parte 2
Fomos de carro seguindo por uma pequena estrada que nos levaria ao grande círculo de isolamento, onde, hoje em dia, algumas pessoas, antigos habitantes da região, retornaram para suas pequenas casas rurais, apesar dos riscos e avisos sobre o perigo da contaminação local. Eram em sua maioria idosos que foram evacuados na época do acidente e que decidiram voltar para casa anos depois. Muitos já desenvolveram tipos de câncer ou possuem parentes doentes ou mortos devido à exposição que sofreram na época. Mas voltaram para seu lar.
Deixamos os carros em uma estrada pequena para, em seguida, prosseguir a pé. Os homens de Dimitri vieram equipados com aparelhos para medir os níveis de radiação, que eram agora aceitáveis para o tempo que permaneceríamos no local, e roupas apropriadas com maior proteção, caso fosse necessário, quando se aproximassem do sarcófago que revestia o reator quatro.
Não era uma expedição oficial, então, não possuíamos autorização legal para entrar na área evacuada. Éramos capazes de despistar os soldados e, aos poucos, iríamos transpondo as barreiras até chegar nas proximidades de Pripyat.
Era início da primavera. A vegetação estava exuberante, verde e se espalhava por todo lado. No início, vimos casas de vilarejos vizinhos a Pripyat que foram demolidas e a tentativa de soterrá-las para evitar o retorno de seus antigos moradores; era uma região onde não seria possível sobreviver à radiação ao longo do tempo. Os tratores usados para esse trabalho também jaziam ali; abandonados e carregados de radioatividade.
Chegando mais próximo da cidade, vimos casas mais dispersas com janelas quebradas, paredes desgastadas, antigas cercas de madeira caídas e árvores jovens crescendo em todo lugar, seja na estrada ou no jardim; depois, à medida que entrávamos na cidade propriamente dita essas construções se tornavam mais frequentes com o surgimento de escolas, prédios com antigos estabelecimentos comerciais e de serviço público.
Caminhamos pelas ruas, que mais pareciam trilhas asfaltadas por entre a vegetação oportunista, observando faixadas de prédios degradadas e janelas com vidros quebrados.
Não entrei na estação de tem. Eu e Slauka ficamos do lado de fora observando o entorno abandonado. Alguns vagões que estavam largados, deixados para trás, e já sofriam a ação da oxidação em suas estruturas de ferro. Em alguns lugares podiam ser vistos os símbolos da antiga União Soviética. Para onde se olhasse se percebia o abandono desmantelado e a nova vida que reinava, a natureza querendo se impor tomando de volta o que lhe pertencera no passado.
— Confesso que não era como eu esperava — comentou Slauka para mim. — Não quando eu pensava que estaria em uma cidade fantasma. Está tudo sujo. Não pensava que seria assim.
Slauka manifestou o que eu também estava pensando. Eu imaginava uma cidade vazia, que tinha sido abandonada às pressas e que as casas descansavam intactas, desocupadas e com um pouco de poeira sobre os móveis que retratavam uma vida antiga. Na verdade, à medida que caminhávamos por suas ruas centrais, tomadas pelas plantas e árvores que cresciam, e percorríamos o interior dos prédios, víamos tudo destruído. Subimos alguns lances de escadas e entramos em antigos apartamentos. Não haviam móveis e lares abandonados, não o retrato de uma vida em família deixadas à sorte do tempo. Haviam janelas quebradas, antigos pertences espalhados pelo chão misturados com pedaços de móveis quebrados e alguns objetos estragados. Às vezes só o piso coberto por poeira e pedaços do forro do teto que veio abaixo no decorrer dos anos.
De imediato, o que mais me impressionou quando entrei na primeira construção foram as paredes muito descascadas. A tinta levantava separando-se da alvenaria em grandes flocos grotescos e saltados como se tivesse explodido dali ao longo do tempo. Todos os lugares tinham paredes assim e isso dava um ar fantasmagórico ao lugar, bem mais que toda a destruição que víamos dentro das casas.
Eu me vi ali. Vi uma vida interrompida e a partida às pressas para outro lugar. E não poder voltar para casa... Todo um passado roubado. Na época não haviam redes sociais e comunicação via internet. Vidas foram separadas e espalhadas pelo país. Voltar hoje a Pripyat deve ser como receber uma carta atrasada enviada trinta anos antes; com notícias tristes e antigas.
Avistamos um prédio mais alto que no alto exibia o símbolo da antiga União Soviética, a foice e o martelo, enferrujado e esquecido pelo tempo. Entramos, depois, em um antigo parque de diversões onde os brinquedos e a roda gigante já estavam consumidos pela ferrugem e que pareciam esqueletos tristes de uma remota vida feliz. Eu conseguia ver as crianças correndo por aquele pátio que agora exibia mato crescendo entre as frestas daquele piso contaminado por radiação. Entrei no espaço que servia para crianças correrem com carrinhos elétricos, havia chovido no dia anterior e as muitas folhas acumuladas no piso se misturavam às poças d'água, poeira molhada e musgo. Eu atravessei o espaço pisando com minhas botas naquela sopa escorregadia e nos dirigimos de volta aos prédios. Subimos por escadas descascadas e quebradas para visitar um antigo centro esportivo. Plantas cresciam em todo o lugar, mais vidraças quebradas e pisos de madeira apodrecida que haviam cedido. Tudo lembrava renúncia de uma vida feliz.
