Epílogo
Josh
Aquela foi a primeira manhã onde não choveu. Desde os últimos dias de Setembro até a segunda semana de Outubro todas as manhãs começaram debaixo de pesadas nuvens, que descarregavam com força e só abrandavam pelo começo da tarde. Mas não aquela manhã. O sol estava bem tímido no alto, proporcionando quase nada de calor, mas ao menos havia espantado toda aquela água.
Enquanto caminhava entre os túmulos, minhas botas esguichavam na grama molhada, era um som bem-vindo, um contraste contra o silêncio surdo do lugar. Toquei algumas daquelas pedras cinzas com as mãos, recolhendo o orvalho, depois esfreguei as gotinhas de água entre os dedos e o polegar. Parei no lado leste, onde um imenso pessegueiro soltava tristemente suas folhas laranjas no ar. Me agachei diante de um dos túmulos e juntei as folhas que estavam ali, limpando o espaço onde colocaria as flores.
Os cemitérios nunca me incomodaram, na verdade me transmitiam uma certa paz. A morte trazia uma sensação de final, de adeus às pessoas que amamos, mas aquele lugar nos permitia voltar para elas sempre que sentíamos a necessidade. Naqueles cinco anos eu vinha visitando o túmulo até mais que a sra. Irvine. Não poderia dizer que as visitas não deixavam um peso em meu peito e uma sensação de vazio ao ir embora, porque sim, deixava. Chegar era bom, sentar com as costas na pedra e conversar em voz alta, contar como andava a vida e as pessoas. Ir embora era a parte difícil. Virar as costas e dar todos os passos até a saída, sabendo que quem você amou ficou para trás.
A vida era ínfima, durava tão pouco. Eu pensava nos anos que desperdicei antes de encontrar aquela família que havia se tornado a minha e o pensamento me entristecia. As pessoas costumam dizer que tudo tem o seu tempo para acontecer, e provavelmente era verdade, mas não conseguia me impedir de desejar ter tido mais tempo. Não me parecia justo.
O som de passos rápidos me fizeram erguer a cabeça. Apertei os olhos para enxergar melhor na luz do sol amarelada e vi Tony correndo em minha direção. Seu vestido florido voava acima dos joelhos que se moviam, as botas de chuva cor de rosa encontrando poças de água no caminho e espichando água. Os cachos que pareciam cópias dos da sua mãe se espalhavam no ar ao seu redor, um borrão marrom contra o azul do céu. Abri os braços e vi seu olhar encontrar o meu, aquele olhar que me deixava louco de amor. Ela sorriu, revelando os dentes pequenos, segundos antes de sua corrida acabar em meu abraço. Enterrei meu nariz em sua cabeça, sentindo o cheirinho que era só dela.
– Encontrou muitas poças de água? – perguntei, quando ela se afastou.
Tony balançou a cabeça e apontou para trás, movendo as mãos para se comunicar.
Água. Pulos. Feliz.
– Isso é demais, Tony. – peguei sua mãozinha e a beijei. – Quer dar mais uma volta?
Ela soltou minha mão para responder. Balançou o dedo indicador e apontou para seu peito, depois fez o sinal para "cansada".
– Foi uma corrida e tanto, hein? Que tal me fazer companhia, então?
Concordou com a cabeça e se aproximou de mim, virando-se para o túmulo. Encarou a pedra por um momento, observando as letras e os números.
– Sabe quem estamos visitando?
Tony me olhou com atenção e moveu as mãozinhas.
Vovô.
– Sim, meu amor, é o vovô.
Ela olhou para trás, então puxou a manga do meu casaco. Estava sorrindo, os olhos grandes e animados. Ergueu a mão e fez o gesto para "mamãe". Depois apontou.
Virei a cabeça, olhando por cima do meu ombro. Cielo estava há alguns metros, se aproximando de nós. Tony correu e a alcançou na metade do caminho, abraçando suas pernas. Eu sorri, vendo o entusiasmo da minha filha. Cielo havia nos deixado há dez minutos para ir comprar algumas flores na lojinha do cemitério. Quando Tony era bebê, todo mundo me garantiu que as filhas preferiam sempre os pais, mas não Tony. Ela me amava, eu não tinha dúvidas, mas Cielo tinha um pedaço maior do seu coração. Ela era sua heroína.
