Capítulo Onze
Volto do fim de semana cheia de energia. A viagem com Isa foi revitalizante e sinto como se tivesse reposto todo o meu estoque de positividade depois de ter passado dois dias compartilhando histórias com pessoas muito mais sábias e com muito mais vivência do que eu.
E talvez essa positividade também tenha um pouquinho a ver com certo vendedor de anúncios do andar de cima.
Mas só um pouco.
É por isso que chego ao jornal na segunda-feira flutuando dentro de uma bolha, distribuindo sorrisos e cumprimentos. Não que eu já não faça isso normalmente, mesmo quando estou de mau humor, mas hoje coloco muito mais simpatia nas palavras e nas minhas expressões. Nem mesmo a chuva de verão lá fora, que conseguiu penetrar minha capa de chuva, foi capaz de estragar meu bom humor.
– Parece que o final de semana de alguém foi bom, hein. – diz Luiza em resposta ao meu bom dia, enquanto retira documentos da impressora localizada dentro da Redação.
Dou-lhe um sorriso brilhante e faço um joinha com a mão enquanto caminho em direção ao meu lugar no Departamento de Arte.
E então sou acertada em cheio pelo clima pesado que exala dos meus colegas de equipe. Olho em cada rosto tenso, começando pelo da avoada Paula, que parece uma estátua na frente do computador, passando por Cintia, que tem o rosto transfigurado em fúria e me detenho em Edu, que exibe um olho roxo.
Sinto o estômago gelar e abro a boca em choque quando os encaro. Mal tenho tempo de dizer algo quando Cíntia me fita e balança a cabeça de forma quase imperceptível, em negativa.
Volto a olhar o hematoma no rosto de Edu e sinto algo ferver dentro de mim. Conheço esse cara há quase um mês agora, entretanto parece muito mais. Não costumo deixar qualquer um entrar na minha vida, mas Edu foi cavando seu próprio caminho e percebo isso agora, vendo-o tão diferente do que costuma ser e sentindo essa angustia dentro de mim.
Mordo os lábios e não falo nada, mais por uma questão de respeito. Também não gosto que as pessoas se metam na minha vida, então apenas me encaminho para o meu lugar, aquela bolha de bom humor estourando e murchando aos poucos.
Observo de forma discreta o rosto de Edu, usando minha visão periférica. Ele se mantém focado na tela do computador, porém seus olhos não se mexem. Olho aflita para Cintia, esperando por uma resposta, um sinal, qualquer coisa! Mas ela não me encara de volta.
Todos os meus companheiros permanecem como robôs, bitolados em seus computadores, com movimentos mecânicos. Ninguém olha pra ninguém, mas dá pra sentir o desconforto no ar.
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O clima tenso no Departamento de Arte perdura por vários dias, mas se desgasta aos poucos, acompanhando a descoloração do olho roxo de Edu, que agora anda meio amarelado e bem menos inchado.
Ninguém falou sobre o assunto, a não ser Rebeca, que pegou todo mundo com cara de bunda logo no primeiro dia e perguntou que diabos havia acontecido, ao que Edu lhe respondeu de forma seca que "havia sofrido um acidente". Acho que ele só respondeu por que ela é nossa chefe, porém a resposta fez Rebeca bufar e sair batendo os pés pela Redação de forma tempestuosa.
Percebo que meu companheiro está se sentindo melhor quando vem o alerta.
– ALERTA: Bonitão na sala! – diz Edu, parecendo mais como ele mesmo.
Mordo a parte interna da bochecha e me preparo para todas as sensações que irão me acertar assim que meus olhos se cruzarem com os de Will.
Ele ainda não havia aparecido por aqui nesta semana, pelo menos não durante o expediente, mas esteve me mandando um bocado de anúncios atrasados. E me esperando próximo ao elevador na hora de ir embora. E, todos os dias, assim que vejo seus lábios se repuxando em um sorriso torto, perco o ar e sinto as mãos tremerem, meu corpo correspondendo de forma involuntária ao dele.
Agora, respiro fundo e ergo a cabeça alguns segundos depois da minha equipe, todos mais ávidos que o normal pela visão do "Loiro Bonitão", como se ele fosse um bálsamo depois desses dias tristes.
E ele é. Quer dizer, todos esses dias com clima tenso e pesado, receber seus e-mails no fim do expediente era um alívio inesperado. Encontrá-lo me esperando para um rápido bate-papo no elevador nem se fala.
