Epílogo
7 anos mais tarde
– Bruce... – o chamo e ele se vira pra mim. – O grupo que estamos procurando tem um líder que você vai querer ver. – ele vem andando em minha direção.
Bruce não tinha mudado muito de alguns anos para cá. Continuava o mesmo homem imenso com voz grossa e olhar provocativo. A diferença, é que ele agora tinha uma cicatriz que começava pouco acima da sobrancelha e descia por ela, causando um risco ali – tipo aqueles que eram moda entre os jovens do inicio do século, mas dessa vez era algo que ele não tinha escolhido ter e não tinha como mudar.
Talvez, uma das coisas que mais mudou em Bruce, no entanto, foram seus braços. Eles já eram grandes, mas a cada ano que passava eles ficavam ainda maiores, provavelmente por ele fazer esforços físicos cada vez maiores ao longo do tempo. O que importa mesmo é que esse tamanho todo dele fazia qualquer companheiro de equipe nosso tremer na base quando o via ficar sério e de braços cruzados.
Outra coisa que eu tenho que preparar vocês para conhecer nesse período de nossas vidas, é que o nome de Bruce circula entre muitas pessoas agora. Em 7 anos construímos um respeito e medo – por parte de pessoas que iam contra nós –, que só dava para entender quando estávamos em operação.
As histórias de um homem que conseguia se curar de qualquer ferimento correram mais longe do que pensávamos que correria, e eu não me admirava, porque uma vez que você vê o que Bruce é capaz de fazer com raiva, a marca mental é eterna e você, definitivamente, não quer provocá-lo para não ver ele daquela forma novamente.
– Quem é? – ele pergunta, assim que chega bem perto de mim.
– Bom, aqui temos um grupo de ladrões com 7 integrantes, acredito que eles fazem parte de um grupo imenso, onde sequestram crianças e pessoas que estão entrando no país, por causa do aviso mundial da base expansiva do Texas. – explico, mostrando algumas fotos tiradas de outros dos nossos homens. – Como eles não podem se aproximar do estado por causa da nossa guarnição, eles cercaram e capturam todos os imigrantes do mundo.
– Canadenses estão descendo também?
– Claro. – ele me olha brevemente. – O país não está mais oferecendo auxílio a sua população. Acho que a gente tem que entender que o mundo já acabou e quem ficou é responsável pra limpar a sujeira e fechar a porta.
– Padrinho... – Beatriz se aproxima.
Ela também tinha mudado. Beatriz não era mais a criança que vocês conheceram. Ela, agora, estava caminhando para os 17 anos e era alta, com cabelos curtos e roupas próprias para combates em campo. Além disso, o maior passatempo dela era luta, junto com jovens da sua idade. É, muita coisa mudou.
– Oi... – Bruce pergunta a ela.
– Peguei munição de sniper que pediu para que eu pegasse. – ela estende a mão e ele pega a munição, agradecendo a ela com a cabeça.
– Nós, então, vamos de encontro a eles? – pergunto, assim que ela sai.
– Claro. – ele conclui, me entregando as fotos e pegando sua sniper, para recarregá-la, apoiando-a sobre o balcão. – A gente tem que aproveitar nossa volta para esse lado do país, aproveitar que estamos do lado largo da base.
– Bruce, posso conversar com você de verdade, sem que você se concentre em outra coisa para não demonstrar que está preocupado? – pergunto, de braços cruzados e ele deixa a arma em cima do balcão, me olhando nos olhos.
– Claro, amor. O que aconteceu?
– Acho que você conhece o líder desse grupo.
– O que? Tá falando o que? – ele pergunta, cruzando os braços. Eu conhecia aquela pose, mas ao contrário dos outros, eu não tinha medo de Bruce surtar comigo ou algo do tipo.
Espero que entendam que os nossos companheiros não tinham medo do fato de Bruce ter uma relação íntima com tuberculum. Eles tinham medo que ele se estressasse e quebrasse todo mundo na porrada – e, por isso, eles só perguntavam o que era essencial, para que ele não se sentisse sufocado por ninguém. E esse medo era entendível, porque ele, quando estava com raiva, passava de um homem centrado e calado para um homem que conseguia arrancar o braço de um inimigo na mão se tivesse vontade – então era realmente bom evitar frustrá-lo.
– Eu... achava que tinha matado ele há alguns anos. – começo e Bruce me observa com o olhar semicerrado
– Tá falando o que?
