Sangue, Muito Sangue

– As equipes, então, vão: Hany fica aqui com Beatriz e Amélia, porque não pode fazer força. – Bruce explica, depois de apontar alguns lugares no mapa.

– Quem vai ficar pra protegê-las? – Harry questiona, e Amélia levanta a mão.

– Eu. – Amélia responde.

– E é? – ele debocha, e ela olha em seus olhos.

– É. Atiro com uma besta melhor que você, Harry, e eu tenho 10 anos. – ela rebate e Bruce encara Jean, rindo.

– Tudo bem. Kat, você vem comigo e com Harry procurar comida. – Bruce continua repassando o plano. – E Jean, junto com o Dylan vocês buscam equipamentos. Tenho certeza que formam uma boa dupla e quero testar a potência disso.

– É pra deixar nossas coisas? – Jean pergunta.

– Sim. Levem só as mochilas. A prioridade são bestas e arco e flecha, além de munição para isso. – Bruce explica, e ele concorda com a cabeça, abrindo a sua mochila e descarregando tudo o que tinha nela, no chão.

Eu, então, começo a fazer o mesmo, e enquanto faço, Bruce brinca com algumas coisas que ele acha – como pedaços de arame e alguns objetos que eu tinha encontrado pelo tempo que eu tinha sobrevivido sozinho. Ele fica ali, do meu lado, brincando com as coisas que eu estava tirando, e me olhando nos olhos sempre que podia. Quando eu esvaziei tudo, Bruce só me deu um beijo na bochecha, forte, e se afastou.

– Vou procurar algumas coisas que eu sei que ele tem, e não deveria ter. – Jean explica, afivelando sua mochila vazia ao seu peito, e Bruce acena com a cabeça.

– Drogas pagam pedágio para ladrões. – comento, enquanto coloco a minha mochila nas costas.

– Se encontrarem drogas, também vai ser um achado ótimo. – Bruce reforça.

– Não faço tratos com ladrões. – Jean protesta.

– É, mas agora não é só você e sua filha. Às vezes é melhor ter guardado do que ter que matar um por um, enquanto essas coisas esperam um foco de barulho para nos perseguir. – Bruce rebate.

– Sim, senhor. – Jean acata as ordens de Bruce, sem dizer mais nada.

– Voltam quando, Bruce? – Amélia pergunta, segurando o braço dele e ele se abaixa.

– Daqui a pouco. Cuida da tia Hany e da Bea, tudo bem? – ele pede, olhando nos olhos de Amélia.

– Sim. – ela acena com a cabeça, e ele sorri um sorriso discreto.

– Eu amo você, minha gótica perigosa. – ele dá um beijo na testa de Amélia, que o observa e sorri em seguida.

Não demorou muito tempo até começamos a andar em direção a cidade, com os outros. Eles também estavam com as bolsas vazias, porque o plano era pegar tudo o que julgávamos importante e descartar os lixos acumulados antes de seguirmos viagem. As cidades mais afetadas daquela região viriam em pouco tempo, então não conseguiríamos encontrar muitos suprimentos pelo caminho.

– Kat, procure kits e medicamentos, tudo bem? – Bruce pede a ela.

– Tem uma farmácia. – Jean comenta.

– Conhece o dono também? – Bruce questiona e Jean sorri.

– Era meu irmão. Cresci aqui, Bruce. – ele explica, e Bruce aceita sua sugestão.

– E ele não vai ficar puto?

– Ele tá morto. A senha do cofre dela é 0312, nessa farmácia ele guardava algumas coisas interessantes. Provavelmente já foi depenada, mas se quiser dar uma olhada no cofre, é isso. – ele comenta e Bruce concorda com um aceno rápido de cabeça, voltando a olha para frente.

– Valeu. – ele agradece, já sussurrando e começamos a nos separar, mas eu acabo indo até Bruce. – O que você... – colo nossas bocas, deixando-o com Kat e Harry em seguida.

A cara que ele me encarou foi engraçada, como se eu tivesse o pego de surpresa. Eu gostava dessa cara, porque eu nunca pensei que fosse ser capaz de ser assim. Por mais que eu seja, realmente, alguém que deixa as coisas saírem no impulso, isso nunca aconteceu quando o assunto eram sentimentos.

