Capítulo XIV ⌛

Cielo

As semanas passaram em um borrão. Voltei a me concentrar no trabalho, encontrei o cuidador perfeito para papai, comecei a fazer yoga na minha sala de estar e havia Josh.

Nos encontramos quase todos os dias. Ele ia até a empresa para almoçarmos e depois caminhávamos por um parque ali perto. Quando um dos dois estava muito ocupado, marcávamos de nos ver a noite, na minha casa ou na dele. Eram as minhas noites preferidas, conseguíamos aproveitar a companhia do outro, vendo filmes, jogando algo, Josh tocando seu violão ou simplesmente enquanto cada um se distraía do seu jeito.

Mas eu sentia falta do sexo. O novo mês veio com o aniversário de quando nos conhecemos, da nossa primeira vez e logo em seguida da última. Ainda nos beijávamos, ainda haviam as mãos bobas, mas não passava daí. Eu ainda sentia um fio de tensão quando ele me tocava além, só que há muito deixara de ser pânico. Mesmo assim, eu mal me contraía e ele parava imediatamente. Era um tanto frustrante.

Estava mantendo minha promessa fielmente. Visitava meus pais duas vezes na semana, em dias alternados, e também passava as tardes dos finais de semana com eles. Ainda não havia falado de Josh para minha mãe, estava transformando aquilo em um segredo entre papai e eu, mas sabia que precisava falar de uma vez, principalmente porque Josh já havia insistido algumas vezes em querer conhecê-los. Ele sabia da condição em que estava meu pai e se dispôs a ajudar, mas consegui convencê-lo que o cuidador estava lidando com toda a parte que envolvia usar força.

Era sábado e eu havia acabado de terminar meus exercícios de yoga, logo após o café, o que não foi uma boa ideia. Me sentia um pouco enjoada e com dor de cabeça, mas não o suficiente para vomitar. Torci para não ser uma das minhas famosas crises de enxaqueca, se fosse o caso eu teria que cancelar o evento de Ian mais tarde. Tomei uma ducha rápida, vesti algo fresco e peguei meu notebook. Pretendia trabalhar um pouco enquanto minha mãe estivesse ocupada.

Resolvi passar em uma livraria e comprar algum livro novo para meu pai. Passamos muitas tardes só os dois, eu lendo em voz alta enquanto ele escutava. Encontrei um livro para crianças que chamou minha atenção. Cada página trazia a textura de alguma coisa. Havia a textura de uma flor, do pelo de um animal, da grama... Todas as coisas que ele nunca voltaria a tocar por contra própria. Paguei pelo livro no caixa, levando também uma cópia de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Assim que virei a esquina da rua dos meus pais, vi mamãe no jardim, junto a uma vizinha e sua filha pequena. A menina segurava alguma coisa em sua pequenina mão e a mostrava para minha mãe, que sorria. Estacionei o carro e me aproximei delas colocando as mãos nos bolsos do meu macaquinho florido.

- Oi, querida. - mamãe me cumprimentou, mal tirando os olhos da menina. - Lembra da Susie? Veja que crescida está a filhinha dela!

- Como vocês estão? - perguntou para a mulher, que era apenas alguns anos mais velha que eu. Ela sorriu de volta.

Megan ergueu sua mãozinha para que eu visse o que tinha ali. Eram pedrinhas.

- Oh, que bonitas. - falei, sem jeito. Eu não tinha a menor ideia de como agir com crianças.

A menina me olhou por um momento, então ofereceu a mão outra vez.

- Ela quer que você pegue uma. - mamãe falou.

- Ah, desculpe, Megan. - peguei uma pedrinha e a segurei na minha palma, sem saber o que fazer em seguida. Eu devia me abaixar e conversar com ela com uma voz engraçada?

Todo mundo notou meu embaraço, e Susie pegou a mão da filha dizendo que era hora de entrar. Nos despedimos e as observamos cruzar a rua. Mamãe se virou para mim.

- Ela não é um amorzinho? Estava me mostrando como já conhece as cores e ela só tem dois anos!

- Ela parece ser bem inteligente.

- Quando você vai me dar um neto? - mamãe perguntou fingindo estar aborrecida por conta da "demora".

- Eu posso comprar um para você. Tem preferência por nacionalidade?

- Não brinque com essas coisas, Cielo. - ela passou o braço pelo meu e nos levou para dentro. - Não vejo a hora de ter crianças outra vez nessa casa.

- Quando minha empresa tiver uma filial em cada cidade desse país, eu penso em gerar netos para você.

Minha mãe fez um som de desgosto e me soltou, indo paquerar suas flores espalhadas pela casa.

- Vou ver o papai.

- Claro que vai, vocês estão cheios de segredinhos.

Revirei os olhos para o seu ciúme bobo e lhe dei um beijo ao passar.

