Capítulo XXII ⌛

Charlie

Eu a amava.

Sempre a amei. Desde a primeira vez que coloquei meus olhos em seu bonito rosto. Sou o tipo de cara que repara primeiro no corpo de uma mulher. Nunca estive a procura de uma namorada ou esposa, minha busca era por parceiras para uma noite, um final de semana, portanto o principal era onde eu iria tocar, me afundar, me perder. Não buscava personalidade, mulheres não tinham isso, eram todas um padrão bonito e oco.

Minha primeira namorada, aos doze anos, foi uma descoberta da sexualidade. Uma garotinha filha de uma família rica como a minha, influente como a minha, mas não esperta como eu. Estava sendo criada para andar, sentar e sorrir de um jeito que ficasse bonita ao lado do marido. Estúpida o suficiente para escrever nossos nomes em um caderno. Nos beijamos, nos tocamos e depois acabou. A segunda, a terceira e a quarta seguiram no mesmo caminho, todas bonitas nas fotos, mas que me cansavam com seus risinhos. Perdi a virgindade aos catorze, dentro do iate do meu pai, com uma das convidadas de qual fosse a comemoração daquela noite. Eu estava namorando na época, mas minha namorada não me deixava entrar no meio de suas pernas, aquela garota deixou. Foi quando descobri que para uma bonita foto bastava eu, talvez uma acompanhante de vez em quando, mas o que eu realmente precisava era de corpos perfeitos para me divertir. Não namorava mulheres, namorava suas curvas, os seios do tamanho certo para minha boca, o quadril ideal para minhas mãos, a bunda perfeita para minha cintura. O rosto era um bônus, sequer o veria sem maquiagem, não teria tempo nem interesse para isso.

Mas com Cielo foi diferente. Entrei no lado social da faculdade, fazia um dia quente como o inferno, o sol me fez suar no pequeno percurso dos dormitórios até a piscina. Como sempre, passei os olhos pelas garotas de biquíni, sorrindo aprovativo, até que esbarrei meu olhar nela. De pé, o quadril encostado relaxadamente na barra do bar. O biquíni grande demais para o meu gosto particular deixava à mostra um corpo não tão dentro dos padrões ideias. Claramente não malhava, mas sua barriga era aceitável, as pernas não se encaixam nas finas e elegantes ou nas maiores e sexy que eu tanto admirava, mas de alguma forma me agradaram. A bunda e os seios pareciam perfeitos e elaborados especialmente para mim. Eu a quis, bem ali, queria ela na minha cama naquela noite e quem sabe por quantas mais, mas foi quando virou a cabeça, sentindo meu olhar, e vi seu rosto que eu soube que estava fodido.

Ela era linda. O rosto pequeno, os traços marcantes e a sensualidade que só as mulheres negras exalavam. Lembrei de quando era adolescente e encontrei meu pai se masturbando escondido com uma revista, na nossa garagem. Ele me mostrou a modelo negra na página e me falou que eram as melhores na cama, por suas raízes, e que se eu não experimentasse alguma na vida, jamais saberia o que era realmente foder. Suas palavras ficaram em minha cabeça por anos, não haviam pessoas de cor no nosso círculo social, até que eu consegui ter a experiência na faculdade, com uma veterana. Foi uma das melhores transas da minha vida, me mostrando que, como sempre, meu pai tinha razão.

Fui falar com ela. Me aproximei, conversamos, paguei uma bebida e ela rejeitou a segunda, indo para a água e me fazendo admirar seu corpo. Não quis me dar seu celular, mas falou o curso que fazia e passei a rondar pela área de Finanças rotineiramente, até esbarrar outra vez com ela. Cielo fez um joguinho envolvente no começo, enquanto saíamos e eu descobria que ela não tinha uma cabeça tão oca assim. Fingia parceria quando ela tagarelava sobre querer abrir uma empresa, mas quase não lhe prestava atenção, era uma ideia burra e inalcançável, seus lábios e decote capturavam bem mais minha atenção. Por sorte ela não demorou muito para ceder, ou eu teria me cansado daquele papo de mulher que quer usar calças. Na nossa terceira saída consegui que ela me levasse para o quarto e transamos por um bom tempo, ela era quase tão insaciável quanto eu, o que me fez afundar ainda mais de joelhos diante dela.

