Capitulo 4
Luiz Tomazetti
Por mais que eu tenha dito ao insistente do meu irmão, que não estava a fim de mais uma noite na rua, o mesmo não me deu sossego enquanto não topei.
O paspalho me mandou inúmeras mensagens, fora as ligações. Quando resolvi desligar meu celular, fez questão de ligar de dez em dez minutos na empresa, não atrapalhando só a mim como a Andressa e as outras da recepção.
E lá estava eu, revirando as ruas tentando encontrar o bar e consigo uma boa vaga para estacionar meu camaro. Aciono o alarme e entro, como pensado, o local está mais vazio que da outra vez que vim aqui.
Um casal conversando sentados na mesa do lado de uma das janelas, três homens mais ao fundo, cada um com uma garrafa mediada em mãos e no balcão, meu irmão aos risos com a balconista. Eles encerram o assunto e ela vai para o pequeno palco, movo meus ombros tentando aliviar a tensão e me aproximo dele, já sentindo fadiga e querendo enlouquecidamente colocar uma roupa mais folgada.
Me aproximo puxando o banquinho e me sento, batendo de leve nas costas de Mateus.
— Ei Luiz, pensei que não viria. — Me encara cuidadosamente.
— Temi que aparecesse na empresa com seu taco de baseboll.
— Não tinha pensado nisso, na verdade. Me deu uma boa ideia. — Seus olhos brilham travessos.
Reviro os olhos e me acomodo melhor no banquinho.
— Até quando pretende me chamar para beber? — Puxo assunto.
— Isso é um crime?
Para com seu copo no meio do caminho até sua boca e me olha intrigado.
— Não, porém é suspeita sua atitude de quase todas as noites me arrastar para um bar.
— Só assim para você abrir a boca sobre o que se passa na sua cabeça. — Alarma.
— E acha que álcool irá resolver? — Ergo a sobrancelha direita o encarando.
— Me diga você.
Se vira ficando de frente para mim, seus olhos verdes se fixam em mim, ansiosos pela resposta, no entanto o ignoro e ele solta uma risadinha, claramente debochada.
— Na próxima oportunidade, vamos em alguma sorveteria.
— O que fiz, para merecer isso? — Murmuro pra ninguém em específico.
Mateus abre a boca para falar, no entanto a balconista retorna roubando sua atenção de mim. Não me recordo com exatidão de seu nome, mas devo admitir, a garota com seus belos cachos e a beleza natural, é o colírio de todos que passam por aqui, não que suas colegas não tenham sua própria beleza, só que essa, tem seu destaque.
— Cecília, se lembra de meu irmão?
Me encarando com os olhos semicerrados, obviamente tentando se lembrar e logo um sorrisinho surge em seus lábios levemente rosados. Ela deve ter transtorno obsessivo de sorriso, é a única explicação para sorrir tanto!
— Olá ogro, como tem passado?
Cumprimenta simpática, apesar do apelido que me foi dado. Meu irmão ao meu lado, solta uma escandalosa risada, olho ao redor rapidamente e todos estão nos observando curiosos, desde as outras atendentes ou outros clientes.
Que vergonha.
— Estou bem. — Voltando minha atenção a ela, murmuro constrangido.
Parecendo satisfeita com minha resposta, pega um copo vazio e o coloca na minha frente. Antes que eu peça, Mateus se intromete pedindo uma cerveja para mim. Espero ela se afastar e lhe dou um tapa na cabeça.
— Para de tentar me transformar em um alcoólatra. — Rezingo.
— Cara, relaxa. Só um copo. — Reclama exasperado.
Quando volta, empurro o copo para Mateus.
— Só uma água para mim, por favor! — Peço.
Surpresa com minha atitude, ela assente.
— Como está indo na faculdade? — Pergunto ao meu irmão depois que ela se afasta indo atender outro grupo.
— Para ser sincero, odeio contas, números e equações. Céus, como você conseguiu?
Faz um pequeno drama e dou uma risadinha. Mateus sempre foi reclamão em relação tarefas, isso só para tentar disfarças o quanto é inteligente. Ele é a junção perfeita de beleza e inteligência. Acho que eu fiquei mais com a inteligência.
— Logo acaba irmão, tenha paciência.
Observo a garota preparar minha bebida, duas pedrinhas de gelo, uma rodela de limão na borda. Quando ela coloca o copo no balcão, ergue a garrafinha na minha frente para que eu veja e preenche o copo, sorrio levemente e pego o mesmo dando um gole. É só água, porém eu precisava.
Quando ela se afasta novamente, penso melhor na pergunta que me foi feita. Não posso negar que minha primeira vinda aqui foi legal, principalmente por ser um lugar novo para mim e pessoas totalmente diferente do meu convívio. Aqui me sinto um desconhecido, ninguém está prestando atenção no que faço, cada um está focado na sua conversa e a atendente tem o dom de deixar tudo mais leve. O dono desse lugar deve ser muito grato a ela.
