Capítulo Cinco

– Eu acho que a gente deveria fazer um bolão... – declara Edu, durante a tarde daquela segunda-feira parada.

Minha atenção está completamente focada na atualização do layout à minha frente, então o ignoro.

Mal acredito que recebi os materiais antes das 18h, por isso me apresso em diagramar com destreza, mesmo estando exausta do fim de semana na ONG, que segue a todo vapor em preparação para a Feira de Adoção. Nem deu tempo de atazanar Isabela sobre sua paixonite por aquela beldade, que atende por doutor Mateus Salvador.

– Um bolão de que? – Cintia morde a isca do meu outro lado. Ela mantém os olhos no computador, focada no trabalho, mas nem tanto.

– Da identidade do loiro bonitão, oras. – Edu responde, como se a gente tivesse a obrigação de saber o que se passa naquela sua mente depravada.

– Eu achei que você tivesse um namorado, Edu... – comento, sem tirar os olhos da tela, já que ouvi ele falar sobre o parceiro uma porção de vezes naquela minha primeira semana de trabalho.

– Ué, eu tenho. – ele diz, dando de ombros – Mas burro amarrado também pasta, minha querida.

Olho para ele horrorizada com o comentário, enquanto escuto Cintia fungar e explodir numa gargalhada, chamando a atenção de boa parte da equipe de arte.

– Meu Deus. – digo.

– Não seja puritana, bobinha. – ele responde com uma piscadela – Olhar não arranca pedaço.

– Eu não me importaria de arrancar vários pedaços nesse caso. – diz Cintia, se recuperando do ataque de riso.

– Vocês são impossíveis. – falo e volto minha atenção para o computador.

– Mas sério. – Edu prossegue – A gente devia mesmo fazer um bolão! Aposto que vai inspirar a galera a procurar mais informações sobre aquele pedaço de mau caminho...

– Vocês já tentaram simplesmente perguntar pra Luiza da Recepção quem ele é? – questiono, revirando os olhos e desistindo do meu layout – Ela deve saber, não?

– Ai, Cami! – Cintia bate com a mão na testa teatralmente – Tão inocente... Esqueço que você é nova aqui e conta com a gente pra te guiar pelo caminho da sombra e da morte...

– Credo. – Edu se benze e eu não entendo nada.

– Do que vocês estão falando?

– Aquela Luiza é uma cobra fofoqueira, Cami! – Edu cochicha – Se você for perguntar qualquer coisa é capaz de ela espalhar pro jornal inteiro.

– E no melhor estilo Nelson Rubens de "aumento, mas não invento". – completa Cintia.

– Fica esperta, garota. – Edu avisa.

– Mas gente...

– É sério, é melhor não saber do que perguntar qualquer coisa pra aquela ali... – Cintia diz seriamente e eu fico com a pulga atrás da orelha de imediato.

Não que eu não vá tirar minhas próprias conclusões antes de julgar a garota com base no que eles estão dizendo. Porém fico extremamente alerta depois do aviso.

– Enfim, o bolão... – Edu prossegue.

– Você sabe que está obcecado, não é? – pergunto – Aliás, vocês todos...

– Você não pode culpar a gente, Cami... – diz Cíntia e eu apenas volto ao meu trabalho, por que quando o assunto é o loiro bonitão não tem discussão com aqueles dois. Ou com o resto da equipe.

E então, como se invocado pela força dos nossos pensamentos, ouço o ar ser sugado do Departamento de Arte quando Edu dá o já conhecido alerta:

ALERTA: Bonitão na sala!

Desta vez não tenho orgulho de admitir que segui os movimentos da minha matilha, esquecendo completamente meu computador e grudando os olhos na direção da Recepção.

Não sei se Edu e Cintia fizeram alguma espécie de lavagem cerebral em mim, mas quando o vi entrar pelas portas de vidro perdi um pouco do fôlego. Caramba.

Novamente tenho a consciência de que ele não é exatamente bonito, pelo menos não tão avassalador quanto o novo veterinário da ONG, mas de fato existe um charme ridículo naquele ser humano, capaz de enfeitiçar todo um departamento. Sou obrigada a admitir pelo menos isso.

Ele caminha de maneira confiante a partir da Recepção, e acho que noto Luiza lá atrás, em sua mesa, virar a cabeça pra conferir sua passagem para dentro do departamento. Como sempre, está vestido de forma impecável. Os cabelos loiros e meio compridos jogados para trás, enquanto mantém um olhar glacial no rosto, caminhando decidido até uma das mesas da chefia editorial.

