5
No horário marcado, Rioston chega no restaurante e fica aguardando Anita. Ele entra e senta-se logo na entrada.
A garçonete Sheila vem até ele, pergunta se deseja alguma coisa, mas Rioston só faz balançar a cabeça negativamente.
Ele está ansioso.
O tempo vai passando. Nada de Anita chegar.
O Sol vai baixando. Rioston, novamente tem seus pensamentos interrompidos por Sheila.
Ele sabe que se fosse outro cliente, já teria recebido um educado pedido para ir embora, até por que, ficar ocupando um lugar sem está consumindo, não é correto e nem permitido.
O relógio do restaurante marca cinco e meia da tarde. Rioston levanta sua mão direita, chamando a garçonete. Maria Helena é quem vem atende-lo. Sheila acaba de largar.
Maria Helena é alta, cabelos encaracolados, tem as maçãs da face rosadas, olhos expressivos, lembra uma indiana.
— Boa tarde Sr. Rioston. Ela o cumprimenta com um largo sorriso.
— Boa, mas pode me chamar de Rioston ou somente Rio. Esquece essa palavra: senhor... Por favor.
— É o costume. Mas vou me esforçar para não chamá-lo mais de senhor.
— Muito obrigado! Já sinto-me melhor. Poderia preparar para viagem, um chesseburgue e um suco de laranja com mamão.
— Okay, vou mandar fazer. Mais alguma coisa?
— Não, obrigado.
Maria Helena agradece com a cabeça e sai à cozinha.
— Desculpas a demora.— Rioston assusta-se com a chegada de Anita.
— Caramba Anita, que susto. Não vi você chegando.
— Na verdade, eu estava na esquina do posto de gasolina...Juntando forças para vim.
— Fico feliz que tenha vindo. Se sairmos agora, vamos chegar no Recife em uma hora, vou dirigindo pelas duas vias pedagiadas.
— Rio, ele não vai querer falar comigo. Eu sinto isso!
— Anita, só teremos esse certeza quando chegarmos lá. Você já tem o não, vamos pelo sim. Por que você está me olhando desse jeito?
— A sua beleza é diferente.
Rioston gargalha e diz:
— Muito obrigado pela sua gentileza.
— Eu estou falando sério. E também não entenda isso como uma cantada, mas desde o primeiro dia que te vi, fiquei abismada como você é bonito.
— Anita, valeu mesmo. Mas, podemos ir andando?
— E o seu lanche? — Anita, olha para o restaurante procurando a garçonete.
— Quando voltar passo por aqui e pego.
— Você sempre é pratico assim?
— Simplicidade gera velocidade.
A viagem até Recife é realizada no mais puro silêncio. Os dois conversam muito pouco. Anita está pensativa, imaginando como será a reação do seu marido e do seu filho ao vê-la de novo.
— Anita, sei que talvez não me escute, mas uma coisa que aprendi é que não adianta se martirizar pelo que ainda vai acontecer.
— Eu os abandonei Rioston, você me perdoaria por ter ido embora de casa, sem dizer nada?
— Talvez sim, talvez não, mas eles precisam saber o que você tem a dizer.
— Rio nem você e nem eu sabemos o que aconteceu para eu ter abandonado minha casa.
— Anita há quanto tempo que você não vai na sua casa?
— Um ano, se muito. E sinceridade... Não sabe o porquê, não soa estranho?
Rioston tira a sua atenção da estrada e olha para Anita não acreditando no que está escutando e diz:
— Sim. E no mínimo estranho. Mas você não lembra mesmo?
— Eu não lembro o motivo! — Anita suspira chateada com o olhar que recebe de Rioston. — Acredite, eu tentei contacta-lo algumas vezes, mas não conseguir ter êxito.
— Anita, desculpas pela minha cara... Não tive como evitar a surpresa com sua resposta.
— Eu sei! Estou ansiosa e sinceramente espero resolver essa parte da minha vida, ainda mais contando agora com sua ajuda. Não consigo mais descansar. E Rio... Muito obrigada. A minha memória pode está ruim, mas preciso dizer a eles o quanto me fazem falta.
