Capítulo I⏳

Diminuí a velocidade do carro para olhar com mais atenção a estrada com medo de perder a entrada. Nunca havia estado antes naquela cidadezinha, mas o pedaço da paisagem que eu peguei enquanto dirigia já havia roubado meu fôlego. Fiquei feliz por não ter desistido do convite de Sam só por ter estado doente há alguns dias. O antibiótico havia acabado na noite passada, eu me sentia ótima, aquele lugar prometia ser exatamente o que eu estava precisando e eu iria me dar esse pequeno agrado. A empresa ficaria bem.

O GPS mostrou que eu estava quase lá. Deslizei os óculos escuros dos olhos para o topo da cabeça e pisquei um pouco para a claridade. O sol estava forte, quase no pico do céu gloriosamente azul.  Cinco minutos depois dei sinal, virando à esquerda em uma estradinha de terra tão estreita que só dava passagem para um carro de cada vez. Torci para ninguém estar no caminho oposto. Não precisei da ajuda do GPS a partir dali, já que a estradinha não dava opções. Era um "siga em frente" sem fim. Depois de uns quinze minutos naquilo, comecei a me perguntar como diabos Sam havia encontrado a tal casa para alugar.

Finalmente consegui enxergar mais do que mato e terra à frente. A estradinha fez uma suave curva e lá estava ele, lá embaixo, como um imenso tapete azul que se movia pincelado de branco. Eu amava o mar como poucas coisas. Não o mar em si, na verdade, mas as lembranças que ele me trazia. Cresci em uma cidade longe do litoral, portanto visitas à praia eram viagens especiais, principalmente entre meu pai e eu. Lembrava de brincar na areia, cavando piscinas para minhas bonecas, enquanto ele me observava de sua cadeira, sorrindo.

Continuei dirigindo e foi meio desconcertante deixar o cenário deserto e abandonado e dar de cara com as casas imensas de veraneio de frente para o mar. Passei por quatro ou cinco delas, então o GPS avisou que eu já estava onde deveria estar. Parei o carro e esperei que uma família molhada, ainda de biquínis, passasse por mim antes de sair. Bati a porta do carro e girei, ficando na ponta dos pés para dar uma boa olhada na casa. Não era tão grande quanto as outras, mas ainda assim imensa. Era quadrada, moderna, dois andares, com mais janelas do que paredes. Uma varanda dava a volta em toda a casa no andar térreo, mas consegui ver um muro nos fundos, talvez separando o quintal do dos vizinhos.

Aquele lugar era quente. Dois minutos fora do ar-condicionado do carro e já sentia gotinhas de suor se formarem no meu pescoço e testa. A maresia já grudava em minha pele, com seu cheiro característico. Fiquei um pouco decepcionada ao notar que podia ver as ondas desde ali, mas não escutá-las. Seria toda uma experiência dormir com aquele som. Travei o carro e me apressei até a porta da frente. Sam me viu pelo vidro e veio correndo abrir.

– Você veio! – ele falou, abrindo os braços. Estava sem blusa, de shorts, com um cordão no peito nu e uma garrafa de cerveja na mão direita. Fui até o seu abraço.

– É claro, você me convenceu com as palavras "brisa" e "mar".

Nos abraçamos por um minuto e ele colocou um braço de distância entre a gente para me ver. Sam ainda estava com o sorriso aberto, os olhos apertados. Ele parecia realmente feliz por eu estar ali.

– Aposto que a sua bunda estava assando sentada naquela cadeira de couro na empresa.

– Nah, lá tem ar-condicionado. Mas aqui tenho certeza que vou tostar, esse lugar é quente demais, até para o diabo.

– Seus pecados não serão julgados aqui, então... – ele me passou a cerveja e eu dei um gole antes de devolver. – Venha conhecer o pessoal.

Eu dei uma olhada na casa pela primeira vez, notando que o andar térreo era um espaço só com sala de estar e cozinha acoplados. Na frente estava o sofá em L, alguns outros acentos, a TV com um monte de aparelhos plugados e tinha até uma mesa de sinuca do outro lado. Dois caras que eu não conhecia estavam jogando. Um deles, o que estava de frente para mim, tinha cabelo bem liso castanho claro, repartido no meio. Segurava o taco enquanto observada o outro fazer sua jogada. Ele ergueu o rosto para nos dar uma olhada e sorriu, mostrando dentes grandes.

