Capítulo Nove

– Você está de brincadeira! – é a reação de Isa ao telefone, quando revelo que o Babaca do Comercial e o Loiro Bonitão são, na verdade, a mesma pessoa.

Estou andando de um lado para o outro no pequeno espaço da minha quitinete, sendo observada atentamente por meus gatos, que notam de longe minha agitação. Estou uma pilha de nervos. Uma energia absurda se acumula dentro de mim e não sei o que fazer com essa coisa queimando aqui dentro.

Assim que pisei dentro de casa liguei para minha melhor amiga, mandando os planos de meditação pras cucuias, tamanho o meu transtorno. A conversa começou basicamente com um "Isabela do céu" e eu nem esperei ela responder pra despejar a coisa toda em cima da garota.

Relembro o momento constrangedor. As asneiras que falei. A torrente de palavras desconexas formando sentenças absurdas na frente daquele cara. Antes eu tivesse continuado em um completo estado de inanição do que ter dito tanta abobrinha, só para descobrir, segundos depois, que estava praticamente falando mal dele para ele mesmo.

Meu primeiro pensamento naquele momento, quando ele estendeu a mão pra mim e se apresentou, foi: quanta merda é capaz de sair da boca de uma pessoa em um espaço tão curto de tempo quanto o de uma viagem de elevador?

Eu não tinha nem a desculpa de estar bêbada, a não ser que a gente contasse com o charme inebriante daquele sujeito. E ele não teve nem a decência de parecer ofendido. Oh, não. Enquanto eu observava aquela mão estendida pra mim, desejando que um meteoro me acertasse na cabeça, Will Machado me observava com um sorriso maroto e olhos brincalhões. Como se não visse algo tão engraçado assim há tempos.

E esse algo engraçado tratava-se de mim.

Estava difícil assimilar o choque de descobrir que as duas pessoas que me tiravam o sono naquele Jornal eram uma só. Minha cabeça deu um nó, e todas aquelas sensações começavam a se atropelar dentro de mim.

Por um lado aquele sorriso travesso fazia coisas estranhas com as minhas entranhas. Por outro, eu queria muito acertar umas duas bolsadas naquele otário, por me fazer trabalhar até tão tarde durante aquelas primeiras semanas.

Foi por isso que, passados alguns instantes de choque extremo, alguma engrenagem no meu cérebro resolveu trabalhar: apertei sua mão mecanicamente, enquanto estreitava meus olhos, no que pensava ser um olhar fulminante, mas que provavelmente só me fez parecer meio míope.

Só que, quando seus dedos se fecharam nos meus, foi como se aquele meteoro realmente tivesse me atingido.

Ele pareceu inabalável, mas eu nem me dei mais ao trabalho de tentar manter a compostura. Minha cara apatetada devia dizer muito sobre minha situação mental, por que, sem soltar meus dedos, ele disse:

– Prometo tentar te dar menos trabalho a partir de agora, mas você sabe como é... precisamos mostrar serviço, principalmente assim logo no início.

– Você também é novo aqui? – perguntei confusa, um calor espalhava-se desde seus dedos e ameaçava atingir meu rosto a qualquer momento.

Will fez que sim com a cabeça e sua mão me conduziu para fora do elevador. O ar frio do estacionamento aberto foi uma benção para as minhas bochechas em chamas. Parei estrategicamente próximo ao lugar onde minha bike estava estacionada, tentando parecer minimamente racional.

– Devo ter umas três semanas a mais do que você. – ele disse.

Bem, tudo fazia sentido agora.

Verbalizei esse pensamento, dando de ombros e me abaixando para tirar a trava de segurança da minha bicicleta. No meu íntimo eu dava graças a Deus por ter uma desculpa pra desviar daquele olhar abrasador.

– É um meio de transporte inusitado para a cidade grande... – ele disse depois de um momento de silêncio, e, quando olhei novamente para cima, flagrei-o analisando meus movimentos de forma pensativa.

Dei de ombros.

– Na verdade é melhor pra todo mundo.

– É mesmo? – ele franziu o cenho, parecendo confuso.

– Bom, sei que é melhor pra mim, que faço exercícios enquanto pedalo. – disse – E é melhor para o trânsito da cidade grande. E também é melhor pra natureza, que sofre menos sem a emissão de combustíveis fósseis.

Suas sobrancelhas claras ameaçaram ultrapassar a linha do próprio cabelo ao ouvir meu pequeno discurso.

– Acho que você tem um ponto.

– Acho que tenho três pontos, na verdade. – rebati, sem saber direito de onde tirei forças para tal, e me levantei já com a bike pronta para fazer o caminho de volta pra casa. Essa conversa precisava acabar.

Touché. – ele respondeu, e lá estava aquele sorriso de novo.

Apertei o guidão da bicicleta com mais força para me firmar.

– Bem, nos vemos por aí, Camille. – ele falou em tom de despedida, enquanto começava a se afastar.

– Cami. – corrigi sem pensar.

E se é que era possível, seu sorriso se alargou ainda mais e aí senti minhas pernas tremerem.

– Cami. – ele repetiu e pareceu saborear meu nome – Até mais.

– Até. – sussurrei, mas ele já havia se virado e seguido seu caminho.

▲▲▲

– Pois é. – respondo, estranhamente aliviada por botar aquela história toda pra fora.

– Isso parece até coisa de novela. – Isa diz ao telefone – E dessas com um roteiro bem preguiçoso.

– Que ótimo saber que a minha vida é tipo um roteiro preguiçoso, Isabela.

