Uma Dor Incomparável
Visão de Bruce
Eu estava mal e não consegui deixar de transparecer isso. A cada passo em direção àquela cidade, eu sentia como se estivesse perdendo uma parte de mim. Eu, pela primeira vez em anos, senti vontade de chorar do nada e por nada. A última vez que eu fiz isso, de repente, enquanto dormia no chão, sem coberta, no teste para entrar para o grupo de SEAL's.
Não sei explicar qual foi a sensação. Eu só conseguia me analisar a ponto de entender que eu tinha, naquele momento, um medo inexplicável de morrer, porque agora eu achava que tinha sim o que e quem perder. Eu não queria perder. Meu relacionamento com o Dylan me fez entender e temer a grandeza da morte, e isso é algo que eu nunca tinha lidado.
Porque sempre que eu ia para campo, e dentro do avião os caras faziam piadas sobre morrer, eu ria e até brincava com eles também. Pra mim, não tinha muito o que perder além da minha família – mas eu sabia que eles ficariam bem, desde que ficassem juntos. E, naquele momento, enquanto eu andava voltando para aquela cidade, eu me lembrava dos meus gritos em campo, depois de levar um tiro... me lembrava da dor, do meu desespero, que eu tentava mascarar com piadas e um humor nada fácil de lidar.
O meu jeito de lidar com catástrofes como se elas não fossem catástrofes fizeram com que eu ficasse famoso no meu grupo, mas eu lembrava exatamente da primeira vez que eu acreditei que ia morrer e o nome de Amélia veio na minha mente. E enquanto meus olhos estavam cheios de lágrimas – por me lembrar dela – eu ficava fazendo piada com meus colegas que estavam me socorrendo – nesse dia, fui ajudado por Hale, que era o médico do meu grupo antes de pisar naquela mina terrestre.
A questão é que eu acho que a minha maior terapia para me entender foi amar Dylan e reconhecer isso. Reconhecer que eu tinha me apaixonado pela primeira vez na minha vida, e que eu tinha medo de perder. Eu realmente tinha medo de perdê-lo e admito isso com todas as letras que forem precisas. Um medo ainda maior do que o que eu senti quando vi a morte sorrir pra mim a primeira vez...
E olha, depois de quase morrer várias vezes você esquece do quão perigoso isso é. A primeira vez que acontece é, sem dúvida, um marco. Mas as outras passam de forma batida. O primeiro tiro, o primeiro assassinato, a primeira noite de fome, frio ou medo... trazem sensações inesquecíveis. Mas depois de passar por isso por anos seguidos, isso tudo parece ser normal. Você olha pra morte e diz "e aí, será que é dessa vez que você me pega?" e sorri em seguida. Acontece que naquele momento ela andava ao meu lado e eu não consegui olhá-la e sorrir... eu senti, naquele dia, a pior sensação da minha vida – e eu achava que já tinha sentido isso outras vezes, mas não, foi pior.
Ao nos aproximarmos da loja que Jean disse que iria com Hany, eu fiz sinal de silêncio, pedindo para que todos ficassem no mais absoluto silêncio, porque eu tinha escutado vozes.
– E o que vamos fazer com a criança? – um homem, que não reconheço a voz, pergunta.
– Sei lá. Consegui convencer ela de ficar comigo, falando que o meu outro colega não conseguiria protegê-la. – Jean responde e Hale me encara por alguns segundos. Eu, então, sorrio o sorriso mais cínico que tinha no meu estoque e ele volta a prestar atenção no que eles conversavam.
– E não se sente mal vendendo a criança e ela pra gente? Ela confiou em você. – Dylan me cutuca, ao ouvir isso, mas eu não respondo.
Por mais que eu soubesse que Jean era perfeitamente capaz de fazer isso, era como se eu não quisesse acreditar. Pensamos que ele queria fazer uma coisa ruim com Hany, e no final era algo muito pior.
– Em uma guerra você não deve confiar em ninguém.
– Você é um militar com muitos problemas. – o homem responde Jean, com um tom claro de puro deboche.
– É, já me disseram isso.
– Você sabe que eu poderia te matar, não é?
– Claro.
– Principalmente porque os seus amigos mataram metade do meu grupo. E desde a morte de outro ladrão, o nome do Bruce vem percorrendo os nossos acampamentos, ele tá sendo caçado, querem vestir a pele dele. E mesmo assim você fez o que fez. – o homem comenta e eu começo a absorver o que eu tinha escutado.
