...Visita...
Dentro de casa fico sem muita opção de coisas pra fazer. Consigo perceber que o sol brilha fortemente no céu através da luminosidade na brecha inferior da porta. As janelas são fechadas com placas e cortinas para não correr risco de nenhum raio ultrapassar as persianas. Certa vez, uma telha do andar de cima quebrou e um raio solar ultrapassou a brecha onde antes estava a telha, exatamente no momento em que minha mãe passava. A telha não caiu em cima dela mas o raio solar a encontrou e, consequentemente, deixou uma cicatriz horrível em seu ombro direito. Uma cicatriz a qual ela sempre esconde por debaixo das roupas.
Constantemente questionava com minha mãe o porquê de termos se mudado pra uma região quente como essa, pois não tem lógica nenhuma um ser como nós viver nessa situação. Ela sempre dizia que seria melhor porque ficaríamos o dia todo trancado dentro de casa, assim ninguém nos veria e ela almejava isso: nos trancarmos e vivermos isolados do mundo para não correr risco de acontecer conosco novamente uma brutalidade como antes aconteceu com meu pai.
Isso até eu obrigá-la a me deixar ir pro colégio. No início preferia voltar a morar em uma região mais fria como antes de vir pra cá, depois do que aconteceu com meu pai já moramos em três lugares diferentes. Vivíamos sem rumo, por vários lugares até virmos para esta cidade.
Aqui aprendi que viver exilado é algo extremamente perturbador.
Escuto um barulho na porta principal e, me aproximando do olho mágico da porta, vejo Lucy. Todas as vezes que ela vinha até minha casa, eu não atendia e dava uma desculpa depois. Não poderia atendê-la e agora ela sabe o porquê. Imagino que algo tenha acontecido para ter vindo até aqui. Sem abrir a porta, peço para que dê a volta, pois nos fundos tem uma árvore que faz sombra na entrada da casa, permitindo que eu possa atendê-la.
- Aconteceu alguma coisa? - pergunto.
- Eu precisava te ver. Não consigo encaixar em minha mente que você é um... Você sabe!
Lucy fala rápido de mais, sem nem mesmo respirar entre as palavras.
- É. Eu sabia que seria complicado pra você, mas não poderia deixar de te falar depois de tudo que descobri.
- Bryan, eu quero conhecer sua mãe. - Inicialmente levo um susto com o pedido dela.
- Por quê?
- Pra ter certeza disso tudo.
- Não. Você não pode vê-la. Ela não iria querer te ver, pois sabe que por causa de você estamos nos arriscando. Por ela já estaríamos longe daqui há muito tempo.
- E por que não estão? - Lucy como sempre é muito direta em suas palavras.
- Por que não posso te deixar. Não quero te perder. - Decidi ser direto também.
- Como você disse mesmo que se chama sua mãe? Me diz que eu mesmo a chamo.
- Lucy, ela não está em casa. Foi caçar.
- Ela saiu nesse sol? Tenho certeza que não! - Vejo um sorriso sarcástico formando em seu belo rosto e isso me faz perceber que eu inventei a pior desculpa de todas.
- Saiu de madrugada e disse que passaria o dia na floresta. - Tento dar uma desculpa pra desculpa anterior, mas Lucy sabe que é mentira. Eu realmente não sou muito bom com mentiras.
- Bryan. Se você não me deixar entrar eu tentarei a força.
- Se quiser tentar passar... - Sorrio.
Lucy faz o que disse. Se lança em cima de mim tentando passar pela porta, porém não permito.
- Você sabe que eu sou forte. Você não vai conseguir - falo, ainda rindo.
Ela desiste e me analisa. Imagino que ela está procurando uma opção para conseguir passar.
Decido interromper o momento de reflexão em que Lucy se encontra chamando-a. Ela apenas pede pra que eu espere.
- Sério. Preciso falar com você. - Ela apenas me olha, mesmo assim entendo que posso falar o que quero.
- Estava conversando com minha mãe e ela acabou lembrando de algo que eu mesmo não lembrava. Que antes da minha transformação eu era rápido, "evidenciando"... - Uso meus dedos pra fazer aspas no ar. -... O talento que eu poderia ter após a transformação. E com minha mãe ocorreu o mesmo.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que se fizermos uma análise sobre você talvez veremos qual talento você teria se fosse transformada. E talvez é essa análise que Scott tem procurado fazer. Imagino que ele tem buscado talentos específicos para formar um grupo, um clã ou algo parecido.
