02 - Cristina Stevens

— Cristina! Ei Cristina! Cristina! Ei Cristina.

Será que a idiota não percebia que eu não estava querendo falar?

Cristina Stevens! Ei cristina!

— O QUE É? — gritei, levantando a cabeça da carteira, mas me arrependi no mesmo segundo, quando pecebi que quem estava me chamando era Edith Nash.

— O que foi, Edith? — falei com doçura.

A última coisa de que precisava hoje era levar a culpa de ter causado uma convulsão nela.

— É a Dolores, andam dizendo que ela está trancada no banheiro desde o início da aula, e não saiu até agora.

— E daí?

— Nós já estamos quase no final da segunda aula.

Edith era o tipo de pessoa que não entendia que o termo "Representante de classe" era só um nome chique para "Ajudante do professor". Ela realmente achava que era a responsável por resolver todos os problemas do 3°ano B e que era uma espécie de "salvadora do colégio".

— O que eu tenho com isso, Edith?

— Pensei que você podia ir falar com ela.

Era só o que me faltava, receber ordens daquela maluca.

— Edith meu amor, eu não sou amiga da Dolores, eu nem ao menos conheço ela. Por favor, mande outra pessoa.

Abaixei a cabeça de novo, imaginando inocentemente que aquela conversa tinha sido encerrada.

— Acho que não é uma boa ideia mandar uma das amigas, e também...

— ENTÃO VÁ VOCÊ! — gritei.

O professor, que até então estava usando o celular despreocupado na cadeira (como a maioria dos professores da Liberty Way passavam as aulas), olhou para mim com um olhar reprovador, assim que percebeu, não que eu estava gritando, mas com quem eu estava gritando.

Para piorar, Edith deixou as coisas que estava segurando cairem.

— É que... Pensei que você... Eu... — começou a gaguejar.

— Tudo bem eu vou — disse me levantando.

— Obrigada.

Vai se ferrar.

Pedi licença ao professor com um aceno de mão, e me encostei na porta quando sai, me sentindo extremamente cansada.

Ótimo. Passei a madrugada inteira limpando o vômito da minha mãe alcoólatra das paredes da casa, enquanto tentava convencer minha irmãzinha de que ela não tinha virado um dragão que cuspia fogo. E agora, estava indo ao banheiro feminino consolar a garota mais mesquinha do colégio que tinha acabado de levar uns chifres, porque uma maluca me pediu.

A verdade é que Edith Nash era exatemente o tipo de garota que sofria bullying. Não porque era nerd e magricela, mas simplesmente porque ela era insuportável e extremamente intrometida.

"Você faltou duas vezes essa semana Cristina, está tudo bem?"

"Percebi que suas notas em geografía caíram esse bimestre, aconteceu algo?"

" Você ainda não copiou nada do conteúdo Cristina, como se sente?"

O problema, é que ela tinha uma doença. Não era incumum que ela tivesse uma convulsão no meio da aula de história, porque ficou comovida com as atrocidades dos nazistas na segunda guerra mundial (isso aconteceu semana passada). Portanto todos os alunos, e até os professores, "engoliam" suas idiotices sem dizer uma palavra. Afinal, se ela fraturasse o crânio quando caísse em um dos seus surtos, ninguém gostaria de levar a culpa.

Tenho certeza, de que se ela chegasse amanhã com a notícia de que estava curada da epilepsia nervosa, ou seja lá o que, a primeira coisa que os alunos do 3° B fariam era amarrar seus pés  com uma corda e pendura-lá de cabeça pra baixo no ventilador de teto.

Abri a porta do banheiro de uma vez.

Eu podia enganar Edith, é claro, e simplesmente ficar enrolando e depois dizer que ela não quis sair do banheiro. Mas assim que fechei a porta, escutei um choramingo vindo do último box.

Eu odiava ver pessoas chorando, talvez pelas tantas vezes que já chorei.

Bati na porta devagar.

— Dolores?

— Vai embora!

— Está tudo bem?

— O que você acha?

Ok, talvez ela fosse acabar descontando toda a raiva que estava sentindo em mim. Mas eu já estava alí mesmo, o que tinha a perder?

— Se isso te conforta, eu tabém não vou muito com a cara da Charlotte.

Não sei porque disse aquilo justo naquele momento, mas me arrependi 3 segundos depois. Dolores abriu a porta do box violentamente e segurou meu pescoço me empurrando contra a parede oposta.

— VOCÊ ESTÁ BRINCANDO COM A MINHA CARA? ACHA ENGRAÇADO?

Eu era mais forte e um pouco mais alta que Dolores, porém era bem mais medrosa, e claro, não tinha acabado de ser traída pelo meu namorado.

Implorei silenciosamente que ela me soltasse, tentando dizer em silêncio que não tinha ido lá pra brigar.

Ela me soltou, e voltou para o box, recolhendo a mochila. Aproveitei o tempo em que estava de costas para retomar minha respiração normal.

— Não vim até aqui rir de você, me mandaram porque matou aula.

Ela não respondeu.