Eu, então, começo a andar com Jean, na direção contrária dos outros. Não gostava muito dele, mas se Bruce confiava, eu tentaria confiar também – mesmo que fosse difícil, porque eu via a soberba no olhar de Jean.

Por mais que Bruce fosse uma espécie de super soldado, ele raramente falava algo positivo de si mesmo, mas Jean não. Ele era aquele cara que se achava mais inteligente e mais útil que qualquer outra pessoa ali – menos Bruce, claro – e isso interferia diretamente na forma com que ele tratava Hany, por exemplo. Até com a filha dele eu conseguia sentir um distanciamento, e isso era triste porque Beatriz era só uma criança – muito doce e educada.

– Ele me ensinou a ser homem de verdade e mesmo que hoje eu pareça alguém detestável, acredite quando eu digo que já fui mais. – ele sussurra, enquanto ainda andamos pelo mato, em passos cuidadosos.

– O que?

– Bruce sempre foi especial. É por isso que ele entrou tão novo no exército e é por isso que todo mundo sempre quis tê-lo por perto. Eu, quando a minha esposa ficou grávida, não soube como reagir, mas ele me ensinou, sabe? Mesmo que ele jamais tenha tido filhos, ele me ensinou a ser pai.

– Seus pais não te ajudaram?

– Meu pai abandonou a minha mãe quando descobriu que ela estava grávida. E mesmo que tenha me doído muito saber da rejeição, eu pensei em fazer a mesma coisa com a minha mulher. Olha só que babaca... – ele fala em um tom claro de repúdio a si mesmo.

– E a Claire? O que aconteceu com ela?

– Tínhamos que atravessar o Kansas e em um dos meus planos ela foi atacada. Eu tinha pensado em tudo, só não pensei que talvez a Beatriz pudesse se machucar. Eu sempre fui de cálculos e totalmente racional...

– Não quer me contar com detalhes, né?

– Não precisa de detalhes pra entender que eu matei a minha mulher. A única mulher que eu amei na minha vida. E eu nunca vou me perdoar por isso. – aceno rapidamente com a cabeça, entendendo que aquele assunto era inflamado demais para ele.

Começamos a nos aproximar mais dos prédios imensos daquela cidade. Jean me guiava e eu ia atrás dele, com a minha besta – já que a dele tinha realmente ficado com Amélia. Enquanto ele me guiava, demos de cara com um grupo médio de zumbis. Deveria ter uns 3 ali, parados, mordendo o ar. O som dos estalos me deixava nervoso e isso fazia com que eu me sentisse péssimo.

Cada passo foi uma batida de coração mais forte – mas tínhamos que controlar até mesmo isso, porque dependendo da batida, eles conseguiam ouvir, mesmo que vagamente, o som. Passei andando de lado pelos zumbis que estavam na nossa frente, mas assim que fui me virar, dei de cara com outro e minhas pernas travaram, esperando que ele passasse na minha frente – já que, ao contrário dos outros, esse estava caminhando devagar pela rua. Jean estava pouco à frente de mim, e eu vi aquela coisa, que ainda não tinha se infectado tanto a ponto se de tornar ume estalador, passando próxima ao meu corpo.

Quando ele passou, continuamos andando – abaixados – por aquela cidade, até chegarmos na loja que estava fechada. A porta da frente era de aço, e faria muito barulho pra arrebentar. Jean, então, saiu andando e eu o segui até uma portinha de vidro que – por incrível que pareça –, estava intacta e ele tirou uma ventosa do bolso, grudando-a em uma parte da porta e testando para ver se estava bem grudada.

Em seguida, ele me pediu para segurar e puxar, mas não muito – lembrando que estávamos nos "falando" apenas por sinais. Ele me mostrava e eu reproduzia. Fiquei ali, segurando e ele tirou uma pequena ferramenta do bolso, fazendo uma espécie de corte redondo no vidro. Quando ele terminou o círculo, a peça de vidro saiu com a ventosa, por causa da força que eu estava fazendo com ela.

