...Raridade...
Mesmo querendo que eu continue a falar, Lucy parece não acreditar muito. Mesmo assim não poupo minhas palavras.
— Minha mãe estava investigando Scott sem eu saber e me contou tudo que descobriu. Ela que me disse as reais intenções dele. Suspeitou também porque já o conhecia, mas é uma longa história que não vem ao caso agora.
— Mas o que ele quer? — Me faz a pergunta mais difícil de responder.
— Ele quer você — digo sem rodeios.
Sua expressão muda completamente. É como se estivéssemos carregando algo muito pesado e eu soltasse, deixando o peso todo pra ela. Sua aparência nesse momento é indescritível e antes que pergunte o porquê de Scott a querer, eu falo.
— Você tem algo diferente. Você é uma humana rara que desenvolverá um talento e Scott quer esse talento, mesmo que não saiba qual é, mas ele a quer sob seu domínio. Assim como aquele ruivo que agente descobriu, que a propósito se chama Dave.
— Como assim um talento? — pergunta ainda sem mudar a expressão facial.
— Bom... Entre quinze e vinte anos o humano transformado se tornará um vampiro evoluído, assim como eu, com as minhas características. Contudo, alguns desenvolvem um talento que é uma habilidade especial. No meu caso eu sou mais veloz que o normal, porém só dá pra saber depois da transformação. E se não ocorrer a transformação, esse talento a partir dos vinte e um anos se torna inexistente.
— Como Scott sabe que eu sou uma dessas raridades?
— Vampiros podem sentir. Eu posso sentir. — Lucy me olha profundamente.
Não sei o que se passa na cabeça dela agora. Pressuponho que está uma confusão.
— Não consigo entender. Se você é o que diz ser, como não provocou um efeito em você também quando você mesmo cortou Jhonny com a gilete pra mostrá-lo que Scott é um vampiro?
— Uma das características de um evoluído é o controle da sede. Posso me alimentar com comida humana também. Me alimento com sangue de animais ou comida humana por um período, porque, querendo ou não, somente o sangue humano sacia.
— Isso tudo é muito confuso. Por isso você nunca aparece de dia, imagino. — Percebo que ela começa a ligar as evidencias por mais surreal que sejam.
— Exato. Digamos que o sol não faz muito bem para minha pele! — Brinco.
— Bryan, mas se ele me queria desde sempre, porque não tomou uma atitude ainda?
— Minha mãe e eu acreditamos que ele queria estudá-la pra ver se você é diferente em algum sentido. Ter uma evidência do seu talento e pra facilitar que ele busque outros — afirmo.
Percebo que Lucy não está conseguindo olhar em meus olhos. Não falo nada, apenas fico parado com os ouvidos à disposição dela, mas ela também não fala nada. Imagino sua mente como uma rede de pesca que outrora fora arrebentada e que agora o dono tenta remendar.
Após um tempo, o silencio é quebrado. Lucy pede para que eu vá embora para que ela possa pensar melhor nisso tudo. Para tentar processar que eu sou o que ela nunca havia imaginado que eu seria. Lhe falo que vou vigiá-la todas as noites a partir de hoje, mas ela não aceita, pois não quer ser um empecilho pra ninguém. Argumento que não faz diferença porque eu não durmo, automaticamente, fico a maior parte do tempo sem fazer nada. Após remediar, percebe que proteção é necessário e por isso aceita. Seu olhar me analisa como se não me conhecesse. Por um lado tem razão, pois não me conhecia completamente até alguns minutos atrás.
Fico em uma árvore perto da casa de Lucy atento a qualquer movimentação estranha. Minha mãe aparece e diz que quer me fazer companhia um pouco, me deixando consideravelmente surpreso.
— Não está afim de dormir hoje? — pergunto com um sorriso no rosto.
— Você sempre brincando comigo porque não dorme! — ela diz com uma certa inveja.
— Teve algo que não consegui entender e não estava tendo tempo pra perguntar. — Mexe a cabeça como se estivesse pedindo pra eu prosseguir. — Como funcionava esse talento auto defensivo.
Minha mãe olha pro céu parecendo estar pensando na melhor maneira de responder.
— Lembra, antes de seu pai te transformar que você gostava de brincar de correr, porque era rápido? — Concordo com a cabeça. — Pois bem, geralmente o talento é perceptível antes da transformação. Claro que de uma maneira "normal" você corria rápido, mas não tão normal como qualquer outro. — Balanço a cabeça em concordância. — Comigo acontecia algo parecido. Comecei a perceber desde pequena que quando me machucava, curava rápido. Uma vez achei aquilo tão curioso que me cortei com uma faca, propositalmente, para ver em quanto tempo me curaria. E em dois dias o corte havia sumido como se minha pele nunca tivesse sido cortada naquela parte. — Percebo que minha boca forma um "o" involuntariamente. —Quando Scott tentou me transformar, meu organismo de alguma forma neutralizava o veneno da mesma maneira que eu era contaminada pelo mesmo. Seu pai esperou que eu fizesse vinte um anos para me transformar, já que não teria mais talento algum com essa idade.
— Nunca tinha parado para analisar essa relação de antes e depois da transformação e nem mesmo me lembrava que eu já era rápido antes de tudo acontecer.
Muito curioso o fato de desde pequeno esse talento poder ser evidenciado, contudo só ser efetivo se a transformação ocorrer entre quinze e vinte anos.
Eu posso tentar analisar Lucy para ver se percebo qual talento pode desenvolver, exatamente como Scott está fazendo.
— Se ele está mesmo querendo estudá-la, pode ser que essa seja uma "matéria" dele — diz minha mãe.
— Assim posso, até mesmo com a ajuda de Lucy, tentar perceber esse talento — comento.
— Sim, contudo não é em todos os casos. Talvez com ela não dê pra saber. — Me alerta.
— Eu posso tentar! — digo confiante.
Continuo aqui na árvore, sentado em um galho, atento a tudo. Minha mãe foi se alimentar. Geralmente eu que caço pra ela, mas como não poderei, por estar vigiando Lucy, ela decide ir.
Não sairei daqui até que o sol esteja prestes a aparecer.
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