...Passado...
— Mãe, estou sem chão! Não tenho certeza do que fazer. Não tenho mais certeza do que eu sou.
Fico paralisado, analisando seu olhar perdido, enquanto pensando no que dizer.
Quando comecei a contar tudo que havia acontecido há algumas horas atrás, ela se enfureceu. Não tenho certeza se foi pela parte do beijo ou por eu ter ido até a casa do meu professor sombrio, mas se enfureceu. Olhou para mim com um olhar de total desaprovação e a única coisa que seus lábios pronunciaram foi que esse era o preço que estava pagando por ter aliviado a barra. Expliquei que nada era sua culpa. Expliquei que errado seria se continuasse me prendendo em casa como fazia antes. Eu, ao contrário dela, posso sim sair, posso sim estudar e sem que ninguém desconfie de nada. Eu sou evoluído, mas Scott não é. Ele se arriscou querendo conviver normalmente com os humanos, assim como meu pai tentou. Mas no caso do meu pai não deu certo e essa tentativa de isolamento da minha mãe é pra não correr o risco que meu pai correu.
Os humanos não acreditam em seres como os vampiros, pois pra eles é tudo pura ficção. Porém quando são contrariados não costumam reagir muito bem. Na minha antiga cidade os moradores não reagiram bem quando perceberam que meu pai contrariava a natureza normal deles e feito isso tomaram uma atitude. Contudo, hoje em dia não sobrou ninguém pra se sentir contrariado.
Eu suguei o sangue de todos, um por um.
Todos que estavam em frente a minha casa com armas e tochas naquela noite; todos que ajudaram no executamento público do meu pai; todos que queimaram minha casa na intenção de torrar a minha mãe e a mim; todos que queriam nos destruir naquele dia... Antes desse ocorrido eu era normal, pois minha mãe havia engravidado antes de meu pai ser transformado e eu nasci antes dela sofrer a transformação. Para ela, por não ser evoluída, era um pouco difícil segurar a sede no começo mas se acostumou logo.
Eu era um cordeiro vivendo em meio a lobos e o cordeiro amava os lobos, assim como os lobos amavam o cordeiro.
No dia que meu pai foi morto tudo ocorreu muito rápido. Primeiro vi uma movimentação em frente a minha casa e ficamos todos em alerta. Em seguida meu pai abriu a porta para ver o que estava acontecendo e rapidamente retornou pra dentro de casa. De imediato não entendi nada, porém minha mãe havia entendido. Ela estava preocupada e eu comecei a me preocupar também. Meu pai virou para mim e ordenou que eu protegesse minha mãe. Concordei com a cabeça e estiquei os braços para abraçá-lo, foi quando senti algo como duas agulhas furando meu pescoço e puxando parte do meu sangue. Caí no chão me contorcendo de dor e agonia e foi quando meu pai saiu pela porta. Ele disse que iria tentar conter a multidão enfurecida que estava em frente a nossa casa e revelou que o que fez comigo foi necessário.
Ardendo em dor consegui me levantar e, ao olhar pela janela, vi a cena mais chocante da minha vida. Vi meu pai sendo decapitado e queimado vivo. A fervura do veneno circulava por todo o meu corpo e minha vontade naquele momento era sair pela porta e rasgar o pescoço de todos, entretanto não poderia. A casa estava começando a pegar fogo, minha mãe me agarrou pelos braços e me puxou para que fugíssemos por uma passagem. Meu pai havia feito essa passagem secreta por segurança, um túnel de fuga o qual eu não sabia que existia e nem que precisaria usá-lo algum dia. Enquanto saía com minha mãe, não conseguia pensar em mais nada a não ser voltar paara rasgar o pescoço de todos e esse pensamento não saiu da minha cabeça até que eu realizasse isso. Minha mãe estava tão desnorteada que não falava nada, apenas me puxava para que saíssemos daquele lugar horrível. A expressão dela parecia estar congelada e depois disso ela nunca mais voltou naquela antiga cidade.
— Scott já deve estar sabendo de tudo que aconteceu na casa dele. Dave provavelmente já está seguindo algum plano de Scott. — As palavras de minha mãe surgem no ar com um efeito preocupante.
— Como assim Dave está seguindo algum plano de Scott? — pergunto com medo da resposta que estava prestes a ouvir.
— É o que eu havia falado com você, Bryan. Mas você não me escutou. Não deveria ter falado absolutamen... — A interrompo, pois espero minha resposta mesmo tendo certeza que não gostarei do que estou prestes a ouvir.
Ela fica em silêncio
— Que plano Dave poderia estar seguindo? Responde Mãe! — insisto.
— Scott não ficaria nada feliz com suas ameaças. Você foi até a casa dele... — Estou tentando entender onde ela quer chegar — ... Ele pode querer se vingar.
— Como ele poderia se vingar? Ele não teria a audácia de vir aqui enfrentar a gente!
— Não, Bryan. Você não entendeu. — A pausa que ela faz é perturbadora. — Ele pode se vingar através dela.
Sinto um revirar em minha mente. Não tenho certeza do que pensar. Somente imagino os dentes de Scott cravados no pescoço de Lucy sugando o sangue dela e, talvez, não parando até que todo o sinal vital tenha acabado.
— Mãe, não tenho outra opção a não ser...
— Nem pense nisso Bryan! — Me interrompe.
