@ZildaMariano - Olhos de Luar
— Tá pensando na morte da bezerra, menina? Termina logo que hoje ninguém pode chegar perto dela depois que a lua aparecer no céu. Tem que deixar tudo lá antes.
Marília amassava o amido de milho e a manteiga, tomando cuidado para acertar o ponto que a avó ensinara. Isaura, a mulher corpulenta estava naquela cozinha desde que se entendia por gente. Ensinava agora à neta o que havia aprendido com a mãe.
— Vovó, por que ela sempre fica assim?
— Isso não é assunto pra criança.
— Eu já tenho 11 anos. E só perguntei por que ela fica daquele jeito. Nem parece a mesma pessoa de sempre.
A mulher enxugou o suor da testa e olhou os olhos castanhos e atrevidos da menina. Riu do jeito tão parecido com o seu próprio, muitos anos antes. Colocou o tabuleiro de biscoitos no formo e se virou para a menina.
— Já ouviu falar no seu tio-avô Tião? – a menina assentiu.
Nunca que eu vou esquecer aquele inverno, quando eu ainda era mocinha. ‘Tava enrabichada pelo Joaquim, da fazenda vizinha, por isso, Tião me levava pra todo canto, só pra não me deixar sozinha e dar chance de eu encontrar com ele. Numa noite, ele foi beber com o povo na venda. Aquela gente toda gostava de ficar até tarde contando história, cantando moda e dando risada. Ele era quem juntava todo mundo, queria deixar todo mundo feliz. Não tinha uma alma nessa Vila Propício que não conhecesse e gostasse dele, levava os maridos de volta pras mulheres depois de beberem demais, dava conselho pros meninos novos e ajudava os velhos que não conseguiam mais trabalhar na enxada. Até o pai de dona Juliana tratava ele com respeito e confiava em tudo o que ele dizia. Era o orgulho da nossa mãe e cuidava da gente desde que o pai morreu, quando eu ainda era pequena e ele um meninote. Foi pra lida cedo pra pôr comida na mesa. A cantoria na venda tinha ido até tarde e a gente estava indo embora, um cavalo para cada um, pela estrada da fazenda. Foi aí que ela apareceu. O carro parado, no meio daquela escuridão, o capô aberto e a moça encarando o motor. Ele deu aquela risada custosa antes de falar com ela.
— Perdida, moça? – ela respondeu alguma coisa com a cabeça lá dentro e a gente não entendeu nada. – Faz o favor de mostrar a cara antes de falar com a gente.
— Eu disse que não estou perdida. Essa fazenda é do meu pai. Vim dirigindo de Goiânia pra cá porque queria fazer uma surpresa. O carro é que resolveu parar de funcionar antes de eu chegar lá. – ele ficou olhando pra ela sem falar nada. Parecia que tinha visto uma aparição. Eu que tive que falar.
— A casa não ‘tá muito longe, o Tião te leva lá ‘de cavalo’. Eu vou pra casa daqui.
— Não senhora, espertinha. Você vem junto. – ele ‘tava muito bravo com aquela história do Joaquim.
— Mas e o carro?
— Eu não sei consertar carro, moça. Sobe aqui e depois seu pai resolve o resto. Ninguém vai roubar esse negócio aqui. – ela entrou no carro, pegou uma mala e subiu na garupa dele.
Nunca vi o Tião tão quieto. Não fez uma graça, não reclamou de nada, só ficou olhando a moça entrar na casa e voltou pra nossa, todo calado. Ela era muito bonita mesmo, o cabelo quase branco de tão loiro, o olho cinzento, cara de boneca e aquele jeito de mulher de cidade. Ele ficou meio bobo.
