Capítulo 46

Arrumei o quarto do qual estavam os presentes, um dos tais quartos trancados e os guardei em meu quarto. Arrumei o quarto para Samantha que não contestou nada. Levei algumas coisas do meu quarto para o de Brian e estava tudo certo.

— Que cheiro bom! – digo entrando na cozinha. — Não precisava ter se preocupado em fazer nada Maria. Não acha que está muito tarde? Já é quase onze horas.

— Não se preocupe, depois eu pego um ônibus!

— Nem pensar! Brian te leva até sua casa.

— Não quero incomodar, vocês mal voltaram de viagem. Deixe ele descansar, não tem problema algum.

— Maria, se Brian descansar mais do que ele tem feito nos últimos tempos não existirá mais Brian. Não se preocupe, não será incomodo algum te levar até lá. – lhe garanto.

— Obrigada! – me deu um beijo no rosto. — Me diz, como foi isso tudo? Casada?

— Essa é uma longa história. – suspirei.

— Que a senhorita vai me explicar direitinho.

— Sim, quando eu tiver tempo eu explico tudo direito.

— Vou servir o jantar.

— E vai comer com a gente.

— Não, não é necessário. – negou.

— Não aceito não como resposta. – avisei e após um suspiro ela concordou. Ajudei Maria a colocar a mesa. Ela tinha feito uma deliciosa lasanha de queijo. Adoro! — Venham comer,  comida esta pronta! – aviso. Samantha e Brian meio que apostaram corrida até a mesa.

Talvez conviver com esses dois não seja tão fácil como imaginei.

— O QUE? – Brian gritou nos assustando. — LASANHA? Não, eu não acredito! Maria, eu já te amo. – foi até Maria e a abraçou lhe pegando de surpresa. — Se todos os dias forem assim, eu juro que te dou um milhão de salário! – Maria arregalou os olhos e me encarou assustada.

— Vá se acostumando com Brian e seus exageiros, não se preocupe, ele não está falando sério! – rio nervosa enquanto tento desgruda-lo dela. Nem eu tenho tanta certeza disso. — Se tem uma coisa que ele ama fazer é ser exagerado, solta ela Brian! – digo finalmente afastando ele de Maria.

— Estou falando muito sério! – ele garantiu se sentando e já se servindo de um bom e grande pedaço de lasanha como se ela fosse fugir do prato.

— Brian, não assuste a Maria! – peço.

— Anna, é lasanha! LA.SA.NHA! - diz pausadamente.

— Garfield, é você? – brinquei. — Não precisa desse auê todo, a comida não vai fugir de você. Mesmo que eu não duvide que ela queira, ela não vai fugir de você. – digo encarando seu desespero em comer a lasanha.

— Por lasanha eu faço qualquer coisa! – ele diz enfiando um grande pedaço na boca. Sua expressão era de total fascinação e satisfação.

Talvez eu e Maria estivéssemos em choque tentando entender tal cena.

— Isso se chama orgasmo alimentar, não se preocupe. – Samantha diz se servindo. — Acontece sempre que ele come lasanha. – explicou. — Mas voltando ao "Qualquer coisa" querido irmão... – o encarou com um sorriso sem vergonha.

— Nem adianta me olhar assim, eu não vou pular de paraquedas! – ele diz.

— Coragem a gente vê por aqui. – ela ironizou resmungando.

— Que história é essa de pular de paraquedas? – questionei já me servindo.

— Essa louca que dizem ser minha irmã quer que eu pule de paraquedas! – Brian explica antes de devorar outro pedaço de sua lasanha.

— Alguns amigos me convidaram para saltar. Eu preciso que alguém vá comigo, só que ele não quer ir! – ela explicou.

— Esses saltos são perigosos! – Maria diz.

— São radicais e fazem muito bem para a saúde. – ela garante.

— Fonte: juro por Deus. – Brian diz debochado. — Você não acha que já é radical de nascença?

— Não! – Brian revira os olhos.

— Você só faz loucura! – acusou ele.

— Não faço não! – ela se defendeu.

