50 - a proposta
Elliot
Dias após o fatídico jantar de recepção, estávamos nos preparando para o baile em comemoração a paz no Palácio de Gusmant.
A agitação entre os criados havia aumentado conforme as horas se aproximavam, e por hoje, eu fui dispensado pelo meu pai para um dia de folga antes do festejo que promete ser histórico.
Depois do jantar, o meu pai me chamou para conversar a respeito do meu casamento. Ele queria confirmar o seu plano de me casar com a princesa Anelise de Glessia, mas obviamente eu recusei novamente. Meu pai, confuso, me questionou e discutiu a respeito da minha recusa ao seu plano. E foi então que eu precisei contar a verdade sobre os meus sentimentos pela leitora.
Ao contrário do que eu previa, o meu pai não reagiu tão mal.
Claro, ele ficou aliviado por meu coração não ser da bruxa ou da contrabandista, mas não discutiu muito comigo embora ainda preferisse a princesa Anelise.
Depois de discutir, ele notou que eu realmente estou apaixonado por ela e nada me faria casar com outra mulher e desistiu de me contrariar. Mas ainda sinto que o meu pai não aprovou a minha decisão.
Com o grande baile de hoje, eu planejava fazer um pedido ousado para a leitora.
A proposta que mudaria as nossas vidas para sempre.
E embora receoso, eu acreditava na possibilidade da mesma aceitar, pois eu estava confiante.
Eu já estava pronto e arrumado para o baile, porque tive o cuidado de pedir para que as criadas trouxessem a minha roupa mais cedo. A ansiedade havia tomado conta de mim, e talvez o motivo fosse o momento em que eu faria a minha proposta para a Stella.
Fui tirado dos meus pensamentos na leitora quando fui interrompido por batidas suaves na porta, e pelo costume eu já sabia quem era.
— Pois não?
A criada me encarou com um sorriso simpático e quando fazia uma reverência.
— Alteza, vim informá-lo de que o baile já se iniciou.
Não pude evitar que o meu coração disparasse com a notícia que a criada me dera. O baile já começou e logo eu pretendia me encontrar com a Stella.
— Já irei para o jardim, obrigado.
— Disponha, Alteza.
Com um sorriso simpático e uma breve reverência a criada se afastou, me deixando sozinho a porta do meu aposento.
Respirei fundo e ajeitei o último botão do meu casaco e sair em direção ao jardim real.
Chegando no lado de fora do Palácio, notei o quão lindo estava a decoração do baile.
Com todas as cores dos reinos do Novo Mundo.
Isso foi ideia minha, pois após o festival de cultura religiosa em Glessia, me sentir inspirado em planejar um baile que simbolizasse todos os reinos do Novo Mundo, afinal, todos estariam em ruínas se não fosse a leitora e a bruxa.
O enorme jardim real já estava cheio, pois o meu pai decidiu abrir os portões para comemorar a paz conquistada com todos os seus súditos que decidissem se aproximar. E confesso, foi uma decisão do meu pai que me impressionou bastante.
Acredito que a ameaça de guerra e morte, mudam as pessoas.
Vários súditos e súditas me cumprimentam com sorrisos e reverência enquanto eu procurava a leitora pelos arredores do jardim, mas eu não a encontrava. No entanto, me acalmei com o pensamento de que ela provavelmente deveria estar se arrumando para o festejo.
É nítido que o jantar de recepção foi um desastre, mas ninguém voltou ao normal após essa noite.
A contrabandista estava imutável, mas ela não foi mais a mesma assim que chegou em Gusmant. Eu posso ver um pouco de tristeza na glessiana que talvez sente saudades de casa, ou de alguém que deixou para trás por todos esses meses. A bruxa também estava mais pensativa, no entanto, compreendo que rever o pai e a madrasta que não a aceita é algo difícil para uma garota tão jovem.
Já o bárbaro, também tem andado esquisito ultimamente. Como se estivesse sempre nervoso e desconfiado. Mas o que mais me deixou curioso, foi que notei o sentimento de aflição e tristeza da leitora.
E foi o que me fez temer que a mesma ainda desejasse voltar para casa.
Eu não acho impossível, mas ainda não temos respostas sobre como a leitora possa voltar. E essa falta de informação é o que me mantém confiante na minha proposta.
Com o passar do tempo, avistei a contrabandista vestida em seu vestido de gala totalmente laranja e vermelho. E devo admitir que nunca a vira tão linda quanto antes.
— Elliot, agora sim eu estou te vendo verdadeiramente como um príncipe herdeiro.
Abri um sorriso com as boas e clássicas provocações da contrabandista.
— É a primeira vez que estou te vendo sem que pareça uma bandida.