Ele, então, destravou a porta por dentro, e entramos. Fiquei pensativo sobre a forma como ele tinha conseguido imaginar esse plano, mas nem demonstrei nenhuma reação e apenas continuei seguindo-o. Quando entramos, ele fechou a porta e a trancou, pegando sua lanterna – e eu a minha.

– Ninguém nem veio aqui. – ele sussurra.

– Tem muita coisa aqui.

– É, mas tudo aqui de cima é pra arma de fogo. As coisas que queremos estão lá embaixo. – responde.

– Espera. – peço e ele para de andar.

Eu, então, vou até uma parte onde tinha algumas lanternas fortes, melhores que as nossas, e pego algumas, colocando-as na bolsa. Peguei duas a mais do que o número de pessoas no nosso grupo, para garantir, e, em seguida, continuei seguindo-o.

Aquela loja me assustava. O cara provavelmente era caçador, já que nas paredes tinham peles de animais e cabeças também. Por alguns minutos, eu torci para que ele estivesse morto, porque ele merecia. Não sou nada favorável – ou flexível – a caça esportiva.

Quando chegamos no andar de baixo, Jean foi até o quadro de luz e ligou as luzes de emergência. Era um corredor imenso, com várias salas – com paredes de vidro. Eu não sabia exatamente para que era, mas no final desse corredor imenso tinha uma porta de cofre. Mas não era uma simples porta de cofre. Era um cofre imenso, com porta redonda... me lembrava muito as portas de cofres de bancos dos filmes.

Enquanto andávamos até lá, ele entrou em uma das salas e começou a procurar algo, e achou. Ele encontrou alguns equipamentos, como cordas, e outras ferramentas que eu não conhecia.

– Isso aqui, Dylan, é um cortador de vidro. – ele vem até mim e me mostra a ferramenta. – Esse é pra vidro fino, mas tem uns que são melhores, que cortam até 19mm de vidro.

– É como o que você usou agorinha.

– É. Isso aí. E isso aqui é uma gazua, vou te ensinar como arrombar uma porta depois. Pode usar essas pra arrombar cadeados, portões ou qualquer coisa que tenha fechadura. Ou pode usar alguns grampos de cabelo, mas como eu sei que é ainda mais difícil achar esses grampos... vou te ensinar com elas. – ele explica e eu concordo com a cabeça.

– Tá. – respondo e ele sai andando.

– Sabe porque o Bruce me mandou vir aqui contigo?

– Por quê?

– Ele quer que você aprenda. Então, olha, eu posso te ensinar tudo o que eu sei. Eu posso fazer você ser quase como eu.

– Por que quase?

– Por que eu não quero tirar o seu espírito de herói. Uma pessoa com as habilidades do Bruce e sua cabeça, seria uma ótima pessoa para si, porque às vezes temos que fazer loucuras não programadas para salvarmos quem amamos. – ele responde, me olhando rapidamente nos olhos, enquanto continua andando até o final daquele corredor.

Continuamos andando, até chegarmos no cofre. Nele, Jean começou a digitar a senha, e depois de alguns segundos, a porta se destrancou. Quando aquela porta gigantesca se abriu, eu vi uma espécie de depósito imenso, cheio de bugiganga.

– Ele não era só seu amigo, era? – pergunto. Qual era a probabilidade de alguém dar acesso a um lugar daqueles para Jean apenas por amizade?

– Sim. Essa loja aqui é do pai de um dos meus melhores amigos. Ele me trazia aqui para mostrar as coisas que o pai tinha na infância, e na juventude, passei a vir aqui para comprar flechas. – ele diz, enquanto mexe em tudo. – Pega.

– O que é isso?

– Óculos de visão noturna.

– Pegou pra tudo mundo?

– Claro. Tem uns 12 aí.

– Como ele tinha isso?

– Coisas ilegais. Ele comprava quando o exército ia renovar os acervos. Tudo que tá aqui dentro, um civil não deveria ter. – ele explica. – Você tem muitas mascaras de gás?

– Duas só. E os filtros estão acabando.

