Capítulo Sete

Não foi apenas na manhã seguinte ao episódio do boteco que encontrei um par de sapatos meus lavados de xixi. Héctor e Ernesto – e tenho sérias suspeitas sobre o papel de Guadalupe nesse ataque – não deixaram barato o fato de eu ter chegado mais tarde em casa em plena segunda-feira.

O castigo por não trocar sua caixa de areia e sua ração a tempo naquele dia foi sendo pago no decorrer da semana, comigo escorregando em poças suspeitas vezes demais para um espaço tão pequeno quanto o da minha quitinete.

Digo a mim mesma que meu mau humor tem mais a ver com sentir que minhas roupas estão fedendo a xixi de gato o tempo inteiro, e não com o fato de o 9º andar do Jornal não ter mais recebido nenhuma visita de certo loiro bonitão naquela semana.

Não que eu estivesse ansiosa pra botar meus olhos nele de novo. Deus sabe que não deu muito tempo de respirar na minha segunda semana de trabalho, principalmente com o Babaca do Comercial me rendendo muitas horas extras, depois de Rebeca me informar que eu passaria a diagramar uma página a mais de Classificados, a pedido daquele idiota. Sempre achei que "odiar" era uma palavra muito forte, mas começo a repensar meus princípios cada vez que um anúncio atrasado chega no meu e-mail.

O que estava me mordendo no caso do loiro bonitão era que eu não sabia realmente o que estava acontecendo. Todos no Departamento de Arte ainda reivindicavam seu olhar e seu sorriso para si, e eu não estava acostumada a ter minhas emoções tão fora de controle assim.

Eu precisava saber pra quem realmente foi aquele olhar, e se eu teria arrepios de novo quando encarasse sua figura.

Mas ele não me deu a chance de aliviar minhas dúvidas naquela semana e eu não fui a única frustrada pela sua ausência. Minha equipe parecia estranhamente deprimida conforme a semana se arrastava.

Aquele desânimo atravessou o fim de semana e seguiu conosco como uma sombra no início da próxima. O Bolão de Edu jazia esquecido em meio a tanto desgosto.

A coisa estava tão estranha que até mesmo Isabela me botou contra a parede no último domingo, enquanto dávamos uma volta de bicicleta pelo parque, usando nossas melhores leggings de ginástica: Isa de rosa shock e verde limão, e eu de preto e cinza.

– Jesus, Isabela. – eu gemi quando ela me bombardeou novamente com aquela ladainha de meu "comportamento anormal" naquela semana – Não tem nada de errado. Eu estou bem.

– Você está estranha, isso sim! – ela disse, estreitando os olhos na minha direção – Desde o começo da semana... não pense que esqueci que me ignorou a segunda-feira inteira e quando resolveu aparecer estava toda esquisita!

– Isa, você é pior que meus gatos. – digo, revirando os olhos para toda a sua carência – Eu disse que estava cheia de trabalho e a equipe resolveu sair para beber na segunda...

– Em plena segunda? – ela desdenha – Assim de última hora? O que aconteceu pra todo mundo resolver beber numa segunda?

Suspiro vencida. Eu deveria saber, depois de todos esses anos, que não adianta nunca tentar esconder algo de Isabela. Não que eu estivesse de fato escondendo, só não achava que o assunto "loiro bonitão" era importante o bastante para render uma pauta entre nós. Era muito mais interessante mexer com ela sobre o doutor Mateus do que relatar meus dias monótonos no Jornal.

Porém quanto mais ela perguntava e mais eu negava, mais estranho aquilo tudo ficava.

Foi por isso que respirei fundo e resolvi narrar toda a história pra ela de uma vez, tentando fazer da forma mais desinteressante possível, para que Isa não ficasse com a pulga atrás da orelha.

Obviamente não funcionou.

Isabela quase me derrubou da bicicleta quando terminei de contar tudo.

– Sua safada! – ela berrou, enquanto eu tentava me equilibrar novamente em cima da bike – Você passou a semana inteira me torrando a paciência por causa do Mateus e estava esse tempo todo escondendo o ouro!

– Olha Isabela, a gente precisa conversar seriamente sobre essa sua violência gratuita comigo. – respondo de cara amarrada, voltando ao ritmo das minhas pedaladas.

