9 - de volta ao lar

Zarya

Eu estava esperando Zadock terminar de preparar o feitiço para nos levar à Ilha de Idrysia, para me levar de volta ao lar.

Ele era o responsável pelos feitiços de todos os tipos e finalidades, enquanto eu exercia a ação mágica final. Nem eu e tampouco o meu noivo pretendíamos viajar de barco, pois desde que nós abrimos o primeiro portal do mundo mágico em Glessia, não paramos mais.

Conseguimos o Mundo Flamejante de Firen, em Glessia e o Mundo das Ondas de Ocewa das águas na Ilha de Idrysia. Ainda faltam Nevic do gelo, Granth da terra e Airy do ar, porém estamos mais perto do que nunca de conquistar todo o Mundo Novo através da magia de outros Mundos.

O primeiro passo é abrir passagem entre o Mundo Novo e o Mundo da Magia de cada reino para que cada ser mágico possa mais uma vez atravessar livremente o portal e vim para esse mundo afim de exercer sua fúria, enquanto eu e o Zadock assistiremos esse Novo Mundo ser destruído por completo, sem que reste nenhum reino sequer para contar histórias falsas. No entanto, nem eu e tampouco o meu noivo somos tão cruéis e por isso daremos a oportunidade dos monarcas se renderem e me entregarem o reino. Fazendo muitas vidas serem poupadas.

Logo mais, eu e o Zadock conquistaremos o respeito e temor de todos. Pois seremos os únicos que poderão controlar qualquer ser mágico além de possuirmos o poder e sabedoria necessária para manda-los de volta e selar mais uma vez os portais para o Mundo Mágico.

Seremos os únicos capazes de salvar esse mundo, e eles terão que se render se quiserem sobreviver — todos eles!

Eu irei construir juntamente ao meu noivo um mundo em que as bruxas, feiticeiros e qualquer criatura mágica possa viver em paz. Onde consigam ser quem são sem sentir medo ou culpados por terem nascido diferentes. Vai ser o mundo perfeito, o verdadeiro filho renascido de Izai.

Mas eu não pretendo fazer isso unicamente com o Zadock e justamente por isso que eu pretendo voltar para Claire e rever a minha mãe, e mais ainda, a minha filha. Eu irei revelar o meu plano para a minha família, e com a ajuda delas será tudo mais fácil.

Eu passei dezenove anos esquecida nessas ruínas de cinzas planejando uma vingança e uma vida digna para mim e a minha família, enquanto eu arduamente estudava e praticava os meus poderes todos os dias com a ajuda do meu parceiro e noivo. E agora, eu estava pronta para fazer justiça com as minhas próprias mãos, ou melhor, quase pronta.

Olhei nervosa para o Zadock, e o vi sério enquanto lia o seu majestoso livro de feitiçarias. Eu não costumo a ficar ansiosa para executar nada em minha vida, a pressa nunca garante a perfeição de um trabalho e eu aprendi isso ao trabalhar em meu plano de vingança.

No entanto, eu estava extremamente nervosa ao pensar em voltar para a minha antiga casa e relembrar a minha vida. Mas eu estava descontando mentalmente a minha tensão no meu noivo que trabalhava com concentração para abrir um portal até Claire.

— Ainda falta muito, querido?

Ele não me olhou, ainda concentrado em seu trabalho.

— Estou quase.

Eu me levantei de onde eu estava sentada e me aproximei do meu noivo, enquanto o observava trabalhar e esperava um sinal do mesmo para que eu me preparasse para agir.

Os meus poderes sempre eram essências para abrir qualquer portal, e sem mim ele jamais conseguiria.

— Eu achei que abrir um portal para Claire fosse mais rápido e fácil, por ser no mundo comum.

Zadock parou o que estava fazendo e finalmente me lançou o seu olhar verde esmeralda, que cintilava igual. A felicidade do mesmo ao trabalhar com seus feitiços era algo sem igual, o que fazia ele parecer como aquele jovem soldado vinte e um anos que eu vi pela primeira vez a alguns anos atrás.