Ela gargalha do outro lado da linha e eu finalmente me aquieto e sento na cama. Dá pra perceber que Isa está super empolgada com tudo isso.

– Eu ainda não acredito nessa história. – ela finalmente diz, quando seu ataque de riso cessa. – É surreal demais! O que você vai fazer agora?

– Fazer? – pergunto confusa – Como assim fazer, Isa? Não tem nada pra fazer a respeito disso.

– Olha, Camille. – ela diz com a voz séria – De jeito nenhum vou te deixar desperdiçar essa chance. Tá na cara que o sujeito tava te dando mole.

– E daí? – perguntei na defensiva, já prevendo onde aquela conversa ia dar e não gostando nada do rumo das coisas.

– E daí que você também tava dando mole pra ele, sua ridícula.

– Não tava nada!

– "Ai, eu juro que meus joelhos viraram gelatina naquela hora, Isabela!" – fez ela, no que deveria ser alguma imitação debochada de mim.

– Eu nunca disse isso.

– Talvez não exatamente assim. – Isa falou – Mas foi basicamente o que você quis dizer enquanto me contava essa história. Eu te conheço, Cami. E nunca te vi assim por cara nenhum. Então toma vergonha nessa sua cara e faça algo a respeito disso, ou eu vou fazer.

– Em primeiro lugar eu tive uma única conversa, totalmente confusa, diga-se de passagem, com esse cara. – digo, depois de engolir em seco – Ele deve achar que tenho algum tipo de retardo mental.

Isa funga do outro lado da linha, pronta para refutar meu argumento, então me apresso em completar o pensamento antes que ela me interrompa e eu seja obrigada a fazer o que ela quer.

– Em segundo lugar, ainda não decidi se quero espancá-lo por ser tão sem noção no trabalho, ou não. – falo – E em terceiro lugar, eu só vi esse cara uma porção de vezes, não é como se ele fosse ser o amor da minha vida ou algo assim.

– Bom, e se for?

– Se for o que?

– O amor da sua vida.

– Não sei o que fazer com você! – bufo, injuriada com Isabela – De tudo o que falei foi à isso que você se agarrou?

– É o mais importante, ué. – ela respondeu.

– Isa, o mais importante é ter uma vida estável. – digo, séria – Pagar as contas no fim do mês. Fazer o bem sem olhar a quem. Me amar em primeiro lugar.

– Sim, Cami. E isso tudo você já faz. – Isabela parece tão séria quanto eu agora – E é maravilhoso. Mas você, mais do que qualquer um que eu conheça, merece mais. O que vai te custar investir nisso?

– Uhm... – faço falsamente – Talvez a minha dignidade?

– Olha, Camille. – ela diz, exasperada – Você está avisada. Ou faz alguma coisa sobre isso, ou eu faço!

– Você nem ouse se meter nisso, Isabela! – ameaço, subitamente com medo do que ela pode fazer – Ou eu posso muito bem bancar o cupido pra cima de você e do doutor Mateus também!

Tudo que consigo ouvir do outro lado da linha após essa minha declaração é um guincho surpreso e talvez meio desesperado. E depois, Isabela, parecendo possuída, disparar toda sorte de impropérios contra a minha pessoa.

Começo a rir de forma desgovernada de seu súbito pavor. Eu sabia que nesse mato tinha cachorro.

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né? – digo, quando ela parece menos propensa a me degolar lentamente.

– É diferente, sua diaba. – Isa responde.

– Diferente como? – questiono – Você também merece mais do que qualquer um que eu conheça, Isa. E o doutor Mateus parece uma ótima pessoa. Além de conseguir te deixar sem palavras, que é o mais importante de tudo.

Isabela trinca os dentes do outro lado da linha.

– Você conhece a minha família....

– A mesma que te ama incondicionalmente e faria qualquer coisa por você?

– Sim. E a mesma que espera coisas de mim. – ela diz, e nem soa como a Isa que conheço – Você sabe bem do que estou falando.

E então é a minha vez de trincar os dentes.

– Isso é praticamente medieval, Isabela! – digo – E de jeito nenhum eles iam te obrigar a fazer algo que não queira.

– Obrigar é uma palavra muito forte. – ela responde – Mas eu não quero decepcioná-los. Então pra quê caçar sarna pra me coçar?

– Mas... – começo, porém Isa me interrompe.

– Cami, me promete que vai ficar fora disso, ok? – ela pede e está falando mais sério do que já a ouvi falar na vida – E deixa o Mateus de fora também.

Dou um suspiro resignado.

– Você sabe que não aprovo essa história. – digo e dou ênfase à próxima parte, esperando uma recíproca à altura – Mas te respeito, e é por isso que não vou me meter.

Isabela dá uma risadinha.

– Boa tentativa. – responde, me conhecendo melhor do que qualquer um – Mas espero relatórios diários sobre o caso Loiro Bonitão, ou vou entrar em ação!

– Isabela... – começo, porém ela desliga o telefone na minha cara.

Porra! Onde é que eu fui amarrar meu burro?

Alô, pessoal!

Como promessa é dívida, SEXTOU COM O CAPÍTULO NOVE!

E aí, o que vcs acharam do encontro da Cami com o Loiro Bonitão? E a reação de Isa querendo atacar de cupido pra cima da melhor amiga? Apoiada ou nem?

Enfim, comentem bastante, votem e compartilhem com os amiguinhos!

A gente se vê semana que vem, na quarta :)

Beeeijos!

Pam Oliveira

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