Capitulo 2
Luiz Tomazetti
Pego meu blazer e o coloco, movendo meus ombros tentando aliviar um pouco a tensão muscular e o cansaço. Preciso de uma massagem, férias, sossego. Almoço de negócios é algo chato, apesar de muitos clientes fazerem questão de manter essa prática.
— Andressa algo de importante para à tarde?
Pergunto para minha secretaria enquanto fecho a porta de minha sala.
— Nadinha, Sr. Tomazetti. — Responde prontamente.
— Qualquer imprevisto, me ligue. — A morena sentada atrás da mesa cheia de pastas transbordando papéis assente, me encarando com atenção.
Ando para o elevador e aperto o botão para o estacionamento quando as portas se fecham. Parece que sou um idoso de sessenta anos quando me chamam de "senhor", mesmo sendo em sinal de respeito.
Na metade da descida do elevador, solto um longo e escandaloso bocejo. Esse negócio de dormi duas ou três horas da manhã está me matando, com certeza é isso que está deixando minha mente e humor maluco, preciso cansar minha mente para que ela se aquiete e eu consiga dormir um pouco, ou quando não tenho nada de importante na parte da manhã, me dopar para conseguir dormir um pouco mais.
Noite passada foi uma exceção.
Depois que deixei Mateus na porta de casa e acelerei antes que nossos pais me vissem, fui para minha casa, tomei um longo banho e me joguei na cama depois de engolir um sanduiche que fiz com o que tinha na geladeira. Enquanto minha mente vagava em coisas que eu poderia fazer para me animar, a imagem de uma garota de cachos invadiu minha mente. Involuntariamente, imaginei várias cenas entre nós dois de um futuro que com certeza não irá acontecer. Li em alguma rede social ou site, que essas imaginações loucas que criamos antes de dormi pode ser um disturbo mental, se realmente é, não sei, porém foi um pouco mais fácil de fechar os olhos e me deixar levar pelo sono, já que para dormi fingimos que estamos dormindo e eu não queria abrir os olhos e encarar a escuridão do meu quarto.
Permaneço de óculos enquanto faço todo o trajeto da empresa até o shopping Moda Brasil Premium, dentro do mesmo, seguindo até a loja do meu novo cliente. O primeiro para qual cederei peças para vender aqui na cidade.
— Sr. Tomazetti, é um prazer recebê-lo em minha loja!
Exclama animado o senhor de quase cinquenta anos, praticamente careca e de olhos verdes assim que vê passar pelas portas e tento parecer animado.
— Olá Jean, como anda os negócios? — Aperto sua mão estendida logo em seguida dando dois tapinhas em suas costas.
— Desde que anunciei que venderia algumas peças da sua família, muitos clientes ficaram interessadíssimos! — Seus olhos brilham de empolgação.
— Isso é muito bom. — Murmuro.
— Já vejo o dinheiro em nossas mãos! — Grunhi feliz e sorrio forçadamente.
Dou dois passos para trás revendo novamente a estrutura da loja, percebendo que há mais câmeras de segurança e dois seguranças a mais atentos a qualquer movimentação ao redor da pequena loja. Jean foi atrás da minha empresa na intenção de vender pequenas peças, como anéis e brincos, os mais baratos já que não são todos que conseguem comprar uma gargantilha trabalhada com diamantes.
Se a empresa tem um bom faturamento? Tenha certeza que muitas das fotos que Kylie Jenner posta com seus anéis gigantes, não custam menos de cem mil dólares. Até mesmo a nova realeza da Espanha cedeu ao charme de nossa coleção.
— Fique tranquilo Luiz, consegui um bom acordo com a mesma seguradora de sua empresa!
Justifica quando percebe que encaro tudo ao redor.
— Magnífico e quanto ao contrato?
Troco o peso do meu corpo de uma perna para outra enquanto o acompanho com o olhar até o balcão do caixa e pegar um envelope amarelo com uma atendente. Quando o pego, confiro todas as vias rapidamente e estendo minha mão para uma despedida.
— Venho pessoalmente acompanhar a entrega, tenha boas vendas Jean!
— Você está bem rapaz?
Pergunta seriamente enquanto segura minha mão entre as suas com firmeza, involuntariamente minha sobrancelha se ergue e estranho sua pergunta.
— Estou sim. — Digo.
— Está apático, de todas as vezes que nos encontramos nunca o vi assim. — Me avalia.
