Epílogo Final
Visão de Bruce
– O que você está fazendo? – pergunto a Dylan, que me olha, sorrindo em seguida.
– Estou limpando as coisas. – ele responde, enquanto lustra sua besta.
Atualmente elas não eram mais usadas para nos defender de qualquer tuberculum, elas eram usadas para missões que envolvessem libertação de reféns de bandidos – que eram muitos. Como as nossas bases estavam a cada ano mais fortificadas e eu conseguia controlar a maior parte das pessoas dentro delas, praticamente todas as nossas atividades eram voltadas para isso.
De pouco em pouco voltávamos, inclusive, a usar as infraestruturas que o mundo possuía antes de todo o caos causado por tudo o que aconteceu. Escolas, hospitais, quadras de esportes e espaços abertos voltaram a ter proveito para aqueles que já estavam se organizando para voltar a povoar o mundo de forma pacífica.
Grupos de seguranças armados, treinados pela minha equipe principal começavam a acompanhar as pessoas em suas rotinas e leis básicas eram respeitadas por todos que ficavam em nosso grupo de sobreviventes gerais. As pessoas tinham medo de desrespeitar, porque eles sabiam que só estavam seguros por causa do meu controle sobre os tuberculum. Tuberculum esses que vinham sendo cada vez mais estudados, a fim de encontrar uma forma de reverter os efeitos das infecções.
Acontece que até o presente momento, todas as pessoas que tinham os efeitos revertidos morriam, porque o corpo não tinha condições substanciais boas o suficiente para sobreviver. Atualmente, então, estavam começando o tratamento, primeiro, dando substâncias vitais para a sobrevivência humana – como nutrientes por meio de injeções – e mais testes vinham sendo feitos. De qualquer forma, encontrar uma "cura" ainda parecia distante.
No entanto, de forma geral, meu trabalho a cada dia que passava se tornava ainda mais difícil, porque até mesmo entre os sobreviventes que tanto tentavam se ajudar, existiam aqueles que faziam de tudo para passar alguém pra trás – e eram esses que ficavam sob responsabilidade da jurisdição que eu cuidava.
Meu trabalho atual, então, era cuidar para que nenhum "oficial" se transformasse por causa do poder – além de promover e organizar as grandes expedições de combate a criminosos que se mantinham contra o nosso grupo.
– Pra que? – pergunto a Dylan, que começa a limpar minha arma.
– Pra missão de amanhã, você disse que ia precisar pra conseguir ir na outra base. – ele explica.
– Você já falou sobre não querer que a Beatriz vá comigo? – pergunto e ele me encara por alguns segundos, voltando a limpar minha arma em seguida.
– Não. Acho que não posso me meter em assuntos seus com ela. Seria como queimar largada, querendo me aproximar... – rebate e eu sorrio. Era incrível que mesmo com tantos anos de convivência o Dylan ainda sentisse que estava distante de Beatriz, sendo que eles eram tão colados em missões.
– Você praticamente criou a Beatriz, é como se fosse um dos pais dela também.
– Ela já está crescida. – ele corta. – Fora que além de ser crescida ela também é uma mulher extremamente decidida e muito focada. É difícil pra pessoas autossuficientes se aproximarem de outras pessoas.
– Eu sou autossuficiente e sou seu homem. Uma coisa não anula a outra. Fora que ela sempre exige estar contigo nas missões ao invés de comigo. Só precisa perguntar se dessa vez ela vai ficar feliz em ser remanejada. Ela já passou da fase adolescente de te responder como uma idiota, você sabe... ela te pediu desculpa por tudo de chato que já te disse, não pediu? – rebato e ele fica me encarando, concordando com a cabeça, se aproximando em passos curtos e lentos, deixando a arma no balcão.
– Mas sabe o quão difícil foi me aproximar de verdade de você? – ele pergunta e eu sorrio.
– Imagino, mas agora eu não te largo. Você amou primeiro, mas eu amei mais. – ele me beija.
– Vou falar com ela. – responde e eu concordo com a cabeça, vendo Dylan sair da barraca.
Algum tempo depois que ele saiu, eu peguei minha carteira e fiquei olhando uma foto que estava nela, era uma foto de Amélia. Assim como Beatriz, se ela ainda estivesse aqui, já seria uma mulher. Ver aquela foto dela, então faz com que algumas lágrimas desçam de meus olhos. A cada dia me sentia a pessoa mais insuficiente do mundo por não ter conseguido protegê-la.
– Não pode se culpar pra sempre pelo o que aconteceu. – vejo Amélia sentada em uma das cadeiras que estava na barraca. Às vezes, quando eu estava muito mal, essa visão dela me vinha, como se ela ainda estivesse ali.