– Olha. – entrego a ele uma foto e Bruce fica observando-a por alguns segundos.
– Beatriz não pode ir com a gente. – ele conclui.
– Estava pensando em deixar ela com o Jonas.
– É. O Jonas, Sahil, e os menores de 18 anos ou com ressalvas. Acho que ela não vai querer ver eu matando o Jean e o extermínio que vamos fazer é demais pra cabeça de todos os outros também. O corte, nessa missão, vai ser largo.
– Pra ser bem sincero ele nunca foi pai dela, então... – começo, mas ele me interrompe.
– Não é assim que funciona. – olho nos olhos de Bruce. – Eu que acalmo ela quando se sente mal por não ter se despedido do pai. Pelo menos, ela achar que o pai já está morto ajuda e muito no fato de eu não precisar dar essa notícia a ela.
– Tá.
– Vou dividir nossas equipes em 21. As cidades maiores e com um índice mais amplo de ladrões vão receber 2 grupos, enquanto as menores vão receber um dos nossos grupos pra fazer a limpa. Eu vou na equipe que vai lidar com o centro do grupo deles, se o Jean tem que morrer, sou eu que vou matá-lo. – Bruce dá as regras.
– E eu vou na sua? – pergunto.
– É claro, em qual mais iria? Sempre juntos, lembra? – sorrio, vendo-o sorrir em seguida.
– Lembro. – respondo e Bruce me entrega a foto, indo até a sua sniper em seguida.
Ele se distancia, em passos pesados e com pensamentos inquietos que eu podia ouvir, mesmo que estivesse cada vez mais distante dele. Eu, então, olho mais uma vez a foto de Jean, que estava com cabelos cumpridos e barba curta. Uma vez eu ouvi do meu pai que "vazo ruim não quebra" quando ele estava se referindo a um juiz corrupto que tinha levado 6 tiros e tinha sobrevivido mesmo assim depois de 12 cirurgias. Nunca entendi o que ele queria dizer com aquilo, até ver aquela imagem de Jean vivo e segurando uma arma – foto essa que tinha sido tirada por um dos nossos homens também.
E vamos lá... o que vocês precisam saber sobre a nossa realidade atual, é que com o passar dos anos Bruce foi organizando cada vez mais o nosso grupo, até alcançarmos um patamar de bons soldados. A política de treinamento dele era a seguinte: ladrão e traficante humano é alvo, tuberculum não é perigo.
Isso, porque com o passar do tempo ele começou a se comunicar bem com os tuberculum, a ponto de fazer com que eles não nos atacassem mais. É, eu sei. Bruce tinha uma capacidade muito maior de fazer isso, e com o tempo ele acabou até mesmo fazendo parte de pesquisas dentro do nosso grupo, que fazia com que ele, se comunicando com cada tuberculum, tentasse trazer a sanidade das pessoas de volta.
É claro que por diversas vezes, o máximo que ele conseguiu foi fazer com que o tuberculum que tinha se comunicado com ele não nos atacasse mais – e ele conseguisse nos reconhecer pelo cheiro. Esse controle dele com essas criaturas era tão real, que quando ele conversava com algum, ele se sentava nas macas e eram feitas pesquisas sanguíneas nele sem que o zumbi se mexesse.
De qualquer forma, nenhuma dessas pesquisas ousava a ameaçar Bruce de qualquer forma. Eles se tocaram que era melhor ter ele como aliado, desde que foi visto os restos de Kyle morto. Era completamente compreensível o medo que todos os pesquisadores tinham de acabar da mesma forma que ele – assim como os outros soldados que estavam ao nosso lado.
Mas não pense que essas pesquisas começaram há muito tempo, porque Bruce só voltou a pisar no grupo de sobreviventes 4 anos depois de todo aquele último confronto – que resultou na morte de Amélia. Ele não queria muito ter contato com ninguém, mas por conta do crescimento do nosso grupo, decidimos querer saber se alguém dos sobreviventes viriam conosco.
Jonas, Beatriz e Sahil aceitaram. Eles ainda eram adolescentes – alguns entrando na fase adulta agora –, mas com a permissão dos pais eles vieram conosco – menos Beatriz, afinal Bruce era seu padrinho e ele mesmo a aceitou no grupo e permitiu que ela fizesse parte. Bruce, então, com isso, na mesma época, permitiu que parte do seu sangue fosse coletado para novas pesquisas e esses testes começaram.
