Capítulo 5 •
Amigável, mas distante.
Meu supervisor não havia mentido em sua afirmação sobre o restaurante. A torta servida por eles possuía um sabor especial, bem como os pratos caseiros de minha mãe. Decidi que ali seria o local onde eu faria minhas refeições diárias e aproveitaria para ter um breve descanso antes de seguir para a faculdade. Além da qualidade do produto servido, o preço também me chamou atenção, pois encaixava-se muito bem nas condições de uma simples estagiária. Havia muitos conflitos em minha cabeça, inclusive o fato de Henri Medeiros ser cliente de um estabelecimento tão simples. Todavia, me convenci que tudo aquilo eram informações irrelevantes para mim.
Quando cheguei à Belart, naquele mesmo dia, encontrei um enorme grupo de pessoas se aquecendo no meio do salão. Estar ali depois de duas aulas cansativas era um verdadeiro alívio. Além da tranquilidade que a escola passava, soube que a noite renderia boas gargalhadas, já que havia alunos novos na turma. Dona Tereza era um amor de pessoa e tornava tudo mais prazeroso. Até os calouros se divertiam com sua própria falta de ritmo e gingado.
De forma bem animada, todos obedeciam aos comandos da mulher de cabelos grisalhos na sessão de alongamentos. Contudo, assim que a mesma notou minha presença, deixou outra pessoa em seu lugar e caminhou até mim, de braços abertos.
— Minha menina! — Ela me enlaçou em um gesto carinhoso, como costumava fazer. Deixei-me envolver naqueles braços gorduchos e dei um largo sorriso, sem me importar com os olhares curiosos em nossa direção. — Como você está? Parece cansada — continuou sua fala, após se afastar.
Tereza Barreto era muito parecida com minha avó materna, apesar de ser alguns anos mais nova. Criamos uma ligação de profunda afeição devido à falta de parentes próximos. Ela, uma viúva sem filhos e nós, migrantes em São Paulo.
— Muito cansada! — Dei um longo suspiro. — Mas é sempre bom estar aqui.
Um sorriso sincero aflorou no meu rosto, confirmando minhas palavras.
A boa senhora passou a me fazer diversas perguntas, desejosa em saber as novidades do meu dia. Sentindo-me à vontade com a conversa, relatei o necessário e mais um pouco, surpresa com minha própria disposição. Sim, eu amava pessoas comunicativas.
— Após a aula quero te fazer uma proposta, ok? Agora vá descansar as pernas. — Tereza direcionou o olhar para os bancos de madeira posicionados na lateral do salão. — A não ser que queira se juntar a nós.
— Hoje vou ficar no banco — respondi, enquanto meu cérebro aguçava-se na expectativa da proposta desconhecida —, assim posso observar de camarote os novatos.
Rimos juntas e depois nos deslocamos para os nossos lugares. Tudo parecia maravilhoso e em perfeito estado, até que uma surpresa desagradável surgiu. Portando um case de violão e uma mochila nas costas, um jovem contente adentrou no salão, fazendo uma inspeção visual do lugar. Senti meu corpo ganhando vida, impelindo-me a levantar e ir para casa. Entretanto, a vontade não era suficiente para tomar aquela atitude. Eu tinha que ficar.
O que ele está fazendo aqui? — pensei, desviando o olhar para quebrar o contato visual quando o mesmo notou minha presença.
Em uma ideia súbita, retirei da bolsa um dos densos livros da faculdade e abri em uma página qualquer, tentando agir naturalmente, embora soubesse que essa era uma tarefa quase impossível para mim. Os passos do rapaz seguiram o caminho que eu esperava e, ignorando o aceno de dona Tereza, fez questão de interromper minha suposta leitura prazerosa.
— Oi! — ele falou com entusiasmo, abrindo um sorriso lisonjeiro. — Não pensei que te encontraria hoje por aqui.
— William! — Forcei uma boa recepção, apesar da voz ter soado mais aguda que o normal. — Também é uma surpresa te ver. — Testei as palavras na boca e levantei a cabeça, encarando o jovem à minha frente.
Os olhos. Essa era uma das minhas fontes prediletas para sondar o estado de mente de uma pessoa. Falas, gestos e atitudes poderiam ser bem treinados, mas os olhos sempre revelavam uma realidade interior. William não me passava confiança, pois seu olhar era de cobiça. Nem mesmo sua performance religiosa despertava minha atenção. Contudo, ele parecia não se importar com isso, insistindo em uma aproximação.
— O que está lendo? — O rapaz apontou para o livro que eu tinha em mãos, unindo as sobrancelhas. Sem demora, visualizei a página aberta, esforçando-me para captar algum conteúdo, porém não obtive sucesso.
