Capítulo XXIV ⌛
Cielo
Estava colocando a roupa suja na máquina de lavar quando veio a primeira cólica. Me apoiei na máquina, uma mão segurando a parte de baixo da barriga. Foi como um soco, que começava na parte inferior do ventre e depois passou para as costas. Esperei alguns segundos até que a dor sumiu e eu voltei a respirar.
Já havia sentido cólica antes, então não me preocupei. Terminei de colocar a roupa para lavar e liguei a máquina. Enquanto voltava para a sala, senti outra onda de dor que me tirou o fôlego.
- Ok, bebê, está tudo bem. - falei, enquanto me segurava na parede. Comecei a suar. - Está tudo bem.
A dor no ventre pareceu passar para as costas e se instalar ali. Coloquei a mão na coluna e a pressionei, tentando aliviar. Resolvi deitar no sofá e assim que sentei nas almofadas outra cólica começou. Deitei, dobrei as pernas e agarrei uma almofada, apertando com força a cada nova onda de dor.
- Merda. - xinguei, enquanto tentava respirar, meus músculos começavam a doer por conta das contrações. - Isso é normal?
Tentei lembrar do que a dra. Johannes havia falado sobre cólicas no último trimestre, mas meus pensamentos corriam de mim, meu cérebro parecia estar totalmente focado na dor e seus intervalos. Outra cólica apareceu, a mais forte desde então. Trinquei os dentes, mas aquilo não impediu o grito de sair. Queria morder algo, socar alguma coisa. Era um tipo de dor que eu nunca havia sentido antes.
- Não. - soltei ao sentir algo vazar.
Sentei, ignorando a dor aguda em minha lombar e enfiei a mão dentro da calcinha. Veio suja de sangue.
- Não, não, não, não... - olhei ao redor, tentando lembrar onde havia deixado o celular. - Não, por favor, por favor... - eu sussurrava sem parar.
Meus olhos encontraram minha bolsa sobre o móvel da entrada. Tentei levantar, mas outra cólica me fez perder a força nas pernas e caí sentada. Apertei os olhos, sentindo as lágrimas descerem e esperei. Antes mesmo que a dor houvesse desaparecido por completo, eu já estava de pé.
- Está tudo bem, você está bem... - eu esfregava minha barriga, tentado fazer com que o bebê se mexesse. - Por favor, faça alguma coisa, a mamãe precisa saber que você está bem.
Alcancei a bolsa e a abri com uma mão, a outra ainda na barriga. As lágrimas me cegavam enquanto eu jogava as coisas no chão. Encontrei o celular e meus dedos trêmulos digitaram o início do número da minha mãe, até que surgiu o contato dela na tela. Apertei para chamar e esperei. Dois sinais me avisaram que a linha estava ocupada.
- Por favor, mamãe, atenda. - tentei de novo, mas a linha continuava ocupada.
Ela era a pessoa mais próxima a mim. Olhei pela janela, avaliando se conseguiria chegar até a casa dos meus pais caminhando, mas outra cólica forte quase me fez cair no chão da entrada.
- Josh. - tentei focar minha visão turva no celular e procurei pelo número dele, não conseguia lembrar de cabeça.
A chamada se completou e comecei a chorar enquanto esperava.
- Alô?
- Josh! Preciso de ajuda!
- Meu amor, eu sei, eu... - a voz dele sumiu.
Tirei o celular do ouvido e olhei para a tela. A ligação havia caído. Apertei para chamar de novo e uma gravação avisou que o celular estava desligado.
A bateria dele.
Apoiei ambas as mãos no móvel, tentando pensar. Respirei fundo, a ausência da dor forte deixando minha cabeça um pouco mais clara. Peguei o celular outra vez e liguei para a emergência.
Josh
Ela ligou para a emergência. A ajuda estava a caminho.
Eu repetia aquilo em minha cabeça de novo e de novo enquanto dirigia acima do limite de velocidade. O carro de Cielo era silencioso, mas o motor começou a zumbir enquanto eu pisava no acelerador.
A ajuda está a caminho.
O sinal no final da rua mudou para o vermelho e eu xinguei dentro do carro, já fazendo cálculos para tentar furar, mas ao me aproximar vi os carros no cruzamento atravessando preguiçosamente. Diminui até que parei e comecei a socar o volante.
- Porra! Porra! Porra! - gritei, apertando a buzina. - Saiam da frente, inferno!
Lembranças não paravam de piscar em minha cabeça. Eu via aqueles que haviam se tornado minha família, seus rostos, seus sorrisos, o cheiro do quarto dos pais de Cielo...
Meu corpo tremia, uma mistura de adrenalina e medo. Não sentia meu coração, mesmo sabendo que ele estava martelando em meu peito, bombardeando sangue para meu corpo frio.