Foi descoberto que tuberculum também eram ótimos com cheiro, embora levassem em consideração, primeiro, os sons. Com essa descoberta, começaram pesquisas sobre Bruce poder educá-los a não atacar quem faz parte do grupo de caçadores – e por mais incrível que pareça, isso deu certo.
Com esse avanço, todos os lugares que passávamos ficavam marcados com nosso cheiro, então era seguro que passássemos por meio dos tuberculum sem sermos atacados. Mas não pense que foi fácil e rápido. Eu sei que tudo parece tranquilo quando eu conto, mas não quer dizer que foi. Muitas vezes esse experimento deu errado, o que fez tuberculum conseguir atacar gente do nosso grupo e Bruce ter que gritar cada vez mais par controlá-los.
Mas é, depois de mais de 2 anos tentando, conseguimos. E com esse sucesso começaram a diminuir os tráficos de pessoas e roubos pelo sul do país – além disso, as nossas forças tarefas foram unificadas e Bruce começou a trabalhar, de fato, com a base de sobreviventes, crescendo cada vez mais a sua popularidade no país. Tudo isso foram processos de evolução, até que chegamos no ponto que estamos hoje: no último ano, vários avisos pelo mundo foram espalhados, avisando que o estado do Texas estava livre de todos os tuberculum e que um acampamento de sobreviventes tomava conta do estado.
E sim, realmente estava. Depois de um intensivo, de Bruce atraindo os tuberculum para fora do estado, todas as cidades estavam limpas dos zumbis. O maior problema, é que com esse anúncio, os ladrões começaram a se posicionar nas fronteiras dos outros estados, esperando os sobreviventes do mundo todo que vinham pra cá – para capturá-los, porque, por mais que pareça louco, o tráfico humano, de órgãos e de pessoas tinha aumentado muito.
Quando foi descoberto esse fato, descobrimos, inclusive, que o grupo de Louisiana estava envolvido nisso. Com isso, nossa equipe atual decidiu impedir que mais abusos como esse acontecessem. Atualmente Bruce lidera uma equipe com mais de 600 soldados de campo – fora os que fazem a segurança da base e de algumas cidades intactas – divididos em 24 sub-equipes. Todos eles têm, em sua equipe individual, 25 pessoas, com pelo menos um médico, um enfermeiro, um atirador de elite, um atirador de armas medievais – como flechas e bestas –, um rastreador e um auxiliar de combate – que geralmente era a pessoa que mais conseguia carregar peso. Os outros, então, eram atiradores de combate.
Os jovens tinham a participação de auxiliares de atiradores. Eles não contavam nas equipes oficiais, porque nenhum jovem com idade igual ou menor de 20 anos era fixo nas equipes. Dependendo das missões eles poderiam ser cortados – e, mesmo assim, tínhamos cerca de 250 jovens loucos para envelhecer e pegar um cargo efetivo em alguma equipe.
A cada ano nosso grupo aceitava inscrições de pelo menos 50 novos soldados, onde apenas 20 eram aceitos, dependendo das agilidades e dos conhecimentos em diferentes áreas, porque todo conhecimento era válido. Bruce pessoalmente avaliava os testes, e mesmo que eles não fossem tão pesados como os da finada SEAL, não quer dizer que eram fáceis – e vale dizer que ninguém tinha obrigação de fazer parte, acontece que, por causa das histórias, todo mundo queria.
Com os jovens os testes eram pouca coisa mais leves. Enquanto adultos tinham que correr por 2h seguidas, jovens maiores de 15 anos e menores de 20 tinham que correr pela metade do tempo. Enquanto os testes de tiro, com adultos, eram feitos com snipers imensas, os de jovens eram com, no máximo, pistolas. Mas é aquilo: ninguém era obrigado a ficar ou, depois de entrar, era obrigado a continuar até envelhecer. Eles podiam entrar com qualquer idade e sair a qualquer momento.
– Bom dia a todos. – Bruce cumprimenta a todos que estavam na área de reuniões.
– Bom dia, senhor. – todos os soldados respondem.
– Hoje começamos a maior missão de todas que já enfrentamos. – Bruce começa a explicar. Ele estava sobre um palco que tinha no meio de uma das áreas planas da cidade. Todos os soldados que estavam na área central da base assistiam o que ele tinha para dizer, atentos, curiosos em relação as novidades. – Temos, atualmente 24 equipes com soldados exemplares aqui, o que me orgulha muito. Desejo que cada líder de sua equipe se apresente com um passo a frente, em formação. – ele pede e eles fazem. – Imigrantes do mundo inteiro estão sendo capturados por ladrões na divisa do estado. Vocês têm consciência disso?
