...Aflição...

      Hoje Lucy e eu iremos ao laboratório clandestino onde meu pai realizava as pesquisas dele. Ela já deve estar chegando aqui para irmos, pois pedi pra que viesse antes do por do sol para que não corresse risco de Scott fazer alguma coisa contra ela.

    Escuto uma batida na porta dos fundos e sei que é Lucy. Ela entra e ficamos na sala esperando o sol se pôr do lado de fora. Minha mãe está lá em cima. Sei que não quer ver Lucy, já que não aceita essa nossa aproximação desde que nos conhecemos.

    O sol se foi e apesar de não ter anoitecido completamente ainda, saímos. Explico a Lucy que precisaremos de um carro para ir até lá, pois são umas duas horas de viagem. Ela não gosta muito da ideia, pois apesar de eu saber dirigir, legalmente só tenho quinze anos e não tenho um carro, então precisarei roubar um. Tento convencê-la dizendo que não vou roubar, e sim pegar emprestado e mais tarde, quando voltarmos, irei devolver. Ela continua sem gostar muito da ideia, porém não tem outra opção a não ser concordar. Não quero ter que ir de ônibus porque demoraria muito, não quero estar próximo de muita gente e a estrada até lá não é perigosa. Se aparecer uma viatura de polícia eu dou um jeito.

    Enquanto dirijo admiro a vista pela janela do carro. Lucy está até agora em estado de choque por ter participado de um roubo ou por estar em um carro o qual eu estou dirigindo, não tenho certeza. A minha antiga cidade não recebia muita luz solar porque se encontrava entre uma cadeia de montanhas altíssimas, passaremos por vários túneis para chegar até lá. A melhor parte dessa viagem com toda certeza é Lucy estar aqui comigo. Conversamos durante todo o trajeto sobre os mais variados assuntos. Ela conta histórias de sua vida as quais eu nunca tinha escutado falar, como o dia em que grudou chiclete em seu cabelo, quando levou seu primeiro tombo de bicicleta, quando beijou pela primeira vez... Fico atento a cada detalhe e a cada assunto complemento com algo que também aconteceu comigo. Até que lembro de perguntá-la sobre Jhonny.

    Digo que não o vi desde o acidente com Jennifer e pergunto se está conseguindo se recuperar psicologicamente. A resposta é que ele ainda está muito mal, tentando retomar a vida. Diz também que falou com Jhonny que minha mãe surtou e não me deixa sair de casa, para que ele não fique chateado comigo por eu não ter feito meu papel de amigo. Fico um pouco entristecido com as palavras dela, mas não conseguiria realizar esse papel mesmo. Não depois do que eu fiz. Os pais dele fizeram um jantar de aniversário pra tentar reanimá-lo, porém não conseguiram. Me sinto muito pior ao saber que Jhonny completou quinze anos e que eu nem mesmo me lembrei dessa data.

    Acredito que chegamos. De acordo com o que minha mãe falou é aqui nesse barzinho abandonado próximo à mata. Entramos e olhamos todo o local. Acho que desde a morte do meu pai ninguém veio aqui, pois a poeira e as teias de aranhas tomaram conta do local. De acordo com a minha mãe, tem um móvel grande que esconde a porta pro laboratório. Ela nunca veio aqui mas lembra dos detalhes que meu pai tinha contado. Lucy fica um pouco inquieta por causa das aranhas. Arrasto uma enorme prateleira, como uma estante e encontro a porta de entrada do laboratório. O lugar está um pouco mais conservado do que o bar.

    Começamos a procurar qualquer coisa que pareça interessante. Tento ligar os computadores, mas essas máquinas velhas não devem funcionar há um bom tempo. Vasculhamos toda a papeleira que tem guardada em gavetas e prateleiras por aqui, porém não achamos nada essencial. Encontramos relatórios sanguíneos de pessoas normais e de vampiros. Não sei como ele conseguiu isso, porém parece que meu pai não tinha descoberto muitas coisas. Talvez se ele tivesse tido mais tempo...

    De repente travo. Lucy percebe minha reação e pergunta o que aconteceu. Sem responder, corro e puxo a estante nos trancando aqui dentro. A loira não entende o que está acontecendo, afinal não tem como saber.

— Preciso que preste atenção em tudo o que vou te dizer. — Minha voz falha um pouco, mas ela entende o que eu disse porque está olhando pra mim apreensiva esperando instruções. — Têm vampiros aqui por perto, eu posso sentir. 

    A garota arregala os olhos. 

— O que vamos fazer, Bryan? — pergunta apreensiva. 

