...Sonho...
Decidi vigiar Lucy de uma maneira diferente essa noite. Não ficarei na árvore perto de sua casa como de costume, ao invés disso, pedirei pra estar em seu quarto, assim poderei fazer companhia também. Parece analisar um pouco minha ideia antes de permitir. Após concordar, diz que acha que poderemos conversar pra me conhecer melhor, mas agora, conhecer quem realmente sou.
Começo falando sobre quando meus pais foram transformados por Scott, em seguida falo sobre quando meu pai me transformou antes de ser morto, sobre minha vingança e coincidentemente a primeira vez que a vi, sobre os problemas que tive com minha mãe após o que aconteceu com meu pai. E Lucy ouve tudo atentamente sem me interromper.
Continuo detalhando os problemas da minha mãe que tive que enfrentar. Explico que tinha que auxiliá-la a noite por causa dos pesadelos e que eu caçava sozinho porque ela somente vivia trancada, com medo dos humanos. Lucy pergunta o porquê de minha mãe dormir e eu não, e explico que essa é mais uma característica de um evoluído.
— Na verdade, descobri a pouco tempo que a inteligência que meu pai tinha era um talento. Minha mãe disse que ele estava desenvolvendo uma pesquisa em um laboratório clandestino pra entender como os vampiros evoluíram e porque somente nesse período de idade, de quinze a vinte anos, e porque alguns desenvolvem um talento específico. Ele não teve chance de terminar a pesquisa.
— Eu sinto muito pela sua perda Bryan. Não pensou em ir até esse laboratório? Às vezes você encontra alguma coisa útil lá.
— Pensei sim, mas não perguntei minha mãe onde é. Quem sabe um dia!
— Esse dia pode ser amanhã, se sua antiga cidade não for muito longe? Podemos ir juntos — Acho legal de Lucy querer fazer algo em memória do meu pai e isso me deixa meio estranho porque nunca me interessei em perguntar nada sobre os pais dela.
Ela para um instante e olha pra mim com um sorrisinho estampado no rosto.
— O que? — Sorrio ao perguntar.
— Pensei em algo curioso!— Posso ver um sorriso mais largo em seu rosto.
— Curioso? Não imagino o que seja!
— Quando eu iria imaginar em ficar com um vampiro? — Ela ri novamente e eu fico extremamente envergonhado. —Uma outra curiosidade: Quantos anos você tem de verdade?
— Vinte — respondo e noto que ficou um pouco surpresa com a notícia.
— Mas... Tecnicamente tenho quinze, então essa idade que vale! — brinco!
Depois de um tempo conversando, Lucy pede pra que eu vá. Finjo não escutar.
— Está ficando tarde. É melhor assim.
— Poxa, Lucy. Deixa eu ficar aqui. É melhor do que passar a noite sozinho naquela árvore. Aqui pelo menos poderei me distrair vendo você dormir!
— Não, Bryan. Não vou conseguir dormir com você me olhando. — Ironiza o tom de voz.
— Prometo que você nem vai perceber que tem alguém aqui com você. — Tento convencê-la.
— Você é muito insistente... — Olha para o relógio e para mim novamente. — ... É melhor que eu não perceba mesmo!
Lucy se cobre com os lençóis e se vira pra parede. Olho para o relógio e vejo os ponteiros se movendo e o tique taque do relógio continua batendo constantemente.
— Lucy, está acordada? — sussurro.
— Sim, Bryan. Você disse que eu não perceberia que você está aqui, esqueceu?
Apesar de estar acordada a voz dela sai trêmula como se já tivesse cochilado.
— Eu disse, mas é algo importante. — Me desculpo.
— Pode falar.
— Desde que você virou pra dormir estou sentado aqui olhando para o relógio e pensando. Se você era a única razão pra Scott estar lá no colégio, por que ele ainda está lá se você não está indo? E ele já deveria ter aparecido, ainda mais depois que fui na casa del...
— O que você disse? Você foi na casa de Scott? — Lucy me interrompe e me deixa completamente sem palavras.
Esse deveria ser um acontecimento que eu não deveria ter contado.
— Eu fui na casa dele no dia em que você e eu nos beijamos. Mas não se preocupe porque Scott não estava em casa. Somente Dave estava.
— Naquele dia você me prometeu que não iria — Lucy comenta furiosa.
— Eu sei, mas não pude me conter. Precisava falar com ele. Queria encará-lo, mas ele não estava em casa.
— E Dave? O que aconteceu quando te viu?
— Tentou me intimidar, isso antes de eu colocar ele pra correr — falo na intenção de tirar uma onda!
— Sério, Bryan. O que você fez? Me conta. — Ela se mostra interessada no assunto e eu aproveito pra continuar me exibindo um pouco.
Conto tudo que aconteceu naquela noite sem acrescentar nem omitir nada.
Lucy repreende a minha atitude e, minutos depois, pede para que eu deite ao seu lado pra fazer companhia, pra que possa dormir.
Cumpro o que ela pediu de imediato pra não correr o risco de que mude de ideia!
Ficamos deitado um de frente pro outro, exatamente como estávamos no dia do nosso beijo. Ela me olha, deseja boa noite e fecha os olhos. Fixo meu olhar em seu rosto, o analisando. Lucy é linda até mesmo quando seus belos olhos estão fechados. Ouço sua respiração. Não sei se deveria, mas sou dominado pela vontade de beijá-la. Me aproximo vagarosamente até meus lábios encostarem nos delas e sou surpreendido quando os seus correspondem. Achei que já estava dormindo ou até mesmo que não concordasse com a atitude que tomei, felizmente estava errado. Continuamos nos beijando sem falar nada e nem mesmo pensar em mais nada. Penso somente nesse momento com Lucy.
Olho pro relógio de parede e já são três horas. Estou realmente sentindo algo muito forte por Lucy, mas dessa vez não é o que sinto instintivamente por causa do "talento" que ela poderá desenvolver. É algo mais forte e nunca tinha sentido isso antes por ninguém.
Ela está dormindo com um sorrisinho no rosto. Imagino que está tendo um sonho bom e sinto muitas saudades de quando eu também sonhava. Há muito tempo não sei o que é sonhar e isso é perturbador. De vez em quando me recordo de alguns sonhos que tinha e a vontade que me domina é de poder dormir e sonhá-los novamente.
É tão bom poder viver em um mundo só seu, um mundo que você é o dono, que você controla e faz o que bem entende. Eu não tenho mais esse mundo, porém Lucy tem e nesse momento ela está nesse mundo. E eu, olhando aqui de fora, só tenho algo a desejar: que ela me inclua nele.
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