Hoje posso compreender o fascínio dos meus colegas pela sua imagem. Will emana um magnetismo extraordinário. Dá pra sentir a estática no ar assim que ele entra em qualquer ambiente. Os pelos dos meus braços se arrepiam e eu engulo em seco, por que de jeito nenhum isso é normal!
Quando nossos olhos se encontram parece que estou caindo. Sinto o pânico e o frio na barriga, o coração bate nos ouvidos e sei que mantenho a expressão embasbacada de sempre, o que o faz sorrir, levantar uma sobrancelha de forma irônica e, em uma ação inédita, acenar para mim. Um reconhecimento. Um cumprimento. Não sei. Sorrio. Aceno de volta...
E volto a mim quando recebo uma cadernada no braço.
– Ai! – reclamo, assustada, olhando para o lado, ainda atordoada por ter sido tirada desse delírio de maneira tão abrupta.
– Mas que diabos foi isso? – Edu sibila pra mim.
Percebo que todos os olhos da Equipe de Arte agora estão em mim. Sinto todo o sangue do corpo correr para meu rosto. Dá até uma fraqueza repentina.
– O que? – digo, olhando para os rostos dos meus companheiros, ainda meio abobalhada.
Outra cadernada. Agora de Cintia.
– Mas que... – começo, porém ela logo me corta.
– Não se faz de desentendida.
– Desembucha! – mais uma cadernada de Edu.
– Gente! – levanto a voz – Dá pra parar?
Aparentemente não, por que agora estou sendo agredida pelos dois e as outras designers começam a se esganiçar, uma por cima da outra. Parece que fui sugada para uma realidade alternativa e minha equipe se transformou em um monte de adolescentes histéricas na pré-estréia de Crepúsculo.
A tortura dura até ser dispersada por um bater de palmas bem conhecido.
Olho pra cima a tempo de perceber Rebeca, quase lívida, olhando para nós, os óculos de gatinho mais tortos do que nunca.
– Gente! – ela ralha – O que é que vocês estão fazendo, pelo amor de Deus? A Redação inteira tá olhando pra cá!
Edu nem fraqueja!
– Beca do céu! – ele sibila – A Cami aqui acenou pro Loiro Bonitão!
– E ele acenou de volta, eu vi! – Larissa, aquele pingo de gente, se assoma sobre mim, os olhos puxados, e super maquiados, arregalados.
– E a bonita tá se fazendo de sonsa! – diz Cintia com um esgar de desprezo.
Fico esperando que Rebeca exploda e dizime a população de um pequeno país com a atitude de seus funcionários, mas nada me preparou para o momento a seguir, em que a minha chefe, a própria Editora de Arte do Jornal da Hora, se debruça sobre a nossa baia e sussurra em tom conspiratório:
– Tá brincando! Cami, sua safada! Conta tudo!
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Sinto uma pequena enxaqueca se arrastar pelo meu cérebro depois do expediente. Estou debruçada sobre a minha mesa no Jornal, sozinha, escutando a chuva lá fora e esperando a resposta da gráfica sobre as últimas páginas que enviei para aprovação. Às vezes fico fantasiando que talvez Will agora me mande anúncios atrasados todos os dias de propósito e, nessas horas, fico dividida entre me sentir lisonjeada ou passada para trás. Não sei se quero lhe dar um soco ou...
Massageio minhas têmporas e solto um riso nervoso, tirando esses pensamentos perigosos da cabeça. Já foi esquisito demais me desvencilhar dos meus colegas abelhudos naquela tarde. Todos seguem alertas e desconfiados, mesmo que eu tenha batido o pé e dito que não sei do que eles estão falando.
Não sei por que faço isso. Odeio mentiras e omissões, mas existe uma parte minha que quer guardar Will só para si. Ou pelo menos que não quer ser sacaneada pela equipe inteira quando meus delírios vierem à tona. Talvez eu tenha vergonha da minha queda secreta por ele, podem me chamar de orgulhosa.
Suspiro de alívio quando minha caixa de entrada apita com a chegada do e-mail de confirmação da gráfica. Meu trabalho aqui terminou. Desligo o computador e coloco a bolsa no ombro, pensando em todos os freelas que preciso entregar essa semana pra conseguir pagar meus boletos, enquanto faço o caminho em direção aos elevadores... Claramente tentando desviar meus pensamentos da pessoa que me aguarda ali na porta.