    Vim com uma camiseta por baixo e uma blusa comprida e fina por cima. Tiro a blusa que está por cima e começo a esfregá-la no meu rosto e no meu corpo pra deixar, o máximo possível, o meu cheiro. 

— Coloca isso — ordeno. — E prende o cabelo também. 

    Lucy, apressadamente, faz tudo o que eu disse. Fico olhando pra porta torcendo pra que ninguém passe pela mesma. Lucy me abraça fortemente.

 — Continue me abraçando, mas fica por trás de mim. Encosta bem o seu corpo no meu pra disfarçar o seu cheiro e tenta prender ao máximo a respiração. Prende o quanto conseguir e quando não der mais, respira levemente. Não para de fazer isso e tenta controlar o nervosismo também. — Deixo Lucy mais nervosa do que antes com tudo que pedi pra ela fazer.

    Percebo que eles estão aqui na parte do bar. Se entrarem e verem que tem uma humana comigo não vai dar certo, pois certamente irão querer roubar minha "presa", vampiros são muito competitivos e com certeza acharão que eu a capiturei. Por isso dei instruções a Lucy, para tentar dar uma disfarçada fazendo-os pensar que é uma vampira também.

    De repente a estante que tapa a porta se rompe fazendo um estrondo e levantando muita poeira. Lucy me aperta. Sei somente que está aqui comigo porque posso senti-la, pois não consigo enxergar nada, nem mesmo com minha visão apurada. Com a poeira sendo dissipada um pouco avisto alguém parado ao lado da porta e outro alguém vindo em minha direção. Não reconheço de início, mas quando se aproxima como um vulto vejo o seu rosto.

    Nunca confundiria essa face sombria com nenhuma outra pessoa.

...

    Abro meus olhos e tento organizar meus pensamentos pra lembrar onde estou e como vim parar aqui. Percebo que estou deitado sobre o chão e não sei como, mas estava desacordado. Não sabia que era possível, mas me fez relembrar como é dormir. Olho ao meu redor e vejo, onde antes era o laboratório do meu pai, uma verdadeira zona. Todos os papéis foram rasgados e espalhados pela sala, os computadores foram quebrados e jogados e todas as outras coisas que tinham por aqui também foram danificadas. Levanto desesperado à procura de Lucy, contudo ela não está aqui e nem na área do bar. Saio e corro pela área ao redor, porém em vão porque continuo sem avistá-la.

    O desespero, o pavor o ódio e dezenas de e outros sentimentos circulam em mim. Não sei o que fazer em meio ao que aconteceu. Não sei como me nocauteou, pois não consigo lembrar. Somente lembro que correu em minha direção. Ele pegou Lucy e nesse momento uma das pessoas mais importantes da minha vida está em perigo. Começo a destruir tudo o que sobrou nesse lugar, tudo que não foi destruído pelo tempo, nem por Scott e por Dave. Desconto toda a minha raiva em cadeiras, mesas, balcões, prateleiras e garrafas de vidro. E quando não tem mais nada pra ser quebrado, entro no carro e acelero o mais rápido possível pra casa.

    Tento me concentrar na estrada, porém é extremamente difícil se considerar o que acabou de acontecer. Não afrouxo o pé do acelerador e, quando estou consideravelmente perto de casa, avisto uma viatura policial fazendo uma ronda. Jogo o carro pra direita deixando-o em um terreno baldio e saio. Irei a pé a partir daqui. Só não tenho certeza se vou direto pra casa de Scott ou se é melhor eu ir pra minha casa e explicar toda situação pra minha mãe. Estou receoso de Scott estar me esperando com uma emboscada e eu estar sozinho, então acho melhor ir encontrar minha mãe.

   Ao chegar abro a porta e grito desesperado. Grito porque quero vê-la logo, tentar contar tudo que aconteceu, pois preciso de ajuda. Ela não responde. Subo as escadas na esperança de encontrá-la, porém não a encontro. Fico mais aflito do que estava e então percebo que a casa está com um cheiro diferente. Alguém esteve aqui e confirmo isso quando vejo um bilhete sobre a cabeceira da cama.

    Um bilhete que diz:

"Já estou com Lucy e com sua mãe. Agora só está faltando você. Sugiro que se apresse."

    Posso ouvir a voz de Scott proclamando essas palavras em meu ouvido. Rasgo o bilhete e não perco tempo descendo as escadas, ao invés disso pulo a janela daqui de cima sem se importar se alguém poderá me ver saltando na rua e disparo em direção a casa de Scott.

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