Um Plano Delicado
Visão de Bruce
6 anos antes
– Eu não sei como vamos cuidar de uma criança. – estávamos em um bar, tomando uma cerveja de despedida do país, porque iríamos para mais um treinamento em algumas horas.
– Ela não fez com dedo, Jean. Você é o pai e espero que seja homem para cuidar do seu filho, ou filha, como um. Além disso, vocês tem dinheiro e conforto, centenas de pessoas não tem nem saúde para ter um filho. – rebato e ele me observa por alguns segundos.
– Bruce, eu não sei se estou preparado. – ele comenta, apoiando a mão no meu braço. Os olhos dele me fitavam completamente, e eu sei que não conseguia esconder o fato de que eu não gostava daquele assunto.
Eu sabia que ele tinha uma total capacidade de criar um filho, mas provavelmente não queria porque achava que isso iria implicar na sua liberdade. E ia mesmo. Quando estamos sozinhos no mundo, nossa vivência é uma, quando se tem alguém que depende inteiramente de nós, a vivência é outra.
– E ela? – pergunto a ele, que estranha a minha pergunta.
– O que?
– Tá pensando em si apenas por qual motivo? E ela? É ela que vai carregar a criança, que vai ter a criança e aposto que não está fazendo o drama que você tá fazendo agora. Mas é comum isso, porque a mulher lida com muito mais coisa e é obrigada a ter mais responsabilidades e mais cedo que o homem, isso implica no fato de que a maioria delas é mais responsável que a maioria de nós. – respondo, bebendo um pouco de cerveja e pedindo mais.
– Ela quer ter. – ele responde e eu não entendo, então, o drama que Jean estava fazendo do meu lado. Um filho, na condição dele, é um presente.
– Então pronto, você vai ser pai de primeira viagem e vai aprender com ela, que também vai ser mãe de primeira viagem. Qual é, para de coisa. Você fica 3 dias sem comer, leva tiro, facada, mata gente com o braço e tá preocupado com uma criança? Se você tiver metade da coragem e foco que tem para ser soldado, como pai, vai ser um pai foda. E não vai estar sozinho, se precisar de um tio pra tocar violão e cantar "somewhere over the rainbow" pra ela, eu vou estar lá. – ele sorri com a minha afirmativa.
– E você? Não pensa em construir uma família? – nesse momento minha cerveja chega e eu pego o copo, virando na boca. Tomo metade do copo de uma vez toda, enquanto Jean ri da minha cara.
– Quando eu achar alguém que faça com que eu me sinta bem, não vou fugir. Mas até hoje não aconteceu, vou fazer o que?
– Vai dar certo. – ele conclui, bebendo mais.
– Mas essa semana eu vi umas roupinhas pra minha irmã mais nova, sabe? Enquanto não formo uma família e não tenho filhos ou adoto.
– A bebezinha?
– É. Comprei uns casacos, umas botas...
– Rosas? – ele me pergunta e eu o encaro, sem entender aquela pergunta merda dele.
– O que? Por qual motivo eu compraria rosa? Comprei nas cores da paleta de vestes dela que eu imaginei. – ele sorri.
– Você fez uma paleta de cores pra sua irmã?
– Claro.
– E quais cores tem nela?
– Preto e cinza, ela é gótica. – rimos juntos por alguns minutos. – Ela é gótica e perigosa, tá tirando?
– Fala sério, rosa que é cor de menina, Bruce. – não consigo deixar com que o meu descontentamento por essa frase se disfarce.
– Que ano estamos?
– 2070.
– Ah, pensei que estivéssemos em 2010 com esse seu pensamento retrógrado. – respondo a ele, que se prepara para me responder, mas alguém aparece.
– Oi, Bruce. – me viro, vendo Claire, a mulher de Jean ali, e me levanto, cumprimentando-a.
– Oi, Claire, tudo bem? – respondo, me sentando novamente e ela se senta em uma cadeira que estava posta próxima a nossa mesa.
– Tudo ótimo, o Jean já contou a novidade?
– Claro! Parabéns pela criança.
– Muito obrigada. – ela sorri. – Contou a outra novidade? – ela pergunta a Jean, que bebe mais cerveja e nega com a cabeça. Eu, então, analiso ele e penso um pouco.
– Qual seria? São gêmeos? – pergunto e eles riem.