Um jovem com um sonho e coragem o suficiente para forjar sua morte e salvar uma bruxa, o tornando a ferramenta mais importante para mudar esse mundo. E apesar dos anos, eu ainda o via como aquele garoto.

— É mais fácil. Só não significa que seja mais rápido.

— Percebi.

Ele abriu um sorriso satisfeito para mim, atraindo a minha atenção curiosa.

— Eu já terminei, agora é com você.

Empolgada, eu caminhei em direção a um pequeno pote de água que estava posicionado em cima da mesa. O elemento significava para onde você pretendia se deslocar, e como Idrysia é filha de Ocewa das águas. Era o elemento perfeito.

Para abrir um portal para o Mundo Mágico, além do elemento, é preciso de pedras específicas. Para o Mundo Flamejante de Firen é a Ágata de Fogo, para o Mundo das Ondas de Ocewa é a Sodalita Azul, para o Mundo Brutal de Granth, a Ônix, para o Mundo Suave de Airy é o Quartzo Rosa e para o Mundo Gelado de Nevic é a Ametista.

Eu e o meu noivo passamos meses para encontramos todas as pedras necessárias e hoje, eu guardo comigo em um colar único para cada.

Mas por enquanto, ainda não preciso usar mais nenhuma.

Eu respirei fundo e me permitir voltar para o fatídico dia em que fui tirada de Claire a força. Lembrei da minha mãe suplicando em lágrimas para que os guardas não me levassem embora e na minha filha chorando assustada — que era somente uma recém nascida enquanto eu era apenas uma jovem machucada.

Busquei toda a força e concentração que eu tinha para ativar os meus poderes de dentro para fora, me permitindo sentir toda a dor, tristeza, raiva e até saudade de casa para me inspirar ainda mais. E instantaneamente a vibração da magia percorreu pelo meu corpo enquanto chamas azuis brotavam das minhas mãos.

Eu já estava acostumada com a sensação do poder, e aquilo me fez abrir um sorriso orgulhoso só de imaginar do que eu era capaz de fazer.

Em seguida, eu lanchei as minhas chamas na direção do pote de água que o Zadock havia mexido com a sua magia, fazendo com que uma luz extremamente forte clareasse todo o ambiente um barulho de alta eletricidade desse vida ao portal.

Eu precisei fazer muito esforço para me aproximar e adentrar naquela forte luz coberta de energia. Que por um segundo temi que pudesse ser eletrocutada, mas eu não me importei. A vontade de voltar para a minha cidade e rever a minha família era muito maior do que qualquer medo banal, ainda mais quando a ideia de conseguir fortes aliadas para conquistar o mundo fosse ainda mais forte do que tudo.

*

Viajar por um portal não é uma experiência tão boa quanto eu pensei que fosse. Além de ter exigido uma extrema força que me deixou exausta, eu precisei de alguns minutos para retornar a realidade depois do choque de ter magicamente passado de um reino para o outro.

Pela areia branca e fina junto ao forte cheiro de sal e brisa marinha, eu diria que estávamos na beira da praia. Olhei de um lado para o outro, mas eu não via nada além de água e uma quilométrica passarela de areia de ambos os lados.

Eu não havia nem sequer um pescador ou pessoa que eu pudesse perguntar a direção da civilização de Claire, e não nos restavam nada a não ser caminhar sozinhos pela praia de Idrysia.

No horizonte, o sol estava se pondo. Nos presenteando com uma paisagem linda e alaranjada na direção do mar. Era uma vista paradisíaca que não se via nas ruínas de Cortelbrack.

Pela posição do sol, não faltava muito para o começo da noite. O que significava que precisávamos nos apressar para encontrar a cidade, que por sorte era a mais próxima do mar.