Sigo enfeitiçada por seus passos, assim como meus colegas, quando, de repente, seus olhos varrem o Departamento de Arte e pousam em mim.

Neste momento sei que perdi pelo menos uma batida do meu coração. Ele não desvia seu olhar azul do meu, e, quando franze o cenho na minha direção, como se estivesse exasperado, quero morrer só um pouquinho. Naquele instante sou pega por uma estranha sensação de familiaridade.

Desvio o olhar primeiro, me encolhendo atrás do meu computador, na tentativa de me esconder da vergonha de ter sido pega secando alguém tão descaradamente. E pior, alguém que eu nem acho tão bonito assim. Sinto o rosto queimar e o coração acelerar, agradecendo silenciosamente por todos estarem entretidos o bastante para não repararem no leve tremor que toma minhas mãos.

Que diabos, Cami!, ralho comigo mesma. Que diabo de reação é essa?

É vergonha., garanto a mim mesma. É mortificante ter sido pega encarando o sujeito, como se eu fosse uma desmiolada. Sou mais inteligente do que isso.

Respiro fundo algumas vezes, antes de arriscar um olhar rápido por cima do meu monitor. É ridículo, mas meus olhos são atraídos como ímãs em sua direção. Digo a mim mesma que é apenas para garantir que ele não está mais encarando nossa equipe, que não está achando graça do quanto afeta todos nós.

E ele não está.

O loiro bonitão não parece minimamente interessado nas reações que provoca na Equipe de Arte, e conversa de forma séria e focada, de um jeito bem... bom, bem profissional, com um Gerente Editorial meio calvo e de pele oleosa. Não faço ideia do que ele está pedindo ali, mas posso apostar que vai conseguir. E nem estou ouvindo o que diz.

Minha equipe permanece atenta à todos os seus movimentos e acho que escuto Edu suspirar ocasionalmente. Desejo poder culpá-lo por isso, mas depois dessas reações absurdas, quem sou eu na fila do pão?

Todos prendem a respiração quando ele aperta as mãos do gerente e abre um sorriso cheio de estrelas, que se desfaz rápido demais. Cintia sufoca um gritinho com tal visão, enquanto ouço Edu gorgolejar um "porra!" sofrido, enfiando os dedos na boca. Quanto a mim... nem sei mais quem sou.

Porém, o golpe final ainda estava por vir.

Respiro quase que aliviada enquanto o observo se afastar, seguindo seu rumo. A tensão, que eu nem sabia sentir nos ombros, vai diminuindo gradativamente e me pego perguntando-me por que diabos estou tão tensa. Somos todos adultos aqui, não é como se ele fosse se virar, apontar o dedo pra mim e começar a rir da minha cara.

Pelo menos era o que eu achava, por que o loiro bonitão faz algo semelhante à essa fantasia odiosa, só que de um jeito muito, muito, muito pior.

Ele já está quase na porta quando lança um olhar por cima do ombro, na direção da equipe de arte. Observo seus olhos rolarem até encontrarem-me com mãos geladas e coração disparado.

De novo aquele franzir de sobrancelhas, mas agora já não tenho tanta certeza que seja de exasperação. Isto por que, logo em seguida, ainda com o olhar preso ao meu, vejo o canto direito de sua boca se erguer em um meio sorriso, que me dá calafrios na espinha e faz com que pedras de gelo dancem pelo meu estômago.

Ainda estou em estado semi-catatônico quando ele desaparece dentro do elevador e só volto a reagir quando ouço Edu ao meu lado.

– Acredito que o Bolão agora é caso de vida ou morte.

– Acredito que todos precisamos de uma cerveja hoje, depois do expediente. – Cintia diz, ainda com o olhar perdido no hall dos elevadores.

Neste ponto, depois de todas as últimas reações do meu corpo, não tenho nem a capacidade de apontar que é uma segunda-feira.

– Acredito que Cintia esteja correta. – é tudo o que digo.

Oi Gentes! Eu adoro muito as vibes desses próximos capítulos, pq além de fazer a nossa história caminhar, também vai fazer com que a Cami perceba que pode ter mais amigos além da Isa :)
O que vocês estão achando até agora? Dos personagens, da interação entre eles e, principalmente, do que vai rolar de agora pra frente??
Comentem muito e votem bastante pra eu ficar inspirada a publicar mais de um capítulo por semana hehehehe 💁🏼‍♀️✨ conto com vocês pra fazer esse negócio bombar!

Muito obrigada por acompanharem essa história comigo!

Beijos!

Pam Oliveira

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