Eu não conseguia me acostumar com o quão sortudo eu era. Cielo pouco havia mudado naqueles anos, seu cabelo estava mais longo, a vida de empresaria e mãe lhe tiraram algum peso e lhe deram uma expressão cansada, mas continuava sendo a mulher mais linda que eu já havia visto, e ela continuava olhando para mim como se achasse que também era sortuda. E tínhamos Tony, a criança mais doce e feliz que eu já havia conhecido. Havia herdado a tenacidade da mãe, era verdade, mas eu a amava ainda mais por isso. Ela me fazia lembrar Cielo em cada centímetro e em cada gesto.
– Veja, agora eles vendem peônias. – Cielo falou mostrando as flores que trazia, parando ao meu lado.
– São lindas.
– Papai amava peônias. – ela se inclinou para colocar as flores apoiadas na pedra. – Oi, pai.
Peguei sua mão e apertei. Cielo apoiou a cabeça em meu ombro e Tony se meteu entre nossas pernas, abraçada na calça jeans da mãe.
– Não consigo acreditar que amanhã se completam cinco anos. – ela falou, em um tom baixo. Sua mão tocou a cabeça de Tony, a prova viva da passagem do tempo. – Às vezes parece ter passado bem mais tempo.
– Eu entendo, é uma sensação estranha.
– Sinto falta dele.
Virei o rosto para beijar sua testa.
– Eu também sinto. Gostaria de ter tido mais tempo com ele.
Tony nos soltou e chamou a atenção da mãe, apontando para a lápide.
– O quê, meu amor? – Cielo a olhou confusa.
Tony se aproximou do nome do avô e apontou para as letras. Seus dedinhos formaram "Ton", depois apontou para si mesma e sorriu.
– Sim, você tem o nome do seu avô.
Tony balançou a cabeça para os lados. Apontou para seu peito e soletrou "Antonela".
Cielo e eu rimos.
– Tem razão, você se chama Antonela. Quis dizer que recebeu esse nome em homenagem ao seu avô.
Ela abriu a boca em um “Ah” silencioso. Apontou em direção ao estacionamento, ficando na ponta dos pés, então gesticulou "casa".
– Alguém está ansiosa para ver os preparativos da sua festa de aniversário. – Cielo comentou.
– Quer mesmo comemorar amanhã? – perguntei.
Nos últimos anos festejamos o aniversário de Tony nos finais de semana, pois o dia também era a data de falecimento do avô. Aquele era o primeiro ano em que os aniversários caíram no sábado e Cielo não quis adiar.
– Tenho. Papai dizia que as coisas boas nunca devem dar espaço para as ruins. Ele ficaria feliz em nos ver cercados pela família e amigos. – ela deu um passo para a frente e tocou a lápide, com um sorriso pequeno. – Você pode levar a Tony? Eu vou ficar um pouco mais e depois resolver aquilo.
Baixei a cabeça, fingindo observar Tony que usava as mãos para cantar uma musiquinha que havia aprendido na escola, completamente alheia a nossa conversa.
– Tem certeza que quer fazer isso? – perguntei, mantendo o tom neutro.
– Tenho.
– É seguro?
– Ele está preso, Josh. Não vai me machucar. – sua mão tocou meu queixo e o ergueu, para que eu a olhasse. – Eu preciso fazer isso.
Concordei com um aceno.
– Tudo bem.
Cielo beijou minha bochecha e sorriu, depois se agachou para falar com nossa filha.
– Nos vemos em casa, ok?
Tony balançou a cabeça e eu peguei sua mão.
– Tenha cuidado. – pedi.
– Vou ter.
Cielo
Depois que saí do cemitério dirigi até a penitenciária, nos limites da cidade. Lembrava de ter passado por ali uma única vez, quando viajava de carro com meus pais, ainda criança. Na época os prédios cinzas e o pensamento do que guardavam me deixou com medo, agora enquanto virava o volante em direção a entrada, indo de encontro a quem tentou arruinar minha vida, eu sentia apenas uma indiferença, como se estivesse indo jogar o lixo fora.
Na portaria, precisei informar quem estava indo ver e depois me encaminharam para uma revista rápida. Como não era uma visita íntima, não precisei passar por uma avaliação vergonhosa por baixo de minhas roupas. Faltavam cinco minutos para o horário e esperei junto a um casal e uma senhora em uma salinha. Ninguém soltou palavra.