— Coisas da faculdade! — Desdobrei.
— Uma leitora ávida, bonita e inteligente! — William soltou os elogios e aguardou minha reação. Quando viu que sua declaração não arrancara nada mais do que meu silêncio, continuou: — Vim conversar com o professor de música da Belart. Quero aprender um instrumento, já que canto não é muito minha especialidade. — Ele sorriu. — Quando eu chegar ao seu nível no violão, podemos tocar juntos.
— Meu nível? Bobagem! Só sei o básico, é como um hobby para mim, não gosto de tocar em público.
Não para qualquer público ou pessoa, acrescentei na mente.
— William! — Nathy se aproximou de nós, dando uma piscadela em minha direção. Minha amiga era uma perfeita companheira e estava sempre atenta às situações de "risco". Sabendo do meu provável desconforto, ela se propôs a interromper nosso diálogo, gerando-me grande alívio.
Will cumprimentou-a com gentileza e não demonstrou insatisfação com sua presença, embora eu tenha percebido uma leve mudança em suas expressões. Nathalia passou a guiar nossa conversa com sua empolgação costureira, a fim de passar o tempo. Todavia, quando começamos a falar sobre algo de fato interessante — o novo projeto social que a juventude da igreja estava envolvida —, o rapaz se retirou, alegando seu compromisso com a música.
Uma ótima desculpa para fugir do assunto.
— Ele não desiste mesmo. — Nathalia balançou a cabeça em sinal negativo, enquanto o víamos se afastar. Em seguida, quando notou o livro do curso em minhas mãos, ela sorriu, sabendo que eu jamais leria aquele livro, naquele momento, naquele lugar.
— Ele não sabe receber nãos, só isso. Não vejo nenhum interesse sincero, nem boas intenções... — pausei. — E, bom, se tem, quero distância.
— Admiro sua disposição em guardar o coração e a pessoa que conseguir chegar até ele. — Inclinando mais o corpo, cochichou: — Quem será esse grande guerreiro? Fico imaginando de que terras distantes ele virá.
Ao me pegar imaginando a cena, ri sem reservas, mesmo sabendo que tais coisas só aconteciam no mundo da ficção. Nathy conhecia minha posição quanto a relacionamentos, por isso se permitia brincar de vez em quando.
— Mas você está certa, Lis. Como é aquele negócio de distância que você sempre diz?
— Devemos ser amigáveis, mas distantes. — Separei as mãos para acompanhar a fala. — Uma distância regulamentar de todo rapaz. Meu pai costuma dizer que isso funciona como uma cerca, impedindo que alguns sentimentos sejam aflorados antes do tempo ideal, sabe? Para que ele possa crescer dentro de um ambiente seguro, de sério compromisso.
— Isso, seu pai é muito sábio! — Nathalia afirmou.
— É sim! Se eu tivesse seguido seu conselho com mais firmeza, teria evitado algumas defraudações.
Falei com pesar e apreciei o grupo de casais que estavam à distância, se movimentando harmoniosamente ao som da música. Havia também outro grupo no extremo oposto do salão, recebendo atenção direta da professora de cabelos grisalhos. Eles tentavam fazer algo preciso com os pés, sem muito sucesso. Corei ao lembrar que, pela manhã, eu estava tão perdida pelos corredores da Inova como eles estavam na dança.
— O que mais te incomoda, Lis?
Voltei a atenção para a jovem ao meu lado e seus olhos estavam cravados em mim, como se estivesse fazendo uma leitura da minha mente. Acredito que minhas preocupações não estavam tão ocultas como eu gostaria ou talvez Nathy fosse uma boa observadora. De todo modo, resolvi compartilhar o que tanto me angustiava.
— Às vezes sinto como se tudo que eu faço fosse inútil. Estou prestes a me formar e não tenho certeza de nada. — Silenciei por alguns segundos. — Me pergunto quais planos o Senhor tem para mim, o que devo fazer, em que vou trabalhar, será que vou trabalhar? Não é só a vida acadêmica, é sobre tudo. Até os bilhetes! Nem sei se eles realmente estão produzindo algo na vida de alguém. Sou uma boba, eu sei. Mas não paro de pensar nessas coisas.
Minha amiga me olhava de uma forma serena, como se entendesse meus dilemas. A princípio, ela apenas me abraçou de lado, balbuciando algumas palavras que pareceram uma oração. Uma lágrima escapou do meu rosto, mas a limpei com rapidez, temendo que outras brotassem no meu rosto. Nathalia era apenas dois anos mais velha que eu, todavia, era dotada de uma sabedoria além de sua idade.
