faria algo comigo, Cristina e Edith já tinham ido. Eu seria a próxima.
É melhor não esperar para ver.
Patrícia não me deu nem um aviso, ela sabia que eu executaria minha parte com perfeição.
Vou até Charlie e empurro ela, precisava da sua total atenção. Os "amigos" que a seguiam se manifestaram me empurrando de volta e fazendo uma espécie de muro na frente dela com seus próprios corpos.
Quero ver todos eles chorarem sobre o seu cadáver, vadia.
— Dolores, você tem que controlar melhor essa sua raiva. Já pensou em fazer terapia?
Charlie desfez o "muro" que tinham formado entre nós duas com apenas um gesto de mão. Pensei como era interessante e no mínimo curioso todo esse poder que ela tinha sobre as pessoas. Eu não podia fazer muita coisa com seus amiguinhos por perto, tinha que deixar ela interessada em mim a ponto de dispensar todos eles.
— Quero saber o que você pretende fazer comigo, agora que sou a próxima da sua listinha negra.
Funcionou, foi até bem mais fácil do que eu pensava.
— Muito bem, vamos conversar.
Meu medo tinha se confundido com raiva bem facilmente. Andamos lado lado, fiz uma enxurrada de acusações sobre as coisas que ela havia feito com Cristina, Edith e Patrícia. Em certo momento não tive mais certeza se as coisas que eu estava falando eram mesmo verídicas, mas inventar crimes falsos para Charlie era um esporte que eu dominava. Ela ouvia tudo com atenção, se divertindo com meu tom de raiva e desprezo, que até deve ter soado forçado. Não importava, enquanto ela ria com as coisas sem sentido que eu falava eu a guiava até a sala de música.
Paramos na porta.
— Já acabou seu discurso?
— Por que não terminamos isso lá dentro, eu e você?
— Desculpe, eu tenho mais de 10 anos.
— Você não parece nada adulta ameaçando as pessoas.
Subitamente Charlie pareceu lembrar de algo importante. Pela expressão demoníaca em seu rosto, era algo que me deixaria no chão sem briga física alguma. Tirou uma mecha do cabelo loiro do rosto e sorriu para mim,
— Você não precisa ter medo que eu faça alguma coisa com você, Dolores. Eu já fiz.
Esperei que ela terminasse de falar antes de chutar a porta e a empurrar para dentro da sala. Os alunos iam embora rápido, ansiosos para chegar em suas respectivas casa após o dia de aula. Ninguém passava por ali ou prestava atenção.
— Samuel Frank. Esse nome é familiar?
Pisquei os olhos com força e tentei me recompor. Como ela sabia o nome do meu irmão?
— Ele está internado em uma clínica de reabilitação para usuários de drogas, não é? Eu sei disso porque eu o coloquei lá. Fui eu quem o apresentei, digamos... a tudo isso. Samuel era um bom cliente.
O suposto mundo que tinha criado a base de ódio e planos malucos desabou. De fato, toda a minha desgraça era culpa daquela garota. Minhas pernas tremeram levemente, era como se um buraco tivesse sido aberto no chão, em segundos eu estaria despencando em direção ao núcleo da terra, mas antes de chegar lá meu corpo seria consumido por um inferno de lava.
Charlie me encarou com satisfação no rosto, era como se soubesse todo o mal que tinha causado. A tristeza que assolou minha família com a ida de Samuel, a falta de atenção dos meus pais... A culpada de todas essas coisas estava bem ali o tempo todo
Não estará mais.
— Vamos resolver isso lá dentro.
Minha voz tremia, soou mais desesperada do que eu esperava.
— Eu não quero brigar, já derrotei você apenas com a verdade. Eu acho que a verdade é a coisa mais assustadora do mundo, não concorda?
Chutei a porta e segurei o braço de Charlie, felizmente tive o bom senso de não chutar com força. Quase não se fez barulho.
— Ei!
Cristina segurava o troféu com as duas mãos, seus olhos estavam arregalados e ela tremia muito.
— Vou te mostrar uma coisa mais assustadora que a verdade, Charlotte.
Bloquei imediatamente a porta da sala com uma cadeira.
Tudo aconteceu em poucos segundos, de modo que se Charlie tivesse percebido Cristina segurando o troféu, não teria tido tempo de assimilar que aquilo era para sua cabeça.
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