Ela abriu um sorriso satisfeito enquanto olhava para si mesmo.
— Isso dá um bom disfarce, hein. Parece que sou alguém da realeza.
Assenti com a cabeça enquanto riamos.
— Está linda, Diana.
— Você também está bonitinho, príncipe.
Ainda sorrindo, fomos surpreendidos pela aproximação da bruxa e do meu irmão, que inclusive não se separaram desde que voltamos da missão.
Ele sim irá trazer dor de cabeça para o meu pai com a sua futura esposa.
— Olha só se não é a bruxa idrêsa! — disparou a contrabandista enquanto elogiava a amiga. — Está linda vestida nesse lindo vestido de gala.
Ela abriu um sorriso desconcertado, mas agradeceu a mesma enquanto também elogiava.
— Está linda mesmo, Surya.
— Obrigada, Elliot. Você também está lindo.
— Cuidado, meu irmão. Você já tem a sua.
Disse o Elias enquanto passava um braço pelos ombros da garota, me surpreendendo enquanto a contrabandista e a bruxa abriam um sorriso malicioso para mim, obviamente lembrando-se da leitora.
— Ainda não, mas provavelmente logo mais ela será minha. — falei determinado. — Se acaso aceitar a minha proposta.
— Já estava na hora, meu irmão.
Disse o Elias enquanto abria um sorriso satisfeito para mim, mas as garotas que encaram com temor, como se soubessem de alguma coisa.
E aquilo me deixou nervoso.
— Por acaso as senhoritas sabem de algo que eu não sei?
Elas se entreolharam como se estivessem internamente decidindo quem me contaria o que sabem e dividem entre si.
— Bom, provavelmente você já sabe, mas ainda sim irei te contar.
— Contar o quê?
Perguntou o bárbaro interrompendo a contrabandista e quando atraia as nossas atenções surpresas.
— Contar que essa festa está incrível e que irei me retirar para aproveitar um pouco mais.
Respondeu a mesma mudando repentinamente de assunto.
— Mas...
— Até logo, pessoal. Tenham uma boa festa!
Ela me interrompeu enquanto se retirava rapidamente, me deixando apenas com a bruxa, o meu irmão e o bárbaro.
Encarei a bruxa com o cenho franzido em confusão logo em seguida, esperando por uma explicação. E ela percebeu.
— Enfim... também irei aproveitar o lindo baile. — ela disse encarando o meu irmão que estava mais confuso do que eu. — Vamos, Elias?
— Claro!
Ele disparou ainda confuso, mas apenas seguiu a bruxa que saía tão rápido quando a contrabandista.
Respirei fundo em frustração, pois eu sabia que elas estavam me escondendo alguma coisa. E quando virei-me me deparei com o bárbaro também confuso.
— O que aconteceu aqui?
— É o que mais desejo saber.
Ele deu de ombros e voltou a si, como se não se importasse com o que aconteceu antes dele aparecer.
— Você viu a leitora?
A princípio achei que ele estava apenas me provocando com a sua pergunta, mas ao ver o seu semblante apreensivo eu notei que se era sincero na sua pergunta.
— Não, também estou procurando por ela.
Ele assentiu nitidamente incomodado comigo, mas eu o ignorei. Afinal, nada poderia estragar a noite maravilhosa que eu havia planejado.
Um silêncio desconfortável se iniciou entre nós, e enquanto várias desculpas para eu me afastar do mesmo se passavam pela minha, eu olhava atentamente todos em nossa volta. E foi então que eu vi ela.
A leitora estava com um vestido de gala branco e lilás, com alguns delicados e simples detalhes rosa. Da cor que ela nitidamente mais ama.
Ela estava extremamente linda, mais do que o normal.
E embora fosse quase impossível não encontrá-la linda, eu ainda me surpreendia com tanta beleza.
Acenei para a mesma que rapidamente me avistou e se aproximou de mim com um sorriso desconcertado.
— Oi, rapazes.
Ela nos cumprimentou e foi então que tornei a lembrar-me do bárbaro que estava comigo.
— Stella, você está muito linda essa noite.
Ele disse rapidamente a encarando com um sorriso apaixonado que me deixou irritado.
— Você sempre está linda, Stella. E hoje está mais do que o normal.
O bárbaro me encarou enfurecido enquanto a leitora desmanchava o seu sorriso simpático.
— Obrigada, meninos. Vocês também estão muito lindos.
Abrir um sorriso para ela, mas notei que a leitora estava desconfortável com alguma coisa. Então pensei em chamá-la para um lugar mais reservado, somente eu e ela.