Viemos, então, para o hospital. Entramos lá como fizemos nas outras casas e vimos as armações de camas enferrujadas e sem colchões e muito lixo, restos de papéis espalhados, tecidos e roupas, tudo largado pelo chão. Um dos rapazes aproximou o aparelho que media a radiação, como fez em todos os lugares por onde passamos, e ali os níveis estavam bem altos.
— Não estou me sentindo bem aqui, Asia! — Começou Slauka. — Quero sair.
— Também quero — respondi — Não é esse o objetivo de nossa visita aqui, não é mesmo? — Virei as costas para sair enquanto puxava Slauka pelo braço.
— Vamos, meninas, vamos sair, sim — reforçou Yuri que se manteve bastante calado por todo o percurso. — Os bombeiros morreram nesse hospital... Eles merecem nosso respeito. Não é um bom lugar para ficarmos.
Todos nós falávamos aos sussurros e senti um frio perpassar por minha coluna depois de Yuri dizer aquilo.
— Dimitri quer que exploremos o local da usina — prosseguiu ele —, vamos rapazes, vamos embora daqui que esse lugar está de dando arrepios.
Os outros membros da nossa expedição também se encaminharam para fora do prédio, mas tivemos que nos esconder e nos afastar das ruas porque chegaram soldados fazendo a ronda por ali. Passamos de prédio em prédio, mas pelo tempo que permaneceram não pudemos sair e deixar rapidamente tudo aquilo para trás.
A sensação de estar sendo observada e de que havia a presença de alguém ali, mesmo que não pudéssemos ver, estava aumentando. Não disse nada a Slauka, mas ela, mais sensitiva que eu, se manifestou.
— Asia, precisamos sair daqui, não é a sensação da radiação que está me perturbando, sinto a presença das pessoas mortas.
— Pare com isso. Por favor, não me assuste mais. Não podemos sair correndo agora! — sussurrei de volta. — Não estamos mais no hospital e na época as pessoas da cidade foram evacuadas. Ninguém morreu aqui além dos bombeiros. Não tem nada aqui, só nossos medos e o ambiente contaminado.
— Não é verdade. Tem gente que na época se recusou a sair e deixar suas casas e morreu alguns dias depois — Ela insistiu. — E se as almas dos que morreram em Moscou no hospital número 6 voltaram para cá e viraram fantasmas?
— Por que voltariam? Nem eram daqui, vieram de muitos lugares diferentes para conter o desastre — justifiquei com a voz entrecortada. Queria acreditar no que dizia a Slauka, mas estava com medo, também.
— Não há fantasmas aqui. Só a memória de pessoas que perderam a vida para evitar que tudo fosse ainda pior — insistiu Yuri. — Esqueçam isso.
Slauka olhou para mim com descrédito. Estava com medo e queria sair dali.
Conseguimos deixar a cidade e caminhar pela floresta até onde era a antiga usina nuclear.
Não acompanhamos os homens de Dimitri até onde era o reator que explodiu e agora era coberto pelo sarcófago que mantinha a radioatividade presa. Eles iriam explorar clandestinamente o local, em buscas de passagens a mundos desconhecidos e mortos, e nós duas, que não pertencíamos à equipe realmente, aguardaríamos a uma distância segura.
Mesmo na floresta, a sensação de estar sendo observada era intensa e havíamos ficado sozinhas. Em determinado momento, após uma hora de espera por ali, nem sei dizer se realmente senti aquele toque ou se foi Slauka gritando o que sentiu que me fez sentir o mesmo, percebemos não só a presença daquele ser espectral, como, também, pudemos vê-lo e ouvi-lo. Corremos como loucas, muito rápidas e para fora da floresta, até uma área mais descampada quando, então, paramos.
— O que foi aquilo, Asia?
— Não sei!
— Você viu, não viu?
— Aquilo não é um fantasma... É outra coisa... Algo sinistro e perigoso.
Nossa equipe chegou logo em seguida. Contamos a eles o que vimos na floresta e não fomos levadas muito a sério. Por nossa insistência e pela solidariedade de Yuri, fizemos um caminho diferente para nossa saída dali e retornamos aos nossos veículos antes de anoitecer.
Nenhuma anomalia foi encontrada, por nossa equipe, na região e a expedição foi considerada uma perda de tempo.
O que nós vimos em Tchernobyl achamos que foi real, havia algo ali e deveria continuar por lá. Mas com o passar do tempo, começamos a questionar o que havíamos presenciado. As sensações se misturaram a tudo o que havíamos visto e sentido nos prédios destruídos e apenas nossas lembranças tristes sobre a cidade fantasma e as vidas perdidas permaneceram.
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