– Não é como se eu pudesse controlar. – respondo e ela respira fundo, como costumava fazer quando estava chateada com alguma atitude minha.
– É, mas eu morri para que você pudesse viver por si. – meus olhos se enchem de lágrimas. – Embora coloque muito o Dylan em suas prioridades, ainda assim não é como era comigo. Com ele você é saudável. Ele tem suas missões, tem sua vida, e você tem a sua. Comigo não era assim. Você sempre pensava em mim antes de tudo e isso ia acabar te consumindo, porque não seria sempre que poderia se dar a esse luxo. Muitas vezes tomou decisões burras na tentativa de me proteger, se colocou em perigo pra isso e quase perdeu quem hoje te dá forças para continuar. Até quando isso poderia continuar acontecendo sem que ele morresse? Uma vez o Dylan salvou a minha vida e me entregou de volta a você, acho que a minha única função, então, foi unir os dois.
– Sua função era ser a pessoa mais importante da minha vida. – rebato.
– Por isso me abraçou com força anos atrás quando eu ia chorar, porque vi Mattew ser devorado? Naquela época você tinha suspeita de que eles não te atacariam, certo? – concordo com a cabeça. – Mas não disse a ninguém, por isso Dylan pulou de um prédio para nos salvar. E assim como naquele dia, você, caso precisasse, morreria ou mataria quem fosse por mim. Você sobreviveria, mas hoje, Bruce, você vive. E eu preciso que você viva sem essa culpa, porque isso nada tem a ver com você. Perdas acontecem, irmão, e muitas vezes é apenas porque tinham que acontecer. – a alucinação de Amélia diz e eu encaro a foto mais uma vez.
Mesmo com essas alucinações às vezes, ver as coisas se resolvendo e a vida seguindo, me fazia sentir como se eu estivesse incompleto sem pessoas como ela e Hale ao meu lado. Acredito que se tivesse perdido Dylan, não conseguiria sentir mais qualquer resquício de alma dentro do meu corpo. E isso era curioso, porque só de pensar que há muitos anos eu sequer o conhecia, me sentia estranho. Como alguém que conheci na fase adulta conseguia me dar tanta força e tanto apoio?
– Conversei com ela, ela me disse que... – Dylan começa a falar entrando de volta na barraca, mas para quando me viro pra ele e ele percebe que eu estava chorando.
Ele, então, vem até mim e me abraça com força, sem dizer nada. Nesse momento, eu começo a chorar ainda mais, abraçando-o de volta com muita força. Por mais que na maioria das vezes eu mantivesse minha cabeça ocupada, justamente para que não pensasse sobre a minha incapacidade de proteger Amélia, às vezes o sentimento batia com uma força que eu não conseguia controlar. E nesses momentos, o único abraço que me dava conforto e conseguia me fazer parar de chorar, era o de Dylan.
Quando ele me solta, ao perceber que eu tinha conseguido diminuir o fluxo do choro, ele segura meu rosto, limpa minhas lágrimas com os dedões e dá um beijo rápido do meu nariz, o que me arranca uma risadinha. Ele, então, encosta nossas testas e fica me olhando.
– Eu não sei se... – começo a falar.
– Você pode fazer isso. – ele fala, me cortando, porque sabia exatamente o que eu ia dizer.
– Não quero que ninguém se machuque e vai ser uma missão grande de novo. – digo e ele sorri. – Sempre fico nervoso, principalmente porque na última grande assim, encontrei Jean. Tenho medo de encontrar mais uma vez algum fantasma do passado, porque não iria aguentar.
– Tudo bem. Sei que a missão é grande, mas não importa o que aconteça, é mais uma das várias que a gente vem fazendo com o passar dos anos. Libertamos pessoas boas de pessoas verdadeiramente ruins. Às vezes temos que tomar essas decisões difíceis, mas tudo vai ficar bem. – confirmo com a cabeça, o tom seguro de Dylan me acalmava.
– Padrinho, eu trouxe seu... vish, volto mais tarde. – Beatriz fala, dando a volta.
– Não, podem se resolver. Eu tenho que verificar algumas atividades dos outros grupos de busca. – Dylan responde, me dando um selinho e passando por Beatriz. – Você vai mesmo me ajudar na coordenação, né?
– Claro, vou só repassar o plano de viagem pro Bruce e já te entrego. – ela responde, atentamente e ele confirma com a cabeça.
– Ótimo. Obrigado. – respondo.
– Não precisa agradecer, dindo. – ela responde ele continua andando, até sair da barraca.
– Tenho ciúmes quando você o chama de dindo e me chama só de padrinho. Sei que o Dylan é mais amoroso, mas eu sou carente e ciumento também. – digo e ela sorri, um pouco desconcertada.