Cielo Irvine me dobrou, algo que nunca havia acontecido antes. Eu a pedi em namoro, eu a agradei de todas as formas, fiz seus gostos e caprichos, cedi muitas vezes. Eu a amei, cuidei e protegi. Aquela garota me envolveu em seus dedos como se houvesse herdado no sangue o poder de alguma feiticeira, me tinha completamente. Eu a apresentei aos meus pais e enfrentei seus olhares e resmungos de desaprovação, mas não cedi. Eu briguei com meu pai, meu herói e exemplo de toda a vida, por ela. Eu lhe disse para ter uma dessas em uma cama, não na sua cama matrimonial, foi o que ele falou quando anunciei o noivado. Gritei de volta, joguei a mobília nas paredes e recorri à minha mãe, até conseguir o sim de ao menos um deles. Eu havia suportado tudo aquilo por ela.

E agora Cielo estava grávida. E não era de um filho meu.

Ela havia me deixado, me largado como se eu fosse a merda de um cachorro que ela podia lavar da sola do sapato. Havia me evitado por meses, mesmo eu aparecendo em todos os lugares que ela ia, pronto para quando ela enxergasse a burrice que estava fazendo. Não levaria muito tempo, uma semana a mais, uma semana a menos. Ela sentia minha falta, eu sabia. Como não sentiria? Do meu amor? Da minha atenção? Da minha devoção a ela? Cielo era esperta, não era como as outras mulheres, por isso eu a queria. Além de seu corpo, ela tinha uma cabeça lista, por isso eu a queria. Ela sabia que eu era o melhor que poderia ter. Ela me amava também. Mas não foram semanas, foram meses que se transformaram em um par de anos.

Segui minha vida, assumi um cargo na empresa da família, tive outras mulheres, mas continuei a margem da vida dela. Soube quando se formou, soube do AVC do seu pai, soube quando abriu sua empresa, descobri o endereço da casa que havia comprado. Ela brincava de construir uma vida independente de mim e aquilo me excitava. Estacionava na frente de sua casa e a assistia se mover através das janelas, era um jogo entre nós. Ela sabia que eu estava ali, por isso desfilava usando apenas uma blusa longa, por isso não puxava as cortinas. Ela queria que eu a visse, ela queria que eu a desejasse. Me masturbava no carro enquanto chamava por ela por baixo da respiração. Cielo sabia que não poderia ter aquela vida quando voltasse para mim. Ela sabia que teria que viver na casa que eu escolhesse, que jamais andaria com tão pouca roupa na casa e que teria que abrir mão da empresa. Ela estava tento aquela vida de mentirinha por um tempo, depois viria para mim.

Então veio a casa de praia. Um amigo soube por um amigo que os amigos de Cielo iriam alugar uma casa de veraneio para o final de semana. Quais as chances dela ir junto? Poucas. Ela se matava naquela empresa, e quando não estava trabalhando, estava na casa dos pais. Mas consegui saber que ela iria viajar, então preparei minhas coisas. Seria o lugar ideal para a nossa reconciliação. A praia, o luar, a energia de estar longe de todos os problemas que deixamos nos afastar. Porém não foi assim. Cielo ficou furiosa ao me ver, mas aquilo eu já esperava, ela sempre agia daquela forma ao me “descobrir”. Não, o que me surpreendeu como um chute no saco foi ver aquele cara indo atrás dela. Notei imediatamente que havia algo ali, um sujeito com o estilo de um rockeiro despojado, cabelo longo, motocicleta, jaqueta de couro e unhas pintadas. Ele claramente estava tentando se aproximar de Cielo. Ainda assim confiei nela, acreditei que ela não me trairia, muito menos com um miserável como aquele. Eles eram amigos e daí? Quando ela voltasse para mim eu mandaria que cortasse todo tipo de relação com aquele cara e com qualquer outro, Cielo obedeceria, porque me amava, e seríamos felizes como antes.

Ao menos foi o que eu pensei, até ver os dois se beijando, bem na minha cara. Bem ali eu soube que Cielo estava se tornando uma vagabunda como todas as outras mulheres. Durante o tempo que eu a vigiei de perto, ela não havia saído com nenhum cara, mas depois veio a ameaça da denuncia e eu tive que recuar. Mesmo assim mantive um olho sobre ela e tinha certeza que Cielo não havia namorado ninguém. Ela teria tido sexo casual? Não. Cielo me amava, era impossível. Então por que ali estava ela, sendo beijada por outro? Bem diante dos meus olhos? É claro, ela estava fazendo uma cena, queria me provocar. Mas daquela vez havia ido longe demais, eu não iria aceitar aquele joguinho. Por isso fui falar com ele, com o bastardo. Tentei ser amigável, explicar como as coisas eram na realidade, mas ele não me escutou. Bom, que se fodesse, seria mais um iludido achando que teria o que era meu. Cielo nunca seria dele, só o estava usando para chegar até mim.

