...Através Da Janela...

     Desde que eu e Lucy começamos a nos aproximar, há algumas semanas, tenho sentido algo diferente nela. Algo que nunca senti em mais ninguém e algo forte. Na verdade senti algo diferente desde que a vi no intervalo do primeiro dia de aula, no pátio que parecia uma pequena praça, debaixo da árvore, no momento em que puxei meu livro da mochila... Enfim, na primeira vez que a vi. Senti isso desde a primeira vez que olhei em seus olhos.

    Lucy me ajudou na apresentação do trabalho de química. Consegui uma boa nota. Jhonny também deu umas dicas, contudo Jennifer não fala muito comigo. Segundo Lucy, sua amiga tem ciúmes dela e Jhonny comigo. Não estou roubando amigos de ninguém, mas pela primeira vez em toda a minha vida posso dizer que tenho amigos. E apesar de Jennifer estar assim, a considero também.

    Nossa concepção sobre o professor de história tem mudado muito. Lembro-me da primeira aula em que eu já o condenava simplesmente por ele ter escolhido história. É engraçado como com o tempo a gente muda totalmente a forma de pensar sobre tudo e todos. Eu por exemplo, após o assassinato do meu pai, me transformei em outra pessoa e odiava isso. Surtei totalmente e fiz coisas que me assombram até hoje. Os fantasmas do passado nunca me deixam, porém hoje consigo lidar melhor com tudo isso e aceitar o que aconteceu.
Meus amigos também estão gostando de Chris, gostam de sua maneira de dar aula. Ele é bem dinâmico, conta histórias de sua vida e faz a gente rir bastante. É legal ter um professor assim.

    Na hora do intervalo Lucy e Jennifer dão um volta enquanto Jhonny e eu sentamos pra conversar um pouco. Ele começa a contar que está tendo um romance com Jennifer e eu apoio totalmente a relação dos dois, pois ficam realmente bem juntos e já se conhecem há algum tempo, tornando o convívio mais fácil. Jennifer e eu não conversamos frequentemente, mesmo assim o pouco tempo que passamos juntos permitiu que eu a conhecesse bem. Ela é o oposto de Lucy, tem uma vida mais fácil, seus pais vivem quase que perfeitamente bem e tem tudo o que precisa. Alguns, assim como Jennifer, têm sorte na vida.

    Na aula de matemática o professor passa várias equações de segundo grau usando fórmulas de Delta e Baskára. Essas fórmulas perseguem os estudantes! Jhonny é muito bom nessa matéria e nos ajuda. Matemática não é muito nosso forte, então, é bom ter um amigo familiarizado com o tema.

    Ao acabar a aula, antes de ir para casa, passamos na sorveteria para relaxar a um pouco. Depois do cansaço de estudar é bom ter um momento de lazer. Quando estamos fora do colégio tenho a sensação de que não somos os mesmos. Parece que conversamos melhor, nos divertimos mais e acho que é por causa da sensação de prisão que o colégio nos transmite. 

Lucy começa a falar sobre um mico que passou há alguns dias quando caiu dentro de uma loja que estava lotada.

— Estabanada como sempre! — brinco.

    Ela me olha com um sorriso estampado, seus cabelos loiros sacodem ao redor de sua face a ponto de tapar todo seu rosto deixando a mostra somente seus olhos azuis. Jhonny entra na brincadeira pra zoar Lucy e confessa que passou por um constrangimento parecido com o dela. Jennifer por outro lado diz que nunca caiu em nenhuma loja, porém, em compensação, deixou uma bandeja de comida cair em um senhor numa lanchonete. Ficamos um bom tempo contando histórias engraçadas e constrangedoras que passamos em algum momento de nossas vidas. Eu por não ter muito o que falar acabo inventando algumas histórias, apesar de não gostar disso, não quero me sentir diminuído.

    Chegando em casa, tomo um banho e deito para assistir um filme. Minha mãe me interrompe e começa a reclamar por eu ter chegado tarde em casa, pressupondo que eu estava em algum lugar com alguém. Ela se exalta e fica totalmente descontrolada, por um motivo fútil. Os gritos dela podem ser escutados por toda a rua. Às vezes precisamos ter muita paciência com nossos pais, pois parece que vamos explodir com tanta coisa que falam. Olho pela janela e vejo as luzes da vizinhança acendendo. Alguns vizinhos saem de casa para ir até a rua tentar verificar o que está acontecendo. Olho pela janela, ouvindo toda gritaria da minha mãe, não podendo falar absolutamente nada. Desejaria estar do lado de fora, correndo pelo asfalto para bem longe daqui. Começam surgir lembranças que gostaria não mais ter. Olho pela janela apenas escutando minha mãe insistir e martelar em minha cabeça: 

— Você não pode ter amigos. 

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