44 - depois da vitória

Eliott

No momento em que eu, a leitora, o bárbaro e a contrabandista chegamos na beira da praia. Vimos uma forte luz e um som de explosão vindos de longe, bem adentro da floresta de troncos queimados.

E notamos que a batalha entre a bruxa e sua mãe cruel havia terminado. Pelo menos, era o que parecia.

Por incrível que fosse, a chuva havia dado uma trégua. E o céu que antes estava repleto de nuvens escuras estavam mais suaves. E mesmo que elas ainda estivessem presentes, a sensação era de que a tempestade já havia ido embora. Nos deixando mais tranquilos para navegar novamente.

No entanto, o nosso único pensamento girava em torno da bruxa. E então trocamos olhares de relance aflitos, como se perguntássemos por telepatia o que deveríamos fazer agora.

— Acha que devemos ir atrás dela?

A contrabandista perguntou atraindo as nossas atenções.

— Não sei se acho muito seguro irmos. Melhor esperarmos ela aqui mesmo.

O bárbaro respondeu.

— Não sei... ainda acho melhor irmos atrás dela. — a leitora comentou preocupada. — Lembra-se da última vez que isso aconteceu? A Surya não estava acordada.

Eu concordava com a cautela do bárbaro, mas nesse ponto a leitora tinha razão. O melhor a se fazer no momento era encontrar a bruxa para saber se estava bem.

— Tudo bem, vamos atrás dela então.

Falei decidido enquanto sacava a minha espada por segurança, todos assentiram ao fazer o mesmo. Afinal, não sabíamos o que nos esperava no centro da sombria floresta queimada das ruínas de Cortelbrack.

Após longos momentos caminhando de volta ao centro da batalha, finalmente encontramos a bruxa ajoelhada e de cabeça baixa ao observar duas pessoas caídas e desacordadas no chão. E sem querer assusta-la, caminhamos cautelosamente em direção a mesma para descobrir do que se tratava.

Quando finalmente cheguei perto o suficiente, arregalei os olhos ao ver quem eram as pessoas que estavam caídas e provavelmente mortas no chão.

Era o líder hariano e o feiticeiro Zadock.

Mesmo sem toca-los, eu notei que estavam mortos devido aos seus estados agora cadavéricos. Eles estavam queimados e com algumas partes da pele derretidas, algo extremamente forte para alguém que não possui costume ou experiência de guerra.

Mas a jovem bruxa apenas permaneceu de joelhos entre eles enquanto ficava de olhos fechados, possivelmente rezando pelas almas do Zadock e do Supremo.

Esperamos pacientemente a idrêsa terminar de rezar e se levantar, olhando calmamente para cada um de nós.

— Surya, viemos saber como você está.

A leitora foi a única que conseguiu dizer alguma coisa naquele momento. E repentinamente, a bruxa correu em direção a mesma e a abraçou. Desmoronando em lágrimas no mesmo instante.

Mesmo surpresa, a leitora a abraçou fortemente afim de consolar a garota enquanto todos nós esperamos o tempo da mesma.

Após alguns instantes, a bruxa se soltou do abraço da leitora e enxugou o seu rosto enquanto se recompunha.

— Eu matei eles, pessoal. Eu sou uma assassina!

— Não diga isso, Surya! Você não é uma assassina! — a contrabandista disse para a mesma. — Estávamos em guerra, e em batalha a morte é inevitável.

Ela encarou a glessiana com os olhos marejados de chorar e uma expressão dolorosa.

— A morte pode ser evitada se a guerra for impedida de acontecer. Mas até para se conquistar a paz é preciso matar as vezes, infelizmente.

O bárbaro falou sem encarar nenhum de nós, com o seu semblante pensativo.

— Uma frase um tanto quanto bárbara, não?

A leitora perguntou com o cenho franzido para o mesmo que a encarou logo em seguida, dando de ombros.

— Estou mentindo? — ele perguntou. — Alguém sempre morre, seja inocentes ou culpados.

