O amor de minha vida
Sempre vivi uma vida muito agitada, mas que de tempos para cá veio a ficar cada vez mais pacata.
Tudo teve início em 1990, o ano em que nasci. E não poderia ter outro! Se não iniciássemos pela vida, cairíamos direto no abismo da morte. Depois disso não haveria mais nada, a não ser o esquecimento do que nunca existiu. Teria sido praticamente um aborto, um feto que nunca teve a oportunidade de pensar. E disso não quero ser lembrado! Não quero nem lembrar, aliás, de tais assuntos tão catastróficos, contudo mais para frente tu entenderás o porquê.
Se voltarmos, então, e pegarmos o assunto que quase me escapou pelas mangas, teremos um dia muito belo, do qual não tenho lembranças. Claro, seria um gênio se me lembrasse de memórias tão antigas e desinteressantes.
Nasci em uma família abastada, com 3 quilos e 500 gramas, que mais tarde viriam a se tornar meia dúzia de músculos em um corpo esguio de 1,80. O físico me foi muito proveitoso e afirmo sem dúvidas que muito requisitado pelas moças em minha adolescência. Não me faltavam saias e pernas sobre mim, mas confesso que nenhuma havia me cativado tanto quanto a moça que hoje usa minha aliança.
Na escola, nunca fui muito bom aluno, mas as provas de fim de ano não faltavam. O dinheiro comprava qualquer coisa, inclusive minhas notas. Assim, minha arteirice e molequice só aumentavam, tudo às custas de meus pais. Aos 17 anos já não me importava com os estudos, pensava ser maior que qualquer diploma. Nenhuma profissão parecia me ser boa, a não ser que existisse um testador de festas e alucinógenos. Na falta de profissão, ia por vontade própria. Passei muito tempo com moças que nunca sequer descobri o nome, tomando bebidas que nunca sequer senti o gosto. Acordava em um barco sem lembrar de ontem e não sei até hoje como ainda estou vivo, mas penso que seja obra do universo. Claro, Deus não queria que minha pessoa morresse. Não antes de conhecer Helena.
Aos meus 20 anos, meus pais queriam me enfiar uma vida digna goela abaixo, mas já não adiantava muita coisa. Haviam me criado para ser uma eterna criança sem modos, um vagabundo que grita ser incompreendido. Agora estavam tomando o suco do limão que haviam plantado, o que me tira um pouco da culpa de ter sido tão ingrato. Enquanto queriam me apresentar 1 milhão de moças com a saia até os pés e o decote até o pescoço, minha mente tinha um derrame. Meu coração não aceitava moças tão submissas e recatadas, implorava por rebeldia e vulgaridade. Queria uma noite e nunca mais, mas aos poucos se cansava e implorava por um amor que durasse o infinito, tão abstrato quanto o próprio sentimento. E aí o mais correto talvez fosse aceitar uma das meninas que meus pais me empurravam, mas não eram suficientes para me saciar. Os anos de festa haviam perfurado meu coração, deixando um buraco tão profundo que apenas uma mulher poderia reparar. Certamente nenhuma das meninas caretas que me eram apresentadas. Ainda assim, eu tentava. Me convencia de que era o certo e aos 25 anos já estava noivo de uma estranha chamada Andressa. E de estranha não digo que conheci no altar, mas de estranha digo que o caráter nunca vi. Era uma menina bonita, mas de forma alguma me atraía. Era, para muitos, um espetáculo, capaz de causar um acidente de trânsito e ser o motivo de um prédio inteiro desmoronar. Mas, para mim, era pálida e sem sal. Falava frases robóticas e parecia mais interessada em minha mãe.
Agora, já em 2016, me via sentado em uma mesa de madeira, calado e sem um sentimento verdadeiro. Era como se o tempo houvesse me levado por correnteza ao meu pior pesadelo. Já não falava mais por mim, a rebeldia estava morta há muito tempo e a monotonia estava tomando conta de minha vida. Estava tão calma que não era capaz de lembrar o dia que fora agitada e talvez nunca houvesse sido.
Estava prestes a me casar com alguém que nem sabia se amava. Eu, claro, tinha certeza que não amava a menina. Minha vida caminhava para o caos, até que vi o rosto de Helena pela primeira vez. Estava estampado em uma foto de rede social e me trouxe de volta à vida.
Como já havia dito, venho de família abastada e dinheiro não é o que me falta, sendo assim não era difícil garantir o amor da menina. Logo, deixei o noivado e iniciei outro com Helena, o que não agradou em nada aos meus pais e demais parentes. Mas de que me importava? Aquela mulher estava me mostrando o sentido da vida novamente. Me fazia lembrar o que sentia quando estava alucinando e era a sensação que queria comigo para sempre. O amor era meu alucinógeno e logo botei uma algema, chamada anel, para que jamais escapasse.
Estava entrelaçado àquela mulher, com a plena certeza de que jamais a deixaria.
A vida pareceu tornar novamente a velha agitação, mas tudo durou pouco mais de 6 meses. Logo, nos mudamos para um sítio no meio do nada. A quietude era sonho de ambos e me lembrava vivamente as maluquices da infância, onde enfiava o pé no barro e depois me metia pela casa, com a mãe gritando do tapete persa nos ouvidos.
Para Helena, o sítio era muito mais que infância. Era o jeito que seu coração buscava paz.
Ambos, nos fixamos no chão, plantamos nosso amor e descansamos nossa alma. Vivemos por muito tempo em alegria. Todo fim de tarde, sentávamos à beira da janela com o pôr do sol nos rostos. Meus olhos nos de Helena, criavam uma conexão tão grande que poderíamos ficar horas debatendo os assuntos mais diversos com simples gestos. O mais curioso e admirável era a habilidade que minha dama tinha de nunca piscar.
Embora todo amor, a infelicidade de não multiplicá-lo trouxe enorme tristeza. Helena não poderia me dar filhos e tal fator abalou o casamento.
Por muito tempo, não senti seus carinhos e nem sua presença na cama, embora estivesse a poucos centímetros de meu peito. Minha mulher se sentia culpada. Além de ter um sonho arrancado de seu peito, sentia como se tivesse arrancado meu sonho também. Mas nunca senti que a culpa fosse de um ser que apenas felicidade me havia causado.
Tentei convencer Helena de que não havia motivo de tristeza, por muito tentei aconchegá-la em meus abraços. Convenci de que adoção seria o certo e de que a criança seria nossa quando minha Helena estivesse pronta. Mas minha proposta trouxe apenas desgraça, quando nenhum orfanato permitia que adotássemos qualquer criança, por condição mais precária que estivesse.
Minha esposa se mostrou cada vez mais rígida e não se ouviam palavras de sua boca. Não fazia mais gestos e se mostrava cada vez mais fria comigo. Tentei mudar por muito tempo, tentei torná-la feliz e aí está o motivo para que maternidade me entristeça tanto em tal nível. Criei certo desgosto por crianças, que de olhar me lembravam a infelicidade de minha amada. Mas também sabia que minha ação tornava Helena triste.
Tentei com muitos esforços salvar nosso casamento, mas mesmo hoje a relação tem caminhado em passos cada vez mais largos para o final.
Enquanto meu coração definha, me lembro apenas da maldita frase. A maldita frase que insistia de que eu não poderia criar uma criança com uma boneca.
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