Embora eu ainda estivesse fraca e um pouco enjoada pela viagem do portal, continuei firme o meu caminho pela areia macia com a esperança de logo ver a minha filha e a minha mãe.

— Por favor, me lembre de não fazer uma viagem dessas tão cedo.

— Embora seja uma grande forma de ganhar tempo, a viagem através de portais não são agradáveis.

Revirei os olhos brevemente, o meu noivo tinha o chato costume de dizer coisas óbvias as vezes. Em seguida encarei o mesmo que caminhava firme ao meu encalço e abrir um sorriso para o mesmo.

— Você jura, querido?

Zadock ignorou a minha ironia apenas dando de ombros, mas permaneceu com a expressão impassível. Ele sempre foi muito orgulhoso ao se tratar da sua magia, e mesmo estando errado, jamais admitiria.

— Será que a civilização está muito longe?

— Bom, espero que não. — falei ofegante. — Estou extremamente cansada, como se o portal tivesse sugado a minha energia inteira.

— Foi exatamente isso. Mas irá passar com o tempo e uma boa refeição.

Eu abrir um sorriso ao imaginar a comida da minha mãe. Ela sempre foi ótima na cozinha, e provavelmente só esteja ainda melhor com o tempo, e isso eu pretendia descobrir pessoalmente.

Quanto mais caminhávamos, mais o sol se escondia no horizonte. E daqui a poucos minutos, a escuridão iria enfeitar o céu de Claire tornando o nosso caminho muito mais difícil ao encontrar a cidade em meio à praia tão deserta e escura. O caminho de areia branca parecia ser infinito, me dando a impressão de que quanto mais caminhávamos mais longe a cidade ficava. Como se estivesse magicamente se afastando.

Eu estava quase desistindo e me jogando na areia de tanta fraqueza, quando finalmente meus olhos foram enchidos pela vista de uma estalagem. E eu quase me empolguei — era o primeiro sinal de civilização idrêsa por perto.

Olhei para o Zadock afim de contar o que eu via, mas pela expressão aliviada do mesmo, eu percebi que ele já tinha visto o mesmo que eu. E após abaixarmos os nossos capuzes, seguimos em direção a estalagem. Nem eu ou tampouco o meu noivo pretendíamos sair a vista de ninguém, era perigoso até mesmo em uma cidade sem dono como Claire.

A estalagem não estava longe, mas quando chegamos o sol quase tinha se posto por completo. Deixando a noite já a mostra. O meu primeiro pensamento seria pedir uma refeição enquanto aproveitávamos os minutos de descanso, para que em seguida eu perguntasse sobre a minha família.

Seria um passo de cada vez.

Estávamos próximos a estalagem quando fomos surpreendidos por uma senhora baixa de cabelos brancos, uma jovem de pele bronzeada com os cabelos longos e ondulados acompanhadas por um rapaz alto, robusto que estavam saindo da mesma — e vi que eram a minha família.

De início eu fiquei surpresa, mas em seguida eu puxei o Zadock para detrás de uma enorme caixa de madeira. Para ficarmos escondidos até que passassem, pois eu havia mudado de plano e agora eu pretendia segui-los discretamente para descobrir pessoalmente onde moram.

O meu noivo me encarou com um olhar confuso, sem saber o que eu estava fazendo.

— São eles! — disparei. — Vamos segui-los para descobrirmos onde moram.

Embora o Zadock não tivesse gostado da ideia, porque ele nitidamente queria descansar e comer. O mesmo me seguiu enquanto discretamente sair do nosso esconderijo para seguir a minha família.
Independentemente de qual fosse o assunto que estava sendo tratado entre eles, era algo bom. Porque ninguém escondeu a alegria que estavam emanando naquele momento. Eu quase esqueci de como eu era feliz aqui, apesar da vida árdua, sempre tínhamos motivos para sorrir.

Mas a amarga lembrança dos soldados me tirando da minha casa a força, me assombrava desde o dia em que eu sair de Claire contra a minha vontade. E foi essa memória que me transformou em quem sou hoje, uma mulher que anseia por vingança.