— Soltar uma cobra na sala da diretora da escola no primário não é loucura? – ele questionou.

— Eu era uma criança! Vi uma cobra muito bonitinha e achei que seria interessante colocá-la lá! – se defendeu.

— Espalhar fotos dos professores se pegando pelo internato não foi loucura? – ele continua.

— Só dei uma ajudinha para eles se assumirem. E ela vivia me infernizando, acredita que ela puxou meu cabelo uma vez?

— Assumir o padre no meio de um casamento não foi loucura?

— Ele estava sofrendo dentro daquele armário!

— No meio do casamento?

— Foi ele quem pediu! – Brian revira os olhos.

— Como assim? – perguntei pela primeira vez tão pasma quanto Maria.

— No casamento de um de nossos primos. O padre fez a famosa pergunta "Se alguém tiver algo a dizer, diga agora ou cale-se para sempre!" E o que essa louca fez? – encarou Samantha que deu de ombros. — Se levantou e disse "Eu tenho!" Todos a olharam e ela chegou até o padre e disse: "Ser gay não é crime, não tenha medo daqueles que pecam pelo ódio!" – coloquei as mãos na boca enquanto Maria a olhava horrorizada. — Ela foi retirada do casamento.

— Isso não foi nada. – ela diz dando de ombros. — Fui retirada do casamento mas fui tendo razão, pois três meses depois ele deixou de ser padre e se assumiu!

— Talvez porque você tirou ele do armário na frente de todos?

— Eu tinha treze anos! – argumentou.

— É mesmo é? Então me diz sobre a vez em que você começou cantar Maddona no funeral!

— Ele queria que a Madonna fosse no funeral quando ele morresse mas ela não pode ir, eu apenas fiz o que pude para realizar os pedidos dele. – deu de ombros. — Ele deixou bem claro que queria ser enterrado ao som de Erótica. Sem falar que eu animei o lugar e ainda fui aplaudida.

A cada coisa que Brian dizia, mais pasma eu ficava. E assim se resumiu nosso fim de noite. Foi agradável. Depois de terminar de retirar a mesa, Brian acompanhou Maria até sua casa. Samantha foi para o quarto e eu fiquei sozinha, então resolvi ir me deitar.

Amanhã eu retornaria para a faculdade. Para o hospital para ser mais exata, novamente acompanhar correria do hospital.

Eu estava escovando meu cabelo quando Brian chegou. Eu já tinha trocado de roupa, e vestia um pijama comportadissímo de listrinhas pretas e brancas.

— Desde quando meu quarto virou zoológico? – questionou retirando seu casaco e colocando se lado.

— O que? – o encarei.

— Ainda não sabe? Está parecendo uma zebra com essa roupa. – peguei uma de minhas escovas e joguei em sua direção. — Ai! É brincadeira. – começou a rir.

— Você é muito engraçadinho!

— Desde que nasci! – sorriu entrando no banheiro.

— Sua irmã é louquinha, claramente sua irmã. – digo caminhando até a cama.

— Você ainda não viu nada! – ele diz do banheiro. Soltei uma pequena risada e me deitei na cama.

— Vai para empresa amanhã? – questionei assim que ele saiu do banheiro.

— Não tenho escolha. – suspirou.

— Pois é. Agora eu preciso dormir.

— Soninho da beleza? – zombou.

— Vai começar? Eu ainda tenho uma escova de cabelo e não tenho medo de usá-la!

— Não está mais aqui quem falou! – diz se deitando ao meu lado.

— Eu preciso relaxar minha mente para amanhã! – digo me deitando ao seu lado.

— E funciona?

— Sim.

— Comigo não. Eu durmo, durmo, durmo e a única coisa que meu cérebro pensa é em dormir de novo! – reviro os olhos.

— Então tenta, feche os olhos, relaxe e só pense em nuvens!

— Nuvens? Por que nuvens? Por que não carneirinhos?

— Pense em nuvens! – ele fecha os olhos. — Deixe apenas nuvens tomarem conta de seus pensamentos.  – digo fazendo o mesmo.

Sem nenhum protesto acabamos os dois caíndo no sono.

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