Fui até o espelho do banheiro e fingi lavar as mãos, esperando alguma resposta de Dolores.

— Minhas mechas estão desbotadas não? — disse de forma descontraida, molhando as mechas coloridas do meu cabelo.

— Preciso dar um jeito nelas, estou pensando em fazer umas rosas, foi ideia de Isabel fazer azuis sabe?

Eu duvidava muito que Dolores estivesse interessada no meu cabelo. Mas quando se está no mesmo banheiro que uma pessoa furiosa que acabou de te enforcar, você tem que dizer alguma besteira para "disfarçar" o nervosismo.

Ela veio na minha direção com a mochila no ombro, me empurrou para o canto para lavar as mãos e tirar os vestígios de que tinha chorado do rosto, com água e um pó compacto que tirou da bolsa.

Arrancou uma folha do livro de matemática e usou para limpar o espelho sujo.

— Ok, Dolores... Eu acho que...

— O que sabe sobre ela?

— Sobre quem?

— A garota nova.

— Charlie?

— Não me importa como se chama.

— Bem, sei que ela chegou uns dois dias depois que você viajou, que deu uma festa na casa dela pra conhecer o pessoal, e que Daniel deve ser o quarto menino que ela namora em duas semanas.

Dolores parou de passar o pó no rosto quando ouviu o nome de Daniel, parei de respirar por alguns segundos.

Minha hora chegou.

— As meninas estão andando com ela? — Voltou a se maquiar.

— Que meninas?

— Você é idiota? — disse se virando para mim.

— Ah, se estiver falando de Mary e das outras duas estão sim. Elas e Kay.

Dolores guardou o pó compacto na bolsa, prestando atenção no que eu dizia.

— Você acha que elas tiveram participação no que aconteceu?

— Não sei.

Comecei a me afastar rumo a porta, o rosto de Dolores estava ficando cada vez mais sombrio, e seu tom de voz mais raivoso. Aquilo estava parecendo o interrogatório polícial de algum Serial killer.

— Por que você disse que "não vai com a cara" da Charlie?

— É que a festa que ela deu.... Ela meio que selecionou os convidados. Ela chamou Kay mas não me chamou.

— Kay é a garota gótica? A sua namorada?

— NÃO! Kay e eu somos amigas.

— São?

— Ela me deixou um pouco de lado desde que começou a andar com Charlie, mas não é nada demais.

Na verdade era, Kay e minha irmã Isabel eram tudo que eu tinha. E Kay tinha trocado minha amizade pela de Charlotte. Ela não falava comigo desde a maldita festa.

— Não importa.

Eu já estava com a mão na maçaneta da porta, pronta para abrir e correr a qualquer sinal de que seria estrangulada de novo. Mas Dolores afastou minha mão e a abriu exatamente no momento em que o sinal para o intervalo tocou.

— Se quer mesmo se vingar de Charlie tem que descobrir o que aconteceu com Patrícia Parker — falei rápido e sem pensar.

— E o que aconteceu com ela?

— Ninguém sabe ao certo, mas parece que foi grave.

— Acha que pode descobrir pra mim? — falou alto, sobrepondo a voz a algazarra dos alunos que saiam para o intervalo.

— Não entendi - menti.

Eu não gostava de Charlie mas naquele momento gostava menos ainda de Dolores.

Ela me puxou pelo braço para fora do banheiro, me fazendo tropeçar.

— E quem pode me contar essa história?

— Todo mundo pode te contar a versão que o colégio fez a gente engolir, mas a verdadeira história só a Patrícia sabe.

— Não posso perguntar a Patrícia, ela nunca vai me dizer.

— Claro, você é uma das que pratica bulliyng com ela.

Tentei soltar meu braço e me misturar com os outros alunos. Mas Dolores segurou meus ombros e me virou para ela, como os psicólogos falavam com minha irmãzinha quando ela contava sobre nossa mãe.

— Como posso saber o que aconteceu com a Parker? — perguntou séria.

— Pergunte a Edith.

— Edith Nash?

— É.

Consegui me desprender dela e comecei a me afastar devagar.

— Tem outra pessoa?

— Edith foi com ela denunciar ao diretor.

— Deve ter mais alguém, talvez...

— Sinto muito, Dolores....

Aproveitei um grupo de meninos que passavam com uma bola de futebol, e me misturei a eles para fugir.

Se existia alguém naquele colégio capaz de enfrentar Charlotte Daves esse alguém era Dolores, e com o que aconteceu com Daniel, ela estava disposta a tudo.

Não seria mal ter minha amiga de volta.

Fui até a enfermaria fingindo uma dor de barriga. Talvez se eu chegasse cedo conseguisse evitar que mamãe começasse a beber.

— Você quer vim comigo, Isabel?

— Não, hoje tem aula de artes.

Cada hora que eu trabalhava nos finais de semana para conseguir manter minha irmãzinha no colégio valia a pena. A escola só oferecia bolsas de estudo para o ensino médio.

Eu podia suportar as bebedeiras da minha mãe, desde que Isabel estivesse bem.

Desde que eu tivesse Kay.

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