...Tempo...
Entro ao encontro de minha mãe.
— Até quando eu continuarei me surpreendendo com você, com as suas atitudes? Cada hora descobro algo diferente — digo envolto em um misto de decepção e raiva.
— Bryan, já faz tempo que isso aconteceu. Foi no início, quando tudo ainda era novo pra gente.
— Não importa — declaro.
— Scott nos convenceu no início. Somente percebemos que estávamos fazendo algo extremamente errado com um choque de realidade, quando Scott tentou matar você, quando você ainda era pequeno. — tenta se redimir com um tom de voz arrependido.
Não dou muita atenção a sua explicação.
— Bryan, você sabe que todos erram em algum momento da vida. Você esqueceu do que você fez com as pessoas que mataram seu pai ou o que você fez com Jennifer naquela noite, na biblioteca? — Minha mãe continua tentando me convencer a perdoá-la.
— O que você quer dizer com isso? — A voz de Lucy penetra em meus ouvidos e o pavor me consome, paralisando-me.
Não queria que Lucy soubesse o que aconteceu naquela noite de forma alguma, porém minha mãe não contribuiu pra que isso acontecesse. Por que Lucy acordou justamente no momento que minha mãe falou sobre esse assunto? Por que minha mãe falou sobre esse assunto? Tenho vontade de sumir agora.
— É assunto de mãe e filho, Lucy. — Jhonny diz tentando amenizar a situação. — Vamos comigo lá na cozinha.
— Poxa, mãe. Olha a situação que você criou. Agora eu vou ter que contar a Lucy o que aconteceu, ela vai ficar muito chateada comigo — digo exaltado após Lucy acompanhar Jhonny até a cozinha.
— Se Lucy gosta mesmo de você, vai entender — diz enquanto vai embora.
Minha mãe sempre tenta me afastar de Lucy. Além de pronunciar algo que não deveria próximo a garota, não demonstrou esforço algum para reparar o que fez. Corro até a cozinha pra tentar explicar a loira o que aconteceu e quando me aproximo, vejo que está chorando.
— Poxa, Bryan. Não acredito que você teve coragem de fazer isso com nossa amiga — diz aos prantos.
— Pelo amor de Deus, acredita em mim. Não foi por querer, eu estava desesperado. Lembra de tudo que te contei que aconteceu com meu pai, com minha mãe e comigo. Não queria correr o risco de passar por aquilo tudo de novo. — Lucy não diz nada. — Se coloca no meu lugar, imagina o que poderia ter acontecido se Jennifer soubesse que eu era um vampiro, seria muito perigoso.
— Você matou minha amiga. Não deu nenhuma chance de guardar seu segredo. A matou por descobrir o que você era e depois me contou tudo sobre sua transformação por livre e espontânea vontade — grita, engasgando no próprio choro.
— Lucy, tenta entendê-lo. — Jhonny intervém. — Imagina se você passasse por tudo que ele passou. Pensa como eu, ter raiva dele não vai trazê-la de volta. Fiquei muito chateado com Bryan, ainda estou, mas não adiantaria condená-lo, porque assim, além de ter perdido minha namorada, perderia também um amigo. E você, pelo contrário, além de ter perdido sua amiga, perderia também seu namorado.
— A gente não namora — ela grita com Jhonny.
— Eu tinha meus motivos pra te contar tudo sobre mim. Você estava correndo risco e queria que você soubesse que eu poderia te proteger.
Ela não se importa com minhas palavras e sai correndo.
— Lucy, espera — grito e tento ir atrás, porém Jhonny me impede.
— Vai pra casa, Bryan. Deixa que eu vou atrás dela e tento convencê-la. Será melhor assim.
Agradeço-o e caminho em direção a minha casa.
Essa semana pensei muito sobre tudo que aconteceu na última noite que vi Scott. Não me resta dúvidas que minha mãe falou sobre eu ter matado Jennifer, na presença de Lucy, de propósito. Quando vi as duas conversando, me iludi imaginando que a partir daquele momento se entenderiam. Decidi não procurar Lucy e também não dei assunto algum a minha mãe desde esse dia. Jhonny veio até minha casa algumas vezes dizer que nossa amiga não tem dado muito assunto a sua defesa em relação a mim, contudo ele tem insistido.
Uma onda me pega de surpresa enquanto navego em um mar de pensamentos. Corro pra atender alguém, após ouvir algumas batidas na porta. Reconheço o cheiro, mesmo assim descarto a possibilidade de estar certo. Me aproximo da porta e giro a maçaneta. Ao ver quem se encontra a minha frente, penso que a única explicação seria eu ter dormido no sofá enquanto pensava sobre tudo que tem acontecido e que agora estou sonhando, contudo nunca mais sonhei, nunca mais consegui dormir. Tenho que voltar a realidade e entender que isso aqui é real. Estive a semana inteira alienado, vivendo em meu mundinho, em minha mente. E, mesmo que pudesse dormir e sonhar, nunca conseguiria projetar em meus sonhos essa imagem perfeita que visualizo nesse momento. Esses cabelos loiros jogados sobre os ombros e esses olhos claros passando uma humanidade deslumbrante. Olho pra Lucy sem capacidade alguma de falar, apenas a admirando. Temos tanto pra conversar. Tenho que argumentar pra convencê-la de que na noite que matei Jennifer fui movido pelo desespero, explicar tudo porque não quero que a gente se distancie. Porém, agora, não falo nada.
Já que veio até aqui, acredito que tenha algo relevante pra falar. Será que decidiu me perdoar? Sua boca se abre com um suspiro como se decidisse pronunciar algo, mas desiste.
— Pode me contar o que tem a dizer! — digo suavemente.
Lucy olha pra mim e abre um sorriso.
— Não sei por onde começar!— Fica linda tirando uma mecha de cabelo que estava sobre o rosto.
— Comece pelo começo!
— Pensei muito essa semana sobre tudo que aconteceu e... — faz uma pausa perturbadora.
— E...
Estou desesperado. Preciso que continue a falar.
— E entendo seus motivos para ter feito aquilo. — Suspiro aliviado. — Mas... — Dá ênfase no "mas". Por que sempre tem um "mas"? — Preciso que me entenda também, Jennifer era como uma irmã pra mim.
— Claro que eu entendo!
— Não sei como Jhonny conseguiu reagir tão bem quando soube, pois eu não consegui — desabafa.
— Ele deve ter te contado que inicialmente não reagiu tão bem — suponho.
— Sim, ele me contou. Me fez perceber que você não fez aquilo por pura maldade ou estupidez e, que sendo assim, não valeria a pena me distanciar, já que gosto muito de você.
A loira não faz ideia do efeito que essas palavras provocam em mim.
— Apenas me da mais um tempinho pra administrar melhor tudo isso?
— Te dou o tempo que você quiser. — Acaricio seu rosto. — Te dou a eternidade se for preciso.
Lucy me fita de uma maneira especial, de uma maneira que somente ela sabe olhar. Me aproximo tentando beijá-la, mas se afasta. Ainda está muito mexida com tudo que aconteceu. Respeito sua posição de querer um tempo, mas preciso sentí-la em meus braços. Tento envolvê-la e dessa vez não recua. Nossos corpos se entrelaçam de uma maneira singela. Posso sentir seu coração pulsando forte, até que Lucy se despede.
Não insisto pra que fique, mesmo querendo muito. A deixo ir sem preocupação, pois sei que nos veremos em breve. Sei que somente quer um tempinho, apesar de saber também que mesmo que esse tempinho seja apenas um dia, pra mim será muito demorado. Contudo não me importo, pois, em breve, teremos uma eternidade juntos.
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