— Não tente me impedir.
Não fico para saber se ela disse mais alguma coisa. Apenas saio rapidamente em direção a casa de Lucy. Minha mãe sabia qual era minha intenção sem mesmo eu ter falado. Ela me conhece e sei que deve estar explodindo de raiva nesse momento. Passo pela janela de Lucy desesperado fazendo com que ela leve um susto. Ao ver que sou eu, abre um pequeno sorriso. Parte feliz e parte aliviado. Não falo nada, apenas a abraço forte.
— Por um momento achei que tinha te perdido. — Suspiro aliviado, enquanto sinto minhas lágrimas passeando em meu rosto e se precipitarem ao chão.
— Como assim me perdido? Aconteceu alguma coisa com você, Bryan?
Ao certo não sei como responder sua pergunta. Tenho tanta coisa pra falar e apesar de não poder, não tenho escolha. Eu devo alertá-la. Ela deve saber que Scott a quer desde o início e que eu posso protegê-la. Essa é a parte complicada: dizer que posso protegê-la.
— Lucy, agora eu sei o que Scott quer — digo sem remediar.
Lucy demonstra preocupação ao me ver no estado que estou, ao me ver chorando. Nunca tinha me visto chorar.
— Você não me disse que continuava a investigar Scott. — Ela franze as sobrancelhas.
— É. Eu sei que não. Mas preferi não te falar nada pra não te por em perigo e, na verdade, não fui eu que descobri tudo.
— Como assim? Quem foi? — Franze as sobrancelhas novamente.
— Minha mãe. — Deixo escapar um certo sarcasmo em minha voz.
— Que brincadeira é essa Bryan. Você disse que sua mãe é tipo depressiva, pois nem de casa sai!
— Não é bem assim. Eu menti, Lucy.
Seu olhar demonstra descrença.
— Então... Vou tentar explicar tudo! — Tento organizar todo pensamento cronologicamente enquanto começo a falar. — Lembra de quando você viu aquele vampiro na fazenda de seus avós?
— Lembro, mas o que isso tem a ver?
— Era eu, Lucy. Por isso você teve uma pequena lembrança que ele se parecia comigo, apesar de fazer tanto tempo.
A loira cai sentada sobre a cama e sinto que dessa vez é ela que tenta organizar os pensamentos.
— Bryan... Que brincadeira é essa?
— Estou querendo dizer que eu era aquele garoto no chiqueiro com os porcos naquela noite.
— Não tem lógica, Bryan. Você está querendo me dizer que você era aquele vampiro! — Solta uma leve risada que não aparece mais em seu rosto após eu dizer que é exatamente isso que estava querendo dizer.
— Pelo amor de Deus, Bryan. Se você é um vampiro eu sou uma princesa da Disney! — Lucy sabe ser sarcástica quando quer, mas está mais pra descrença do que um mero zombamento.
— Parece estranho mesmo, porém é a verdade — disparo.
— Não estou achando graça nenhuma nessa sua brincadeira, Bryan. Um vampiro que estuda, que convive comigo e meus amigos todos os dias, que não tem a pele gelada, que não é pálido, pelo menos nem tanto, que me dá um beijo... Quer que eu continue?
Mexo a cabeça em negação. Fico extremamente sem graça por ouvir Lucy pronunciar "um vampiro que me dá um beijo".
— E Scott? Não é quase a mesma situação? — pergunto.
— Não. Não sei que tipo de merda Scott e o povo dessa cidade tem na cabeça. Ele por tentar se passar por uma pessoa normal e esse povo por não ver o que ele realmente é. Só em meio a um povo tão sem noção mesmo pra conseguir isso — diz ironicamente.
— Lucy, eu sou um tipo evoluído. Scott, que não é, tem conseguido porque eu não poderia?
— Caramba, Bryan. Você vai continuar insistindo nisso? — Seu tom de voz demonstra irritação.
— Eu posso provar. Sobre o dia na fazenda de sua vó, você só me disse o que viu. Eu te digo agora o que vi. Vi uma menininha loirinha apavorada e com um ursinho marrom entre o braços. Seus cabelos se dividam em duas tranças, tendo uma jogada em cada ombro e sua pequena camisola bege arrastava parte do tecido no chão barrento.
Minha amiga fica boquiaberta.
— Bryan, você está começando a me assustar. Como você sabe disso? — Sua voz sai trêmula e a sua respiração entre as palavras ofegante. — Você de alguma forma viu alguma foto minha daquela viagem?
— Não, Lucy. É como eu disse. Era eu!
Ela paralisa sem nem mesmo piscar. O silêncio é tanto que consigo ouvir claramente o ponteiro do relógio redondo de parede fazendo barulho enquanto conta os segundos. Até que se levanta da cama e dá dois passos pra trás me olhando como se não conseguisse estabelecer uma linha de raciocínio. Pensando em todas as possibilidades de eu saber sobre aquele dia, pensando em tudo que já passamos juntos. Provavelmente está analisando tudo pra tentar achar alguma coisa que evidencie que eu sou o que estou dizendo ser nesse momento. Sabia que não iria ser fácil pra ela saber sobre isso, me ponho em seu lugar.
— Lucy, ainda tenho muito pra te falar. Posso continuar? Você vai me ouvir?
Ela, vagarosamente, balança a cabeça em concordância.
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