— Quando olhamos muito para o futuro, perdemos o presente, Lisbela. Hum... Sei que você já sabe da história, mas vou encaixá-la aqui para exemplificar. — Ela se afastou para me olhar melhor. — Eu não pretendia me casar, pelo menos não nessa idade. A verdade é que, no fundo, de forma inconsciente, eu me apropriava de ideais antibíblicos; aparentemente eles faziam sentido. Minha mente foi minada aos poucos e, quando me dei conta, meu conceito de família, feminilidade e masculinidade estava todo deturpado.
Assenti com a cabeça, acompanhando suas palavras.
— Minha preocupação era o futuro, somente ele; então eu conheci o Lucas. Engraçado como tudo aconteceu. Eu estava tão consumida por preocupações futuras que não me dei conta que tudo ao meu redor estava se encaixando, perfeitamente, pela ação de Deus. O Luca não estava nos meus planos, mas olha eu aqui aprendendo valsa para dançar no meu casamento daqui a alguns meses. Aconteceu tudo ao contrário!
Sua careta me arrancou muitas risadas. Eu sabia daquela história, pois presenciei algumas etapas. Contudo, ouvir de novo me trouxe uma boa lição.
— Faça seu melhor hoje com o que você tem em mãos. Aproveite o estágio, trabalhando com excelência. Leia bastante, escreva bilhetes, converse com pessoas, ajude seus pais, invista no seu tempo de solteira para aprender mais sobre nosso Deus. — Nathy segurou minhas mãos. — O mais Ele fará, ok? Você não precisa saber o futuro, nem fazer planos muito longos. Quem sabe não se casará antes de mim?
— Ei! — a repreendi sorrindo.
— Tudo bem. — Ela fez um sinal de paz com as mãos. — Não acho impossível, na verdade. Enfim, finalizando meu momento conselheira: ocupe sua mente com o que deve ser feito agora. Deus vai cuidar do amanhã.
— Você é maravilhosa, sabia disso?
— É, eu sei! — afirmou, inflando o peito de ar.
— E convencida também. — Revirei os olhos, mas não contive o sorriso de gratidão. Verdades conhecidas precisavam sempre ser reafirmadas, até que nosso coração estivesse rendido completamente a elas.
— Ah! Quase esqueci. — Senti o entusiasmo em sua voz. — Você não me falou da empresa e do seu supervisor — franziu o cenho —, esqueci o nome dele. Afinal, como ele é?
— Não sei — disse pensativa. — Um dia ele manda eu ir de navio para empresa, caso tenha alguma enchente na cidade e, no outro, ele paga o meu almoço. Uma personalidade bem bipolar.
Nathalia gargalhou, chamando a atenção dos alunos. Assim que se conteve, pediu desculpa pela cena e deu tapinhas em minhas costas, consolando-me.
— Desejo boa sorte — gracejou. — Mas veja pelo lado bom, você só verá ele na empresa.
— Graças a Deus! — Completei.
— Deus é bom! Agora preciso voltar para lá, meu noivo deve estar sentindo minha falta.
— Solicitação permitida! — Sorri. — Vai logo, mulher!
Nathy seguiu meu conselho e se juntou aos outros, que se divertiam com a nova música que tocava. Passei o restante da noite no banco, pensando no que minha amiga falara e observando a aula de dona Tereza. William reapareceu uma hora depois, mas só se despediu, sem prolongar o diálogo; o que achei excelente.
Quando todos deixaram o prédio, ajudei dona Tereza com a limpeza do local, enquanto minha mãe organizava seus pertences na sala de canto. Enquanto fazíamos nosso trabalho, ela revelou sua proposta.
— Kelly vai ficar afastada por alguns dias, porque a filha está doente. Ele não pode esperar, já que precisa virar um bom dançarino em três meses, oh céus! Então, você aceita?
— Nesse horário, posso ajudar, sim. Que dia começa? — indaguei.
— Segunda-feira — frizou. — Ele parece um jovem tão simpático, vocês vão ser uma dupla e tanto.
Sim, eu seria uma parceira substituta para um novo aluno. Fiquei tão entusiasmada com o desafio que esqueci de perguntar o nome dele.
E, bem, eu devia ter perguntado.
🌵🌵🌵
Aos novos leitores que estão chegando: bem-vindos! Espero que gostem do livro.
Aos velhos leitores: desculpa o atraso no capítulo kkk Tô me esforçando pra manter frequência, de verdade 🥴
Caso não saibam, tenho um IG onde compartilho experiência com leituras e vida comum. Sigam lá!
@peregrinadele
Inté!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top