Quanto mais eu caminhava por aquela rua movimentada, automaticamente eu fui me lembrando da mesma — que não havia mudado nada desde que sair a dezenove anos atrás.

Ainda o mesmo movimento noturno de todos os dias, o mesmo cheiro de peixe assado pela rua enquanto a contínua brisa do marinha complementava o cheiro típico da cidade. Claire era a maior e melhor cidade da Ilha de Idrysia, mesmo sendo pobre, costumava a ser a mais habitável dentre todas as outras.

Zadock mantinha um ritmo estável igual a mim, que seguia a minha família de forma sorrateira e discreta. Mudando de uma barraca a outra, ou de uma caixa vazia a outra enquanto nos camuflávamos no escuro da noite e da cidade movimentada.

Quando os meus alvos chegaram a uma cabana de madeira simples e já velha, eu sentir o meu coração disparar com as boas memórias que vieram à tona.

Ainda é a mesma, sem nenhuma alteração apesar dos anos.

Eu esperei pacientemente até eles adentrarem na cabana, enquanto eu e o meu noivo nos mantínhamos escondidos à espera do momento ideal — que era neste exato momento.

Eu sair em direção a cabana e o Zadock apenas me seguiu, sem me questionar nada. Pois uma semana antes de decidirmos vim, conversamos sobre o que eu iria fazer e dizer. Além do verdadeiro motivo que me trouxe até aqui.

Chegando na porta, eu testei delicadamente a fechadura para ver se estava trancada. E ao ouvir o ruído da mesma sendo aberta, fiquei aliviada em não ter que precisar bater e me apresentar antes de entrar.

Em seguida, eu empurrei a porta lentamente para que não fizesse barulho. Mas ao notar vozes que se misturavam em uma conversa, notei que estavam muito perto, do outro lado da porta para ser mais específica. Então eu soube que não adiantaria ser silenciosa ao entrar, eles saberiam de qualquer forma porque simplesmente me veriam. No entanto, decidir entrar de uma vez.

Assim que eu e o Zadock entramos, fechamos a porta na mesma hora. O que ocasionou em um ruído alto, que fizeram a senhora, a garota e o rapaz pularem de susto enquanto se posicionavam em forma de ataque.

Embora eu estivesse orgulhosa, aquela cena me doeu por dentro. A minha família vivendo na beira do perigo, precisando estar sempre em alertas e preparados para tudo e qualquer coisa me deixou triste. Mas tudo iria mudar, eu tinha a solução perfeita para esse problema.

— O que vocês querem?! — disse o rapaz com a sua voz firme e grave enquanto segurava um grande e pesado pedaço de madeira. — Não temos dinheiro! Se é o que desejam.

Eu soltei uma gargalhada controlada debaixo do meu capuz. E embora eles não pudessem ver com clareza os meus olhos, eu ainda os via.

— Não se preocupem. Não viemos atrás de dinheiro nenhum.

Antes que a minha mãe desconfiasse da minha voz, eu levantei o meu capuz e finalmente revelei o meu rosto. E pela minha visão periférica, notei que o meu noivo fazia o mesmo.

Eu abrir um sorriso quando vi o semblante surpreso da minha mãe enquanto a minha filha, já tão crescida, me encarava como se estivesse tentando me reconhecer. No entanto, o rapaz me encarou confuso, provavelmente sem saber quem eu era.

— Zarya, é você mesmo?!

Minha mãe me perguntou incrédula, e apesar da surpresa eu notei um temor nítido nos olhos da mesma. Como se não me reconhecesse.

— Sim, sou eu mesma. — falei enquanto ainda mantinha o meu sorriso intacto. — E eu vim, como eu disse que estava a caminho.

Passei o olhar da minha mãe para a minha filha que finalmente arregalou os olhos em surpresa, me deixando satisfeita por ela ter entendido a mensagem.

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