Ele passou um bocado de dias quieto demais. Ia do corte de cana para casa, atendia alguma ordem do doutor Augusto, mas nem ficava de conversa com ninguém. Eu já trabalhava na cozinha daqui com a minha mãe. ‘De noite’, ele ficava no alpendre só olhando pra lua, pensando na vida. Numa noite dessas, a gente escutou uma conversa lá e era ela, sentada no chão, dando risada com ele, contando histórias da faculdade. Pegou o cigarro dele e deu uma pitada, ele ria e prestava atenção de um jeito diferente. Já tinha visto o Tião com as moças, não era daquele jeito. Ele foi pra dentro, pediu benção para a nossa mãe e foi direto para o quarto e assim a coisa se repetiu por uns dias. Ele jantava, ia para o alpendre e logo ela chegava com as histórias e risadas e ai de mim se chegasse lá, ele me expulsava só com uma olhada.
Um dia, chegou visita na sede. Dr. Gilberto veio com Gustavinho, o filho mais velho, formado engenheiro. Moço bonito, barba bem feita, cabelo bem penteado que parecia molhado, olho verde. Chegou todo bem vestido de paletó e calça bege, sapato engraxado. Lancharam na sala chique, aquela que ninguém nunca usa. Dr. Augusto mandou ela mostrar a propriedade para o rapaz e ela foi. Pisando duro, mas foi. Passaram pelo jardim para os chiqueiros e currais e ficaram lá por um tempo. Daí a pouco ela voltou correndo sozinha e passou direto para o quarto, batendo as portas. O rapaz veio depois, meio desconfiado e foi embora com o pai. Nunca tinha visto uma gritaria tão grande nessa casa. Ela dizia que não queria nada com o rapaz, ele respondia que enquanto estivesse debaixo do teto dele, ela ia obedecer e que o Gustavinho ia voltar no outro dia, era melhor ela estar prontinha esperando por ele. A fazenda do rapaz era vizinha e o pai dele estava iniciando uma usina de álcool. O doutor queria juntar as terras e os negócios, não tem jeito melhor de fazer isso que casando os filhos.
Naquela noite, Tião ficou no alpendre depois do jantar e ela não apareceu. Contei o que tinha acontecido de tarde e voltei pra dentro. Escutei quando ele saiu andando para o canavial e fui atrás, preocupada com ele. Fiquei de longe olhando quando ele sentou no chão e começou a soluçar feito criança. Já ia saindo de perto pra ele não me ver quando ela chegou, com uma manta no ombro e a camisola clara, parecendo uma ‘visagem’.
— Vi da varanda alguém entrar aqui, não pergunte como eu sei que era você. Tá tudo bem?
— Tá não, dona Juliana. Minha vida era boa aqui antes da senhora chegar. Eu trabalho desde pequeno, cuido da minha mãe e da minha irmã, sou amigo desse povo todo, tenho uma ou outra namorada de vez em quando e podia ter continuado assim. Mas aí a senhora veio, toda desse jeito, dirigindo de noite, falando palavrão, fumando feito homem. Mesmo assim, parece um anjo de tão bonita e eu só quero poder tocar na senhora. Peço desculpas por falar desse jeito, dona. Mas o meu coração fica pulando toda vez que a senhora aparece, e agora que eu sei que a senhora vai ser de outro parece que ele nem sabe mais bater. Vou caçar serviço em outras bandas e num vô mais perturbar a senhora.
Ela se ajoelhou perto dele e beijou o Tião na boca. Ele apertou as costas dela e deitou ela no chão. Eu saí logo de lá pra eles não me verem e porque eu não queria ver o que eles iam fazer. Já era madrugada quando ele entrou em casa.
No outro dia, o Gustavinho apareceu para o lanche. Pensei que ela ia botar ele pra correr, mas não. Comeu com ele e o pai dela, depois ficou rindo das piadas bestas que ele contava. Assim que o doutor saía de perto, ela virava a cara pro moço. Devia ser pra ele desistir, mas ele continuava voltando toda tarde e ela, fugindo toda noite pra encontrar com o Tião.
Já era lá pra agosto quando eu entrei no quarto dela e ela ‘tava botando os bofes pra fora, vomitando o café da manhã. Pensei que fosse doença e ela me pediu pra mandar o Tião encontrar com ela lá no estábulo. Assim que ele chegou, ela foi logo contando que ia ter o filho dele. Ele ficou parado um pouco, acho que ‘tava tentando entender. Depois ‘abraçou ela’ e a bichinha desatou a chorar. A gente combinou tudo. Ele ia arrumar serviço bem longe e depois buscava todo mundo. Ela, minha mãe e eu. Ela já ‘tava até mais corada quando a gente voltou para a casa, e nem disfarçou o desgosto quando o tal Gustavinho chegou depois do almoço.