– Aí, não muda de assunto, sua dissimulada! – ela disse e seus olhos faiscaram de indignação – Ainda não acredito que mentiu pra mim!

– Eu não menti pra você!

– Me lembro claramente de te perguntar sobre os "pedaços de mau caminho" do Jornal no seu primeiro dia, e de você negar categoricamente! – Isa apontou o dedo pra mim com os olhos estreitos.

Ainda não faço ideia como ela conseguia apontar o dedo ao mesmo tempo em que pedalava, sem perder o equilíbrio e rachar a cara no chão.

– Bom, ele só apareceu por lá no segundo dia, então eu não estava mentindo. – falei e tomei distância quando percebi ela vindo pra cima de mim de novo.

– Dissimulada! – Isa berrou, e várias cabeças se viraram pra gente no parque.

Eu dei uma risadinha e ela acelerou nas pedaladas, tentando me alcançar e, com certeza, me derrubar daquela bicicleta, como vingança pela minha omissão.

– Olha, Isabela, eu juro que não era lá grande coisa até segunda-feira. – disse para acalmá-la, reduzindo minha velocidade e parando a bike perto da sombra de uma árvore.

Isa parou ao meu lado, parecendo mais calma, mas ainda meio magoada. Ela tomou um gole de sua garrafinha de água e observei seu cabelo, que estava preso em um rabo de cavalo alto, brilhando em castanho e dourado sob o sol.

– Então é grande coisa agora? – ela perguntou calmamente quando começamos a caminhar em direção à árvore e nos sentamos para descansar.

– Não acho que seja. – falei, dando de ombros – Quer dizer, foi diferente. Você sabe que não sou exatamente uma bomba de hormônios hiperventilando por qualquer par de braços fortes por aí...

– Ele tem braços fortes? – ela questionou, movimentando as sobrancelhas sugestivamente.

Bufei, revirando os olhos.

– Sei lá, não dá pra ver direito dentro daquele terno...

– Sei... – ela manteve um sorrisinho sacana nos lábios, esperando que eu concluísse qualquer que fossem meus pensamentos.

– O fato é, – prossegui – não costumo ficar impressionada com alguém só pela aparência...

– O novo veterinário da ONG que o diga...

Foi minha vez de empurrá-la e Isa me responder apenas com uma risada.

– Aquilo foi diferente! – avisei – Não foi nem de longe parecido com o que senti quando aquele cara olhou pra mim!

– Agora estou curiosa pra dar uma espiada nesse sujeito... – Isa comentou, o olhar perdido no azul do céu – Ele deve ser o pica das galáxias se conseguiu te deixar mais animada do que o Mateus deixou...

– O mais engraçado é que acho o Mateus mil vezes mais bonito do que ele... – falei, com o cenho franzido, ainda tentando compreender aquilo tudo, mas sem sucesso.

– Não faz sentido, Cami.

– Eu sei! – falei exasperada – É por isso mesmo que estou surtando. Ele não é o meu ideal de beleza pra me deixar sem palavras. E definitivamente preciso ter pelo menos uma conversa com uma pessoa antes de sentir as mãos suarem...

– Eu acho que nem assim, amiga...

– Vai se ferrar!

– É verdade, oras. – Isabela deu de ombros – Pelo menos em todo esse tempo que te conheço, nunca vi você encantada com sujeito nenhum...

– Não estou encantada.

– Sua nova música tema é "Evidências".

Quando eu não tive a mínima ideia do que esse comentário quis dizer, Isa limpou a garganta e começou a cantar:

– "Vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração..."

▲▲▲

Dou uma risadinha idiota quando me lembro desse momento. Isabela acabou aliviando um pouco da minha agonia com aquela conversa descabeçada.

Mas só um pouco.

Balanço a cabeça para voltar ao mundo real e terminar o layout que me encara do computador. Quando finalmente termino aquelas duas páginas de Classificados já são quase 18h e meus colegas se preparam para encerrar o expediente. Eu nem me movo, pois sei o quanto é perigoso dar por encerradas minhas atividades do dia naquele horário. A qualquer momento o Babaca do Comercial pode dar o ar de sua graça, me enviando um último anúncio para encaixar e basicamente jogando no lixo minhas últimas horas exaustivas de trabalho.

E como toda desgraça pra pobre é pouco, minha caixa de entrada apita com não apenas um, mas sim dois e-mails, cada um carregando uma nova peça para ser posicionada no layout já fechado.