Um guarda apareceu e pediu que nós o seguíssemos. A área reservada para as visitas ficava em um corredor logo após a sala de espera. Era um cômodo frio, sem janelas, com lâmpadas florescentes que zumbiam baixinho, sobre as inúmeras mesas. Sentei mais ou menos no meio, apoiei minha bolsa sobre a mesa de plástico e escondi as mãos no colo, caso começassem a tremer.
Pela mesma porta que usamos apareceu um homem baixinho, talvez um metro e cinquenta, pele pálida coberta de tatuagens nos braços e pescoço. O guarda na porta tirou as algemas de seus pulsos e ele caminhou até o casal, abraçando um e depois o outro. Ouvi passos se aproximando e meu olhar voltou para a porta. Outro homem, dessa vez mais alto, entrou. Cabelo raspado, corpo de quem costumava malhar mas havia abandonado o hábito e uma expressão de tédio. Seus olhos fundos cintilaram em reconhecimento ao me notarem e ele estancou. O guarda retirou suas algemas e precisou empurrar seu ombro para que continuasse a se mexer. Ele tropeçou para a frente e voltou a parar, ainda me encarando. O guarda cochichou algo em seu ouvido e riu. Meu coração finalmente começou a expressar um pouco do que deveria estar sentindo indo até aquele lugar.
Charlie estava irreconhecível. Havia ganhado peso, os braços que antes eram músculos trabalhados agora eram apenas uma massa grande e flácida, a barriga estava bem visível debaixo da camisa. O cabelo brilhante e sedoso havia sumido, estava praticamente careca. O rosto bonito que havia me tirado o fôlego tantas vezes no começo do namoro ainda trazia resquícios daquela época, os olhos, os dentes perfeitos, mas aquilo se perdia entre as bochechas grandes, as olheiras e as cicatrizes.
– Por que você veio? – ele perguntou, parecia ainda duvidar se eu realmente estava ali ou se era uma ilusão da sua cabeça.
– Eu precisava ver você.
– Ah, é? E por quê?
Meu coração batia irregular, mas por fora minha postura estava calma. Não queria dar mais nada àquele homem, nem meu medo, nem minha raiva.
– Precisava saber que você realmente estava aqui e que não poderia mais machucar minha família.
Charlie virou a cabeça de lado e sorriu, debochado.
– Família. Eu ia dar uma família para você, Cielo, mas você foi egoísta.
– Eu fui egoísta?
– Eu quis te dar o mundo, sabia? Seríamos felizes, mas você foi e fodeu com tudo.
– O que você sentia por mim não era amor, era obsessão.
– Eu te amei, Cielo.
Balancei a cabeça.
– Pode ser, no início, mas chegou um momento em que você percebeu que eu não era mais um dos seus brinquedos, que eu pensava com a minha própria cabeça, desde aí tentou me ter debaixo do seu controle.
– Eu só queria cuidar de você.
– Você me queria em uma caixinha de vidro onde ninguém me tocasse.
– Para proteger você! – ele gritou, batendo os punhos na mesa.
Eu pulei na cadeira, assustada.
– Ei! Mais uma dessa e você volta pra cela! – o guarda gritou de volta, apontando.
Charlie fez uma careta.
– Eu só queria afastar todo mundo que tentava se aproveitar de você, você era ingênua demais.
– Seus métodos foram inaceitáveis.
Ele deu de ombros.
– Eu fiz o que precisava fazer, lutei até o fim para tentar evitar que você mesma arruinasse a sua vida.
– E fez isso tentando me matar?
As mãos dele viraram punhos.
– Lansen quase matou você, é verdade, mas eu nunca quis isso. Não era pra ele ter machucado você, cortado você. Seu lindo corpo era perfeito demais, precioso demais para ser estragado por um parasita. – seus olhos estudaram meu corpo, como se estivesse se perguntando como ele estaria atualmente, por baixo das roupas.
Foi minha vez de apertar as mãos e trincar os dentes.
– No fim você só me fez conhecer cedo demais a pessoa mais importante da minha vida. Ela sobreviveu, eu sobrevivi.
Algo nos olhos dele mudaram, se antes eu conseguia enxergar alguma luz ali, foi apagada.
– Por favor, não fale sobre isso.
– Não pretendo. Você nunca vai saber nada sobre ela.
Charlie deslizou os braços sobre a mesa e os apoiou no colo, em uma postura desleixada. Nunca o havia visto sentar assim, como se já não importasse a imagem nem a postura.