— Stella, aceita dar uma volta comigo pelo jardim? — perguntei atraindo a atenção da mesma. — Apenas para observarmos melhor a decoração do baile e as pessoas.
O bárbaro cerrou o maxilar afim de contar a sua raiva, mas a leitora abriu um sorriso satisfeito e aliviado para mim enquanto assentia.
— Claro! — ergui o meu braço para a mesma que cautelosamente pegou. — Até mais, Kiran.
Ele a observava com uma aflição estranha, mas disfarçou com um sorriso quando a mesma o encarou.
— Até, Stella.
No mesmo instante, seguimos o caminho pelos arredores do enorme jardim real enquanto observamos admirados a decoração e todas as pessoas que enchiam o local com bastante cores e felicidade.
Ela estava muito mais sorridente, diferente de quando havia se aproximado de nós. E isso me fez ficar pensativo a respeito do bárbaro, juntando o fato da bruxa e da contrabandista terem mudado de assunto abruptamente assim que o hariano se aproximou.
E quando a leitora comentava alegremente sobre os detalhes do baile em nosso passeio, mudei inconscientemente o meu humor conforme os meus pensamentos nos dois.
— Elliot? Você está bem?
Fui atraindo de volta com a pergunta da leitora, e como eu estava muito pensativo, resolvi ser direto.
— Stella, você e o bárbaro...
— Sim, nós nos beijamos depois que ele se declarou para mim.
Arregalei os olhos com a facilidade da informação detalhada que ela havia me passado ao me interromper, e pela confusão no semblante da mesma, ela notou que havia falado demais.
Soltei o braço dela afastando-me totalmente incrédulo.
— Vocês se beijaram?
— Perdão, Elliot! Eu pensei que você sabia.
Ela disparou nervosa enquanto eu tentava controlar a raiva que crescia em mim.
— Como? Quando?
A leitora respirou fundo e me encarou fixamente.
— Na noite depois do jantar ele disse que queria conversar comigo e então viemos para o jardim, e foi o momento em que tudo aconteceu.
Fechei os olhos brevemente na tentativa de tirar a imagem dos dois se beijando em plena luz da lua e debaixo de uma céu estrelado de um jardim, mas foi inevitável.
— O que ele te disse?
— Ele se declarou para mim e... me pediu em casamento.
Ela disse cautelosamente enquanto eu abrir os olhos ainda mais irado e incrédulo.
— Ele o quê?!
— Elliot, calma!
A leitora disse nervosa enquanto olhava de um lado para o outro afim de checar se alguém nos observava.
— Como terei calma depois de uma revelação como essa?! — disparei irado. — O que me acalmaria nesse momento, Stella?
— O fato de eu não ter aceitado.
Mais uma vez fui tomado pela surpresa, mas diferente de antes, eu estava satisfeito.
Relaxei os músculos do meu corpo enquanto a encarava com alívio.
— Você o rejeitou?
— Não, exatamente. Eu disse que precisava de um tempo.
Respirei fundo enquanto a encarava entristecida, e apenas agora entendi o motivo do bárbaro estar tão apreensivo e as garotas desconfiadas.
Elas sabiam de tudo.
— Bem, mas e o que pretende fazer? — perguntei nervoso. — Irá aceitar o pedido do bárbaro?
Ela respirou fundo ao me encarar desesperada.
— Eu realmente não sei, Elliot. É muita coisa para mim.
Abaixei o meu olhar enquanto tentava entender a mesma, e pensei que a minha proposta apenas iria confundir ainda mais a cabeça da leitora.
No entanto, se o bárbaro tentou eu também deveria. Ou então morreria em arrependimento.
— Eu sei que não é o melhor momento para isso, mas eu tenho uma proposta para você, Stella.
Ela me encarou curiosa.
— E o que seria?
— Pensei em te propor para que fique aqui em Gusmant, no Novo Mundo comigo. — expliquei com cautela. — E se você aceitar... quero que se torne a minha rainha e minha esposa.
A leitora me encarou com surpresa, mas ainda havia tristeza em seu olhar. E como eu previa, ela estava confusa.
Eu só não sabia se era entre mim ou o bárbaro.
— Elliot...
— Stella, eu te amo. E eu quero apenas você e mais ninguém. — falei quase desesperadamente. — Meu pai me propôs novamente um casamento com a princesa Anelise de Glessia, mas eu não posso fazer isso se amo outra pessoa. Eu não consigo fazer isso se eu amo você.
Ela estava com os olhos marejados e partiu o meu coração vê-la lutando contra a vontade de chorar.
— Elliot, se eu te disser que nunca sentir nada por você eu estarei mentindo. — ela explicou. — Mas eu não sei o que fazer.