— Só muita coisa na cabeça.
Desconverso e me afasto sorrindo para aliviar a tensão e ele assente ainda me olhando curioso, dou meia volta e saio da loja.
Decido desviar o caminho e ir para casa, do jeito que estou disperso e sem energia, não vou conseguir me concentrar em nada, mesmo que tenha uma pilha de papéis para conferir, espero que Andressa consiga segurar as pontas pelo resto da tarde.
A falta de carros nas ruas facilita para que eu chegue mais rápido em casa, pelo menos não precisei inundar minha mente e boca com inúmeros xingamentos aos motoristas que não dão seta.
Entro no condomínio, dirigindo por mais algumas curvas até chegar no prédio que moro e estaciono na minha vaga. O lado bom de morar nos prédios é que não preciso me preocupar com a segurança, todos os moradores pagam até mais caro por esse detalhe e eu não quero correr o risco de ser assaltado ou sequestrado.
Depois de subir oito andares no elevador e apenas conferir de quem são as mensagens no meu celular, tiro o blazer jogando-o no chão ao lado da porta quando entro no meu refúgio.
O que está acontecendo comigo?
Suspiro sentindo minha cabeça começar a doer. O trabalho tem me deixado ocupado, mas não tanto como deveria. Perco mais tempo pensando em coisas aleatórias como, uma possível viajem para o exterior, ou um dia quando era mais garoto que levei uma surra de papai por causa de uma nota baixa e depois disso, me enfiei de vez nos estudos, ele com certeza não iria gostar de saber que já estou em casa no meio do expediente. Ou se eu deveria tomar chá de sumiço e ir para um lugar bem longe daqui. Talvez aprender mandarim. Sacudo a cabeça.
Caminho sem animo até meu quarto e me sento na beirada da cama encarando as paredes brancas. É até gratificante olhar para as paredes. Não me enchem de perguntas, não me cobram coisas e se eu chorar, elas não agem como pessoas curiosas que querem saber porque estou chorando, só estão ali, sempre estão.
Não sei dizer exatamente no que estava pensando quando meu celular começou a vibrar no bolso dianteiro da calça, porém no segundo chamado atendi antes que Mateus resolva aparecer aqui.
— Mano. — Digo.
— Soube que saiu para atender um cliente e não voltaria mais... — Especula.
— Contratou minha secretaria para ser sua informante? — Indago.
— Quase isso, na verdade ela que... Nada não, o que está fazendo?
— Nesse exato momento, encarando a parede.
— Como você é deprimente, levante a bunda de seja lá onde estiver sentado e vá se arrumar, nos vemos lá no Restaurante Drink, se não aparecer em uma hora, sabe que apareço aí e faço um escândalo.
Finalizo a ligação antes que ele resolva falar mais e devo concordar com Jean, estou apático. Poucas coisas atraem minha atenção a ponto de me animarem ou me deixar surpreso. Me jogo de costas na cama forrada com lençol azul escuro, se eu pudesse ficaria o resto da noite olhando para o teto, porém meu irmão sempre cumpre suas ameaças que faz a mim, e não pretendo me desculpar com os vizinhos sobre o escândalo que ele seria capaz de fazer.
Reúno o pingo de coragem que me resta e me ergo, arrastando meus pés até meu banheiro e me olho no espelho redondo pregado na parede. Gosto de mim, de verdade, não é minha aparência que me deixa abatido, nem a baixo autoestima que me assombra. Mesmo que as vezes eu pense em voltar para a academia, não me imagino mais segurando pesos. Na última vez que parei na porta da academia, voltei para meu carro e fui parar de baixo da ponte do Rio Doce, o único lugar sossegado que me veio à mente naquele momento.
Tiro minha roupa e me espreguiço, sentindo cada centímetro dos meus músculos tremerem e me deixarem momentaneamente aturdido, entro no box abrindo o chuveiro deixando que a água morna relaxe meus músculos, com certeza uma massagem relaxante seria muito bem vinda, preciso colocar um despertador no celular para correr atrás disso amanhã, antes que eu esqueça.
Fico longos minutos de baixo d'água, depois que me ensaboo, brinco com a água e a deixo me curar, mas aí me recordo de Mateus e acredito que resta pouco tempo para que eu chegue até ele. Desligo o registro e puxo a toalha preta pendurada no gancho e me enxugo. Saio do banheiro com a mesma enrolada na cintura e vou para o closet, visto a primeira cueca que pego, a primeira calça e blusa que vejo, passo o desodorante que por ter o cheiro forte, vai servi como perfume e passo as mãos no meu cabelo ainda húmido.