Rioston continua em silêncio. Um ano é muito tempo para esperar, talvez até mesmo para quem ama.
Na verdade as ideias confusas e as alternâncias de humor, são as coisas que mais estão o incomodando.
Ele sabe que não é fácil a vida que ela está levando, mas tudo há uma explicação e são as respostas a esses porquês que o deixa inseguro, passando a achar que está dando um ponta pé inicial e pré-maturo na intenção de ajudar Anita.
— Você não tem idéia como isso é importante para minha vida. Sei que algumas pessoas tentaram me ajudar, outras pediram para seguir em frente... Mas, não consigo. Obrigada de coração por você se dispor a me ajudar.
— Anita, ninguém nunca te procurou ou você não sabe?
— Eu não sei... Quando os abandonei, seguir sem destino mundo à fora. Acho que estava perdida, procurando algum sentido para minha vida. E graças a você, acho que estou encontrando... Voltar para Recife e reencontra-los, está me deixando eufórica. Muito obrigado mais uma vez.
Rioston procura escolher corretamente a próxima pergunta. Até por que se ela perdeu a memória depois de uma violência doméstica? Ele vai está a levando de volta para o local que um dia foi sua "Via Crucis". Mas, ele aguarda o momento certo para perguntar.
— Olha, pense numa coisa louca isso que está acontecendo conosco. Você já pensou no que vai dizer quando chegar no prédio que moro e ele descer para lhe atender?
—- Anita não tenho a mínima idéia de como vou fazer. — Ele sente que essa é a deixa. — Mas, será que essa sua perda de memória não tem a ver com alguma coisa que seu esposo?
— Fico feliz com sua resposta. As vezes penso que isso só acontece comigo. — Porém, Anita parece que não escutou a pergunta de Rioston, ou realmente ela nao está afim de responder.
— Há um ano atrás, eu teria respostas para tudo. Hoje é diferente. — Rioston cala-se. Agora, fica mais incomodado com a ausência das respostas. O casal, sai do segundo pedagio. O que fica na Praia do Paiva.
Sem pressa, cruzam as praias de Candeias e Piedade, e pegam a orla de Boa Viagem.
— Sua cidade é muito bonita. — Anita quebra o silêncio.
— Obrigado. Eu também amo tudo isso.
— Já sabe o que vai falar?
— Sim.
— O que vai ser?
— Vou falar com o porteiro do prédio, quero dizer... O prédio tem portaria?
— Sim! Claro que sim!
— Pronto... Vou me apresentar ao porteiro e dizer que preciso falar com seu marido. Mas um momento... Qual o nome dele mesmo? — Rioston lembra-se que ainda não sabe o nome.
— Sérgio Malcon.
— Ele tem um sobrenome bem diferente.
— Porém, não tanto quanto o seu.
Rioston sorrir.
— Verdade. Eu já te falei como herdei meu nome?
— Não... Quero dizer não lembro.
— Meu pai, gostava de filmes com guerra. O que ele mais assiste é Apocalipse Now.
— É sério que você vai dizer o que o seu nome é derivado do alfabeto fonético da OTAN?
— Uma mistura... No início, nas escolas foi complicado, mas hoje está tranquilo. Melhor...Superado.
— Quando digo que você é um cara especial, não estou mentindo.
— Anita, hoje sou outra pessoa. Mas, se você me conhecesse há dois anos atrás, não tenho dúvida que me detestaria.
— Não acredito nisso.
— Eu mudei. O acidente me mudou. Não sou um cara religioso, não vou à igreja, nem comungo ou me confesso.
— Entendo... Mas, mesmo assim você sempre foi uma pessoa especial, apenas não havia vistos os sinais.
— Que sinais estamos falando?
— Os sinais que a vida emite. Igual a um batimento cardíaco. Às vezes não o escutamos, mas sabemos que existe e está acontecendo.
Rioston, abre um sorriso para Anita. A mulher ao seu lado não consegue falar com o marido, mas fala da profundidade da vida.
Esse é o tipo de pensamento que corre pela cabeça dele.
— É Anita, vamos ver o que a vida nos reserva para hoje.
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