Abaixei o olhar brevemente enquanto pensava em algo a mais a dizer para ela, mas entre tantas lindas palavras que eu planejei em dizer agora se esvaíram por completo da minha cabeça. No entanto, havia algo que eu ansiava mais do que tudo.
— Posso te pedir uma coisa?
— Claro. O que seria?
— Um beijo.
Ela me encarou ainda entristecida e notei que a mesma não me beijaria.
— Elliot, por favor... não me peça isso.
Franzi o cenho para o mesma em confusão.
— Por que? Não quer me beijar?
— Te beijar é o que eu mais sinto vontade de fazer desde que eu te vi, Elliot. — ela disse ainda com olhos marejados e então eu abrir um sorriso que exalava a alegria que disparava em meu coração. — Mas eu não posso fazer isso.
Ela abaixou a cabeça e então eu ergui o seu rosto elevando o seu queixo, fazendo-a olhar para mim novamente.
— Eu acho que apenas um beijo não nos mataria. — falei a encarando com um sorriso. — O que me mata é não poder te beijar.
— Elliot...
Sem mais esperar, me aproximei da mesma enquanto juntava os nossos lábios em um beijo que eu sempre ansiei, sonhei e imaginei.
Mas a sensação foi ainda melhor do que eu esperava.
Beijei com tanta intensidade, que jurei que podia sentir a reciprocidade da mesma no momento. O toque, o desejo e a paixão, tudo junto enquanto sentia uma explosão de prazeres se espalhar por todo o meu corpo.
Eu tinha sido o primeiro a dar o passo e guiar a Stella, mas agora era ela quem me dominava. E eu me joguei sem nem sequer pensar no abismo que era o beijo da leitora.
Nos separamos quando ouvimos palmas se multiplicar ao nosso redor, e percebi que estávamos em meio ao baile e aos convidados.
— Stella, perdão. Eu não sabia que...
— Tudo bem, Elliot. Não foi apenas culpa sua. — ela explicou com tranquilidade. — Eu confesso que gostei muito.
Abri um sorriso aliviado pela mesma não se importar com a plateia que logo se dissipou, embora soubéssemos muito bem que os comentários rolariam a solta.
— Enfim, acho que estou sendo muito precipitado mas... já tem uma decisão?
— Decisão sobre o quê?
— Entre mim e o bárbaro.
Ela respirou fundo e olhou para baixo antes de voltar a me encarar.
— Vocês dois são incríveis, Elliot. Mas eu não posso mentir para mim mesmo ou ninguém que o meu coração bate e sempre bateu mais forte por você. — ela disse tranquilamente quase me fazendo gritar de alegria. — Eu... eu te amo, Elliot.
Eu fiquei tão surpreso e feliz que não sabia se a abraçava, beijava ou comemorava. Eu estava paralisado e sem ação.
— E então, o que me diz sobre a minha proposta?
Ela abaixou brevemente o olhar.
— Ainda não sei.
— Mas como não sabe? — perguntei. — Você acabou de dizer que me ama! O que ainda te deixa em dúvida?
A leitora respirou fundo enquanto me encarava fixamente.
— Eu te amo, Elliot. Muito. Mas eu também sinto falta do meu mundo, da minha antiga vida e das pessoas que eu conhecia. E dos meus pais.
Respirei fundo novamente, um pouco frustado por ela ainda pensar em partir depois de tudo o que eu disse e tudo o que eu sei sobre os seus sentimentos sobre mim.
Depois de me dizer que me amava.
— Você ainda deseja voltar?
— É isso que eu não sei, Elliot. Eu preciso pensar.
— Bem, acho que você ainda tem tempo para isso. — falei firme, tentando me manter forte. — E eu te deixarei em paz para que pense melhor a respeito.
Ela me encarou com ainda mais tristeza, novamente marejando os seus olhos.
— Elliot, não precisa se afastar de mim. — ela disparou quase desesperada. — Eu ainda não decidi e... independentemente, ainda não encontrei uma forma de voltar.
— Eu sinto muito, Stella. Mas eu não posso ficar perto de você e nutrir sentimentos que não sei se deverão permanecer. — falei me afastando da mesma enquanto lutava para não chorar. — Espero que me entenda.
Ela abaixou a cabeça e jurei que dessa vez ela fosse chorar, mas apenas assentiu para mim.
— Eu te entendo, Elliot. E peço perdão.
— Tudo bem, Stella. — falei respirando fundo. — Enfim... tenha uma ótima festa.
A leitora me encarou com tanta tristeza que quase pensei em desistir de abandoná-la naquele baile, mas eu precisei fazer isso por mim e talvez por ela.
Eu precisava preparar o meu coração, caso ela desejasse partir.
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