Cielo sorrindo mais cedo, deitada ao lado do pai. Veja, Josh, eles estão conversando. Ela sorriu. O sorriso dela, os olhos dela, ela...
- Meu amor, meu amor... - comecei a chorar, apertando o volante e gritando. Era como se um ferro quente estivesse em minha garganta, mas não consegui parar. Os olhos vidrados no semáforo, implorando que me desse passagem.
Peguei o celular, precisando me inclinar um pouco, pois o cabo do carregador era curto. Encontrei o número da Sra. Irvine e liguei, lançando um olhar para o semáforo. Ela atendeu.
- Sra. Irvine... - as palavras voaram da minha boca assim que ela atendeu.
- Oh, Josh, meu filho... - a voz dela estava difícil de entender em meio ao choro.
No fundo eu ouvia o som da sirene, alto, misturado com trânsito e vozes.
- Onde vocês estão?
- Na ambulância... Oh, meu Deus... - ela balbuciava palavras que eu não conseguia entender.
- Estou a caminho do hospital. Vai ficar tudo bem.
Olhei outra vez para o semáforo. As vozes no fundo ficaram mais caóticas.
- O que está acontecendo?! - perguntei, meu estômago se apertando.
- A oxigenação! A oxigenação! - alguém gritava sem parar.
- Sra. Irvine! - gritei, mas eu só ouvia seu choro do outro lado. - Sra. Irvine, me diga alguma coisa! - eu também estava chorando descontroladamente.
- Oh, meu Deus... está morrendo. - ela soluçou. - Está morrendo...
O sinal ficou verde e eu pisei no acelerador.
Cielo
Minha cabeça estava estranhamente leve. Cada detalhe do que eu via e ouvia entrava em meu cérebro e era processado com lentidão.
Dois homens jovens e fortes empurravam a maca onde eu estava pelos corredores do hospital. Observei seus rostos aflitos, a respiração ritmada, o corpo que saltava levemente enquanto corriam. As luzes no teto passavam rapidamente, até que pareciam um único borrão.
Onde está minha mãe? Me perguntei. Josh, onde está Josh? Fechei os olhos, meu corpo se torceu, se preparando para mais uma onda de dor, minha barriga estava dura.
- Como se sente, querida? - uma senhora fardada perguntou.
- Ainda... Dói. - falei, tentando me sentar, procurando outra posição para aliviar a dor.
- Consegue respirar?
- Sim, está melhor...
- Coloquem ela em uma cadeira. - a mesma mandou.
Os maqueiros me ajudaram a descer. Fiquei de pé, apoiada por eles, e quase instantaneamente senti líquido escorrer por minhas coxas. Comecei a gritar.
- Levem ela! - alguém ordenou.
- Precisamos da ficha!
- Para o inferno a ficha! Levem ela!
Me sentaram em uma cadeira de rodas e fui empurrada por mais corredores. Eu chorava, abraçando minha barriga.
Entramos em uma sala e fui transferida para uma maca. A enfermeira tirou minhas roupas rapidamente e me vestiu com uma bata.
- Preciso fazer um exame de toque, ok?
Fiz que sim com a cabeça. Ela se posicionou entre minhas pernas e me tocou.
Após um momento a porta se abriu e eu não me importei em estar com as pernas abertas para o mundo inteiro ver, eu só queria que meu bebê estivesse em segurança. Reconheci o dr. Lansen e meu choro aumentou.
- O que há? - ele perguntou para a enfermeira.
- Deslocamento de membrana.
- Como estão as contrações? - o médico assumiu o posto e eu senti enquanto ele me avaliava.
- Demoradas, ainda não tivemos tempo de medir. Vou preparar a internação dela.
- Não. - o dr. Lansen impediu que a enfermeira saísse. - Levem para a sala, o bebê vai nascer. - constatou, levantando e tirando as luvas.
A enfermeira o olhou surpresa.
- Mas, doutor... O bebê precisa ser amadurecido, o protocolo diz para aplicarmos sulfactante e corticóide.
- Vamos dar antibióticos a ela e continuar com o parto.
- Mas doutor...
- Mas nada! - ele gritou, olhando a mulher de frente. - Para a cirurgia! Agora!
Eu olhava para os dois confusa e muda. Não sabia o que estava acontecendo, meu bebê iria nascer? O médico saiu da sala com passos duros e a enfermeira me encarou, os olhos arregalados.
- Vamos querida, eu vou ajudar você a sentar na cadeira. - ela falou, segurando meu braço.
- Meu bebê está nascendo?
- Aparentemente sim.
- Mas é muito cedo!
Ela ficou em silêncio enquanto eu sentava.
- Não, não, ele não pode nascer agora!
