Capitulo 11
Cecília de Souza
Respiro fundo e sacudo a cabeça de leve. Ele ter dito que adoraria brincar com meus cachos me pegou de surpresa. As vezes algumas pessoas elogiam meus cachos, mas não da forma que ele acabou de dizer.
— Vocês são horríveis com piadas.
Mateus quebra o gelo depois de alguns segundos e dou graças por isso. Não quero ficar com a sensação de milhões de borboletas no estômago agora, a menos que esteja lendo e me entregue de vez a cada virgula da leitura.
— Então nos conte uma, espertalhão!
Luiz se vira para ele e peço licença quando Grazi se aproxima de novo. Dessa vez, visivelmente cansada.
— Quer trocar um pouquinho? — Me refiro a nossos lugares de atendimento.
— Claro que não, seu lugar é aí mesmo. Já chamei aquela dondoca lá de cima. — Resmunga amarrando o cabelo em um coque no alto da cabeça.
— Precisa de alguma bebida? — A olho com cuidado.
Grazi costuma ficar com o rosto sereno para atender aos clientes, mas por estar sozinha atendendo agora três meses, é visível seu nervoso. Isso que nem estamos no clímax do movimento e sinceramente, gostaria que o movimento não aumentasse, não queria sair de perto das minhas companhias.
Quando penso em dizer algo, a mulher alta de cachos escuros desce chamando nossa atenção. Em passos despreocupados, ela se posta ao lado de Grazi me pedindo seu avental.
— Mais uma noite garotas. — Diz com simpatia e estranho.
Ela não age assim quando está perto de mim. Quando pega a bandeja que estava com Grazi, dá três passos para trás ficando bem próxima aos rapazes.
— Precisam de alguma coisa? — Com os lábios carnudos preenchidos com batom em tom violeta, sorri abertamente para eles.
— Não, estamos bem, obrigado. — Mateus responde educado e ela concorda indo atender o pessoal das mesas mais afastadas.
— Só pode ser brincadeira.
Grazi resmunga revirando os olhos e logo se posta ao meu lado, aproveitando o pequeno instante de folga para beber quase uma garrafinha de água por inteira.
— Estamos contanto piadas, quer participar?
Indico os rapazes com a cabeça e me olhando de soslaio, se aproxima com receio, sorrindo tímida para eles que a cumprimentam.
— Então, estava andando pela rua e vi uma minhoca dormindo. Sabe o que ela era?
Mateus dá um gole em sua bebida após a pergunta e lambe rapidamente os lábios, percebo seu olhar cair em Grazi com interesse. A olho também com expectativa. Percebo a garganta dela se mover e os olhos ficarem arregalados, comprimo os lábios para não sorrir.
É raro ela se envolver com alguém, pelas coisas que me conta, rola algumas carícias com alguns caras, nada além disso. Quando começam a conversar, muitos já deixam bem nítido no papo que não querem envolvimento com uma mulher que já é mãe e isso, a deixa magoada. Juninho é um garoto incrível que nunca deu trabalho para a mãe e ela nunca mendigou nada para cuidar do menino. Até mesmo para mim, é notório o desconforto em me pedir para ajudá-lo com as provas.
Encaro Luiz, que também parece notar o clima. Depois ele me olha e sorri de canto.
— Não sei não. — Respondo, tirando eles do transe.
— Uma dorminhoca. — Mateus responde e todos fazemos caretas.
— Uma pior que a outra. — Luiz murmura.
Percebo um grupo de pessoas entrar e me preparo para atendê-los, porém Grazi vai na minha frente e começa a servi-los.
— O que rolou aqui? — Escuto Luiz tomar a frente.
— O que? — Mateus rebate.
— Estou de olho em você, loirinho.
Aponto o indicador direito para Mateus um pouco séria. O que o deixa surpreso e Luiz ri. Esse som é bom.
Me afasto deles encurralando Grazi em um dos freezers de bebidas.
— Por que fugiu? — Indago.
— Ah Cici, sabe como esses caras são. — Relata num muxoxo.
— Ele não parece ser desse tipo. — Defendo-o.
— Claro, alguém do porte dele iria se interessar por uma mãe solteirona. — Zomba revirando os olhos.
— Do porte dele? Grazi está sendo muito dura consigo mesma.
Pego mais duas garrafas de cerveja quando vejo que ela não consegue pegar para todos de uma vez e ajudo-a servi-los.
— Sabe com quem fez amizade ali? Esses caras podem ter qualquer uma nas mãos. — Me olha alarmada.
— São filhos do presidente por acaso?
Limpo o balcão quando o último pega a garrafa e havia ficado a marca da garrafa ali. Grazi consegue se colocar para baixo facilmente. Aquele babaca conseguiu ferrar muito com ela. Sua maior alegria é seu filho e quando alguém a nega por causa disso, pelas barbas de Poseidon, é dureza fazê-la ver que ela é uma mulher e mãe sensacional.
— Sério Cecília? — Me encara incrédula.
— O que? — Me vejo surpresa.
— Eles são muito importantes tanto quanto o presidente. — Esclarece um tanto irônica.
— Ah qual é, sabe que não espio a vida dos outros. — Faço uma carranca.
— Caramba, você é muito inocente, já te falei que isso ainda vai te fazer levar muitas rasteiras.
Percebo que seu tom está diferente, mais duro e com isso, recuo e deixo-a em paz. Pego uma garrafinha de água e me escoro no freezer dando um gole. Sou mesmo tão tola assim? Por optar em não acompanhar a vidas das pessoas desconhecidas? Querer apenas cuidar de mim, do meu interior e das pessoas que estão ao meu redor, daqueles com quem me importo?