– Sim, senhor. – os homens respondem, em conjunto.
– Ótimo. Hoje é o dia que iremos acabar com esse grupo de uma vez por toda. As cidades que cada grupo daqui atuará são: Brownsville, McAllen, Laredo, Eagle Pass, Del Rio, Sanderson, Marfa, Sierra Bianca, El Paso, Kermit, Brownfield, Farwell, Dumas, Canadian, Lipscomb, Vernom, Wichita Falls, Paris, Marshall, Jasper e Beaumont.
– Tem 21 cidades, senhor. – um dos soldados comenta.
– Eu sei. É porque a cidade de Dumas vai precisar de 2 equipes, assim como a de Paris. – Bruce responde.
– Por quê? – outro soldado pergunta.
– Porque a maior incidência de ladrões é nessas cidades. O que importa, é que vocês matem todos eles. Ladrões não merecem nenhum tipo de piedade e sempre que vocês pensarem "coitados", lembrem-se que muitos de seus colegas tiveram as irmãs, mães e mulheres estupradas por esses caras, filhos sequestrados e irmãos mortos. Todo cidadão não armado ou rendido merece perdão, mas os ladrões que vão trocar tiros com vocês, não. – Bruce explica.
– Sim, senhor. – todos respondem, em conjunto.
– E se algum ladrão, nessa operação, pedir misericórdia? – um dos rapazes pergunta.
– Todo ladrão que se render e pedir misericórdia merece um voto de perdão. Peça que ele desça para a base de sobreviventes. Se tiver dúvida para tal perdão, lembre-se que muitos dos colegas de vocês, aqui, hoje, saíram de grupos de ladrões no passado. Para querer entrar, basta a vontade de não querer o mal de outras pessoas. – Bruce responde.
– E os líderes? – outro rapaz pergunta.
– Esses vocês atiram até mesmo se pedirem perdão. Uma coisa é você ser massa de manobra sem raciocínio próprio, influenciado por caras que se chamam de ditadores e de lei, outra coisa é você ser o cara que se chama de ditador e de lei. Entendido?
– Sim, senhor. – todos respondem, em conjunto.
– O balanço com a cidade de cada um de vocês está sendo feito e no fim da tarde serão disponibilizados. Aproveitem esse tempo para pegar munição, colocar óculos de visão noturna, tomar banho, colocar roupas quentes e botas que não estejam furadas. As listas de selecionados e vetados desta operação conta com a verificação de cada um. Se tiverem dúvida, vocês sabem onde me encontrar. Estão dispensados. – Bruce termina e todos começam a fazer suas atividades.
– Vai ser um belo banho de sangue. – comento.
– Nada que a gente já não tenha feito. – ele responde, vindo até mim.
– É.
– Você ainda me deve a massagem. – ele comenta, fazendo carinha de cachorro sem dono e eu sorrio.
– Gosta de estar no exército mais uma vez? E tipo, agora liderando eles? – pergunto e ele respira fundo.
– Chama isso de exército? Eles não batem continência pra ninguém além da vida das pessoas. E pode até parecer irônico isso, mas eu trabalhava para esconder as cagadas do estado. Eu levava tiro para que as pessoas não descobrissem que o seu país estava preocupado com lucro e com a economia, e não com suas vidas. Aqui eu mato todos aqueles que sequestram e fazem mal a vida humana.
– Eu entendo você. Digo mais por questão de vestes e ações.
– Acontece que uma coisa eu tenho que admitir: exército te dá um senso de ordem imenso, sabe? Pessoas disciplinadas escutam mais e são mais produtivas. O exército te dá isso: a hora de falar, a hora de agir, a hora de tudo. E isso faz com que você saiba se manter no controle do seu corpo. Então sim, eu uso o modelo de organização do exército, mas não por sentir falta dele, e sim porque ele é o que mais dá certo.
– Acho impressionante a quantidade de gente que você consegue liderar. – digo, me aproximando dele e passando minhas mãos por cima de seus ombros.
– Gosto de falar com eles e ir para o campo. Gosto da sensação de ter a minha opinião válida e até rebatida quando tomo alguma atitude estúpida, sem um monte de olhares de medo. E depois disso, eu gosto de sair daqui e atirar em gente babaca que não vale nada. – ele responde e eu o beijo.