– Ei, Stephen. Essa aqui é a Cielo, a amiga que eu estava esperando. – Sam falou, me levando até lá com a mão no fim das minhas costas.

– Hey! – Stephen deu a volta na mesa e me abraçou, exatamente como Sam havia feito. Fiquei um pouco desconsertada, mas instantaneamente gostei dele. – Pode me chamar de Stevie.

– E esse aqui é o Josh. – Sam continuou.

Dei um passo para trás, me soltando do abraço de Stevie e meu olhar se prenderam em um par de olhos avelãs, quase pretos, penetrantes. Ele estava debruçado sobre a mesa, o taco em riste para a jogada, mas me encarava. Rosto fino, cabelo médio também escuro. A boca era uma linha fina que, ao me ver encarando, se ergueu um pouco.

– Oi. – falei, de repente tímida. Talvez eu tenha voltado a suar um pouco.

– Oi. – ele respondeu, em um tom baixo. Voltou sua atenção para a jogada e chocou o taco contra a bola. Todos a seguimos com o olhar, acertando a laranja e a encaçapando.

– Merda. – Stevie resmungou, saindo do lugar para Josh se posicionar. Eu também estava no caminho, então seu braço roçou meu ombro.

Josh se inclinou outra vez e jogou, sem precisar estudar a mesa. Derrubou mais uma bola. Voltou a se mover, tirou o cabelo dos olhos e sorriu.

– Essa é sua, Stephen. – dessa vez eu pude ouvir bem sua voz. Era alta e alegre, vibrante.

Josh pareceu perceber que não havia jeito de encaçapar, então jogou de qualquer forma. Stevie abriu um sorriso e terminou o jogo com um movimento rápido e certeiro. Josh colocou o taco sobre a mesa e deu um tapinha no ombro do amigo.

– Bom jogo, garoto.

– Eu pego leve com você na próxima, Raven. – Stevie brincou. – Ei, Sam, vamos tentar instalar o som para hoje a noite?

– Claro, deixa só eu pegar mais uma dessa aqui. – Sam ergueu a garrafa de cerveja vazia e foi para a cozinha.

Josh se virou para mim, colocando as mãos nos bolsos do short.

– Quer ajuda com as malas? – ofereceu.

A mala. Não trouxe muita coisa.

– Bom, eu posso ajudar você com A mala.

Sorrimos ao mesmo tempo e isso nos fez rir.

– Obrigada.

Fomos até o meu carro e eu o abri para Josh. Era uma típica mala de aeroporto, mas no lugar de usar as rodinhas ele a carregou na mão até a varanda. Abriu a porta para que eu entrasse e então me entregou.

– Tem quartos livres lá em cima. Você vai poder escolher, o resto do pessoal só chega a noite. – Josh falou.

– Quanta gente? – aquilo me preocupava um pouco. Eu não era exatamente antissocial, mas nunca ficava bem à vontade com muita gente desconhecida ao redor.

– A Alex e a Holly, namoradas do Stevie e do Sam...

– Sam tem uma namorada? – perguntei, surpresa.

– Há algum tempo, na verdade.

– Oh. – ele não me contara nada. Bom, não nos víamos há um bom tempo, apenas trocávamos mensagens de vez em quando. Aquele era o nosso "reencontro".

– Você... – Josh ergueu as sobrancelhas.

– Eu o quê?

– Você e o Sam...

– O quê? Não, não, de jeito nenhum, a gente não...

– Tudo bem, tudo bem, não precisa ficar assim. – ele estava rindo.

– Não quero que pense besteira. A gente nem se vê há sei lá, muito tempo.

– Quer ajuda pra levar lá pra cima?

– Ah não, tudo bem, eu consigo.

– Tudo bem, então.

– Obrigada, Josh.

– De nada. Cielo, não é?

– Isso.

– Nome legal.

Levantei a alça da mala e a puxei até a escada, que era meio que o que separava o "espaço sala" do "espaço cozinha". Nos degraus, precisei erguer ela na mão, mas não estava tão pesada. Quase no topo, lancei um olhar para baixo e vi que Josh me olhava.

A escada terminava em um outro espaço aberto, bem menor que o de baixo. Tinha uma TV gigantesca e algumas poltronas no estilo de cinema, alguns pufes e até uma máquina de fazer pipoca. Consegui ver algumas portas em um corredor mais à frente e segui para lá. Haviam seis portas, pensando que as primeiras já estariam sendo ocupadas pelos meninos, escolhi a última. O quarto era pequeno, com uma cama de solteiro e a decoração clean. Deixei minha mala perto da porta e caminhei até a janela para dar uma olhada na vista. O quarto dava para o quintal, então pude ver a piscina e parte do deck.