Sofri demais antes de vim parar aqui. A maluca da minha madrasta literalmente esfregava na minha cara as revistas de fofocas das quais ela era assinante, dizendo que eu deveria ser como as modelos, que deveria ser alguém na vida e para isso, não poderia ficar correndo na rua com as crianças do bairro.
Mordo meus lábios e sacudo a cabeça. Aquela víbora não vai invadir meus pensamentos agora.
Um cliente acena para mim e vou atendê-los. Troco a garrafa vazia por uma cheia e anoto no papel. Olho ao redor e suspiro vendo a casa mais cheia, Mariana e Rosa estão se despedindo das suas companhias, deixo que elas mesmo acertem com eles já que um deles, me chamou de gata. Não me levem a mal, eu sou leitora, espero outros tipos de elogios. A gorjeta que elas ganharam foram bem generosas.
Keila se aproxima e abasteço a bandeja com novos pedidos. Percebo que volte e meia, ela encara a dupla que está sentada do outro lado do balcão. Luiz e Mateus. Os dois estão animados em um papo e sorrio com isso.
— Com qual deles vai ficar?
— Que? — Volto a encarar Keila.
— Com qual deles vai ficar? Eu fico com o outro.
Pela cara que ela faz, está mesmo interessada em fisga-los. O que me faz pensar de novo no que Grazi me disse e até fico tentada em saber quem realmente são.
— Nenhum, só conversamos. — Sinto uma pontada de decepção.
Em resposta, Keila sorri largo para mim, como há muito tempo não sorria. Acompanho-a com olhar servi uma mesa, deixando todas as bebidas, e depois, andar toda empinada, sorridente balançando os cachos em direção a eles.
Eu poderia mesmo estar incomodada com essa situação?
Fecho mais algumas contas, recebendo dos clientes, ainda atenta ao trio. Mateus é o que mais conversa com ela e infelizmente não consigo escutar qual é o assunto. Dou atenção a Rosa que vem abastecer sua bandeja.
— Por que não vai lá?
— Por que faria isso? — Encaro a ruiva a minha frente.
— Você tem uma bola relação com eles. — Dá de ombros. — Normal ficar inquieta.
Minhas sobrancelhas se erguem em espanto e ela ri de mim. A mulher voltar atender as pessoas e quando pisco, a casa está lotada, sem lugares para sentar e todas as paredes estão servindo de apoio para muitos ficarem encostados. Todos em conversas animadas.
Dou uma olhada no piso superior e vejo a sombra de Arthur na janela. Todos os clientes do balcão estão servidos. Aproveito e me olho nos espelhos das prateleiras de bebidas e solto meus cachos da bandana, logo o moreno estará aqui para que eu possa ir cantar.
— Ei Cici!
Me animo quando Mateus me chama, em passos animados e tentando conter a empolgação de um sorriso, vou até eles, porém sou impedida com o susto que levo quando Arthur surge num piscar de olhos da pequena passagem escondida atrás da porta laminada.
— Ai que susto! — Exclamo com a mão no peito, sentindo meu coração a mil.
Em resposta, Arthur solta uma gargalhada gostosa e mordo meus lábios para não rir junto fingindo estar brava.
— Não tem graça. — Resmungo.
— Sempre tem Cici, olha as bochechas vermelhas.
Toca em meu rosto com as duas mãos e faço careta por causa de suas mãos geladas.
— Vou contar para o tio Leci. — Ameaço e isso o faz rir mais.
Tampo eu rosto em vergonha. Deuses do Olimpo como ele é escandaloso. As pessoas próximas estão vendo tudo curiosamente.
— Ah que dó, minhas mãos estão cocando Cecília.
— O que? Nem vem!
Me alarmo quando suas duas mãos imitam garras. Ele tem o péssimo habito de fazer cócegas em mim. Não para até que eu esteja sem ar ou quase fazendo xixi na calcinha.
— Seu terrorista!
Bato em suas mãos e consigo ir para o outro lado, ainda o olhando desconfiada quando se afasta indo falar com algumas pessoas no balcão.
— O que foi isso?
Dou uma última olhada em Arthur que está bem entretido na sua conversa e volto minha atenção para os irmãos a minha frente e meu corpo reage com o olhar intenso de Luiz. Dou uma pigarreada.
— Ele me atormenta com cócegas.
— Seria hilário um ataque de cócegas com a casa cheia.
Mateus me olha brincalhão e mostro aponta de língua para ele.
— Vocês são maldosos comigo. — Ralho. — Querem mais uma bebida?
Aponto para os copos vazios deles, os dois olham para seus copos ao mesmo tempo. Dou uma espiadinha ao redor e vejo que Keila está atendendo outras pessoas.
— Eu aceito. — Luiz responde. — Mas depois da sua apresentação.
— Como sabe que vou cantar?
Ergo uma sobrancelha encarando o rapaz de olhos brilhantes a minha frente, ele que está debruçado no balcão, dá um sorriso de canto que faz surgir pequenas covinhas e sinto meu corpo ser atingido por uma corrente elétrica.
— Você tem sempre o mesmo ritual antes de subir naquele palco.
Céus, por que pareço que estou literalmente dentro de um romance? Sentindo exatamente o que cada mocinha descreve quando está diante do seu grande amor. As borboletas no estomago, as pernas tremulas e a respiração pesada.
É isso, preciso parar de ler romance por um tempo. Talvez um livro da saga Marvel para me fazer focar em atos heroicos e em como eles sacrificam tudo pela salvação do mundo e será pura sorte se ficarem com a pessoa amada no final.
— Essa tensão entre vocês é avassaladora.
Me desperto com a fala de Mateus e me afasto do balcão.
— Eu vou lá e... Quando voltar, preparo a bebida e vocês.
Fujo para o palco.
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