Capítulo Dezenove

Nunca estive tão atrasada em toda a minha vida! É domingo e, depois de sair da ONG praticamente de madrugada, bitolada com os últimos preparativos da feira de adoções de hoje, claramente esqueci de programar um alarme.

Só despertei porque Ernesto – abençoado seja em todo o seu mau-humor e ódio pela humanidade – resolveu que já era hora de eu levantar e alimentá-lo, como a boa escrava que sou. Quando as patadas na minha cara não resolveram, meu gato rebelde achou que seria uma boa ideia morder meus cílios.

Levantei de um salto, quase atirando o gato preto pela janela, que miou indignado pela minha ousadia e fugiu pra se esconder embaixo da cama. Hector e Guadalupe me olharam com grandes olhos assustados, confirmando que talvez eu vá sofrer uma retaliação mais tarde.

Porém, agora, não tenho tempo pra isso. Saio correndo pela minha pequena quitinete, arrastando um jeans e uma camiseta laranja do projeto da ONG, enquanto encho as tigelas de comida dos meus bichanos.

Consigo me vestir e lavar o rosto em tempo recorde e já estou na porta do apartamento, enfiando um tênis nos pés e preparada para correr 5 lances de escada abaixo, quando meu celular começa a vibrar e percebo que quase o esqueci em cima da mesa.

Xingo baixinho e volto afoita para dentro de casa, resgatando o pequeno aparelho apenas para constatar que, ou Isabela está bem transtornada com o meu atraso épico, ou ela pirou de vez, porque tenho cerca de 30 ligações perdidas e 57 mensagens de texto não lidas, que começaram a chegar por volta das 3h da manhã e não pararam mais...

Fico me perguntando o que pode ter acontecido de tão urgente apenas uma hora depois que nos separamos na madrugada de ontem. Todos os funcionários e voluntários da ONG ficaram até muito tarde naquele sábado, preparando os últimos detalhes da feira de adoção de hoje. No final estavam todos mortos, mas Isa achou que seria uma ótima ideia pedir pizzas e cervejas para comemorar o empenho de cada membro daquela equipe.

Eu joguei a toalha por volta das 2h da manhã e chamei um carro por aplicativo para me levar de volta pra casa, mas meus colegas continuaram festejando na ONG, inclusive Isabela.

Como realmente não tenho tempo para tentar descobrir o que aconteceu, estando tão atrasada que até perdi a carona da minha melhor amiga, em vez de ler as mensagens de Isa uma por uma, as ignoro e mando um áudio no grupo de funcionários e voluntários da ONG, contando sobre a minha desventura matinal e dizendo que chegarei o mais rápido possível.

Depois disso, pego minha bike e pedalo como se não houvesse amanhã, pois o dia de hoje vai nos reservar grandes emoções.

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Quando pensei nas grandes emoções, não me referia exatamente à cena que se desenvolve bem na minha frente sem que eu seja percebida, como uma testemunha ocular.

Em minha grande inocência, pensei que este dia seria recheado de emoção por alguns motivos, sim. Por exemplo, Edu trazendo seu parceiro, potencialmente abusivo, para que nós o conheçamos. E ainda, em um momento de puro delírio e transtorno, talvez eu tenha convidado Will para participar da feira.

Esses dois fatores, por si só, já renderiam emoção suficiente nesta equação, mas então, talvez as cervejas de ontem ainda estejam perigosamente no meu sistema, pois a visão que tenho é o suficiente para explodir o teto desta ONG e mandá-la pelos ares!

Cheguei toda suada e esbaforida, sem encontrar ninguém no estacionamento de funcionários da ONG. Porém, assim que entrei pelos fundos, percebi que a feira já estava rolando solta no grande gramado da praça em frente.

Corri para o banheiro pra tentar dar um jeito em mim mesma: secar o suor do rosto, fazer uma maquiagem básica e colocar minhas tranças em ordem. Quando me senti como eu mesma de novo, saí do banheiro e segui em direção ao escritório de Isa, para resgatar meu cronograma do dia.