Pego meus pertences e me dirijo para fora do meu apartamento, o arrependimento de sair já me consome, espero que pelo menos tenha lugar para sentar já que as vezes o lugar é bem movimentado. Abro as duas janelas do meu carro e acelero pelas ruas, bem ao longe, o sol começa a se por deixando o céu com tons alaranjados, vermelho e amarelo, os postes sendo ligados deixando a vista mais encantadora e acelero, me deliciando com esse pequeno momento de adrenalina.
Estaciono a uma quadra de distância do restaurante e aciono o alarme, o local não está tão cheio, o que é ótimo, consigo escutar a melodia da música quando chego mais próximo da porta e o cheiro da comida faz meu estômago roncar. Entro no local, me sentindo um tanto esganado. A decoração em si é bonita, todas as paredes com tijolinhos a vista, algumas colunas brancas, várias mesas e cadeiras de madeira espalhadas pelo salão, porém há incontáveis lustres no teto e alguns nas paredes e eles ainda usam lâmpadas incandescentes em alguns desses lustres, o que deixa o ambiente com o clima um tanto opaco.
Aceno para os donos que estão no balcão do caixa e vejo meu irmão na varanda com uma garrafa na mão. Dou pequenos sorrisos para alguns conhecido e praticamente me jogo na cadeira vaga, assustando Mateus.
— Cara, que brutalidade. — Resmunga.
Reviro os olhos me ajeitando melhor na cadeira e suspiro.
— Aqui estou. — Digo.
— Ainda bem, já estava pensando em pegar meu taco de baseboll para ir atrás de você.
— Exatamente por isso que vim, evitar escândalos na minha casa.
Solta uma risadinha em resposta a uma breve careta que faço. Ele acena para o garçom que nos traz dois copos com gelo e nos serve de uma garrafa de vidro, imagino que seja a bebida que menos aprovo.
— Como estão as coisas na empresa? — Pergunta depois que o rapaz sai.
— Ao meu ver, está tudo indo bem. — Dou um gole na bebida amarronzada e não disfarço minha careta. — Odeio whisky.
— Você é um bundão Luiz, todo cara bem-sucedido bebe wkisky.
— Como dizia nossa mãe, não sou todo mundo.
Rebato um tanto ríspido, no entanto, ele ri de mim. Chama o mesmo garçom que leva nossos copos e volta com duas garrafas mediana de cerveja.
— Sabe, papai nunca me contou como surgiu nossa empresa, Earth Jewels... Podiam ter criado um nome mais impactante. — Puxa assunto quando estamos a sós.
— Disse a mesma coisa, mas ele ignorou. — Dou de ombros.
— Você poderia me dar alguns spoilers sobre a criação, já que em um ano e meio vou estar lá dentro com você. — Encaro seus olhos claros sobre meu copo quando dou um gole.
— Posso falar, desde que finja surpresa quando seu Roger começar a falar. Ou quebro sua cara.
— Sabe que eu poderia ser ator, maninho. — Se gaba.
Dou um leve sorrisinho, percebo o garçom se aproximar novamente, dessa vez com uma travessa de filés de peixes fritos e limão, assim que ele sai, já pego um começando a comer. Nosso pai me mataria, segundo a tradição da família, só contamos aos herdeiros como a empresa foi criada, quando o mesmo começa a trabalhar na empresa. Tanto aqui no Brasil, quanto em qualquer das filiais no exterior.
— Era uma vez...
Antes que eu consiga raciocinar, a caixinha de palitos de dente atinge eu rosto, não dói, porém o ato inesperado me deixa um tanto atordoado.
— Conta a história direito. — Finge braveza e bufo.
— Me pediu para contar, então conto como eu quiser.
Mordo minha língua para me segurar antes que exploda, já que a irritabilidade nesses últimos dias tem estado sempre a minha volta. Solto o ar pela boca pesadamente afim de voltar a história.
— Um bom tempo atrás, alguém da nossa família estava perambulando pelo mundo com um grupo, quando estavam na África, acharam minas de pedras preciosas e muitas delas eram até desconhecidas pelos próprios moradores da região, então logo se apossaram delas.