– Não. – Claire me responde. – É que ontem conversamos e achamos que você seria um ótimo padrinho.
– Tá brincando. – fico surpreso, mas imensamente feliz.
Não sei explicar qual foi a sensação de ouvir aquilo. Ser padrinho de uma criança era ser o segundo pai dela, era como se eles quisessem que eu estivesse tão próximo dela a ponto de ensiná-la o que eu sei. E eu nunca pensei que fosse, algum dia na minha vida, ser a pessoa que alguém iria ver como um exemplo. A felicidade que me invadiu naquele momento fez com que eu me sentisse muito bem – de uma forma que eu não me sentia há um tempo.
– Não. – Claire confirma mais uma vez.
– Que isso, eu me sinto lisonjeado, Claire. – agradeço aos dois.
Eu gostava de crianças. Gostava de pensar que elas eram a nossa esperança de vida. Sabe, qualquer coisa que tire o peso de importância das minhas costas eu gosto. Se as pessoas falam que as crianças vão salvar o mundo, eu torço para que façam isso mesmo, e é assim para qualquer outra coisa na minha vida.
Além do mais, eu gosto da energia e inocência das crianças. Me ilude por alguns segundos a pensar que o mundo não é uma coisa tão ruim – quando eu sei que é. Faz com que eu esqueça todos os sentimentos ruins de não poder fazer algo verdadeiramente positivo para o mundo, porque, afinal, outras pessoas não iriam querer.
Quando Beatriz veio ao mundo, eu só conseguia pensar no quanto eu esperava que Jean criasse responsabilidade com ela. Eu torcia para que ele passasse a começar uma mudança. Isso, porque ele era muito individualista, mesmo que na maioria das missões ele, pelo menos, se importasse comigo. E acredito que, de fato, a vinda da Beatriz o mudou completamente – e felizmente para melhor.
Hoje
Jean, conforme íamos percorrendo nosso caminho até Nova Orleans, ensinava algumas táticas de ataque para Dylan, entre outras coisas. Ele andava com Beatriz nas costas, porque ela tinha pisado em uma ponta de barra de ferro em uma das cidades que eles tinham passado e tinha se machucado.
No entanto, enquanto a garotinha ia nas costas do pai, ela ficava fazendo gracinhas para Amélia, que ria como se não tivesse amanhã por diversas vezes – e eu sempre ficava com atenção redobrada, porque eu tinha medo que alguma dessas gargalhadas pudesse entregar nossa localização. Ele andava com uma besta também, como Dylan, e tinha até lhe dado algumas flechas.
Posso dizer que Jean parecia mais aberto a conversa do que era há alguns anos e isso era ótimo, porque os nossos maiores conflitos vinham por ele não saber ouvir as outras pessoas – e de certa forma eu sabia que a nossa amizade só dava certo por isso. Enquanto ele falava demais, eu ouvia demais. Enquanto ele procurava briga, eu tentava parar as brigas.
– Aprendeu a se defender sozinho, Dylan? – Jean pergunta a ele, que concorda com a cabeça.
– Foi. Perdi a minha família e decidi que não ia morrer, não agora.
– Sua besta é boa.
– É, eu achei em uma das casas que entrei.
– Na próxima cidade que vamos entrar, tem uma loja imensa de artigos esportivos. – Jean para de andar, e todos paramos com ele, para ouvi-lo. – Lá tem flechas pra besta, porque eu comprava pra minha lá, além de ter outras armas medievais. O dono era meu amigo e na loja tem uma sessão reservada em um cofre imenso, cheio dessas armas.
– Será que ainda tem? – pergunto.
– Provavelmente, mas só no cofre. Ele guardava lá os melhores arcos, bestas e coisas antigas mesmo, tipo espada dos tempos medievais e artigos de colecionador raros. Decorei a senha dele a última vez que estive lá, se ele não tiver voltado, tudo pode estar lá. – ele explica.
– Como no mercado que passamos não encontramos comida, acho bom que a gente procure nessa cidade também. Mas vai requerer um plano que deve ser seguido à risca. – explico, respirando fundo.
– Isso implicaria no fato de que teríamos que nos separar? – Harry questiona e eu concordo com a cabeça.
– É.
– Merda. – ele resmunga.
– É só fazer o que eu disser e ficar quietinho. – respondo e Jean sorri.
