parte 1

    Poucas coisas me impressionaram tanto quanto visitar a cidade de Pripyat mais de trinta anos após o desastre da usina de Tchernobyl. Uma cidade fantasma, abandonada à sorte do tempo.

Alguns dias antes de visitarmos a zona de exclusão, ficamos acampados em uma pequena cidade rural nas proximidades de Kiev, mas já bem próximo de nosso destino. Eu e Slauka, sentadas em uma bancada pintando ovos para a celebração da Páscoa deste ano, ouvíamos as histórias contadas por Yuri sobre suas aventuras de tempos passados, enquanto ele fritava os blini, um tipo de panqueca, que seriam comidos logo cedo no domingo pela manhã. Toda a comida que seria servida na celebração da Páscoa havia sido preparada durante esse sábado, em que, aliás, Yuri deixou a todos em jejum propositalmente, para que pudesse ir à igreja no final da noite.

Formávamos ali o que Dimitri, nosso líder na ocasião, chamava de expedição científica para verificar fenômenos reportados em busca de uma passagem para um outro mundo; que, embora as lendas contassem estar destruído, interessava a ele saber se existia. Eu, simplesmente, classificava sua empreitada como maneira criativa de matar a curiosidade. Yuri era o cozinheiro do grupo. Tinha a aparência de quem estava por volta dos quarenta e poucos anos de idade, era alto como Dimitri, cerca de um metro e noventa centímetros, mas estava meio fora de forma, com uma barriga um pouco avantajada e ele todo bem acima do peso. Tinha olhos castanhos e amendoados e os comprimia quando prestava atenção no que dizíamos.

Havíamos preparado a principal sobremesa, Cirnaia Paskha, na noite anterior e, agora, ela repousava solene, envolta em panos, dentro da geladeira, com um enorme peso sobre ela para a prensar e forçar a saída do soro do creme de leite. Seria servida no dia seguinte para se comemorar o Domingo de Páscoa e o fim do jejum da grande quaresma.

Durante todo o sábado aprendemos a fazer o Kulitch. Yuri nos acordou de madrugada para ajudá-lo com os preparativos. Vimos a massa crescer, depois a sovamos até ficarmos cansadas e após o período de descanso e crescimento da massa, os "panetones" foram aos poucos levados ao forno.

Agora recebíamos aulas de como pintar ovos. Bastavam estar cozidos e coloridos para enfeitar a cesta de páscoa para a missa, mas Yuri insistiu que aprendêssemos a fazer os desenhos usando cera de abelha.

— Isso mesmo! — Yuri deixou a frigideira sobre o fogo e se inclinou para ver os desenhos geométricos que fizemos a lápis e que foram cobertos com uma caneta especial com tinta preta. — Os seus estão ficando ótimos! — disse se referindo aos meus ovos desenhados. Depois olhou novamente para os de Slauka e se queixou: — Precisa caprichar mais... — Voltou para a frigideira no fogo virando o blini que fritara.

Slauka baixou os braços e os ombros e inclinou a cabeça para o lado virando seus olhos azuis de gata para cima, encarando as costas da cabeça de Yuri com impaciência.

— Tirem os que ficaram no corante amarelo e os deixe secar um pouco no papel absorvente — recomeçou ele. — E coloquem esse último lá dentro. — Tirou o blini, passou mais um pouco de manteiga na frigideira e despejou mais massa a espalhando para recolocar no fogo. — Não coloquem muita cera no recipiente ou vai vazar — avisou esticando o olho no que eu fazia. — Já vou mostrar...

Eu havia colocado um pouco de cera de abelha no recipiente da pena que usaria para cobrir as partes do desenho que deveriam permanecer na cor amarela no final. Yuri deixou a frigideira de lado após fritar o blini, apoiou-se na bancada, inclinado para explicar o que eu estava fazendo.