– Por que você fez isso, Charlie? – as palavras que me atormentaram por cinco anos finalmente saíram da minha boca.
Ele se inclinou, chegando o mais perto que a mesa permitia de mim.
– Porque eu queria você de volta. Queria nós dois, nosso futuro, como planejamos, lembra? Eu ainda quero.
Minha boca estava seca, eu sentia frio. A pessoa que estava na minha frente era um estranho, alguém com a sanidade duvidosa, e eu me culpei por tê-lo ignorado por tanto tempo. Talvez se houvesse visto aquele ar louco que irradiava dele antes, tivesse evitado que tudo houvesse acontecido como aconteceu.
– Soube que seu pai faleceu. – ele comentou, mudando de assunto.
– Na mesma noite que o show que você armou.
– Lansen não me avisou quando seria, ele estava esperando alguma brecha para chegar até você sem levantar suspeitas.
– Aposto que se soubesse que meu pai morreria naquela noite você o teria parado. – falei, meu tom pingando sarcasmo.
– Claro, eu não queria que você sofresse.
– Quanta consideração.
Flashes daquela noite piscaram em minha cabeça. Papai havia tido outro AVC pouco depois que minhas cólicas começaram, por isso quando liguei para minha mãe o celular estava ocupado. Ela decidira ligar primeiro para Josh, para que ele me buscasse e desse a notícia, estava temendo pelo bebê, e o celular dele havia ficado sem bateria depois. Pisquei, imagens minhas na ambulância, chegando na clínica enquanto mamãe e Marshall levavam papai para outro hospital e Josh a caminho, nenhum de nós sabendo o que acontecia simultaneamente.
– Lansen está aqui? – perguntei.
– Não, foi mandado para outro lugar.
Os enfermeiros haviam salvado Tony e eu. Quando perceberam que estavam nos perdendo, afastaram o médico e assumiram, terminando a cesárea e me estabilizando. Foi por bem pouco. Eu fiquei dias internada, Tony quatro meses. Josh não saiu do meu lado em momento algum, mas conseguiu estar a par da investigação. Claro que, no início, pensávamos ter sido um caso de imprudência médica, mas logo a polícia conseguiu a confissão do médico, e esse citou o nome de Charlie.
– Nunca pensei que você poderia chegar tão longe. – falei em voz alta, não como uma acusação, mas surpresa.
– Eu sempre soube que por você faria qualquer coisa. É por você que eu ainda não enlouqueci aqui dentro.
Suas palavras me deram uma pontada de medo. Um dia ele sairia, e se viesse atrás de mim? Então lembrei que Charlie ainda teria sete anos pela frente até poder recorrer por sua liberdade. Minha advogada garantia que seria negada outra vez.
– Apenas esqueça, Charlie. – falei, levantando.
Ele se moveu, tentando segurar minhas mãos, mas eu me afastei.
– Por favor, não vá! – pediu.
– Preciso ir.
– Por favor, volte mais vezes.
Peguei minha bolsa e a coloquei no ombro.
– Isso não vai voltar a se repetir. Já tive o que eu queria.
Charlie ficou de pé também, as mãos no ar, o rosto contorcido.
– Eu esperei tanto por você, eu sabia que você viria, eu sabia, eu sabia...
Senti pena. Ele era um homem que havia perdido a própria mente, vivia preso e remoendo uma história que havia acabado há anos. Ele não sairia dali por muito tempo, talvez todos os dias esperaria por essa visita que não voltaria a se repetir. Começou a chorar, caindo de volta na cadeira, as mãos ainda estendidas para mim.
– Adeus, Charlie.
– Por favor, por favor... – ele chorava enquanto eu me afastava. – Quando você vai voltar?!
Passei pelo guarda e balancei a cabeça, mostrando que havia acabado.
– Cielo! – Charlie gritou, levantando bruscamente, derrubando a cadeira e começou a se aproximar, meio trôpego.
Saí da sala enquanto o guarda o segurava pelos ombros e mandava que ele se acalmasse.
– Cielo! Cielo, meu amor! Quando você vai voltar?!
Virei o corredor, meus passos ecoando no vazio se tornando mais altos que os gritos dele. Deixei a penitenciária e entrei no meu carro. Lancei um último olhar para o túmulo do meu passado e liguei o motor.
Minha família estava me esperando.
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