– Pega essas. São de uso restrito. – ele me entrega várias máscaras de gás e eu vou colocando tudo na minha mochila, que era grande, então caberia muito mais coisa. – Coloca os filtros também.

– Pronto. – respondo.

– Tá pesado?

– Não.

– Vira, deixa eu ver se tem algo solto aí... tudo o que não precisamos é de uma bolsa fazendo barulho lá fora. – ele pede e eu me viro. – Não, tá tudo certo. – Agora vem aqui. – ele pede e eu o acompanho. – Pega esse arco e flecha, coloca na minha bolsa. – eu faço exatamente o que ele diz. – Vou colocar umas duas bestas na minha bolsa também, e aí você leva as flechas, pode ser? Pra você não levar muito peso.

– Tudo bem. – digo e ele continua catando tudo o que vê pela frente.

– Precisa de mais alguma cosia?

– Uma faca.

– Pensei que não gostasse de facas.

– Não é pra mim, é pra Beatriz.

– Por quê?

– Porque pessoas, hoje, fazem coisas horríveis com crianças como ela.

– Tá. – ele pega uma, colocando em sua bolsa.

Saímos do cofre e voltamos para a superfície da loja. Ele ainda pega pilhas, luvas grossas, botas e mais algumas coisas até sairmos da loja cheios de coisas. Vamos andando pela rua com passos pesados, por causa das coisas que estávamos carregando – e, consequentemente, mais devagar. Desviamos de cada zumbi que tinha aparecido diante de nós, e quando saímos da área cheia deles, voltamos a andar normalmente pelo campo – em direção ao acampamento.

Quando chegamos, a primeira coisa que Jean fez foi abraçar Beatriz e Amélia, que estavam, claramente, preocupadas.

– Onde eles estão? – pergunto, segurando o rosto de Amélia, que não sabe responder.

– Ainda não chegaram. – é tudo o que ela diz, e enquanto ela me olha, percebo que ela estava bem preocupada.

– Já está de noite. – comento, totalmente pensativo. Bruce não iria demorar, ele sabia que tinha que voltar antes do anoitecer.

– É, achamos que o Bruce preferiu ficar. – Hany responde a minha afirmação e eu penso um pouco, soltando Amélia. Enquanto eu pensava, Jean distribuía as lanternas que tínhamos pego.

– Vou atrás dele. – me preparo para sair, e Jean segura ao meu braço. – Está fazendo o que?

– Tira a mochila, come, pega o essencial e depois disso vamos juntos lá. – ele responde e eu respiro fundo, concordando com a cabeça.

"Jantei" o mais rápido que pude, com todos, e em seguida peguei a minha mochila, deixando apenas os óculos de visão noturna dentro dela. Eu preferi não levar lanterna nem nada que pudesse chamar atenção, porque eu não sabia se tinha mais gente daquele lado da cidade – e é melhor prevenir do que remediar. Não demorou muito tempo até sair dali com Jean, novamente, em direção a cidade.

– Se tiver acontecido algo... – ele começa uma frase, antes de entrarmos no mato alto que levava até a cidade, e eu o encaro.

– Não aconteceu. – respondo.

Chegando na cidade, já estava tudo totalmente escuro. Fomos andando juntos, passo por passo, devagar, com as bestas em mãos. A cada passo que eu dava, sentia ainda mais forte em meu nariz o cheiro de putrefação que os cadáveres dali causavam. Pisei em poças frescas de sangue – que mexeram com a minha cabeça –, mas não parei.

Cada batida do meu coração me dizia que eu tinha que encontrar Bruce logo, porque ele precisava de mim e eu não estava errado. Quando chegamos no mercado – que eles foram –, entramos com passos cuidadosos e, de cara, vi o corpo de Kat, nua, no chão, coberta de sangue, muito sangue, toda aberta. Seu intestino estava todo espalhado pelo local onde ela estava, e ela ainda permanecia de olhos abertos, com uma cara horrorizada Cutuquei Jean, que observou aquilo por alguns segundos, negou com a cabeça e me chamou para segui-lo. Algo realmente tinha acontecido.

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