Como estive fora, precisei desinfetar minhas mãos antes de deitar ao lado dele. Papai estava dormindo, então folheei os livros distraidamente, até que percebi seus olhos abertos.

- Olá, dorminhoco. - lhe dei um beijo na testa e mostrei o livro. - Veja o que eu trouxe.

Ficamos quase uma hora lendo. Quando passei seus dedos pelas texturas do livro infantil, os olhos dele se encheram de lágrimas. Acabei chorando junto, me culpando por não ter pensado naquele presente antes. Deitei ao seu lado por mais um momento, pensando em outras formas de levar o mundo exterior para dentro do quarto.

O resto do dia passou com uma normalidade preguiçosa. Trabalhei um pouco, li alguns contratos e tirei um cochilo na cama do papai depois do almoço, coisa que não fazia há um bom tempo, mas a dor de cabeça havia aumentado, me obrigando a tomar remédio.

Acordei no fim da tarde me sentindo bem mais disposta. Minha mãe estava tirando alguns biscoitos do forno, mas eu havia marcado de comer algo com Hanna antes de ir para o evento, então peguei um para comer no caminho e saí. Ela havia escolhido um café no centro.

- Desculpe o atraso, acabei dormindo. - falei ao sentar na mesa em que ela estava. Ficava na calçada, então o vento jogava meu cabelo para a frente.

- Estava na casa dos seus pais?

- Estava.

O atendente havia acabado de pegar o pedido da mesa ao lado, então veio até nós. Era um garoto que deveria estar no ensino médio. Olhei rapidamente o cardápio e pedi um macchiato de chocolate com donuts. Hanna pediu um cappuccino com madalenas.

- Finalmente conseguimos sair. - ela comentou, enquanto eu procurava algo na bolsa para prender o cabelo.

- Nem me fale, a empresa está crescendo e sinto que se eu não estiver em todos os pontos, vou perder o controle.

- Está falando isso para quem cuida da sua agenda.

Terminei o rabo de cavalo e a olhei.

- Não entendi.

- Você não está tendo tantos compromissos fora do expediente. Bom, não compromissos de trabalho.

Apoiei as costas na cadeira e lancei um sorriso para ela.

- Como está o Josh?

- Bem, ocupado também. A gravadora está buscando seu lugar no mercado.

- Você já foi até lá?

- Ainda não, mas quero. Deve ser bem legal trabalhar com música.

O atendente voltou com nosso pedido e eu me concentrei em comer, sentindo que havia um buraco no meu estômago.

- E você, algo novo? - perguntei antes de dar mais uma mordida no meu donut.

- Minha vida pessoal está mais parada que uma parede. Sabe a quanto tempo eu não saio com um cara?

- Sei. Cinco semanas.

- Uma eternidade. E a culpa é sua.

- Minha? - queria expressar minha indignação por ser acusada assim, mas o donut capturou minha atenção. O chocolate ainda estava quentinho.

- Sim, todos aqueles papéis para revisar.

- Eu não pago você pra trabalhar em casa, Hanna, não desperdice seu tempo livre assim.

Ela deu um gole no seu capuccino enquanto observava a rua. Segui seu olhar e vi que seu alvo era um cara em roupas de malhar, correndo. Hanna o olhava como um lince babando por uma presa.

- Você é quase uma ninfomaníaca. - resmunguei.

- Cinco semanas, Cielo.

- Grande coisa. Preciso relembrar meu histórico?

- Mas entenda: Depois de certo tempo, nós meio que nos acostumamos a ficar sem sexo, mas para chegar a esse ponto precisamos passar pela fase do desespero, aquela em que até uma árvore nos excita. Cinco semanas é exatamente esse ponto.

Quase engasguei com o donut.

- Essa é você, Hanna.

- Claro que não! Tem um estudo sobre isso.

- Certo.

- Bom, não importa. O ponto aqui é que você não pode reclamar.

- Eu?

- Sim? Você e o Josh devem ter esgotado as páginas do Kama Sutra.

Coloquei o último pedaço na boca e mastiguei sem presa. Não havia contado para ela nem para meus pais sobre o que havia acontecido com Charlie, portanto não poderia explicar porque não estávamos fazendo nada ultimamente.

- O nosso relacionamento vai além disso. Eu gosto de estar com ele, sabe? Apenas ficar perto.

Hanna fez uma cara de ternura.

- Você está apaixonada. - decretou. Ela viu meu olhar. - O quê?

- Nada.

- Me conte!

- É que... Bom, vai além de estar apaixonada.

Hanna fez um "o" com a boca e bateu as palmas na mesa.

- A palavra com A?

Balancei a cabeça.

- Wow.

Fiz uma careta.

- Muito rápido?

- Vocês se conhecem há o quê? Um mês e meio?

- Mais ou menos, sim.

Ela descansou as costas na cadeira.