Porém, conforme me aproximei da sala de minha amiga, fui diminuindo os passos ao ouvir vozes. Parei do lado de fora, entre a porta entreaberta e a janela com meia persiana fechada. Minha intenção era esperar quem quer que estivesse lá dentro com Isa terminar seus assuntos, para que eu pudesse entrar e pegar o que preciso. Não queria interromper qualquer que fosse a conversa.

Juro que não era minha intenção ouvir atrás da porta, mas quando as vozes se exaltaram lá dentro, pedaços do diálogo me encontraram ali no corredor.

– ... mas Bela... – suplicava uma voz masculina, a qual tinha certeza conhecer, mas que não conseguia ligar a um rosto naquela hora.

E "Bela"? Ninguém chama Isabela assim...

– Estou falando sério! – a voz de Isa se sobrepunha, exaltada, mas com uma nota de desespero? – Isso não pode acontecer, ok? Não vai dar certo!

– Mas já aconteceu, Bela. – ele retrucou e ainda parecia implorar por algo – Já está acontecendo há um tempo e você sabe!

Ouvi a respiração estrangulada de Isa e entrei em pânico, pois minha amiga parecia estar sufocando. Sem pensar muito bem, me aproximei, algum instinto super protetor despertando em mim, ávido por evitar qualquer sentimento que possa ferir minha amiga. Porém, assim que me posicionei em frente a porta, pronta para invadir o escritório de Isa e entrar em ação, estaquei.

Ali, na minha frente, Isabela e o Dr. Mateus estavam nos braços um do outro, dividindo um beijo sôfrego e cheio de desejo. Fiquei embasbacada diante daquela cena e, em vez de sair e dar privacidade aos dois, acabei com os dois pés bem plantados no chão, sem conseguir me mover.

Acho que nunca vi tantos sentimentos dentro de um único beijo. E olha que quando você mora na Capital, ver pessoas se beijando toda hora é quase como respirar. Acontece com frequência, em todos os lugares, de todas as formas. Mas nenhum dos beijos que presenciei na vida, foi como este.

Este tem algo de especial. Observo, hipnotizada, o exato momento em que, qualquer que fosse o argumento de Isa, este cai por terra. Vejo o instante em que ela se entrega, quando suspira e cai nos braços de Mateus, que a segura com um braço firme pela cintura, enquanto o outro entra em meio aos cabelos dela.

É neste ponto que descongelo e tenho vontade de ir embora. É aqui que eu quero que o momento que dividem seja apenas deles e de mais ninguém.

Muito devagar dou as costas para aquela cena e novamente tenho uma dualidade de emoções discrepantes, já características, dentro de mim.

Metade do meu coração se enche de amor e alegria por finalmente entender que minha melhor amiga está apaixonada e que é correspondida: o tom de súplica na voz daquele homem não pode ser confundido com nenhuma outra coisa.

Porém, a outra metade se agarra a última coisa que Isabela lhe disse, antes que começassem a se beijar apaixonadamente: que aquilo não podia acontecer, que não daria certo. Então meu coração se aperta, pois conheço bem onde o Dr. Mateus vai se enfiar se realmente insistir nisso.

Houve um motivo para que, logo que conheci Mateus e vi ali uma possibilidade de romance para Isa, eu desse um passo atrás. E foi porque minha amiga me pediu para não envolvê-lo naquilo. Enquanto poderia ser apenas uma aventura divertida, me senti confortável em mexer com Isabela sobre isso. Em brincar, como ela brincava sobre o meu relacionamento com Will. Mas então, todas aquelas posturas gélidas de minha amiga já deveriam ter me alertado que jamais seria apenas uma aventura.

Isa estava com medo de se apaixonar de verdade. E estava com mais medo ainda que Mateus correspondesse aos seus sentimentos.

E eu entendia completamente esses medos e começava a tê-los eu mesma. Por que se estivessem mesmo apaixonados, como acho que estão, é inevitável que sofram, já que Isa jamais iria contra sua família e um relacionamento como aquele era tudo o que os Bittencourt mais abominavam.

Não me levem a mal. Os pais de Isabela não são monstros completamente racistas. Eles idolatram a filha e fazem de tudo por ela, inclusive aturar a melhor amiga preta da menina, que veem quase como um caso de caridade.