— Aposto que os nativos não ficaram felizes com isso. — Deduz.
— Com certeza não, houve muitos problemas como mortes, roubos, sabotagem das escavações, até mesmo porque começaram o processo sem uma conversa decente com os nativos.
— Igual nos filmes que assistimos nas aulas de histórias?
— Se você parasse de me interromper, seria ótimo.
Resmungo dando dois grandes goles na cerveja ainda gelada. Ele revira os olhos fazendo sinal para que eu prossiga.
— Quando conseguiram uma boa grana com a venda das primeiras pedras, começaram a comprar máquinas, tratores, correr atrás da documentação necessária, indo para o lado certo da coisa e evitar a escravidão.
— E as terras?
Ele ergue a mão direita, chamando o garçom que traz a segunda rodada de cerveja. O observo assinar o papel que o mesmo entrega, quando o rapaz se afasta, Mateus me olha com uma pequena careta e sorrio levemente.
— Você tem os olhos da mamãe. — Digo e sua careta com o nariz enrugado aumenta.
— Isso soa estranho de se dizer em voz alta, Luiz.
O encaro por mais cinco minutos, o suficiente para deixa-lo envergonhado. Mateus é quatro anos mais novo que eu, puxou mais as características de nossa mãe, Alici. Cabelos castanhos claros, olhos verdes claros que as vezes dão a impressão de serem azul, até uma dobrinha extra que eles têm na orelha esquerda.
— Enfim, depois de conseguirem legalmente a posso das terras – me debruço na mesa pegando mais um filé – contrataram boa parte da população regional, o que foi benéfico para eles e os negócios foram melhorando.
Ficamos alguns instantes em silencio, mas não um silencio constrangedor. Demos alguns goles, comemos mais um pouco, ganhamos duas taças com bebidas especiais e quando percebo, estou bocejando.
— Você tem dormido direito? — Encaro Mateus.
— Sim. — Minto.
Me encara meio desconfiado e dou de ombros. Não escolho me desconcentrar o tempo todo pensando em coisas aleatórias como, eu fingindo ser um canto ao som de alguma música que eu goste muito, ou viajar pelo mundo, até mesmo dentro de uma gaiola no meio de tubarões.
— Você tá viajando mesmo.
Escuto a voz de Mateus meio distante e me esforço para manter a atenção nele.
— Que?
— Cara, você tá surdo? — Joga de novo a caixinha de palitos de dente em mim.
Dessa vez revido, mas ele consegue desviar e a caixinha cai lá fora por estarmos na varanda do restaurante. Ao mesmo tempo, olhamos ao redor para ter certeza que ninguém viu e não, ninguém viu.
— Acha que vou me dar bem na empresa? — Volta a ficar sério.
A expectativa dele em saber se si sairia bem, era a mesma que eu tinha três anos atrás. Os negócios da família são muito importantes e eu tinha medo em decepcionar nossos pais. Quando papai começou a me contar como a empresa surgiu, sobre a sociedade, como as coisas funcionavam nas minas e no escritório, eu achei que seria como estar nas nuvens e por isso fiz faculdade de administração, me formar nessa área me ajudaria com a parte burocrática. Porém não me dei conta da parte chata e cansativa, óbvio que toda profissão tem algo que não gostamos, porém me pergunto, como papai conseguir dar conta.
— Fácil não é, mas vou estar lá e seremos nós dois, a dupla que sempre fomos. Sabe que temos bons funcionários, mesmo assim, isso não nos tira a responsabilidade de rever tudo o que eles fazem. Trabalhar com diamante, rubi, qualquer pedra, deve ser, sem dúvidas, o pior trabalho de todos.
— Essa frase motivacional no final me animou muito. — Ironiza.
— Sabe que a qualquer momento FBI ou PF pode aparecer na empresa, então a ética é mais pesada do que o amor pela profissão.
— Precisa urgentemente de férias, está muito mórbido.
— Quando você estiver lá dentro, talvez.
Termino de virar a pequena garrafa e umedeço meus lábios.
— Veio de táxi?
— Óbvio que quero carona. — Já se coloca de pé.
— Pra que caralho você tem um carro se tenho que te levar para todos os lugares?
— Você é o mais velho aqui, deve cuidar de mim.
Quando passa por mim, dou um tapa na sua cabeça e vou em direção a porta. Ele me convidou, ele que pague.
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