Continuamos nossa viagem juntos, pelos campos, e quando encontramos um lugar plano e sem vegetação – ou seja: seguro, pois eu conseguia observar as movimentações em uma larga escala – paramos para nos prepararmos e descansarmos. Não demorou muito tempo até Jean se aproximar de mim para conversar sobre questões que tinham ficado em aberto há um tempo.
– Tentei sair do país quando cheguei em casa, mas não deu. Todos os aeroportos já tinham sido fechados, as pessoas estavam desesperadas, passagens foram canceladas e eu estava na minha casa, no terceiro andar, observando a rua, quando vi um cara correr em direção a uma moça que passeava com seu bebê e mordê-la ali. – ele começa a contar o que estava fazendo quando se deu conta que tudo estava acabado.
– Aposto que foi bem chocante. Enquanto as pessoas me mostravam coisas horrendas e eu nem me mexia, você sempre chorava, mesmo que, de nós dois, você sempre tenha sido o que pensava primeiro em si.
– Eu tenho a minha filha, Bruce... – ele observa Beatriz, que estava sentada brincando com Amélia. – Ver aquelas coisas devorarem um bebê me fez pensar "e se fosse a minha filha?". Acho que esses 4 anos me fizeram evoluir mais do que qualquer outra coisa que eu vivi. E, de qualquer forma, algumas situações são demais até para nós.
– É. São sim. – respondo, enquanto observo Dylan, que estava tendo seus ferimentos limpos por Kat.
– Nunca conseguiu superar o que viveu no Bope, não é? – Jean me questiona e eu olho em seus olhos.
– Acho que o meu processo de perder a fé na humanidade não foi exatamente direto. Tudo o que eu vi e vivi me fez pensar "eu acho que não teria compaixão pelo ser humano".
– Quando isso aconteceu, você ainda se sentia humano, Bruce?
– Me sinto humano hoje, começando a sentir algum tipo de afeto por um cara que eu conheci há algumas semanas. Eu não fui ensinado a dar importância pra ele, ele me obrigou a sentir compaixão por ele... de resto, ter sido chamado de monstro por aquela mulher no Brasil continua sendo uma boa realidade pra mim. Quer dizer, eu me importo com você, com a Amélia, com a Beatriz e com o Dylan. Além do meu grupo, mas fora isso...
– Foi ótimo o episódio no Brasil, eu rio até hoje quando lembro.
– Me machucou, Jean. – digo, seriamente olhando nos olhos dele, mas logo caímos na gargalhada.
– Sim, machucou sim. Ela te perguntando se você já tinha matado alguém, aí você "já" e ela levanta, te dá um tapa na cara e fala "você é um monstro". – ele começa a rir. – Coitado de você, Bruce, tinha levado uma facada no braço dois dias antes...
– É, mas não acho que ela mentiu. Quando você banaliza a vida, você se torna o monstro de certa forma. E por mais que o peso dessa palavra tenha sido diminuído quando é direcionado a uma pessoa, é uma palavra pesada, o significado dela não é engraçado, como a gente acha que é. – explico.
– Não muda o fato de você não ligar.
– É, não muda. Mas às vezes reflito sobre isso, penso se ela estava errada ou se eu quero que ela esteja errada. – explico. Eu realmente pensava nisso, mesmo não querendo.
– Monstro não pensa em construir uma bela família com o namoradinho, Bruce. – rimos.
– Acha loucura isso tudo?
– O que? Você se apaixonar? – confirmo com a cabeça. – Que isso, ele é fofo. É engraçado... Beatriz o adora e o conheceu há 2 dias. Certeza que se fosse em outros tempos, a Claire iria querer que ele fosse padrinho também e ia arrumar uma puta briga na igreja por isso. Ele é bacana.
– É, Amélia também gostou dele de cara.
– Pois é. Escuta as crianças, Bruce. Você mesmo disse que ele salvou a vida da Amélia mais de uma vez, sem pensar, e isso é foda. Se a sua primeira necessidade para uma boa paixão, é que essa paixão seja boa pra ela também... deu certo. – ele explica e eu penso um pouco.
– Ele pulou da porra de um prédio por ela.
– E por você, até onde eu sei.
– É, mas ele poderia não ter feito isso.
– Ainda não tinham ficado?
