Capítulo Quatro
No final das contas, Isa e eu secamos rapidamente sua garrafa de vinho granfina e partimos para os vinhos baratos, presentes na minha geladeira. Ficamos tão bêbadas no processo que Isabela acabou se apertando comigo na minha modesta cama de solteiro e dormimos como dois bebês.
O lado positivo foi que tive uma carona marota até a ONG na manhã seguinte. O lado negativo foi a ressaca inclemente que nos assolou, impossibilitando qualquer diálogo durante o trajeto naquele sábado nublado.
Chegando na ONG, desci do carro de Isa assim que ela estacionou na vaga de funcionários, franzindo os olhos para a claridade e batendo a porta de forma descuidada.
– Jesus, Camille. – Isabela bufou, as mãos na cabeça e o rosto contraído numa careta – Mais baixo, pelo amor de Deus.
– Eu só quero ver você dizer isso pros cachorros que vão começar a latir enlouquecidos assim que você entrar.
Isa se limitou a gemer. Ela parecia meio verde por baixo dos enormes óculos escuros de grife. Seu cabelo era uma confusão de ondas castanhas cheias de luzes, no entanto ela ainda parecia uma dessas modelos de capa de revista, mesmo usando minhas roupas de brechó.
E só Deus sabe como algo no meu guarda-roupas serviu nela, já que não eram apenas as nossas origens que divergiam.
Isabela e eu não podíamos ser mais diferentes fisicamente. Enquanto sua pele era tão pálida que se podia enxergar as veias esverdeadas de seus braços, a minha era escura como café. Seus cabelos castanhos eram longos e cheios de ondas, enquanto eu usava os meus, negros e crespos, trançados em diversas cores.
Este mês minhas tranças eram azuis.
Isa também era alta e esguia, e eu baixa e curvilínea, o que tornou a tarefa de lhe emprestar uma troca de roupa hoje pela manhã quase impossível.
No fim ela usava um dos meus vestidos mais longos e justos como se fosse um desses midis larguinhos e despojados, completando o visual com um cinto apertando a cintura fina. Desnecessário dizer que a peça ficou muito melhor nela do que jamais ficaria em mim.
Mas apesar de nossas diferenças gritantes, parecia existir um laço invisível que nos ligava desde que nos conhecemos, há alguns anos. Se me perguntassem quando Isa se tornou praticamente a pessoa mais importante da minha vida, não saberia dizer. Só aconteceu e quando dei por mim ela era tão necessária na minha vida quanto eu era na dela.
Não que Isabela fosse tão solitária quanto eu. Ela tinha uma família grande, disposta a tudo por ela. Sem falar na enorme rede de amigos que a cercava. Isa possuía luz própria. Ela é um desses seres humanos tremendamente iluminados, animada e receptiva, aquela pessoa que todos querem ter por perto. E por algum motivo cósmico escolheu a mim como sua comparsa na vida.
– Cami, acho que vou morrer. – Isa sussurra, assim que entramos pelos fundos da ONG e a cachorrada toda começa a fazer festa pra ela.
Seguro uma risada. Em parte por que minha cabeça lateja tanto quanto a dela. Mas principalmente por que minha amiga tem muito trabalho pela frente e precisa de uma força.
– Que nada! – digo, esfregando as costas dela, dando um apoio moral – Já passamos por coisa pior, Isa. Você aguenta.
Ela faz um biquinho, que desaparece em questão de segundos assim que seus olhos encontram algo atrás de mim. Se é que é possível, minha amiga fica mais verde ainda.
– Ai. Meu. Deus. – ela exclama, estacando no lugar e tentando se esconder atrás de mim – Ele já está aqui!
– Quem está aqui? – digo, virando-me para enxergar o que ela vê, e recebendo um tapa logo em seguida – Ai, Isabela! Se controla!
– Não olha agora, caramba! – ela resmunga.
Mas imagino que o quer que a tenha deixado desse jeito já notou nossa presença depois deste pequeno chilique. Esfrego o braço em que Isa bateu, fazendo cara feia, enquanto a tonalidade esverdeada dela se intensifica.
– Droga, ele tá vindo pra cá. – ela diz, enfiando a mão na cara, como se isso fosse resolver alguma coisa.