– Ok, vamos desempacotar. – falei para mim mesma e girei, ficando de frente para a cômoda branca. Abri a primeira gaveta e percebi que havia roupa ali. Peguei uma das peças de cima e a encarei, confusa.

A porta se abriu do outro lado e Josh estancou, a mão ainda na maçaneta.

– Você está na minha gaveta de cuecas. – ele falou aquilo como se estivesse tentando entender a situação.

Olhei de novo para a peça na minha mão e a larguei rapidamente.

– Oh meu... Desculpa, eu pensei que o quarto estava vazio, não sabia que... – eu queria me jogar pela janela.

Josh começou a rir, uma risada alta que encheu todo o espaço do quarto. Ele caminhou até a cama e deitou ali, apertando a barriga.

– A sua cara! – ele soltou enquanto tentava respirar. - Você estava tipo... Então... - ele foi atacado por outra crise de risos.

A vergonha ainda queimava meu rosto, mas comecei a rir também.

– Outch, cala a boca. – resmunguei.

Josh respirou fundo, parando o riso, mas ficou com um imenso sorriso no rosto. Ele colocou as mãos atrás da cabeça, o cabelo espalhado pelo colchão, e me olhou.

– Esse quarto já tem dono, desculpe.

Fechei a gaveta e me afastei da cômoda.

– Desculpa de novo, eu pensei que vocês estariam mais na frente.

– Eu já tive o azar de ficar em quartos ao lado daqueles dois. Não aconselho.

Antes que eu pudesse responder, ouvimos Sam gritando alguma coisa. Josh revirou os olhos e sentou.

– Ele quer que eu vá comprar algumas coisas para mais tarde. Eu vim buscar minha carteira.

– Ah, eu não vi sua carteira. Juro.

Ele riu e balançou a cabeça, antes de levantar. Sam entrou no quarto.

– Cara, não vai dar tempo a cerveja gelar se você não se apressar. – Sam falou, me notando ali. – Vocês vão dividir o quarto? – perguntou olhando minha mala.

– Foi um engano. – falei, dando a volta na cama.

– Ahn, certo. Cielo, você pode ir com o Josh? Ele precisa de um carro.

– Claro, eu só vou deixar isso aqui em algum lugar. – peguei a mala e a puxei para o corredor. Escolhi a porta do meio, do lado direito, e fui direto até a cômoda. Vazia.

Coloquei a mala sobre a cama e fui espiar a janela, como havia feito no quarto do Josh. A minha vista foi decepcionante, dava para a casa ao lado e um terreno vazio e sem graça mais atrás.

– Má escolha.

Me virei e vi Josh com o ombro apoiado na porta aberta. Ele apontou com o dedão para a parede onde estava minha cama.

– Quarto do Stevie.

– Eu gosto do Stevie. – dei de ombros.

– Você quem sabe. – ele deu um sorriso do tipo sei-um-segredo-e-você-não. - Quer trocar de roupa ou algo assim antes de irmos? Eu espero lá embaixo.

- Sam parece bem preocupado com as cervejas, melhor irmos de uma vez.


Josh já conhecia o lugar, então foi indicando o caminho até o supermercado mais próximo. Ele pediu para baixar as janelas ao invés de ligar o ar. Eu odiava dirigir com as janelas abertas, o vento bagunçava todos os meus cachos, mas fiz o que ele pediu. Dois minutos em movimento e eu percebi que o vento no cabelo dele o deixava ainda mais bonito. Relaxado no banco, cotovelo na janela, vento no cabelo, era como se ele estivesse em um videoclipe clichê.

– Sam não parava de falar em você antes que chegasse. – Josh comentou, olhando pelo para-brisa.

Durante a viagem eu percebi algumas pequenas coisas nele, como os sinais no lado do seu rosto e as sobrancelhas grossas e escuras. Mordi o lábio antes de responder.

– Eu também estava muito animada em vir encontrar ele.

– Vocês se conheceram na faculdade, certo?

– Sim, tínhamos algumas aulas juntos. A faculdade não foi uma época muito legal para mim, Sam era uma das poucas coisas boas. Por isso eu deixei um monte de assuntos importantes de lado e aceitei o convite.