– Ele já tá longe. Não vai voltar, não precisa se preocupar.
– Eu sei que você acha que ele é seu militar de estimação, mas saiba que eu vi o que ele fez com um dos meus. Justamente com o que você mesmo disse para tentar atingir a garotinha. Imaginou que ele entraria na frente dela?
– É claro que não, muito menos que ele iria ter a força que teve. Bruce já foi mais resiliente do que ele é hoje, depois de quase dar a vida por outras pessoas tantas vezes, ele já tá enferrujado. – Jean afirma.
– Ele não está. Ele fatiou um dos meus e era o meu favorito... fiquei eternamente chateado. Espero, apenas, que você se lembre disso antes de achar que o Bruce é um animal domado. Ele é tudo, menos um animal domado. – olho para Hale, que me olha de volta e pensa um pouco.
– Mas a moça, olha... é como você disse, ela confia em mim. Eu posso fazer o parto da criança, entregá-la a vocês. Não precisa de nenhum tipo de trauma.
– Precisa sim. A gente não trabalha com essa forma tranquila de ver o mundo Jean. Ficamos felizes que tenha pago a sua dívida, livrando a cabeça da Beatriz, mas a moça vem com a gente também. Sabe como é, meus homens precisam de alívio.
– A Beatriz tá com o Bruce, esquece ela. – Jean pede.
– Bom pra ela, talvez ele seja um pai melhor que você. – é tudo o que o homem comenta, e depois um silêncio enorme toma conta do lugar.
Depois de alguns segundos, passos começam a ir em direção ao corredor principal da loja. Hale, então, ao perceber que eles já estavam distantes, sai na frente, entrando no lugar e indo por trás das repartições enormes da loja. Aquela loja era uma daquelas de decoração, onde, dentro dela, tem vários ambientes já montados, com produtos da mesma. Assim, quando as pessoas iam comprar, já olhavam direto como ficaria.
Cada um de nós, então, fomos andando em duplas, por trás desses espaços. Como não sabíamos que iriamos encontrar os ladrões lá, então, no grupo inicial, estava Dylan, Hale, Raven – irmã de Hale – e eu. Não queríamos envolver muitas pessoas nessa operação, porque Hale sabia, como eu também sabia, que as habilidades de Jean em distração e sair de situações de risco eram ótimas. Se desse merda com a gente, não queríamos envolver outras pessoas – além de não querermos que Beatriz presenciasse aquilo.
Enquanto andávamos por aquela loja, seguíamos Jean e o rapaz, que eu nunca tinha visto na minha vida. Hany estava em um dos ambientes, vendo o que parecia ser uma revista, quando Jean chegou com o rapaz.
– Quem é ele? – Hany pergunta.
– Ele é um amigo que eu encontrei. – Jean responde.
– É um prazer. – Hany cumprimenta o rapaz, que beija a mão dela.
– Está de quantos meses?
– Bom, não sei exatamente, entre 8 e 9.
– Então está perto de nascer.
– Sim. – ela sorri.
– Que graça. Eu adoro bebês. Já escolheu os nomes para quando descobrir se é menina ou menino?
– Não... – Hany sorri e eu observo Hale, que estava do outro lado da loja. Eu estava com Raven e ele estava com Dylan, acompanhando aquela conversa. – Quem são eles? – ela pergunta, apontando para a entrada da loja com um movimento rápido de cabeça e o homem se vira.
– Ah, são meus amigos. Pode ficar tranquila que eles não vão machucar você. – ele comenta. – A propósito, sou o Charlie.
– Eu já ouvi falar desse cara, ele é traficante de órgãos, sequestra e vende os órgãos de quem ele acha sozinho pra qualquer grupo que tenha um médico. – Raven sussurra.
– Sou Hany.
–E é linda. – o rapaz comenta e ela observa Jean, que desvia o olhar dela.
Eu, então, vendo que Hale estava me olhando, peço com movimento de mão e dedos para que ele ou Dylan verifiquem quantos caras entraram. Ele manda Dylan ir verificar e ele obedece, voltando um pouco o caminho. Depois de contar, ele voltou e informou que, dentro da loja, tinha 7 homens, todos sem armas, apenas com facas presas nas pernas.