Ainda sem saber bem o que está acontecendo me viro mau humorada e, agora sim, me deparo com um quase Michael B. Jordan encarnado, vindo na nossa direção.
Até me esqueço da dor que o tapa de Isa provocou em mim.
– Meu. Deus. – sussurro atônita para Isabela – Que que é isso, mulher?
– Eu te disse, porra. – ela fala entredentes, desistindo de se esconder e abrindo um sorriso amarelo para o deus de ébano que se aproxima.
– Bom dia, Isabela! – ele diz com um sorriso matador na nossa direção.
– Ah, oi! – Isa, perdendo suas funções cerebrais, balbucia – Bom dia, Mateus!
O tal Mateus olha de Isa para mim, com o sorriso congelado no rosto. Eu sorrio também e olho para a estátua, que deveria ser minha melhor amiga, parada ao meu lado, com um sorriso pra lá de sinistro no rosto.
Obviamente Isabela está afim desse cara. E quem é que pode culpá-la?
Estendo a mão à frente do corpo, já que o cérebro de Isa virou gelatina, e me apresento pro bonitão de jaleco, antes que a coisa fique mais estranha do que já está.
– Olá, eu sou a Camille. – digo – Sou voluntária aqui na ONG.
– Ah, a famosa Cami! – ele diz, com o sorriso se alargando. Ouço Isabela arfar ao meu lado e temo que ela tenha uma parada cardíaca a qualquer momento – A Isabela falou muito sobre você! Sou Mateus, o novo veterinário. Muito prazer.
– O prazer é todo meu. – respondo e dou uma cotovelada em Isa, esperando que ela volte a vida.
Infelizmente é um caso perdido e até o doutor Mateus parece notar.
– Você tá legal, Isabela? – ele pergunta, franzindo as sobrancelhas de preocupação e eu sinto meus joelhos tremerem. Que. Homem.
– Ah, claro! – ela balbucia, com aquela risada maníaca assustadora – Eu estou ótima! Perfeita!
Sou obrigada a rir também, para acompanhar minha amiga, que infelizmente parece meio maluca neste momento.
Mateus nos observa com desconfiança por alguns instantes, mas dá de ombros e abre outro sorriso fatal.
Este homem vai nos matar!
– Bem, se tiver um tempinho mais tarde, eu gostaria de falar com você sobre alguns dos gatinhos selecionados para a feira de adoção.
À menção dos animais da ONG, Isabela parece voltar ao controle de suas faculdades mentais. Ela se empertiga, o rosto transfigura-se em preocupação.
– Algum problema? – pergunta.
– Nada sério. – ele garante, vendo a expressão no rosto da minha amiga – Não se preocupe.
– Tudo bem. – ela diz, depois de um suspiro aliviado, olha para o relógio e franze o cenho – Pode ser daqui uma meia-hora?
– Claro, eu passo na sua sala. – ele diz e acena se despedindo – Até mais tarde. E Cami, muito prazer novamente, a gente se vê.
Aceno meio abobalhada sussurrando um "a gente se vê" que ele não escuta.
Volto ao mundo real quando Isa me dá outro murrão no ombro!
– Porra, Isabela! – grito – Você tá maluca?
– Tira o olho! – ela diz e percebo que estreia os olhos por trás dos óculos escuros – Eu vi primeiro!
– Do que você tá falando, maluca? – pergunto, esfregando o braço com uma carranca.
– Eu te disse ontem, sua safada! – ela sibila, me puxando pelo braço em direção à sua sala – E a primeira coisa que você faz hoje é dar mole pra ele!
– Me disse o que ontem? – pergunto confusa e meio chateada pelos golpes desferidos à mim – E eu não tava dando mole pra ninguém!
Isa bufa e não diz uma palavra até estarmos dentro de sua sala.
– Caramba, Cami! – ela solta, toda chateada, jogando a bolsa em cima da mesa enquanto eu me acomodo no sofazinho – Eu abro meu coração pra você e você não tem a decência de lembrar!
– Em minha defesa é bem difícil lembrar de conversa de bêbado! Quem manda só abrir o coração depois de quatro garrafas de vinho? – falo, cruzando os braços – E quem garante que essa conversa não aconteceu apenas dentro desse seu cérebro alcoolizado?