Josh me lançou um olhar, mas não perguntou de que coisas ruins eu estava falando.

– Trabalha em uma empresa? Eu ouvi vocês falando algo sobre isso.

Balancei a cabeça, parando em um sinal.

– Empresa de quê?

– Consultoria de Gestão Financeira.

– Você vai precisar virar à esquerda. - ele comentou.

– Ok.

– E o que você faz nessa empresa?

– Eu meio que mando em todo mundo.

– Wow, estou falando com a chefa?

– Pode apostar que sim. – sorri.

– Eu queria ter uma empresa pra mandar na porra toda.

– Fácil: Pegue todo o dinheiro que você tem, abra uma, contrate gente e trabalhe pra caralho.

O sinal abriu e eu o vi fazer um "wow" silencioso.

– Foi o que você fez?

– Foi.

– Visionária e corajosa.

– Visionária? É, talvez, mas eu estava com você sabe o quê na mão. investi todo o dinheiro que eu tinha em um ambiente quase totalmente dominado por homens.

Josh riu e eu estava me acostumando com sua risada, me dava a sensação que nenhuma outra pareceria tão boa quanto a dele depois.

– O quê? – perguntei, sorrindo e o olhando por um segundo.

– Você é uma daquelas pessoas que  dividem os xingamentos que podem ou não serem ditos em voz alta.

– Ei, eu só tenho meus limites!

– Aposto que você acaba com eles.

– Eles quem?

– Os cuzões da consultoria de não sei o quê.

Nós rimos mais um pouco e logo pude ver o mercado. Para uma cidade pequena até que era grande, tinha até um estacionamento.

– O que temos que pegar? – perguntei, agradecendo aos céus que o lugar tinha ar-condicionado.

– Gelo, aperitivos e cerveja.

– Temos o que comer em casa, não temos?

– Chegamos ontem e desde então comemos pizza, nuggets e asinhas de frango.

Fiz uma careta.

– Meu colesterol deu um grito aqui. Vamos pegar comida de verdade também.

– Sim, senhora.

Ele estava com o carrinho e o empurrou até as prateleiras. Fui dando uma olhada e colocando algumas coisas lá dentro.

– Você gosta de cozinhar? – perguntei, para quebrar o momento de silêncio.

– Eu só cozinho o que eu sei, tento não me arriscar.

– E o que você sabe?

– Pasta. Alguns molhos.

– Ah é? Que tipos de molhos?

– Aqueles que vêm prontos. Eu sou muito bom em esquentar.

Reprimi um sorriso e o olhei fingindo estar impressionada.

– Fogão ou microondas?

Ambos.

– Uau!

– Eu sei. – ele fez uma cara de convencido.

Não consegui segurar mais e comecei a rir. Não lembrava do último cara com quem saí que me divertiu tanto. Meu último encontro falou sobre taxas de exportação por duas horas.

– Acho que você também gosta de mim, sabe. – Josh falou, ainda no tom brincalhão.

– Hun?

– Você disse que gostava do Stevie. Acho que gosta de mim também.

– Não sei não, Stevie me fez sentir em casa depois de dois segundos. Você vai precisar se esforçar.

– Você abraçou o Stephen, mas era nas minhas cuecas que estava mexendo.

– Josh! – eu precisei dar um tapa no ombro dele.

– Mas você estava mesmo! Ainda bem que escutei minha mãe e comprei cuecas novas.

– Ah, então não é a sua namorada que manda você comprar cuecas?

– Não tenho namorada.

Ergui as sobrancelhas e escondi outro sorriso.

~ ~ ~ ~ ~

Quero dedicar esse capítulo para duas pessoas mais que especiais para mim. Primeiro para minha leitora número um, revisora, melhor pessoa da minha vida todinha e best friend forevah: Tai (aqui conhecida como mymedicineisHS Obrigada por me ajudar em mais um projeto e, principalmente, por ter tido o sonho que inspirou essa estória. Eu amo seu cérebro. E amo você 💛

E a segunda pessoinha especial é a minha Squirrel, aandressaferreira, quem me exige esse capítulo há meses! Hahahahhaa Amo você também, mana, e obrigada pelo seu entusiasmo 💙

Espero que todos os que derem uma chance para essa estória se sintam tão bem lendo quanto eu fui escrevendo. Cielo e Josh têm um pedaço do meu coração. Xoxo.

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