– Ele chorou quando o chamei assim pela primeira vez, você não, então achei que ele merecia mais. – ela rebate.
– Conversaram sobre a discussão do mês passado? Ele, mais cedo, estava um pouco chateado pela missão de amanhã ser ramificada e você ficar na minha equipe. Não gostei da forma como olhou pra ele semana passada. Entendo que talvez goste bastante do Dylan e muitas vezes perca a mão, mas não gosto que ele se sinta diminuído por você. Ele não merece e eu fico realmente bem insatisfeito com isso.
– Ele disse, a gente se resolveu. Entendi que fui uma babaca, ele só quer me proteger e me ter em sua equipe. Me desculpe por te fazer mal também, você sabe que eu tenho questões de personalidade que tento mudar, mas às vezes isso se sobressai. – ela responde e eu concordo com a cabeça. – Fora que também gosto muito de trabalhar com ele, é melhor do que com você.
– Por quê?
– Porque você é superprotetor. Entendo seus traumas, mas eu tenho 22 anos e uma boa parte desse tempo eu peguei em armas. Na verdade, desde a infância. Sei que não regenero e muito menos controlo zumbis, mas sei me virar. – ela rebate e eu fico encarando-a. Aquilo era inacreditável.
Beatriz tinha crescido sempre em contato com muita violência e às vezes eu esquecia que quem a treinou fui eu e não apenas isso. Eu a treinei, eduquei e alimentei. Mesmo assim, hoje, pra mim, ainda era difícil deixá-la procurar o que queria fazer e onde queria ir, porque sempre me vinha na memória a cena de Amélia morrendo. Não queria que ela tivesse o mesmo destino, mas por mais que por fora eu conseguisse ser controlado, às vezes o meu coração não me permitia ser livre.
– Eu sei que sabe. – respondo. – Aliás, gostei bastante desse corte, mas não gosto desse cheiro de álcool. Não beba hoje. – ela tinha cortado o cabelo curto, chanel.
– Pode deixar, meu gato. – ela rebate em tom irônico e eu sorrio.
Depois dessa conversa, começamos a terminar as distribuições de atividades e depois disso, como já estava a noite, me preparei para dormir. Assim que cheguei na minha barraca para descanso, vi que Dylan estava sentado na cama, com um bolo pequeno no colo, com uma vela nele. Eu, então, sorri e me sentei ao seu lado.
– Pensou que eu tinha esquecido? Nunca esqueço seu aniversário e sou grato por poder comemorar mais um ano ao seu lado. – ele comenta e eu concordo com a cabeça, assoprando a vela e fazendo um pedido. Ninguém, fora ele, sabia do meu aniversário. Por mais que algumas pessoas soubessem a data e tudo, eles acreditavam não ter moral para me desejar feliz aniversário, ou simplesmente não se importavam com isso. No geral, no entanto, eu ficava muito feliz do Dylan sempre me fazer uma surpresa. Me sentia verdadeiramente especial por ser ele fazendo isso por mim. – Pediu o que?
– Pra ter mais uma ótima transa com você hoje, antes da missão estressante de amanhã. – respondo e ele sorri, colocando o bolo de lado e me empurrando na cama, subindo em cima de mim.
– Leve a Amélia com você amanhã, tá? – ele pede e eu concordo com a cabeça, olhando-o.
– Sim. Mesmo que eu não a use, vou levar carregada. – respondo e ele sorri, me puxando e me beijando, enquanto tiramos nossas roupas.
Anos atrás, Dylan me disse que sua besta se chamava Cecil, porque ele queria fazer com que a irmã matasse as coisas que a mataram e com Amélia, hoje, era igual. Agora minha arma, com seu nome, matava todos os ladrões que passavam pela minha frente e me motivava a não parar nunca com esse trabalho que era difícil e estressante, mas muito necessário. Ela exterminaria toda a raça de idiotas que tinham assassinado ela e eu me certificaria de não parar até que o trabalho estivesse totalmente completo.
E sim, isso pode fazer de mim uma pessoa ruim, mas a questão maior é que eu simplesmente não me importo com o que os outros acham. Jamais faria algo ruim com uma pessoa boa e essa era a minha regra em campo, de resto, não tinha regras além da missão de trazer todos os presos pelos ladrões de volta.
Eu sempre fui uma pessoa que esteve em campo, porque queria fazer o bem e desde que não comprometesse isso, eu faria o que estava dentro do possível e impossível para ajudar as pessoas. Isso tudo, porque eu sou Bruce Scott, o tuberculum 001 sobrevivente e estou trabalhando arduamente com outras pessoas, para que o mundo volte a ser menos cruel com quem ficou, como era antes de todo esse Caos. E você, o que está fazendo para que ele não mate todos que ainda estão aí?
-Encerramento oficial da obra-
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