Descobri que eles estavam dormindo juntos e aquele foi o ponto final que me fez surtar. Até então eu vinha seguindo as regras dela, o jogo dela, mas aquilo eu não iria suportar. O que Cielo tinha na cabeça? Merda? Todo mundo na casa sabia que eles andavam transando como animais no cio, foi fácil de descobrir. Precisei confirmar, entrei no quarto que me disseram ser o dela e os ouvi no banheiro. Cielo gemia como nunca havia soado quando estava comigo. Senti ódio, sua imagem de mulher perfeita, de futura esposa, alguém que eu poderia amar e me apoiar pelo resto da vida se desfez. Eu a havia amado com tudo o que tinha e lá estava ela, fodendo em um chuveiro com um filho da puta qualquer. Era exatamente naquilo que ela havia se tornado, uma puta, que trai seu namorado, quem mais a amou.

Quis matar os dois. Minha boca ficou amarga, enquanto imaginava os dois lá no banheiro. Cielo, minha Cielo se deixando tocar por outro homem. Deixando que ele a beijasse, se entregando a ele, gemendo seu nome. Como ela foi capaz de algo tão sujo? Era uma cretina. Desejei ter levado a minha arma para aquela maldita viagem, desejei matá-la porque a odiava. Desejei me jogar de joelhos e implorar que ela voltasse para mim, que fôssemos felizes de novo, porque eu a amava. Sim, eu a amava com loucura. Era nela que pensava todos os dias, era ela que imaginava debaixo de mim enquanto fodia com outra mulher sem rosto, era ela que eu queria. Minha cabeça era um redemoinho que girava em torno dela. Da minha Cielo, não aquela estranha que permitia que outro homem colocasse a mão em seu corpo. Não, aquela não era Cielo. Ela foi coagida, enganada, sempre teve a cabeça fraca para escolher as pessoas ao seu redor. O filho da puta havia conseguido, de alguma forma, confundi-la. Cielo precisava que eu a lembrasse que era a mim que ela queria.

Por isso tentei a reaproximação em seu quarto na praia. Sempre brigávamos, ela era teimosa e inflexível, mesmo quando eu a estava protegendo dos olhares de fome dos outros homens, de amigos que só queria ter acesso ao meio das suas pernas, ela revidava como se eu fosse o vilão, aquilo me irritava e discutíamos. Sempre fizemos as pazes na cama, então tentei aquela reaproximação, mas ela me rejeitou, lutou contra mim. Aquilo me confundiu e enfureceu. Ela estava me evitando depois de foder como uma cadela com um puto morto de fome? Não estava aceitando minhas desculpas? O ódio queimou em meu sangue, me fazendo segurá-la firme. Cielo era minha e não podia me negar seu corpo, ele me pertencia e eu podia tê-lo quando quisesse. Havia sido bonzinho demais com ela, respeitado seus caprichos e sua vidinha independente. Mas aquilo teria acabado bem ali, ela teria lembrado de como me amava, se o quarto não tivesse sido invadido por toda aquela gente.

Gritos, briga, a volta pra casa, a denuncia. Cielo havia tentado me denunciar. A mim. Foram os piores dias da minha vida. Todo o processo havia sido encaminhado para as mãos de amigos do meu pai e acabou morrendo entre milhares de outros casos que não dariam em nada. Mas fui proibido de me aproximar dela por um tempo. Papai foi firme, ameaçando me tirar tudo o que eu tinha caso eu desobedecesse. Foi o inferno para mim, passar os dias sem saber o que estava acontecendo com ela. Cielo continuava com aquele puto? Seria possível que ela estivesse nutrindo algum sentimento por ele? Havia me esquecido?

Não, não, não, não. Briguei no trabalho várias vezes, qualquer olhar era suficiente para me fazer explodir. Saía todas as noites, algumas delas voltei pra casa na viatura de algum policial, que recebia um agrado do meu pai para ficar calado. Comprava garrafas de vodka e as tomada na varanda de casa, imaginando as mãos do filho da puta no corpo que era meu. Meu pai me obrigou a ver um psicólogo que administrava controle de raiva. Era um velho idiota que se achava o culto. Com aquela cara ainda deveria ser virgem, como saberia o que era sofrer por um amor verdadeiro? O que ele sabia sobre mim? Sobre Cielo? Viajei para o campo, férias que duraram quase um mês, onde extravasei cavalgando, caçando e fodendo. Foi como um retiro espiritual. Estava de volta em casa há poucos dias, me sentia bem, pronto para continuar lutando pela mulher que amava, mas meu pai insistiu que eu voltasse a ver o psicólogo, ao menos mais uma vez para ele comprovar minha estabilidade mental.