— Isso mesmo... Vá cobrindo com cuidado todas estas partes que no desenho do papel estão em amarelo, depois de pronto mergulhe o ovo no pote de corante azul — apontava com o dedo grosso os meus desenhos.

— Não sei porque tanto trabalho se iremos comer tudo amanhã? — protestou Slauka, sem paciência no que estava fazendo e incomodada, bem sei, por eu receber elogios e ela, não.

— Estes são só um treino para vocês aprenderem o processo de se fazer uma pêssanka, menina. E vai deixar a cesta mais bonita hoje à noite na missa — Yuri sorriu e balançou a cabeça de um lado a outro, satisfeito, porque queria levar uma cesta bonita à igreja mais tarde. — Quando tivermos mais tempo irei ensinar vocês direitinho com os ovos secos e a tinta correta. E não olhe desse jeito mocinha — referia-se a Slauka —, você é ucraniana e tem verdadeira obrigação de saber tudo sobre isso.

Yuri se virou para prosseguir com o preparo dos blini, Slauka fez uma careta para ele, balançou a cabeça de lado, pegou o cabo de madeira da pena já com cera no recipiente e colocou na chama da vela, como eu fiz, para derreter a cera, mas em vez de começar a preencher os desenhos escreveu ao longo do ovo: нет

Cutuquei ela com meu braço e entreguei o pano para que ela tirasse o que escreveu.

— Amanhã será dia de muitas comemorações e logo na segunda feira Dimitri quer que vamos até Tchernobyl. Confesso que estou um pouco receoso do que veremos por lá. Helena tem razão em se recusar a ir... Nenhum de nós deveria ir, na verdade.

Helena não iria e Dimitri não iria forçá-la a isso. Eu apoiava. Sabia dos receios dela e de sua reclusão em certas situações que preferia não enfrentar. Eu respeitava os medos de Helena e entendia um pouco suas tristezas. Iríamos eu e Slauka, apenas acompanhando o grupo.

— Por que Helena não vai? — perguntou Slauka, finalmente, e eu temi que as respostas de Yuri fizessem com que ela também desistisse de ir. Não queria ir lá sozinha com o resto do grupo que mal conhecia. Na verdade, também estava com um pouco de medo de visitar o lugar e queria Slauka comigo.

— Bom... — ele voltou-se um pouco para nós —, ela tem seus motivos... Mas depois do que eu ouvi sobre os soldados que foram levados para o hospital número seis em Moscou não tiraria a razão dela.

— O que têm eles?

— É uma história muito triste... Você sabe... Foi bem antes de você nascer — ele agora apontou o dedo para mim —, que aconteceu o acidente na usina de Tchernobyl. Todos se preparavam para a páscoa, faziam as mesmas coisas que estamos fazendo agora, e então o acidente ocorreu. Foi de madrugada durante um teste no sistema de resfriamento. Quem estava naquele reator morreu na hora. Temo por suas almas...! — Yuri respirou fundo. — Os que estavam nas salas de controle e no resto da usina no momento do colapso contaram que jorrou uma explosão colorida que subiu aos céus. Tudo ficou iluminado e aquela coluna de luz e cores era a morte para todas as criaturas desse mundo e do próximo...

Paramos o que estávamos fazendo para ouvi-lo e ele se queixou:

— Não parem! Se a cera já secou coloque o ovo no pote com corante azul. Vão fazendo enquanto falo. — Yuri não parava a produção de Blini enquanto narrava a história. — Acho que os bombeiros que foram chamados não tinham ideia do que os esperava na usina, pensaram que era só um incêndio e não tinham consciência de que marchavam para a morte. Após tentar apagar o fogo do reator foram levados para o hospital em Pripyat e morreram logo em seguida. As autoridades foram informadas do acidente, mas parece que, no início, Moscou não entendeu a gravidade do ocorrido. Pripyat foi evacuada no dia seguinte. Não sabiam da gravidade do acidente e foram levados de lá sem explicações. E aí chegaram os primeiros soldados que trabalharam para apagar o fogo e esfriar o reator; pobres jovens, graças a eles a coisa não foi pior. Estes foram levados depois para o hospital em Moscou e morreram lá. Dizem que suas almas ainda sofrem em agonia. Perambulam pelos corredores e arredores do hospital. Deformadas e não possuem mais um corpo para onde retornar... Deve ser uma verdadeira visão aterradora para quem se deparar com elas.