Na hora eu entendi que essa era uma tática, para que Hany não ficasse assustada. E, então, aproveitando que Raven estava com a sniper do grupo dela, pedi que ela subisse nas estantes altas daquela loja imensa, que era como um grande atacado. Ela, imediatamente, colocou a arma para trás das costas e começou a escalar. Para Dylan, pedi que ele voltasse um pouco e fosse lá pra fora, ver se tinham outras pessoas e ele atendeu. Ele também estava com arma – já que aquela cidade estava abandonada, sem recorrência de zumbis até aquele momento.
Decidi aproveitar o elemento surpresa de ter o Hale comigo – e Raven na parte superior da loja – para acompanhar Dylan, saindo pela porta lateral da loja do meu lado – enquanto ele saiu pela lateral da loja do lado dele. Não entramos por ali, porque as portas estavam trancadas por dentro – por isso entramos pela porta principal. Observei que tinham uns 3 ou 4 carros do lado de fora. Ninguém estava dentro, mas tinham 3 caras fumando, apoiados no capô, relativamente distantes da entrada.
Eu, então, dei a volta na loja, para ficar do lado deles – e de Dylan – e para que, assim, ninguém que estivesse lá dentro pudesse me ver. Quando cheguei, Dylan e eu saímos andando juntos, parando ali, pouco atrás dos homens, que se viraram para nós em um susto – provavelmente acharam que eram zumbis.
Começa, então, uma luta. Todos eles partem pra cima de nós, e não demora muito até que socos e chutes comecem a acontecer. Eu levei uns dois socos até me adequar naquela luta – porque eu ainda estava lento pela minha última flechada –, mas retribui bastante também. Já no começo, prendi um contra a parede, com o braço para trás, e o fiz desmaiar batendo com tudo a sua cabeça contra ela. Depois da pancada, o cara caiu no chão, desacordado. Com outro, eu dei um soco em sua barriga e quando o rapaz ia cair no chão – sem ar – segurei a cabeça dele e bati contra meu joelho com toda a força que tinha nos braços – fazendo com que ele desmaiasse também.
E enquanto eu nocauteei os outros dois, Dylan lutava com um cara. Lutas corporais nunca foram seu ponto forte, ele sempre me dizia isso. Sempre comentou que era um cara fraco, antes de tudo isso acontecer. Até me disse que tentava passar o mais despercebido possível, porque ele não saberia como reagir se alguém viesse pra cima dele... a questão ali é que ele estava, de fato, brigando pela primeira vez e quando percebi que eu estava ficando cansado demais, peguei sua arma, que era uma metralhadora e bati nas costas do cara, fazendo com que ele caísse.
Saímos juntos, então, até a entrada da loja e os rapazes que estavam ali se viraram para nos observar – já que Jean fez uma cara de morte quando me viu ali, o olhando com todo o desprezo que eu tinha no meu coração.
– Bruce, eu...
– Ele é o Bruce? – o homem que estava com ele pergunta.
– Vai me falar porque esse lugar tá cheio de ladrões e traficantes de órgãos agora, ou daqui a pouco, quando eu estiver arrancando a sua cabeça? – Bruce questiona e Jean observa Hany, brevemente. Ela estava tão assustada que eu estava com medo de ela ter o filho ali mesmo.
– O que? – Hany questiona e seus olhos enchem de lágrimas. Ela claramente não sabia onde tinha se metido.
– Bruce, não é nada disso que você tá pensando. Esse é meu amigo, ele é o... – antes que ele termine de falar, eu o interrompo.
– Eu sei quem ele é. E eu sei o que ele quer... que está dentro da barriga daquela moça ali. – aponto para Hany.
– Eu fiz pela Beatriz. – Jean tenta se justificar.
– Teríamos dado um jeito sem você tentar sacrificar a Hany, Jean. Agora, veja só, vou ter que matar todos vocês... – dou de ombros, me virando para Charlie. – E que bom que a minha cabeça esteja a venda no mundinho de merda de vermes como seus amigos. Espero que, pelo menos a minha foto esteja bonita no anúncio.
– Como sabe disso? – pergunta Charlie.
– Eu sei de tudo. – os rapazes, então, começam a vir na minha direção, achando que eu iria me intimidar pela quantidade, o que não acontece.