Fui. Sentei por uma hora e respondi suas perguntas. E quem encontro na saída? Não podia acreditar que era ela ali. De todos os lugares, esbarrei em Cielo bem no hospital que frequentava desde criança, bem onde meu pai tinha contatos. Quais as chances? Por um segundo achei que era um sinal do destino, de que eu estive certo em persistir na nossa relação, até ver a palavra que destruiu o meu mundo. Eu tinha nas mãos um exame de gravidez e nele a palavra positivo gritava e se destacava.

Cielo estava grávida.

Precisei gritar com ela. Precisei chamá-la de puta. O que mais eu faria? Não só havia me traído como havia engravidado. Tinha um bastardo dentro dela, crescendo, tomando para si características dela e de outra pessoa que não era eu. Era errado, aquela criança não poderia existir. Eu não estava pronto para desistir de Cielo, mas não a queria gorda e inchada por causa de um filho que não era meu. Não a queria com aquele pacote extra. Um bebê. Não, era demais. Quando voltasse para mim, seríamos só nos dois de novo. Eu seria a única pessoa com quem ela teria que se preocupar, cuidar e amar. Eu, seu marido.

Por isso estava voltando para o hospital. Alguns dias se passaram até eu enxergar a solução. Quis ir até a casa dela e explicar o porquê ela teria que se livrar da gravidez, quase fiz isso, cheguei a entrar no carro, mas percebi a tempo que não adiantaria. Cielo estava sendo controlada por aquele cretino, ela não me ouviria. A solução era outra.

Peguei o elevador do hospital até o andar da obstetrícia e informei a recepcionista que queria falar com o dr. Lansen. Ela começou a protestar, até que falei meu nome.

– Que surpresa, seu pai não informou que você estava a caminho. – o médico falou, apertando minha mão.

– Ele não sabe que estou aqui.

– Nesse caso, não se preocupe, nossa conversa vai ficar sob sigilo. Como posso ajudar você?

Eu o olhei por um minuto, tentando decidir se realmente poderia contar com ele. Mas qual outra opção eu tinha?

– Tem uma garota que está sendo atendida pela sua equipe.

– Uma amiga sua? Dê meus parabéns a ela pela gravidez por mim, por favor.

Apertei meus dedos em punhos.

– É minha namorada.

O homem fez uma cara de surpresa.

– Oh, então deixe-me parabenizar você também!

Bati com o punho na mesa, o fazendo pular. A raiva nadava por baixo da minha pele, me fazendo tremer.

– Não é meu. Demos um tempo e ela engravidou de um puto qualquer.

O dr. Lansen tossiu e mexeu no jaleco, claramente sem jeito.

– Essa é uma situação bastante incomoda. Não sei como posso ajudá-lo, filho.

– Eu quero que você a faça abortar. – fui direto, não tinha tempo. Quantos meses Cielo estava? Ainda era possível abortar com segurança?

O médico me encarou, pálido. A boca mole aberta, com uma expressão estúpida.

– Perdão, eu...

– Tem que ser o mais rápido possível.

– Desculpe, Charlie, mas eu não posso fazer isso.

– Por quê não?

– E-eu fiz um juramento...

– Que se foda o seu juramento.

Aquilo o fez voltar a si.

– Escute aqui, rapazinho, não vou permitir...

– Que se foda a sua permissão também. Você lembra quem o colocou aqui dentro?

Eu o vi se retrair.

– O seu pai.

– Exatamente. E ele pode não só tirar o seu posto como sujar o seu nome ao ponto de que não conseguirá trabalho nem no gueto.

– Charlie, entenda, está fora das minhas mãos. A sua... amiga não é minha paciente.

– Descubra com que médico ela está e arranje uma desculpa. Você está na direção.

– Exato. Eu sou o responsável pela administração e faço partos, não estou na área do pré-natal.

Bati os dois punhos na mesa e me inclinei para olhá-lo de perto.

– Não me importa que merda que você faz. Você vai interromper aquela gravidez. Me ouviu?

O dr. Lansen desabou as costas na cadeira e passou as mãos no rosto.

– Não posso iniciar um aborto assim, é arriscado para mim. Talvez... talvez forçar um parto prematuro, depende do estágio da gravidez...

– Vai deformar o corpo dela? – aquilo me preocupava. Não queria Cielo com cicatrizes grotescas.

– Depende de muitas coisas...

Levantei.

– Faça o que precisar fazer, mas eu não quero o corpo dela mole e com estrias.

O dr. Lansen me encarou.

- Tem certeza disso, filho?

- Absoluta.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top