Nunca me trataram mal, mas existe um motivo para eu não frequentar a casa de Isa e é o jeito como me olham. Não são abertamente hostis, inclusive, nas poucas vezes em que interagimos, foram exageradamente gentis, mas só uma pessoa preta conhece o olhar de um racista, só nós conseguimos sentir na pele a sensação de ser observado como uma sujeira no tapete.

Jamais falei sobre isso com Isa, mas acho que ela sabe. Mesmo que ela não entenda completamente o que é ser preta e encarar esses olhares, ela tem consciência o bastante para me respeitar e tentar mudar os pais. O que acho que é dar murro em ponta de faca. Algumas pessoas simplesmente não mudam seus valores, não quando estão tão profundamente intrínsecos à sua realidade e cultura.

Nem em meus sonhos mais selvagens eu esperaria que os Bittencourt mudassem da água para o vinho... e é isso que parte meu coração. Não por mim, mas por Isa e Mateus.

E se fosse apenas este o problema, sinto que talvez Isabela mandasse os pais à forra e os afrontasse com um escandaloso namoro inter-racial. Afinal, os Bitencourt não são racistas, não é mesmo?

O problema de verdade é que Isa fez um trato com os pais. Um trato medieval e que jamais pensei que ela levasse assim tão a sério ou que levaria adiante, porém, depois de observar seu desespero hoje, acredito que é o que fará com que, inevitavelmente, todos nós soframos.

Quando Isabela Bittencourt completou 18 anos, passou no vestibular de medicina veterinária com honras. Seu pai ficou furioso, pois aquilo não estava no script! Isa deveria formar-se em Administração e assumir os negócios da família, já que era a única herdeira daquele lado da sociedade. Com muito peso no coração, Isa deixou sua paixão pela veterinária para trás e fez a vontade de seus pais, com um gosto amargo na boca.

Porém, 4 anos mais tarde, quando Isabela finalmente se formou, qual não foi a surpresa do patriarca da família quando, sua única herdeira, lhe disse que não poderia assumir a empresa dos Bittencourt?

Não foi de forma leviana que sempre disse que os pais de Isa fariam qualquer coisa por ela. Os Bittencourt a amam demais e naquela época provaram isso. Quando Isa insistiu, depois de anos de estágio, que jamais seria capaz de assumir os negócios da família, por que seu coração estava em outro lugar, seus pais a presentearam com esta ONG, para que ela pudesse seguir o seu sonho. Entretanto havia uma condição: os negócios da família precisavam ficar em família.

Sendo assim, nada faria mais sentido do que Isabela se casar com o filho e herdeiro do sócio de seu pai, que assumiria os negócios em seu lugar, uniria as famílias e daria continuidade ao legado dos Bittencourt.

E é por isso que Isabela e Mateus nunca terão a chance de um futuro juntos. Por que o destino de Isa já foi traçado há muito tempo. Uma promessa. E Isa não ousará decepcionar os pais mais uma vez.

Alô, meus anjos, como estão?

Espero que não estejam me odiando muito, afinal estou sendo perita em quebrar minhas promessas e atrasar as postagens por aqui. Mas prometo que não é por nenhum motivo leviano. As coisas tem ficado meio doidas no lado pessoal da minha vida, o que acaba impactando diretamente a minha escrita, e consequentemente as publicações aqui. Então peço que me perdoem pelos atrasos.

Como forma de agradecimento, resolvi jogar toda a merda no ventilador  de uma vez e presenteá-los com praticamente um capítulo inteiro focado no plot da Isa e antecipar o que vai rolar de treta com ela daqui pro final dessa história!

Então não poupem os comentários, quero saber o que vocês acharam! Esse dia está bem longe de acabar e finalmente vamos conferir o encontro de Cami com o misterioso namorado de Edu e ainda descobrir se Will irá aparecer nessa Feira de Adoções! Então não esqueçam de votar pra que eu fique animada e escreva logo os próximos capítulos HAHAHAHA

Beijos e até só Deus sabe quando,

Pam Oliveira

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