Nem percebo que estou grunhindo até Edu se manifestar.

– Não vou nem perguntar o motivo desses sons animalescos deixando a sua boquinha, Cami. – ele me disse.

– Aquele filho da mãe... – sibilo, injuriada.

– Você era tão mais zen quando chegou aqui... – Cintia observa, guardando suas coisas na bolsa e desligando o computador.

– Ninguém consegue manter a leveza de espírito com esse cara! – cuspo – Qual o problema dele? Qual a dificuldade de enviar os anúncios dentro do horário?

– Bota tudo pra fora, querida. – ouço Bianca dizer de sua mesa, que fica de costas para a minha.

– É por isso que odeio aquele departamento inteiro! – Larissa se pronuncia ao passar pela minha mesa e conferir no meu monitor o que estava me deixando tão estressada – Não têm respeito nenhum pelo tempo dos outros.

Apesar daquele happy hour ter acabado de forma muito estranha, pelo menos serviu para estreitar alguns dos laços sociais com meus outros colegas de trabalho. Agora eu não interagia apenas com Edu e Cintia, mas também com as outras meninas.

Suspiro resignada.

– É bom mesmo que eu não conheça a cara desse sujeito. – falo, enquanto abro as peças para checar se estão dentro das especificações necessárias – Não teria como responder pelos meus atos se eu cruzasse com ele por aí...

Edu solta um assobio baixo.

– Criamos um monstro. – Cintia diz, rindo do meu mau humor.

– E olha que essa é só a terceira semana dela. – ele completa.

Estreito os olhos para meus colegas e respondo com um gesto obsceno, o que faz com que todos caiam na gargalhada antes de se despedirem.

▲▲▲

São quase 20h quando finalmente recebo o e-mail de confirmação da gráfica, dizendo estar tudo certo com as páginas de classificados enviadas. Me espreguiço na cadeira e contenho um bocejo, observando a sala quase vazia. Como sempre, sobram alguns revisores comigo naquele horário, todos correndo para entregar as últimas páginas dentro do prazo.

Sorrio para eles com solidariedade enquanto me dirijo aos elevadores, pronta pra encerrar aquele expediente, depois de guardar todas as minhas coisas e desligar o computador. A semana ainda tinha alguns dias cansativos pela frente e eu já me preparava mentalmente para o fim de semana agitado que teria com Isa.

Chamo o elevador e praguejo baixinho quando percebo que está preso no 10º andar. Só podia ser brincadeira! Em meu íntimo sei que é alguém do Departamento Comercial, insistindo em atrasar a minha vida até mesmo naquele momento. Digo a mim mesma que farei uns exercícios de meditação quando chegar em casa, por que esse emprego está me tirando do sério e sinto saudades da minha positividade.

Vai dar tudo certo, digo pra mim mesma, e escarneço mentalmente da minha pessoa logo em seguida. Meu Deus, virei mesmo um monstro!

Assim que resolvo ir de escada escuto o sinal do elevador chegando ao 9º andar. As portas se abrem lentamente.

E lá dentro se encontra o loiro bonitão.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

CHEGAMOS A MARCA DE MIL LEITURAAAAAAAAASSSS!!!!

E EU TÔ FELIZ DEMAIS E GRITANDO DEMAIS AQUI!!!!!

#SURTOSLEVESETÊNIS

Só quero agradecer a todo mundo que tá lendo essa história e comentando e votando e acompanhando tudo comigo! Sem vocês nada disso seria possível!! Vocês não imaginam o prazer que é chegar aqui e ler os comentários de vocês, saber que estão gostando e se envolvendo com os personagens e me ajudando a realizar esse sonho que é escrever

Ainda por cima, eu tô aqui vomitando arco-íris que chegamos a MIL LEITURAS bem nesse capítulo maravilhoso que adoro e que termina desse jeito de fazer o cu cair da bunda HAHAHAHHAHAHHAH, vamos ler muito, comentar bastante e deixar uma estrelinha com seu voto que eu trago a continuação dessa cena na sexta-feira!

Assim, agora que chegamos até aqui, o que acham de dobrarmos a meta? Será que chegaremos a DUAS MIL LEITURAS??

Conto com vocês!

Beijos cheios de amor de gratidão!

Pam Oliveira

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