- É tão ruim assim? - perguntei.

- Eu não sei, nunca gostei de alguém tão... Intensamente. Mas você não é precipitada, Cielo, nunca foi. Se sente que o ama, é porque o ama.

- Eu sei que sim.

- Mas e o Josh? Você tem certeza?

Tomei mais um gole do macchiato, notando que já estava esfriando. Escolhi as palavras, mas era difícil explicar.

- Josh me apoia e incentiva com meus sonhos, ele fala de uma forma como se todos eles já tivessem prazo para se realizarem. Ele se esforça para me fazer sentir bem, para me fazer rir, para qualquer coisa que eu precise. Ele me abraça de um jeito que me transmite segurança, não como se nada nunca fosse me atingir, mas me dando a certeza que quando essas coisas acontecerem, ele vai estar ali. Tudo isso poderia ser fingimento?

Hanna tomou a pergunta como retórica, então continuei.

- Além disso ele é seguro de si. Lembra do depósito que eu pedi que você fizesse para aquela ONG? Josh me viu conversando e trocando contato com um dos organizadores, e ele não fez uma cena de ciúme, não me pediu explicações, nada. Ele também entendeu por que não poderia ir ao evento comigo daqui a pouco e, quando nos encontrarmos depois, eu tenho certeza que ele estará contente por eu ter me divertido. Eu não estava procurando por um namorado, mas tinha muito em claro que a confiança era um quesito chave para quando eu me envolvesse com alguém. Josh confia em mim. E eu confio nele. Não só em questão de que ele não tem uma família secreta, eu confio em tudo o que ele me diz, confio em suas decisões, confio em seus sentimentos.

Hanna me encarava como se me enxergasse de uma outra forma agora. Ela também pareceu tirar um momento para organizar seus pensamentos.

- Josh me parece ser um cara legal. Se eu tivesse que apostar em alguém, apostaria nele. - ela se inclinou e segurou minhas mãos sobre a mesa. - Eu só não quero que você se machuque de novo, Cielo.

Sorri para ela, um levantar de lábios.

- Esse é um risco que todos nós corremos. Mas eu decidi apostar todas minhas fichas nele.

Ela concordou com um aceno e me deu algumas palmadinhas na mão.


O evento foi organizado na própria sede da ONG. Era um espaço não tão grande, com um pátio na entrada e mais atrás algumas salinhas, onde imaginei que as crianças eram recebidas. O pátio estava bem cheio quando cheguei, o evento ia pela metade. Senti uma mistura de orgulho, felicidade e uma certa surpresa ao ver que como Ian havia prometido, só haviam pessoas negras ali. Adultos, crianças, jovens, os tons do negro variando desde o seu toque mais sútil, pessoas essas que na escola eram automaticamente tachados de latinos, até as peles mais escuras.

Bem na entrada encontrei um mural com fotos de pessoas negras mundialmente famosas e me orgulhei ao perceber que conhecia todas. Meus pais desde criança me incentivaram a conhecer a história daquelas pessoas e como elas ajudaram a mudar o mundo, mesmo esse mundo tentando calar suas vozes. Fechei os olhos e sorri, ouvindo Dionne Warwick cantar uma das minhas músicas favoritas da infância nos alto-falantes.

- Você veio!

Abri os olhos e me virei, encontrando Ian de braços abertos. Meu sorriso cresceu enquanto eu me esticava um pouco para cumprimentá-lo.

- Eu disse que eu vinha.

- Chegou há muito tempo? Eu estive tão ocupado que não consegui te encontrar antes.

- Não, acabei de chegar.

Ian colocou as mãos na cintura e respirou fundo, como se suas palavras anteriores não houvessem sido um jeito de falar. Ele realmente parecia um pouco sem fôlego. Usava uma camisa com o símbolo da ONG e jeans. Notei outra vez como ele era bonito.

- Perdi muita coisa? - falei, percebendo que estava quase o encarando.

- Algumas coisas, sim. Tivemos as apresentações das crianças. Capoeira, Jongo, um teatrinho e fantoches. Mas ainda teremos as rodas de leitura, você pode participar.

Desviei o olhar, envergonhada.

- Eu não sei, não sou boa com essas coisas.

- Qual é, é só ler um livrinho. Você consegue. Venha.

Ele pegou minha mão e me levou até uma área com um tapete circular e alguns pufes e cadeirinhas. Várias crianças já estavam sentadas ali. Ian fez um sinal indicando a cadeirinha no centro.

- Seu trono, majestade. - falou, solenemente.

Algumas crianças riram, senti seus olhinhos avaliativos em mim. A cadeira era minúscula. Olhei para Ian interrogativamente, e ele me encorajou com um sorriso. Sentei, meus joelhos dobrados para cima.

- Pessoal, essa aqui é minha amiga, Cielo. Digam olá. - ele falou, animado. As crianças falaram um "Olá, Cielo" em coro. - Que tal se ela contar uma historinha para vocês?