- Calma, querida, o dr. Lansen é o melhor obstetra da clínica, ele sabe o que é melhor.
Voltamos para os corredores.
- Preciso ligar para meu namorado. - balbuciei. Estava com medo e confusa, não sabia o que fazer.
- A recepção vai entrar em contato com todos seus contatos de emergência.
- Mas minha mãe...
- Querida, é melhor você tentar se acalmar.
Meu bebê queria nascer. Mas não estava na hora, ainda faltava muito tempo para ele ficar pronto. A voz da dra. Johannes soava em minha cabeça. 35 centímetros, é do tamanho de um couve-flor! Um quilo e setenta gramas!
Não está pronto, não está pronto, não está pronto.
- Vai ficar tudo bem, querida. - a enfermeira repetiu.
Fui empurrada para dentro de uma sala. Antes que eu me orientasse, fui erguida pelos braços e levada até uma cama. Várias pessoas se movimentavam ao meu redor, algumas falavam comigo, mas eu não conseguia me concentrar muito bem.
- Meu bebê. - falei, percebendo que segurava minha barriga.
- Tragam a anestesia! - o dr. Lasen ordenou, mexendo na minha postura. - Você precisa ficar assim e parada, ok? Não se mexa.
Eu apenas o olhei, sequer lembrava como abrir a boca para falar. O médico meio que me segurou enquanto avisava que iria inserir a agulha. O mundo estava uma loucura, meus pensamentos giravam, as expressões das pessoas não pareciam certo e meu corpo ficou anestesiado. Sem perceber já estava deitada.
Houve todo um momento de movimentação, perdi a noção de tempo. Onde estava Josh?
- Meu namorado, por favor, precisamos esperar pelo meu namorado. - conseguir falar, gaguejando.
- Não temos tempo. - o dr. Lansen falou.
A enfermeira apareceu de algum lugar da sala.
- Doutor, precisamos...
- Eu tenho tudo sob controle.
- Mas...
- Ele está em sofrimento fetal, vocês não veem?! Precisamos tirar ele daí! Agora!
A enfermeira que havia me acompanhado se afastou alguns passos, eu a observei, parecia aflita.
- Então vamos lá, não se preocupe, eu só vou...
Tinha algo de muito errado acontecendo. Minha visão abaixo dos seios estava impedida, os enfermeiros saiam e voltavam, o dr. Lansen havia desaparecido atrás do pano. Pisquei, tentando me livrar daquela sensação de irrealidade. Senti alguns puxões e movimentos, era desconfortável mas não doloroso.
- Doutor o corte...
- Apenas continue sugando. - a voz do médico estava firme e fria.
- Os sinais estão caindo...
- Os batimentos dela, doutor!
Minha cabeça estava ficando leve outra vez, sentia como se houvesse algodão em meus ouvidos. Pensei ouvir a risada de Josh e quis chamar por ele, mas minha boca parecia feita de borracha.
- Ela está tendo uma hemorragia!
Minha visão estava desfocada. Tentei encontrar a enfermeira, mas quanto mais eu piscava, menos eu via.
- Vamos perder os dois!
- Dr. Lansen!
- Pressão arterial caindo!
- Tire ele daí!
Meu rosto não se movia, por mais força que eu fizesse. Queria abrir os olhos, a escuridão estava me deixando assustada, então percebi que meus olhos não estavam fechados. Um zumbido apitava no centro da minha cabeça e minha sensibilidade diminuía, mas senti meu braço ser furado.
- Por favor, querida, fique comigo.
Onde estava Josh?
Josh
Faltavam poucas quadras para o hospital quando o celular começou a tocar. Tirei o pé do acelerador enquanto procurava, tateando no banco no passageiro. Meus dedos esbarraram nele e o puxei, arrancando o cabo do carregador. Troquei o foco entre a rua e o aparelho e atendi.
- Estou chegando. - falei, virando o volante antes de chocar contra um carro na minha frente.
- Josh... - não era a voz da sra. Irvine.
- Quem é?
- Marshall.
- Onde está a sra. Irvine?
- Josh... Eu sinto muito.
Congelei por um segundo, o carro continuou em movimento sozinho.
- Não.
- Eles tentaram...
Eu ouvia os gritos da sra. Irvine no fundo.
- Me diga o que está acontecendo, porra! - gritei, desviando do trânsito, sem enxergar direito. Buzinas soavam endurecidas atrás de mim. Cortei caminho por uma rua sem movimento.
- Eu sinto muito.
- Sente muito o quê? Sente muito o quê?!
- Foi declarado o óbito.
Meu pé afundou no freio. O carro girou ao redor de si mesmo por conta da parada brusca. Uma, duas, três vezes.
Então meu mundo parou.
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