Entretanto, da outra vez, não tenho certeza se dormi por causa da bebida ou se foi porque me descontrai de uma forma que não estava acostumado, apesar de ficar relutante. Ninguém precisa saber no que se resumiu meus sonhos.
— Agora vai ou não investir.
Desperto com a fala de Mateus e percebo que mesmo a balconista estando do outro lado, meus olhos estavam fixos nela.
— Por que acha que devo fazer isso?
— Talvez porque é a única que não está se esfregando em você, implorando atenção. E a quanto tempo você sozinho? Devia deixar de paranoia e fazer uma boa trepada.
Seus dentes rangendo com a última frase me deram gastura. Talvez porque esteja irritado com minhas atitudes e não queira que os outros escute.
— Não estou muito interessado. — Faço pouco caso.
— Mano, você é um bundão, aproveita logo a oportunidade e mete com vontade.
Massageio minhas têmporas suspirando. Ele não tem senso, muito menos filtro.
— Não fala besteira, Mateus. — Peço.
— Está bem, eu paro. Só mais uma coisa, quantas punhetas bateu hoje?
Quando percebo minhas ações, já estou de pé puxando-o pela gola da camisa, bufando de raiva por tamanha falta de sensatez. Meu coração está a mil no peito pelo pico de adrenalina. Mateus está petrificado com os olhos arregalados e o único som do local, foi meu banquinho caindo nos meus pés.
— Não me faça te mandar para o hospital. — Rosno sentindo cada veia do meu pescoço pulsar.
Um sorriso brincalhão surge em seus lábios, o solto empurrando-o para longe e o mesmo se desiquilibra quase caindo, rindo de mim.
Passo a mão direita no meu cabelo, jogando-o para trás, as pessoas ao nosso redor estão bem atentas e me repreendo pelo meu ato. Se eu não queria chamar atenção, consegui o contrário e a fofoca sobre nós é nítida.
— Não me teste irmão.
O alerto arrumando o banquinho e me sentando novamente, segundos depois ele se volta ao seu lugar, sem um pingo de preocupação.
— Senhores, por favor, não briguem. Não aqui dentro.
A voz alarmada da balconista chama minha atenção. Mesmo que eu ainda esteja um tanto alterado, Mateus ainda está com um sorrisinho debochado e o que eu menos queria nesse momento, era uma briga.
— Devia ter colocado sua raiva para fora. — Critica.
— Não, por favor! Vocês são irmãos.
Ergo meu olhar para a garota, sua expressão entrega que ainda está assustada com minha atitude, os olhos marejados em alerta e as mãos seguram com força exagerada uma garrafa de bebida.
— Por que acha que não devemos brigar? — Minha voz escapa rouca de meus lábios.
— Seu irmão é seu melhor amigo... e a dor de perde-lo, é insuperável. — Seu tom vacila.
— Você tem irmãos?
Assim como eu, Mateus se mostra curioso. Não é a primeira vez que ela fala algo relacionado a "irmão". Seus olhos ficam mais vermelhos e marejados. Sinto um leve aperto no coração, não imaginei que alguém pudesse se importar tanto com um pequeno desentendimento de irmãos a esse ponto. Não me imagino desabafando o quanto seria doloroso ficar sem esse babaca.
Secando uma lágrima solitária de seu rosto, ela se vira apressada passando por uma porta laminada.
— Isso foi tenso. Será que ela perdeu um irmão?
— Não duvido. — Murmuro, ainda olhando a pequena porta.
— Mas é sério cara, você precisa colocar essa raiva para fora.
— Já faz um bom tempo... — Sussurro.
— O que?
Tomo coragem e o encaro rapidamente, tremendo por sua atenção em mim.
— Que eu tenho qualquer tipo de relação ou me toque. — Admito.
Vejo de canto, ele deixar seu copo no balcão e se virar para mim.
— Simplesmente não tenho vontade. — Meus ombros caem como se já não aguentassem mais segurar um peso invisível.
— Parece que ultimamente não está tendo vontade para muita coisa. — Responde sucinto.
— Não mesmo.
O assunto morre ali.
Até o momento que fiquei no bar, muitas pessoas vinham e iam, mas a garota, Cecília, não retornou. E não consegui mais manter uma conversa razoável com meu irmão. A falta de interesse já era grande, a culpa por ter deixado algo tão íntimo escapar já me assombrava e minha mente já me traia.
Deixei-o na porta de casa como sempre e fui para o meu recanto. Seguindo o caminho de sempre no automático, trancar a portar, tirar a roupa, me jogar na cama e deixar meus fantasmas virem à tona.
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