Ele fez um sinal da cruz enquanto falava. Respirou, trocou o blini e prosseguiu:

— Foi preciso conter o calor do reator e evitar novas explosões... Evitar que outro reator próximo também explodisse, corria-se o risco de metade da Europa sumir do mapa! Então, muitos jovens soldados foram enviados para realizar o trabalho, foram chamados de "Liquidadores". Os primeiros nem sabiam que iriam morrer, depois, os próximos foram realizar o trabalho sabendo de tudo. Sabiam dos riscos, mas recebiam ordens e, de qualquer forma, tinha de ser feito... O mundo deve muito a esses jovens corajosos, graças a eles o serviço foi realizado. Não consta nos registros oficiais os milhares de jovens que morreram nos anos seguintes em decorrência da contaminação. Devemos muito a estes homens heroicos e, graças a eles, em coração e em solidariedade, somos todos ucranianos.

Nós duas tínhamos parado o que fazíamos e ficamos com as pêssancas em nossas mãos, inertes. Após alguns segundos, enquanto Yuri se calou, concentrado em preparar a comida, voltamos a passar cera nos locais certos do desenho.

— Pripyat se tornou uma cidade fantasma — prosseguiu ele. — Depois de evacuada, ninguém mais pôde voltar a viver lá e nas proximidades.

— Esses soldados, morreram todos na cidade? — Perguntei e me arrependi de ter perguntado logo em seguida.

— Não, só alguns..., os primeiros. Eles vieram de muitos lugares. Os mineradores que cavaram um túnel por baixo do reator para esfriar a estrutura e impedir que cedesse mais fundo ao solo, vieram de Tulsk e os soldados, de diversas regiões da, então, União Soviética. Milhares morreram ao longo dos anos que se seguiram; em suas cidades ou no hospital número seis, mas ainda há sobreviventes que contam tudo..., como foi na época. Tem muitos problemas de saúde... Todos devemos muito a eles.

— Se não morreram lá, porque Helena não quer ir? — perguntou Slauka, finalmente. A ideia tenebrosa havia, sim, passado por sua mente.

— Ela tem medo do que iremos ver por lá. É mais sensível a tudo isso, você sabe... — ele balançou um pouco o enorme corpo.

Slauka ouviu a resposta de Yuri e depois se concentrou em seu trabalho com os ovos. Pareceu se convencer de que aquilo não era nada demais e eu também fiquei mais tranquila.

Prosseguimos com nosso trabalho cobrindo com cera as partes que queríamos manter com a cor desejada e, ao final, depois de passar os ovos por todos os potes de corante, passamos as pêssancas nas chamas das velas para retirar a cera seca e revelar os desenhos coloridos. Como Yuri disse, era só um treino com ovos cozidos, mas ficaram bem bonitos na cesta que ele organizou para ser benzida. Pães, ovos coloridos, sal, presunto e um belo Kulitch enfeitado com açúcar e com as letras XB marcadas no alto. Tudo arranjado e coberto por um belo pano bordado em ponto cruz.

No final da noite, com tudo pronto para a ceia do dia seguinte, Yuri retirou o avental e avisou que precisava se apressar:

— Obrigada por toda a ajuda de vocês, meus anjos, agora tenho que me arrumar, pois Cristo ressuscita à meia noite, e pretendo estar lá! — abriu um enorme sorriso e fez um gesto para que Slauka também se preparasse para a missa.

O domingo de Páscoa transcorreu em perfeita paz e na segunda feira partimos em nossa jornada.

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