De noite, Tião contou pra minha mãe e ela ficou muito brava. Disse que ele era um besta de gostar de mulher branca, rica e da cidade. Que agora ia bagunçar a vida toda por causa de uma... ela usou uns nomes que eu não vou te falar.
Uns dias depois, Tião conseguiu combinar de encontrar com o encarregado da usina lá pros lados de Uruaçu. Foi na boquinha da noite procurar a Juliana no canavial e contar que logo iam pra longe dali. Só que o Gustavinho tinha mudado a hora da visita, escutou tudo e contou pro doutor Augusto. Disse que nem queria mais saber de Juliana, nem de juntar as fazendas. Quando ela entrou em casa, o pai esperava por ela na varanda. O homem parecia o demônio, de tanto ódio. Depois de dar uma surra que deixou a moça mole no chão, mandou os capangas enfiarem no carro e levarem para o doutor na vila. De jeito nenhum que a filha dele ia ter filho de um mulato sem eira nem beira. Ela gritou, chorou, mas ele nem piscou. Os homens carregaram ela sem dó. Assim que passaram a porteira, ele chamou uns cabras que todo mundo sabia que eram pistoleiros. Ainda tentei chegar em casa antes deles, mas ainda estava no caminho quando escutei os tiros. Eles mataram o meu irmão sem dó nenhuma e expulsaram minha mãe e eu daqui no meio da noite. A gente nem pôde enterrar o Tião e teve que se abrigar na fazenda do Joaquim.
Uns dias depois, Juliana voltou. Magra de dar dó, com cara de doente. Contou que na mesma noite que matou o Tião, o pai teve um derrame e agora estava vegetando em cima de uma cama, cego e sem falar direito. Ela implorou que a gente voltasse com ela e prometeu cuidar da gente como ele cuidava. Minha mãe não queria de jeito nenhum, mas ela insistiu tanto e até contou pro delegado tudo o que aconteceu. O pai dela morreu antes do julgamento e os capangas sumiram no mundo. A terra daqui ficou muitos anos sem dar nada, mas ela não desanimou. Começou a beneficiar a produção dos fazendeiros menores e ficar com uma parte, até que um dia, a plantação voltou a brotar e ela ficou ainda mais rica que o pai dela era, mesmo ajudando muito a gente daqui.
— Quer dizer que a dona Juliana era pra ser minha tia? - Isaura riu da menina.
— Era, sim. Muita coisa era pra ter sido muito diferente se o pai dela não fosse tão orgulhoso.
Tiraram os biscoitos do forno, prepararam um bule de café e outro de chá e Marília pediu para levar o lanche até a patroa.
— Dona Juliana, tá aqui.
— Obrigada, Marília. – a menina continuou olhando para a fazendeira, torcendo as mãos. – Quer falar alguma coisa comigo?
— O que a senhora fica olhando aqui da varanda? – a mulher deu um sorriso cansado.
— Daqui a pouco a lua fica mais alta e você vai ver.
— Eu posso?
— Normalmente eu prefiro ficar sozinha, mas acho que hoje pode, sim.
Ficaram as duas olhando a silhueta escura do canavial à sua frente. Quando a lua estava no alto, começaram a ouvir uma risada de criança, depois a de um homem. O rapaz negro, puxava o menino loiro e por onde passavam deixavam uma luz fantasmagórica. Juliana não conteve as lágrimas e acenou para os dois.
— Mais de 40 anos, e eles ainda vêm. Espero que logo me levem com eles.
— Dona Juliana, eu sei que a senhora tem saudade, mas eu torço pra eles esperarem mais um pouquinho. - a menina respondeu abraçando a quase tia, que continuava olhando o rastro luminoso deixado pela família que não chegou a ter.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top