Sim. Bruce e eu estávamos juntos há anos e eu não me via sem ele de forma alguma. Ele, claro, ainda sofria e muito com a morte de Amélia, mesmo que tentasse seguir adiante. Ele andava com uma foto dela no bolso, uma foto que antes ele mantinha dentro de uma das caixinhas de aço onde ele guardava agulhas, linhas e coisas que as pessoas usavam para costurá-lo. Sem contar que, muitas vezes, ele tinha pesadelos com a morte dela, e isso já tinha virado rotina.
O que importa, no entanto, é que ele estava conseguindo levar. As pessoas no nosso sub-grupo não se importavam com as coisas estranhas de Bruce, muito pelo o contrário. Ao invés de ter medo ou de olhar ele como um monstro, eles o olhavam como a pessoa que queriam ter por perto, porque ele era protetor e controlava os zumbis – então eles finalmente puderam entender a importância de Bruce sem julgá-lo.
Mais tarde naquele dia saíram as listas de pessoas convocadas e foram quase todos, menos os jovens de 20 anos pra baixo – o que era de se esperar para uma missão tão sanguinária –, mas isso deixou uma garota específica furiosa, garota essa que veio furiosa até nós, enquanto estávamos debatendo sobre as funções de ataque, empurrando Bruce com as duas mãos em seu peito.
– O que foi? – Bruce pergunta.
– Por que eu não fui convocada?
– Nem você nem o Jonas, nem o Sahil, nem os outros 200 jovens que tem aqui... tá chateada por quê?
– Por que não? – Beatriz questiona, completamente puta de ódio.
– O que quer lá, Beatriz?
– Quero ser útil.
– Vai ser. É por isso que tem uma oficina de montagem de armamento, médico e de socorro imediato para vocês... aqui. – Bruce responde, voltando a conversar com um dos soldados e eu fico observando aquilo.
– Padrinho, eu estou pronta. – ela diz e ele para mais uma vez, prestando atenção em Beatriz.
– Não duvido que esteja. É que nessa missão eu não quero vocês.
– Isso é um boicote explícito.
– É, é sim. – Bruce conclui.
– Senhor... – Trevor, filho mais velho de um dos soldados se aproxima.
– Que isso, Trevor, pode me chamar de Bruce. Você sabe que essa formalidade de "senhor" é apenas em formação no pátio pra manter a ordem nas horas importantes. – Bruce o corrige.
– Desculpe. – ele sorri. E eu observo o jeito como Beatriz observava Trevor, que parecia concentrado, com aqueles olhos cor castanho claro observando Bruce. – É que eu vou completar 21 anos amanhã, e queria saber o motivo pelo qual eu não fui selecionado.
– Não foi selecionado, Trevor, porque o seu pai não quer que vá e eu respeitei a decisão dele. – Bruce responde, curto e grosso.
– Bruce... – ele tenta falar, mas é interrompido.
– Trevor, eu espero que você respeite também. – Bruce diz e o rapaz o olha nos olhos por alguns segundos, concordando com a cabeça em seguida.
– Claro. – ele diz.
– Não é que ele não confie em você, é que ele tem muito medo de perdê-lo em um combate tão pesado. Você, Beatriz, Sahil, Jonas e os outros 200 jovens que vão ficar, ficarão em um treinamento intensivo e em oficinas. Quando voltarmos, vou avaliar vocês para missões de campo mais sérias.
– As áreas de treino em campo ficarão abertas? – o rapaz pergunta, claramente mais animado.
– Com certeza. A de escalagem e de natação também. Aproveita para melhorar suas habilidades na água, com certeza vou querer você na minha equipe especial. Considere como presente de aniversário. – Bruce conclui e ele concorda com a cabeça, sorrindo.
– Sim senhor, muito obrigado. – ele dá as costas e sai. Bruce, então, me dá uma leve olhada e ri um pouco, pela empolgação do rapaz.
– Limpa a baba, Beatriz, ou vai sujar o garoto. – digo e ela me encara.
– Cala a boca, Dylan.
– Queria reclamar do que? – Bruce pergunta e ela levanta mais o rosto, negando com a cabeça.
– Nada. – Beatriz responde.
– Você não precisa de um cara na sua vida. – Bruce comenta.
– Eu sei, a questão é que eu quero. – ela rebate.
– Pensei que gostasse da Zuc. – digo, enquanto ela se afasta de nós.
– Eu gosto dos dois, se eu pudesse ter os dois eu teria.