— Tudo bem. O que vamos fazer com eles e... com todos esses mortos?

Perguntei atraindo a atenção surpresa de todos.

— Como o quê? Vamos deixá-los aí e sair.

O bárbaro respondeu impaciente.

— Mas acho que seria bom se enterrássemos os corpos ou colocássemos em algum lugar.

Insistir ao sugeri mais uma vez que fizéssemos algo com os mortos. E dessa vez, eles me encararam com compreensão.

— Podemos queimá-los, pelo menos não ficam a míngua. Além de ser menos trabalhoso do que enterra-los.

A contrabandista sugeriu e assentimos, afirmando ser a melhor opção.

Todos nós nos unimos para pegarmos todos os corpos do local, incluindo os bárbaros de Harian para que posicionássemos todos em um mesmo lugar. Afim de queimar o máximo de corpos possível.

Quando eu peguei o último cadáver do bárbaro, posicionei junto aos demais para que a bruxa os queimassem. E ela fez assim que o soltei encima dos demais corpos, usando os seus próprios poderes. E enquanto a chama queimava os corpos que ainda não havia sido totalmente queimados pela explosão de poder da bruxa, avistei a Zarya desacordada no chão.

Caminhei em direção a mesma para checar os sinais vitais da bruxa, e percebendo que ela ainda possuía vida. Fiquei assustado, temendo que ela acordasse e desejasse se vingar.

O bárbaro se aproximou de mim, e então eu o encarei.

— Está viva?

— Está.

— E a bruxa sabe disso?

— Sim, Kiran. Eu sei.

A voz repentina da Surya se aproximando me de nós me deixou assustado, igualmente ao bárbaro ao meu lado. Nós a encaramos aflitos, sem saber como a mesma reagiria a situação de sua mãe.

— Temos que amarra-la. Eu não confio nela.

A bruxa disse enquanto a contrabandista e a leitora também se aproximavam.

— Eu tenho cordas comigo.

— Irei precisar.

A glessiana abriu um sorriso ladino ao pegar a corda e entregá-la a bruxa.

— Você tem uma relação familiar bastante estranha, bruxa.

A garota idrêsa deu de ombros enquanto amarrava as mãos de sua mãe.

— Nunca tivemos uma relação afetiva. Sempre achei que tivesse uma mãe morta.

Um silêncio iniciou-se enquanto eu ajudava a mesma a amarrar as pernas da sua mãe cruel.

Após a Zarya estar totalmente amarrada, me senti aliviado e então encarei-os novamente afim de descobrir o nosso destino à frente.

— E agora, para onde iremos?

— Iremos? — o bárbaro perguntou. — Achei que o fim da nossa missão significasse o final de nossa união.

— Não fale besteiras, bárbaro! — disparou a contrabandista. — Ainda seremos amigos, mesmo que não sigamos mais juntos.

Ele abriu um sorriso satisfeito e esnobe para a garota que havia afirmado a nossa amizade.

— Pessoal, quase nos esquecemos do templo que precisamos destruir!

Disparou a bruxa como se estivesse lembrado neste mesmo instante a respeito do templo.

— Depois da explosão que você causou, acho muito difícil ele ainda estar inteiro.

O bárbaro falou em um tom de brincadeira, embora que contivesse resquícios de verdade na afirmação do mesmo.

— É sério, Kiran. Eu preciso destruí-lo!

— Tudo bem... — ele se rendeu. — Onde será que eles fizeram esse tal de templo mágico?

Encarei a bruxa na expectativa de que a mesma sugerisse alguma coisa, mas ela estava mais confusa do que eu.

— Será que esse serve?!

A contrabandista gritou ao apontar para uma espécie de mesa feita de pedra contendo pedras mágicas de cada mundo mágico existência, além de diversos objetos desconhecidos — e provavelmente, mágicos.

— Impressionante! — disparou o bárbaro ao avaliar o templo enquanto observava a tudo destruído ao nosso redor. — Tudo destruído pelo poder da bruxa, exceto esse templo.