- Tem outros com ele, com exceção de Dave?
- Não que eu tenha visto. Se tiver outros, podem estar em outros lugares procurando, assim como Dave e Scott estão por aqui - concluo.
Sinto algo se aproximando pelas minhas costas e antes de chegar pressuponho o que seja. Não sei por qual razão ela veio até aqui , mas veio. Minha mãe está parada ao meu lado olhando diretamente pra Lucy.
- Olá, Lucy! Finalmente conheci você pessoalmente. Sou a mãe de Bryan.
Lucy está em um estado alienado. Não se mexe, não pisca, não mexe os lábios pra cumprimentar minha mãe e nem mesmo respira.
- Está tudo bem?- Minha mãe pergunta e Lucy somente mexe a cabeça em negativa. - Eu sabia que você iria reagir de alguma maneira estranha ao me ver.- Ela satiriza.
Lucy olha bem nos olhos dela e consegue pronunciar algumas palavras.
- Ai meu Deus! Eu sabia que você era uma vam... Quer dizer, eu sabia que você não era hum... Não! Eu... Não sei o que dizer sinceramente. Só sei que não esperava que você era tão...
- Nova? - Minha mãe percebe o nervosismo dela e a interrompe.
- Sim - confirma Lucy.
-Bryan, você é praticamente uma versão masculina da sua mãe. Os cabelos e os olhos castanhos, os traços do rosto. Só o tom de pele que é diferente, mas fora isso são idênticos!
Ela realmente fala com um tom de surpresa na voz. Sabia que ela iria ficar surpresa, porém não achava que ficaria desse jeito.
- Sei que é difícil pra você compreender isso tudo, porém não consegui impedir Bryan de lhe contar. Você não pode contar pra ninguém garota, nem para os seus pais, nem para os seus amigos e nem mesmo para o espelho. Isso aqui não é um filme, é vida real. Estamos correndo riscos e você... - Ela dá uma pausa. - ...À partir de agora também está. - Minha mãe fala tudo isso com um tom que soa um tanto quanto arrogante.
- Mãe, não precisa falar assim com Lucy. Vai acabar a assustando e eu sei que ela não vai contar pra ninguém, eu confio nela.
- Aliás, eu já estou correndo risco há muito tempo. - Lucy pronuncia essa frase com um certo sarcasmo. Afinal de contas ela não costuma evitar respostas diretas.
Minha mãe apenas emite um som de insatisfação e some do nosso lado. Lucy arregala os olhos e move a cabeça tentando ver pra onde minha mãe foi, mesmo não conseguindo.
- E então... Acredita em mim agora? - pergunto sorridente.
- Quantos anos sua mãe tem? - Ela ignora minha pergunta.
- Foi transformada quando tinha vinte e um - respondo.
- Isso você havia comentado, mas a quanto tempo ela tem vinte e um? - questiona ainda boquiaberta.
- Há alguns anos. Não gravo nem minha idade quanto menos a dela! - Sorrio.
- É, sei que você é esquecido. Principalmente com números. - Lucy faz uma pausa. - Ela é linda!
- É, eu tive a quem puxar! - Lucy debocha do que eu falo.
- Convencido! Agora eu tenho que ir. Depois a gente se vê - diz enquanto sai.
- Não, Lucy. Espera.
Apesar de meu pedido, a loira se vai.
Não escondo de minha mãe a insatisfação que estou em relação ao modo como ela falou com Lucy. Entendo que está há muito tempo isolada do mundo, porém isso não justifica sua atitude. Em sua defesa disse que precisa dar um choque de realidade em Lucy. Que estamos em risco por causa dela, porém a garota não tem culpa de Scott a querer.
O maior problema é que agora não pode ir ao colégio e assim complica os estudos. Tenho anos e anos pra estudar, ela não. Não tenho tido contato com Jhonny, apenas pedi para que nossa amiga em comum tentasse impedi-lo de ir ao colégio. Porém os pais dele não permitiram e Lucy não teria argumentos para fazer com que eles mudassem de ideia. Sei que é muito errado da minha parte não estar ao lado do meu amigo em um momento tão difícil como a morte da namorada dele, mas não conseguiria confortá-lo sabendo que eu mesmo a matei. Nem mesmo o procurei pra conversar após o ocorrido. Não conseguiria olhar em seus olhos, pois lembraria de imediato o que ocorreu na biblioteca naquele dia. O que ocorreu por minha culpa. Eu sou mesmo um péssimo amigo.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top