– Você não perdoa nem quando está caindo o mundo, hein? – digo antes que Will consiga sequer abrir a boca.
Ele sorri sem jeito e aperta o botão que chama o elevador.
– Desculpa. – fala, encolhendo os ombros – Perdi a noção do tempo hoje.
– Só hoje? – dou uma risadinha, deixando claro que estou implicando com ele.
O elevador chega e embarcamos, Will ainda mantém um sorriso meio acanhado no rosto. Quando chegamos ao estacionamento consigo sentir as gotículas de chuva no rosto, de tão forte que chove.
Will assobia.
– Tem certeza que vai voltar de bike hoje? – ele pergunta, olhando pra minha bicicleta estacionada ali perto de forma duvidosa.
Dou de ombros.
– Tenho capa de chuva.
– Acho que nem se você tivesse um bote. – ele franze as sobrancelhas – Não é melhor deixar a bicicleta aqui? Posso te dar uma carona.
Faço um barulho estrangulado com a boca e dou uma risada nervosa, tentando disfarçar o choque. Will ainda me olha com seriedade, mas nem se o próprio Papa mandasse eu iria pegar uma carona com esse homem. Desculpe, mas eu não seria capaz de ficar sozinha com ele por mais do que o tempo de uma viagem de elevador. E todos nós sabemos como nem mesmo esse curto período é seguro com ele do lado. Até hoje sinto minhas mãos suarem e tremerem nesses momentos, imagine num carro...
– Não se preocupe, vou ficar bem. – digo de forma firme, por que ele continua me olhando com expectativa.
– Mas Cami...
– É sério, vou esperar passar um pouco. – corto e cruzo os braços. Não é que eu esteja sendo cabeça dura, só não tenho inteligência emocional o suficiente pra passar mais tempo sozinha com ele.
Will aperta os lábios, preocupado, e esta é uma visão que faz meu estômago revirar, porque, caramba!, esse cara tem uma boca linda demais. Mordo meus próprios lábios e forço meus olhos a irem um pouco mais pra cima, tentando manter a sanidade e minha posição.
– Bom, tudo bem. – ele enfim suspira derrotado – Mas toma cuidado.
– Vou tomar.
– E até amanhã.
– Até.
Ele vai embora olhando pra trás, como se quisesse ter certeza de que não vou mudar de ideia. Solto a respiração, que nem sabia estar prendendo, quando o perco de vista em meio aos carros. Neste momento descruzo os braços e começo a me preparar para enfrentar o temporal apenas com a minha capa de chuva.
Esta é uma daquelas semanas mais chuvosas do verão, mas eu ainda não havia pego um pé d'água desses na hora de ir embora, apenas uns chuviscos pela manhã, ou uma chuvinha durante o expediente. Faço uma nota mental para verificar a previsão do tempo de amanhã e talvez me preparar para o transporte público.
Quando já estou perfeitamente empacotada com minha capa, saio pedalando pela saída de veículos do Jornal, acenando para o pessoal da portaria e aproveitando o semáforo aberto para mim pra dar um gás na subida.
De repente, um carro em alta velocidade fura o sinal vermelho, me fazendo segurar o freio da bike com força devido ao susto.
Naquele momento, duas coisas acontecem muito rápido:
1. Minha bicicleta derrapa no concreto escorregadio; e
2. Sou lançada para frente, como uma boneca de trapos, direto para a rua molhada.
Meu deus, olha só a hora!!! Hoje eu bati algum recorde de atraso na hora de publicar o capítulo da semana! Mas como até meia-noite ainda é hoje, tá aqui a atualização de quarta!
O que acharam desse capítulo? Ele chegou com toda uma tensão, tanto na história do Edu quanto na da Cami... mas ainda assim eu adoro a parte mais engraçada dele, com a equipe de Arte agora bem atenta na relação da Cami com o Loiro Bonitão...
E vocês, o que acharam? Será que a Cami tá bem? E o que tá acontecendo com o Edu?
Não se esqueçam de comentar bastante pra eu saber a opinião de vocês e, claro, deixem seus votos em forma de estrelinha pra aquecer o meu coração ♡
Beeeeeijos e até a próxima semana
Pam Oliveira
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