- Siiiiiim!!!! - foi a resposta gritada.

- Certo, essa aqui é a história de uma mulher incrível. O nome dela é Rosa Parks e ela é um grande símbolo de uma luta muito importante. Quem sabe dizer de qual luta estou falando?

Um garotinho ergueu o braço rapidamente e falou:

- A luta pela igualdade racial.

- Minha mãe disse que só existe uma raça e é a humana. Com todas as cores do mundo inteiro. - quem completou foi uma menininha com trancinhas no cabelo, presas por elásticos coloridos.

- Qual seu nome? - perguntei, um sorriso em meus lábios.

- Keily.

- Sua mãe tem razão, Keily. E todos vocês são muito espertos. - olhei para Ian e estiquei o braço, pedindo o livro que ele segurava. Ele entregou e conseguiu um lugar, sentando no chão para ouvir.

Limpei a garganta, folheei para a primeira página e comecei a ler.


Depois do grupo de leitura, vieram algumas brincadeiras e jogos, uma palestra lúdica onde ajudou as crianças a romperem com o padrão da beleza branca e encontrarem seus traços comuns entre si e também suas particularidades. Seguido disso veio uma oficina de autorretratos e me animei em pintar um também. A tarde passou voando e quando uma mulher corpulenta, vestida com roupas coloridas e um turbante amarelo, anunciou que o evento estava chegando ao fim, senti uma pitada de tristeza.

- Obrigada por ter me convidado, Ian. - falei, tocando o braço de quem já considerava um amigo.

- Nós que agradecemos por você ter vindo. As crianças adoraram, tanto que eu acho que alguém ali quer falar com você.

Me virei para ver de quem Ian estava falando. Era Keily, que ao perceber sua deixa, se aproximou.

- É verdade que você é dona de uma empresa?

Eu a olhei surpresa por um momento.

- Como você descobriu isso?

Keily apontou para Ian.

- E como você descobriu isso? - quis saber, quase sorrindo.

Ian coçou a nuca, parecendo envergonhado.

- Quando eu recebi o contato sobre a doação, aproveitei para perguntar por você, esperando que alguém dissesse "Cielo, a contadora?" ou algo assim, mas então descobri que você era ninguém menos que a dona.

Keily pegou a minha mão e a balançou, chamando a atenção.

- Então é verdade?

- É sim.

A menina abriu a boca, surpresa.

- E como você fez?

- Bom, primeiro eu estudei. Depois economizei e comecei com um negócio pequeno, me dediquei muito e aos poucos cresci.

Keily balançou a cabeça, parecia perdida em pensamentos.

- Quando eu crescer, vou ter uma empresa também. - constatou.

- Verdade? E qual vai ser o seu negócio?

- Bonecas.

- Eu acho uma ótima ideia.

- Mas eu vou mandar que façam bonecas diferentes. Não só negras, mas outras também. Sabia que eu tenho uma amiga chinesa e ela nunca teve uma boneca igual a ela?

Flashes de mim mesma, com a idade de Keily, parada nos corredores das lojas de brinquedos diante de dezenas de bonecas brancas passaram em minha cabeça. Pisquei, sentindo meus olhos ficarem molhados.

- A sua empresa vai fazer muitas crianças felizes.

Keily concordou com a cabeça.

- E quando eu crescer, quero ser bonita que nem você.

- Você já é linda que nem você. Você é tão bonita que eu adoraria se me desse de presente o seu autorretrato.

A menina olhou para o desenho em suas mãos, depois para mim.

- Eu vendo.

Ian caiu na gargalhada. Eu estava dividida entre a surpresa e a diversão.

- Bom, eu acho bastante justo. Quanto custa a sua obra?

- Cinco.

- Cinco?

- Não! Seis.

- Oh, isso é muito caro, mas deixe eu ver... - peguei minha bolsa e encontrei a carteira. Tirei uma nota de dez e entreguei para a menina.

- Acho que sua arte merece mais.

Keily pegou a nota rapidamente e me entregou o desenho. Depois saiu correndo gritando pela mãe.

- Com certeza ela nasceu para o mundo dos negócios. - Ian comentou, ainda rindo.

- Que bom que minha empresa não vende bonecas ou eu estaria em problemas em alguns anos.

Nós dois rimos mais um pouco.

- Quer ir tomar alguma coisa? Você deve estar cansada.

Ajeitei a bolsa no ombro antes de responder.

- Não dá, tenho planos.

Ian concordou com um aceno.

- Imagino que com o seu namorado. O cara do restaurante.

- Yep. Josh.

- Bom, espero ver você por aí.

- Me chame para o próximo evento. Meu passe de entrada é ilimitado. - falei, erguendo o braço. Ian sorriu.

- Pode deixar.

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