Capítulo 4 •

“Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade” Ec 5:10

— Quem está aí? — A voz fria e rouca de Roger indagou, enquanto observava o filho parado na entrada da sala.

Se não fosse aquela abrupta chamada, tenho por certo que veria, pela primeira vez, um sorriso se formar no rosto do meu supervisor; mas não houve tempo. Ainda com a mão na maçaneta, ele puxou a porta para que eu pudesse adentrar no escritório e cumprir minha tarefa. Contudo, fez questão de permanecer no local, provavelmente para avaliar meu desempenho.

Fiquei admirada com a riqueza e a organização do lugar. A sala era três vezes maior da que eu e Natanel ficávamos, cujo espaço eu já considerava amplo. Além da mesa de vidro para reuniões, havia também algumas poltronas, quadros com pinturas clássicas e um bonito lustre. 

— Bom dia, seu Roger! — saudei ao me aproximar da mesa, enquanto ele me olhava com curiosidade. — Trouxe esses documentos, a pedido de Clarice. 

Ele recebeu os papéis que entreguei e colocou os óculos para analisá-los. Traços de uma rotina estressante marcavam seu rosto, junto às linhas acentuadas nos cantos dos olhos e próximo aos lábios, denunciando a idade avançada. Mas os aspectos físicos pouco me chamaram atenção, tendo em vista que a falta de vivacidade no homem era mais preocupante.

— Qual seu nome, jovem? — Roger perguntou sem olhar diretamente para mim, de forma mecânica. 

— Lisbela. — Juntei as mãos frente ao corpo, pensando se eu deveria continuar com minha apresentação. Entretanto, antes que eu chegasse a uma decisão, Henri se manifestou:

— É a nova estagiária do setor administrativo. Creio que o senhor estava a par do processo seletivo.

— Claro, claro! — Ele apertou o centro da testa, comprimindo os olhos, como se algo o incomodasse. Aquele era um típico gesto de quem sofria com enxaqueca. Senti vontade de perguntar se estava tudo bem, mas ele logo se recompôs e começou a movimentar sua caneta sobre os papéis. — Vou assinar logo alguns desses documentos. Espere um instante, por favor.

Assenti com um meneio de cabeça, dando um sorriso fraco. 

O relógio de parede, que estava bem atrás do seu Roger, já apontava que meu expediente havia acabado. Ali, aprendi a primeira lição da rotina de um estagiário: seja paciente!

Permanecendo em pé, defronte aquele senhor de meia-idade, comecei a refletir novamente sobre o ramo profissional ao qual eu estava inserida. Era, com toda certeza, uma vida estressante e que demandava muita dedicação, principalmente psicológica. 

Aquela não era uma realidade distante para mim, afinal, inúmeras vezes eu havia presenciado cenas do meu pai atrás de uma mesa, envolto de vários papéis ou andando de um lado para o outro resolvendo problemas burocráticos. 

Todavia, apesar do excesso de afazeres e das dores de cabeça constantes que ele passou adquirir com o tempo, Manoel Dávila exalava contentamento com o trabalho, sempre declarando uma frase que virou seu bordão pessoal: “hoje é um bom dia para glorificar a Deus”. 

— Pronto! — Roger pôs-se de pé sem muita animação, fixando os olhos em mim. 

Falta algo, pensei.

— Esses daqui você entrega no setor financeiro — ele explicou me entregando uma parte das folhas — e esses você leva para Clarice. Alguma dúvida?

Tenho sim, o senhor sabe que estamos no horário do almoço?

— Tudo certo!

Forcei uma empolgação inexistente e andei em direção à saída. Aqueles minutos que mais pareceram uma eternidade agravaram a situação do meu estômago, que reivindicava o café da manhã negligenciado devido ao atraso. Henri, vendo minhas mãos ocupadas, se adiantou para abrir a porta, o que me deixou levemente satisfeita. 

— Você está liberada. — Meu supervisor disse assim que saímos da sala e, com um gesto, solicitou que eu entregasse o que estava em minhas mãos. — Eu mesmo faço isso, não se preocupe.

Surpreendida com tal ato, não recusei a ajuda, mas me questionei se aquilo fora o comprometimento com as regras de horário ou se a fome estava estampada no meu rosto. Assim, continuamos nossa caminhada pelo corredor, em silêncio, com um enorme desconforto me cercando. 

Minhas impressões acerca do homem que estava ao meu lado eram confusas, como um bolo de lã. Não posso negar que desejava saber mais sobre a conversa que havia presenciado anteriormente, entre ele e o pai, e porquê não foi apresentado a nós, por dona Matilde ou por Clarice, como o filho do presidente da empresa. Afinal, eles eram da mesma família, certo?