Isa abre a boca para responder, mas reflete por um instante antes de se atirar na própria cadeira e se dar por vencida.
– Você tem um ponto. – admite, mas então tira os óculos escuros e me encara com seus olhos castanhos bem estreitados – Mas isso não muda o fato de estar dando mole!
– Gente! – jogo os braços para o alto, indignada – Eu não tava dando mole! Só fiquei embasbacada com a beleza do cidadão! Benzadeus, Isabela, onde você achou essa jóia rara?
Isa joga a cabeça pra trás e explode em uma gargalhada.
– Na verdade foi ele quem me achou. – ela diz com um sorriso maroto.
– Então desembucha, safada! – eu acompanho sua risada, jogando uma almofadinha na cara dela.
Minha amiga me mostra o dedo do meio e atira a almofada de volta. Eu a pego no ar com um sorriso vitorioso, enquanto Isa se recompõe, ajeitando-se na cadeira e se preparando pra me contar a história.
– Bom, você sabe que a gente tava precisando de um veterinário novo aqui na ONG, né? – ela começa e eu aceno com a cabeça – Eu divulguei a vaga em alguns grupos, mas não tinha encontrado ninguém muito satisfatório... até que ele apareceu essa semana e cumpriu todos os requisitos!
– Eu acho que ele foi além dos requisitos! – comento, movimentando as sobrancelhas pra cima e pra baixo.
Isa atira uma caneta em mim.
– Estou falando profissionalmente, claro. – ela diz.
– Claro.
– Eu nunca contrataria alguém que não fosse totalmente competente para cuidar dos nossos bichinhos, Cami. – ela me garante, parecendo genuinamente preocupada com a minha opinião sobre isso.
– Eu sei, amiga. – digo, para acalmá-la – Só é um verdadeiro bônus ele ser um pedaço de mau caminho.
– O pior é que ele não é só bonito. – ela suspira – Você precisa ver o cuidado com que ele trata os bichinhos, tem muito amor ali, Cami.
Vejo os olhos da minha amiga brilharem de um jeito que nunca vi e sinto um aperto estranho no peito. Balanço a cabeça para me livrar da sensação e abro um sorriso sacana.
– E quem resiste? – digo – Vai fundo, garota.
– Tá doida? – Isabela fica toda vermelha, o que não é muito comum – Primeiro que não dá pra misturar trabalho com prazer...
– Onde se ganha o pão, não se come a carne... – completo o que ela ia dizer, revirando os olhos.
– Bem, sim. – Isa diz, parecendo mais envergonhada ainda – E segundo que ele deve me achar uma lunática...
Neste momento começo a rir sem controle, me lembrando da reação dela ao notar o doutor agora a pouco e seu estado catatônico enquanto conversávamos.
Recebo outra canetada na cabeça.
– Ai! – fungo, enquanto seguro a barriga de tanto dar risada.
– Bem feito! – ela diz, de cara feia – Pra aprender a não tripudiar!
– Desculpa! – falo, com o fantasma da risada ainda na boca – Só me diz que você não ficou naquele estado vegetativo durante a entrevista dele também...
Como resposta, Isa bate a cabeça na mesa e fica naquela posição, com a cara no tampo. Só sei que ainda está viva pois vejo seus ombros se sacudirem com uma risada nervosa.
– Meu Deus, Isabela.
– Pois é. – ela choraminga – Nem que eu quisesse.
– E você quer.
E lá vem outra caneta. Pelo visto vai ser um dia longo.
Alô, pessoal!
Como anda a quarentena de vocês? Muita leitura? Muita escrita? Muito tédio? Por aqui eu ando dividindo meu tempo super bem entre comer e dormir, MELHORES COISAS DA VIDA!
Mas enfim, eu amo demais esse capítulo e espero que vocês também tenham curtido! Adoro que aqui podemos ver mais de perto a relação da Isa e da Cami, conhecemos o doutor Mateus e ainda pudemos dar uma espiada na paixonite que a melhor amiga da nossa protagonista está desenvolvendo!
Já quero saber o que vocês estão achando desses personagens, então não economizem nos comentários e se tiveram gostado do capítulo tbm votem bastante :D
A gente se vê na próxima semana!
Beijos,
Pam Oliveira
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