– A gente ainda não ficou, né. Foi só um selinho.
– É, mas você enfiou a boca na dele outro dia pra ressuscitar. – rimos.
– Continua não sendo um beijo, a menos que considere necrofilia, porque ele estava basicamente meio morto. – rimos mais.
– Eu só quero saber o que a gente vai fazer quando a grávida tiver o bebê.
– Por quê?
– Bebês gritam. Teria que ter alguma coisa pra que ele não ficasse se esgoelando. – conversamos, enquanto observamos todos, que faziam suas atividades comuns e conversavam.
– Vou dividir as equipes.
– O que? – Jean me encara.
– A Hany vai com uma equipe por campos, atravessando tudo com um certo distanciamento de cidades, sempre. E o resto atravessa e forma direta.
– Ótimo. E nessa equipe, com ela, vão estar eu, você, o Dylan e quem mais?
– Eu e o Harry.
– Fala sério. – ele ri, não acreditando no que eu estava falando.
– Tô falando. Você é um ótimo lutador e o Dylan é um ótimo atirador. Minha prioridade é salvar a Amélia, não eu. O Harry já topou, porque perdeu o Spencer, então eu vou formar uma equipe sem medo de morrer e que não vai perder nada se for. – explico meus motivos e ele nega várias vezes com a cabeça.
– Fala sério, chama pelo menos o Dylan. O Harry nem atirar sabe. Ou me deixa ir no seu lugar...
– Não confia em mim?
– Não é isso. Eu não confio é em mim. Passei a vinda toda pensando que a Beatriz só teria chance de sobreviver se estivesse com você. É meu superior, senhor. – ele comenta e eu sorrio.
– Vai se foder. – rimos mais.
– Oi, pessoal. – Dylan se aproxima.
– E aí. Vou deixar vocês conversarem e vou dar janta pra Beatriz e pra Amélia. – Jean comenta e eu concordo com a cabeça, vendo-o se afastar de nós. – Fala pra ele. – pede, movimentando a boca e eu concordo com a cabeça.
– Está tudo bem? – Dylan pergunta, percebendo a minha cara de apreensão.
– Hany tá chegando no seu 8 mês de gestação. Isso nos dá um mês para chegarmos no acampamento, ou algumas medidas serão tomadas para que ela não morra e não mate todos nós. – respondo, olhando nos olhos dele.
– Tipo?
– Eu vou gerenciar que todas as passagens dela aconteçam por campos. Vai demorar mais, mas pelo menos ela e a criança estarão a salvo.
– Por que você?
– Porque a ideia é minha, e eu não vou pedir para que ninguém a realize. – ele desvia o olhar de mim e eu respiro fundo. – O Harry vai comigo... – Dylan me encara, olhando nos meus olhos como se não acreditasse no que eu tinha acabado de dizer.
– Pode parar, se queria me tranquilizar acabou de acabar com tudo. O Harry está começando a aprender a atirar com a besta agora. Se você fosse com a Kat teria mais chance de isso dar certo.
– Kat é enfermeira. Não podemos ficar sem ela até que Amélia saiba como costurar gente.
– Então eu vou. Pronto. – ele conclui e eu nego com a cabeça.
– O grupo maior vai ficar com a Amélia e com a Beatriz. Acha mesmo que eu quero que a vida da minha irmã dependa apenas do meu colega de profissão extremamente racional? Não. Você fica com ele, assim terão mais chance de se defender, por que você é maluco.
– Eu? Maluco?
– Eu nunca vou esquecer que você pulou de um prédio pra salvar todo mundo.
– Pularia de novo.
– Exatamente. O Jean é ótimo com tiro de campo, raciocínio lógico e logística de ataque em guerra, já você é doido, fazem uma boa dupla.
– Que merda. – ele se levanta, afastando-se do nosso acampamento.
Fico ali, pensando. Eu sabia das minhas chances de morrer, mas isso nunca me impediu de acreditar nos meus treinamentos e de me entregar totalmente a tudo o que eu estava fazendo. Tinha noção da vontade de Jean de assumir meu lugar nesse plano, mas se algo acontecesse com ele eu jamais me perdoaria. Tinha que ser eu.
– Ae, bora começar a fazer o plano pra resgatar comida e armas da cidade? – Jean se aproxima, segurando o mapa.
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