Envolta nessas dúvidas, fui surpreendida quando uma menina animada nos abordou antes que chegássemos até às escadas. Seu cabelo era espesso e liso como os do Henri, assim como outras peculiaridades do rosto. Mas as semelhanças se limitavam às características físicas, visto que a menina parecia ser bastante afável. Vestida em uniforme escolar e aparentando ser bem mais nova que nós dois, se aproximou a passos firmes. 

— Eu rodei essa empresa toda procurando você. — Ela inclinou o corpo e colocou as mãos no joelho, respirando ofegante, quando já estava próxima de nós. — Você não esqueceu do almoço, certo?

Ela realinhou a postura e semicerrou os olhos, encarando o senhor sabe tudo. Achei uma gracinha aquela mini jovem em sua tentativa de intimidar meu duro supervisor que, para meu espanto, não deu uma resposta imediata. Oh, ele havia esquecido, sim!

— Lisbela, esta é Jane, minha irmã mais nova — ele preencheu o silêncio depois de alguns segundos. 

— A única irmã, na verdade. — A garota relaxou os ombros, revirando os olhos. Depois, dirigiu sua atenção para mim, com muita gentileza. — Oi, Lisbela! Você é nova por aqui né? Hum… Teve uma seleção de estágio. — Ela cruzou os braços, pensativa. — É do setor administrativo? 

— Jane! — Henri abraçou-a de lado e repreendeu a menina de forma leve, bagunçando as mechas onduladas que a tornavam tão jovial. — Ela fala demais! — ele disse por fim, me arrancando um sorriso. 

Sim, em apenas um dia eu havia conhecido quase toda a família Medeiros, concluindo, assim, que as personalidades entre eles eram bem distintas. A Jane só podia se parecer com a mãe, pensei, tendo em vista que aquela simpatia não era comum aos dois homens da família. 

Incomodada com os dois pares de olhos que me encaravam, desfiz o sorriso e tratei de dissipar a atenção deles.

— Sou do setor administrativo, sim. Olá, Jane! 

— Você é bonita, seu cabelo também! — Ouvi as palavras dela sem conseguir mover um músculo. Na verdade, todos eles se enrijeceram e senti minhas bochechas queimarem. Nunca soube reagir a elogios, embora meus cachos sempre me colocassem em situações como essa. Aprendi, com o tempo, a exibir o que minha mãe chamava de “cara de paisagem”, mas creio que ela não era muito convincente. Jane, percebendo meu embaraço, se dirigiu ao irmão e começou a falar-lhe sobre o motivo de sua presença ali.

— Então, vamos almoçar?

Henri olhou para os papéis em mãos e suspirou, pois a entrega deles provavelmente atrapalharia os planos com a irmã. Então, em uma atitude abrupta, me aproximei para pegar os documentos e cumprir a tarefa que Roger me designou.

— Eu levo — disse sem olhá-lo diretamente —, não se preocupe! 

— Não — ele respondeu rápido —, seu expediente já acabou, eu faço isso. — Meu supervisor negou com um meneio de cabeça e olhou para Jane, cuja expressão não era nada amigável.

— Vai compensar meu atraso — sorri —, não vai ser custoso, oxe!

Ok, organismo. Agora você terá que aguentar mais um pouco. Que péssima ideia sair sem me alimentar!

— Está bem! — ele se rendeu, um pouco contrariado, e partiu ao lado da irmã.

A partir daquele dia, por experiência própria, aprendi onde ficava cada setor da empresa. Descendo e subindo escadas, e me perdendo entre as portas semelhantes dos corredores, demorei um pouco até encontrar o setor financeiro. Depois, tive mais dificuldade ainda em achar Clarice, que parecia não estar em nenhum canto da Inova. Pior ainda foi ter que esperar a loira terminar uma ligação para enfim me dar atenção.

Quando cheguei na sala dos estagiários, com uma sensação de dever cumprido, me aproximei da mesa e me surpreendi com um post-it colado a um pequeno envelope, com algumas cédulas de dinheiro. 

“Há um restaurante popular na mesma rua da empresa, próximo ao banco. A torta de carne de lá é muito boa… E seu atraso de hoje está quitado, bom almoço!”, dizia o bilhete, com uma letra visivelmente masculina. Um alívio me tomou e agradeci a Deus por aquela provisão, já que além da falta de dinheiro, eu me atrasaria para aula caso tivesse que ir em casa — pois o restaurante universitário já estaria fechado. A gratidão também se estendeu ao autor daquele bilhete que, mesmo sem ter assinatura, soube de quem era. 

Atos de serviço sempre me constrangeram de uma forma boa, pois eu me sentia cuidada. Foi esse sentimento que me abraçou naquela calorosa manhã, mal sabendo eu que grandes surpresas me reservava o futuro.

🌵🌵🌵

Alguém se identifica com a vida sofrida dos estagiários? A Lis que lute 😂

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