Eu, então, pego a mão de um – que estava segurando a faca em minha direção e torço seu braço até estalar, o empurro e quando ele já está alguns centímetros distante de mim, dou um chute em sua cabeça com força – o que faz com que ele se desequilibre e comece a cair, mas antes de ir direto ao chão, ele bate a cabeça em uma das prateleiras de aço da loja, fazendo que já caia desmaiado. O outro, eu dou dois chutes na barriga e um soco forte no rosto, puxo um outro cara e bato a cabeça dos dois, dando um chute no joelho de um com toda força – e sentindo que tirei o osso do joelho do lugar – e o outro dei um chute no meio das costas, enfiando ele no meio dá área de churrasco – onde acabou caindo uma churrasqueira de aço maciço em cima.
Quando um dos caras conseguiu segurar Dylan, Raven deu um tiro com a sniper na cabeça dele – e foi aí que Jean percebeu que não estávamos sozinhos. Com o susto que todos levaram por causa do tiro daquela arma, Dylan atirou no outro cara que estava tentando bater nele e eu peguei a minha faca e enfiei em outro rapaz. Antes mesmo que o último rapaz pensasse direito no que estava acontecendo, Raven mira nele e mata o 7° – e último do grupo.
No final das contas, Jean nem conseguiu dizer nada – muito menos Charlie –, porque assim que a ficha deles caiu, Hale apareceu, dizendo:
– Não vai fazer isso, Jean. – diz Hale, se referindo ao fato de que Jean estava tentando pegar sua arma da cintura.
– Merda. – reclama Jean, antes mesmo de se virar para olhar nos olhos de Hale.
– Solta essa arma. Você sabe que eu tenho motivos de sobra pra matar você. – Jean se vira sorrindo para Hale.
– Hale, meu caro amigo. Que saudade que eu estava de você... como tá o pé.
– Ótimo, mas pelo visto sua cabeça tá ainda mais fora da casinha do que sempre esteve, não é?
– Claro, porque eu sempre fui o problema.
– Você me explodiu. Cala a porra da boca. – Hale grita, apontando sua arma para a cabeça de Jean.
Quando tudo parecia já estar calmo de fato, fomos andando até eles. Hany estava indo cada vez mais para trás, enquanto Hale gritava com Jean. Jean tinha, em sua mão esquerda uma arma, mas eu conseguia ver que ele também tinha sua besta próxima de seu corpo – e isso era um problema, tanto que a primeira coisa que eu pensei em fazer foi pegar aquela besta e tirar do alcance dele, mas tive prioridades.
A prioridade, no caso, foi que eu vi quando Charlie sacou sua arma, e fui arrancá-la dali, antes que ele atirasse em quem não devia e nesse momento começou uma confusão generalizada. Eu tomei a arma dele e dei um tiro em cada uma das suas pernas. Ele fez um belo rastro de sangue enquanto se arrastava para longe de mim – e de todos –, mas eu não o matei porque eu queria conversar com ele depois.
O problema foi que começou toda uma confusão, porque Hany – por mais incrível que pareça – parecia não estar entendendo muita coisa e foi defender Jean, chamando a atenção de todo mundo que estava ali perto, pra ela. Hale se distraiu e Jean deu um chute no braço dele, jogando sua arma para longe. No meio tempo que Hale foi buscar, a arma, ele deu um tiro na direção de Raven – mas não a atingiu, foi só para fazer com que ela ficasse desestabilizada – e eu vi. Eu vi ele pegar a besta e apontar para Dylan.
Corri em direção a Dylan, e parei diante dele. Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, Jean puxou o gatilho da besta e quando olhei para baixo, vi a que a flecha tinha acertado o meu abdômen, na região esquerda. Imediatamente eu senti uma tontura muito grande e caí de joelhos no chão, vendo Jean soltar sua besta no chão, em choque.
– Bruce, me desculpa... – Jean grita, começando a chorar, mas minha boca seca e a dor era tão gritante que eu nem consegui me lembrar das palavras para responder aquele grito.
Eu sentia tanta dor, que meus olhos se encheram de lágrimas, e não demorou até que eu visse, com a minha visão turva, Dylan indo até Jean – mas não sei dizer o que ele foi fazer ali. Depois disso ouvi vários chamados ao meu nome e meus olhos pesaram cada vez mais, até se fecharem.
– Bruce! – foi a última coisa que eu ouvi com clareza.
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