– Um crush em cada escalão? – Bruce grita.
– Sou prática, assim não preciso andar muito pra encontrar um romance. – Beatriz responde e começamos a rir. Ele, então, voltou a se concentrar em detalhes sobre a operação, sem ser interrompido novamente.
Naquele dia, saímos no grupo 5, que ia para Kermit. E como sempre eram as viagens com Bruce: nós parávamos por poucas horas para comer, e o resto do tempo continuávamos andando. A base de sobreviventes era grande, começando na cidade de Midland e ocupando todas as cidades do centro do estado do Texas. As cidades que não estavam incluídas na base, estavam com controle de outros soldados – menos das próximas as fronteiras.
Mas não se engane. A base de sobreviventes não tinha apenas soldados, armas e muita guerra. Ela começava a ter escolas, atividades educacionais para crianças, áreas de plantio e até mesmo uma gincana anual, que imitava as olimpíadas. Outras atividades comuns que começaram a se formar na base foram espetáculos de teatro – já que os cinemas tinham se acabado junto com o resto do mundo – e espetáculos de dança e canto. Então era isso, de pouco em pouco íamos construindo algo seguro, com água limpa e comida fresca.
Com horas de caminhada, quando chegamos em Kermit, percebemos que a cidade estava vazia, mas não por muito tempo. Isso, porque não demorou muito até que grupos de ladrões começassem a atirar, sem aviso prévio. Eles estavam de uma ponta a outra na avenida principal da cidade, atirando sem parar e avançando.
Toda a equipe, então, se protegeu atrás de alguns carros abandonados e ficamos ali, marcando como iríamos acabar com cada um dos caras que estavam ali. Uma verdadeira guerra começou, com tiros para todos os lados, e o sniper do nosso grupo teve que se posicionar na varanda de uma das casas para atirar em um dos caras que começavam a avançar. Ele, depois de matar um, acabou levando um tiro na perna e teve que parar.
Quando Bruce se deu conta da situação, começou a se focar nos homens que estavam ao redor de Jean. Um a um, fomos matando os caras que estavam ali com balas certeiras, até que ficou um. Justamente o que Bruce queria dar fim, e que, por isso, levantou a mão e começou a falar – sem sair de trás do carro.
– Para de atirar! – Bruce grita.
– O que? – o homem pergunta e Bruce fica de pé. – Bruce? – quando os tiros param, enquanto Bruce resolvia suas questões, os outros corriam até nosso sniper, para dar auxilio a ele.
Quando o ferimento da bala foi coberto – temporariamente – até que chegássemos na base para ser tratado, o médico do grupo fez um sinal de "beleza" e eu voltei a prestar atenção no papo de Bruce com Jean.
– Pensou que eu tinha morrido, né?
– Eu nunca me perdoei, Bruce. Nunca. Você sempre foi e sempre será o meu melhor amigo.
– Jean, para com isso. Você não teria me dado uma flechada se não tivesse tentado atingir o Dylan. – Bruce rebate e eu encaro Jean, que me olha com o pior olhar de desprezo que eu já fui olhado na vida. Mas não é como se eu ligasse, afinal, não ser uma boa pessoa aos olhos dele era uma honra pra mim.
– Eu sei, e me arrependo muito disso também.
– Assim como se arrepende do que fez com o Hale?
– Que isso, Bruce, você sabe que eu não sou esse monstro. E falar em Hale, como ele está?
– Ótimo. – é claro que Bruce não daria o gostinho doce na boca de Jean, de saber que Hale estava morto.
– É claro que está. – Jean comenta, como se falasse para si mesmo. – E a Beatriz?
– Não fala o nome dela. – Bruce ordena. Ele estava mais ou menos a 4 metros de distancia de Jean.
– Eu ainda tenho esperanças de conseguir vê-la mais uma vez e dizer que mesmo com todos os meus erros eu a amo.
– Você ia vendê-la. Aliás, como você tá vivo?
– Depois que vocês saíram, outros ladrões chegaram. Eles viram que só eu estava agonizando, quase morto e me socorreram. Deus me deu mais uma chance, Bruce.
– É, tô vendo. – Bruce respira fundo. – E eu, como o diabo que sou, tô tirando ela de você. – ele aponta a arma para Jean, que tenta levantar a dele também, mas antes que ele consiga fazer qualquer ação, Bruce dá um tiro na testa de Jean, fazendo-o cair de costas no chão. – Agora sim essa merda acabou.
CAOS
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