...Irei Te Proteger...

    Olho para o céu e analiso as nuvens criando formas. Hoje o sol decidiu não aparecer e nuvens de chuva começam a surgir. Desço as escadas até a sala de estar, abro a porta de entrada da casa e caminho em direção à casa de Lucy.
Sei que ainda está muito abalada por tudo que aconteceu ontem, por isso quero ir até lá. Quero confortá-la.

    Entro pela janela, como fiz noites atrás. Lucy está deitada em sua cama e parece estar dormindo. Coloco a mão em seu ombro e a chamo, fazendo com que ela desperte. Nem fala nada, apenas olha pra mim. Percebo a tristeza em seu olhar.

— Estou aqui. Estou aqui com você. — Mas ela continua sem falar nada, dessa vez balança a cabeça concordando com o que digo.

— Não vou deixar que nada aconteça com você, prometo. Vou te proteger.

Uma lágrima caminha em seu rosto, fazendo com que ela rompa o silêncio o qual estava.

— Estou com medo Bryan. Estou com medo do que ele possa fazer com a gente. Só um monstro faria aquilo com Jennifer. Se havia uma pessoa que ele deveria querer fazer algo, seria eu ou você por ter descoberto quem ele é desde o início. — As palavras de Lucy são como espinhos descendo em minha garganta. O verdadeiro monstro ao qual ela se refere sou eu. —Alguém tem que impedi-lo. Alguém tem que descobrir o que ele quer.

— Eu vou impedí-lo Lucy. — Percebo a descrença em seus olhos, mas não posso contá-la que realmente posso protegê-la, não posso contar quem realmente sou. Tenho que continuar usando essa máscara.

    Me aproximo dela e a abraço com força. Realmente estou com medo de Scott fazer algo com Lucy. Sei que de dia não poderá fazer nada, assim como eu, por causa do sol, mas a noite ele pode. Não preciso perguntar a Lucy para saber que ela não irá mais pro colégio, pelo menos não enquanto Scott estiver lá.

    Me despeço dela. Quero ir até a casa de Scott, preciso encará-lo, mas Lucy pede pra mim não ir embora agora. Ela pede pra que eu fique aqui e não posso deixar de fazer isso, pois está muito frágil nesse momento.
Deito ao seu lado olhando fixamente em seus olhos. Ela me olha da mesma maneira. Nunca tinha visto Lucy tão frágil como estou vendo agora. Seu olhar transmite medo, tristeza e pavor ao mesmo tempo. Falo novamente que não precisa se preocupar com nada e, então, se aconchega em meus braços.

— É muito bom ter você aqui comigo, Bryan.

E dessa vez quem não fala nada sou eu, apenas sorrio. Ela também sorri ao olhar para mim. Fico feliz por conseguir despertar um sorriso seu, pois sei que está sofrendo com a morte de sua amiga. Fico mais feliz ainda por eu ter sido o motivo desse sorriso.
Por um momento não me reconheço. Sinto algo dentro de mim que nunca havia sentido depois da minha transformação. Não sabia que vampiros sentiam isso, na verdade, me sinto mais humano do que vampiro agora. Por um momento esqueço de tudo e penso somente em Lucy. Concentro-me apenas em beijá-la.

    A tarde chega ao fim. Escuto os avós de Lucy subindo as escadas e antes mesmo que ela perceba que eles estão subindo, eu saio. Passo pela janela, desço e não sigo em direção a minha casa. Vou até a casa de Scott.
As aulas hoje estão suspensas, espero que ele não tenha ido a outro lugar. Minha mãe não me disse onde ele mora porque certamente imaginou que eu iria até lá, mas segui Scott uma vez, sei onde é sua casa.

    As janelas estão abertas. Entro, mas sinto que não tem ninguém aqui. Passeio pelos cômodos e não vejo nada suspeito. A casa dele é pequena, tem apenas uma TV, algumas cadeiras na sala, uma cama no quarto e alguns outros pequenos móveis. Escuto algo no andar de cima, alguém chegou lá em cima. Passos fazem com que o chão revestido de madeira faça barulhos. Encosto na parede próxima a escada e espero que quem esteja aqui em cima desça. Mas ao descer vejo que não é Scott.

— Dave! — Encaro-o.

— O que faz aqui, Bryan? — fala com tom de surpresa.

— Quero falar com Scott. Onde ele está?— Meu tom de voz sai o mais firme possível.

— Não sei se você é maluco ou suicida por vir aqui sozinho, mas pra sua sorte Scott não está. — Ele faz um pausa para me encarar — Ou pra seu azar, estou decidindo! — Ele ri.

— Você acha mesmo que vai conseguir me intimidar, Dave! — Tento ser um pouco sarcástico.

— Eu deveria. Quantos anos você tem? Quinze?...

— Há cinco anos. — Interrompo-o.

— Nao importa. Sou muito mais experiente que você e mais forte também.

    Ele salta do degrau em que estava e para ao meu lado, querendo me intimidar ainda mais.
Penso em falar coisas para desafiá-lo, porém prefiro agir. O encaro ao pensar em Lucy, pensar em meu único objetivo que é protegê-la. Fecho meus dedos pressionando-os na palma da minha mão e com força acerto um soco no tórax de Dave fazendo com que ele seja arremessado e colida com a parede, quebrando os tijolos e deixando um buraco enorme ao lado da janela.

— Essa casa estava muito escura. Melhor assim para quando entrar uns raios solares e vocês já irem queimando pro inferno! — Agora estou sendo totalmente sarcástico.

    Dave se levanta e rosna. Ele se prepara para dar um salto e eu faço o mesmo, e no ar nossos socos se encontram, fazendo com que cada um caia de volta na mesma direção de onde havia saltado. Porém me sustento rapidamente e salto na direção dele. O impacto do meu soco derruba Dave antes mesmo dele ter levantado completamente. Sinto uma rasteira e quando me dou conta estou no chão, levando vários socos no rosto. Movo meus braços para me proteger das pancadas. Empurro Dave e levanto. Ele está com raiva, está se sentindo ameaçado.

    Eu sou rápido, consigo me desviar de seus ataques e atacá-lo de diferentes formas sem que ele consiga se defender. Não sabia que isso era um talento até a conversa que tive com minha mãe ontem. Vampiros são rápidos e ágeis, porém eu sou mais que o normal. Consigo intimidar Dave. Ele pode ser forte e já ter lutado com muitos vampiros antes, mas ele não é tão rápido e seu talento de "hipnose" não funciona em outros vampiros; somente em humanos. Por isso os professores faltavam tanto. Dave os iludia, fazendo pensar que estavam passando mal quando na verdade não estavam. Scott com toda certeza acha Dave muito valioso.

    Ele me olha com raiva e sai pelo buraco na parede, onde antes ele tinha colidido. Covarde!

    Saindo da casa de Scott vejo se Lucy está bem, sem que ela me veja, e confirmando sigo pra casa. Durante essa tarde que passei com ela, não contei que descobri o motivo dos professores estarem faltando; não disse que é por causa de Dave. Não disse nem mesmo que sei que o nome do tal ruivo misterioso é Dave. Terei outras oportunidades pra contá-la. É melhor esperar que ela se recupere um pouco do susto de ontem.


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