A contrabandista revirou com impaciência para o bárbaro, mas ele não tinha notado.

— É magia, Kiran. Não seria destruído apenas porque a Surya liberou os seus poderes. — explicou a leitora pacientemente. — Tudo na vida precisa ter um sentido e explicação, e na magia ocorre da mesma forma.

A garota idrêsa encarou a leitora com um sorriso satisfeito ao assentir a explicar da mesma.

— Sem direção, não quebrarás a maldição. — ela disse como se reproduzisse alguma frase já cravada em sua memória. — Faz sentido esse trecho da oração do deus Izai.

A leitora assentiu para a mesma com orgulho pela jovem bruxa ter entendido o recado, ter aprendido a sua lição.

— Tudo bem, Surya. Acho que agora você sabe muito bem o que deve fazer.

Stella disse ao colocar uma mão no ombro da mesma para mostrar apoio, e então a bruxa assentiu com determinação e mais segurança para a leitora ao seu lado.

Quando a Surya fechou os olhos, eu vi a leitora se afastar e simplesmente fiz o mesmo. No entanto, mesmo traumatizado com a intensidade do poder da bruxa idrêsa, eu não fui muito longe.

E eu não fui o único.

Em questões de segundos, uma forte luz roxa saiu das mãos da bruxa. E então com calma, ela direcionou os seus poderes para a mesa improvisada que representava o templo mágico que uniria os mundos mágicos e traria discórdia e destruição para o Novo Mundo.

Logo depois, luzes coloridas foram exaladas do templo se guiando para várias direções possíveis. E devido à alta intensidade da luz, eu precisei fechar os meus olhos. Já que eu não conseguia olhar para o que estava acontecendo.

No entanto, rapidamente tudo se dissipou. E eu pude notar que a forte luz havia sido diminuída, sendo o momento ideal em que achei seguro abrir os olhos.

E eu estava certo.

Quando olhei de volta ao templo, nada estava lá. Exceto pela mesa feita de pedra que estava perfeitamente intacta. Mas a Surya estava confusa, certamente sem saber se a sua magia teria dado certo. Porém, havia uma pessoa que poderia confirmar e esclarecer a sua dúvida. E essa pessoa era a leitora.

A Stella a encarava novamente com o seu sorriso orgulhoso, e foi o momento em que tive certeza do fim de todo o sofrimento e do extermínio de todos os inocentes do Novo Mundo.

Ninguém disse nada naquele momento, embora tivéssemos muito o que conversar ou comemorar. Mas eu quebrei novamente o silêncio com uma pergunta que ainda se inquietava em meu coração.

— E agora, para onde vamos?

Todos riram da minha pergunta, suavizando o momento tenso que tivemos. Especialmente a Surya.

— Enfim, como estamos todos juntos ainda e só temos um barco. Acho que o mais provável é irmos para Loockwood, e de lá decidimos o que faremos.

A leitora sugeriu que voltássemos curiosamente para o meu reino, dentre todos os possíveis lugares que deveríamos ir. E embora para ela não significasse nada, eu sentia uma faísca de esperança nascer dentro de mim.

Especialmente depois da mesma ter arriscado a sua vida para salvar a minha.

— Tudo bem... vamos para Loockwood então. — disse a bruxa. — Talvez eles saibam o que fazer com a minha mãe.

— Sim, eles sabem. — disse o bárbaro com ironia. — Eles matam!

— Não somos monstros, bárbaro! — disparei irritado com o mesmo. — Eu não permitirei que isso aconteça.

O hariano me encarou com desconfiança, mas pelo semblante do mesmo ele não pretendia discutir por isso.

— Tudo bem, vamos logo. — disse a contrabandista. — Esse lugar me dá arrepios.

Sem discutir, seguimos a glessiana que saia às pressas do nosso local de batalha. E assim que a leitora e a bruxa saíram ao encalço da contrabandista, esperei o bárbaro que carregava a Zarya ainda desacordada e amarrada em seus braços.

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