4 - justiça acima de tudo

Zarya

Não sei quanto tempo é necessário para executar plenamente uma vingança, mas eu seria capaz de esperar por mil anos para fazer justiça com as minhas próprias mãos. Apenas para ver todos aqueles quem me fizeram mal e machucaram quem eu amo pagando por cada centavo de crueldade que cometeram, invertendo e disfarçando os verdadeiros vilões da história...

Dois anos após a Guerra da Destruição

Eu estava em Claire, na Ilha de Idrysia com a minha mãe quando soldados loockanos invadiram a nossa casa e me tirou a força do meu lar e da minha família. Eu tinha apenas dezessete anos e uma bebê com dois meses de nascida que chorava assustada com o barulho dos guardas enquanto a minha mãe chorava em súplica pedindo para que não me levassem, mas foi inútil.

Eles sabiam que eu era uma bruxa, e jamais me deixariam viver. Eu já imaginava o meu destino, embora eu não quisesse aceitar. Por isso eu não lutei quando os soldados foram me buscar, era nítido que seria uma batalha já ganha para eles.

Durante a viagem de Claire até o Palácio de Gusmant eu chorei por tudo e por todos. Chorei pela minha filha que cresceria sem uma mãe, chorei pela minha mãe que teria que ser mãe, pai e avó, chorei pelo pai da minha filha que não quis nem me ouvir quando eu fui dar a notícia do nascimento da mesma e chorei pelo meu destino, o meu fim.

Ainda na prisão, eu pensei em várias formas de fugir ou de lutar, mas não conseguir encontrar nenhuma saída para a minha situação.

Eu era apenas uma garota assustada e arrancada da sua própria casa para morrer por algo que eu não escolhi ser.

Mas a manhã havia surgido mais rápido do que eu gostaria e os guardas apareceram para nos guiar até o barco que nos levaria as ruínas. As outras mulheres choravam, umas mais alto do que outras. Mas todas dividiam a mesma dor, o mesmo destino.

O meu soldado, era o mais jovem dentre eles. Tão jovem que eu pude ver que ele tremia discretamente, na certa ele era novo nesse tipo de missão. Não pude evitar de sentir uma certa esperança, sentimento que não era nada seguro naquele momento.

A nossa escolta até o barco foi um evento cerimonial. Várias pessoas do reino se agruparam para assistirem as quatro bruxas sendo levadas rumo a morte cruel, mas eles aplaudiam enquanto saudavam o rei Gusmant e a deusa Else, rainha do gelo. Os loockanos sempre foram devotos da deusa Else, já que as mesmo são frequentemente presenteados com neve no inferno e vento ainda gélido mesmo no verão.

Eu olhei atentamente para cada semblante que entrava em meu campo de visão e via nojo, medo e raiva neles. Mas nunca, admiração. Eu me sentia como uma criatura ruim, um monstro perigoso, e aquilo me matava por dentro. Eu e tantas outras mulheres estávamos mais uma vez sendo vítimas de injustiça, apenas por sermos quem eles detestam e não pelo o que fazemos. E ninguém nunca fez nada, nenhuma pessoa sequer se importou.

Então esse é o preço da minha vida, nada.

No barco, eu me permitir chorar em silêncio por uma última vez enquanto eu fazia uma prece silenciosa para Izai, o deus da vida e da morte, do dia e da noite, do calor e do frio, do sonho e da realidade. Os idrêses são devotos da deusa Sierra, rainha das águas e do mar, embora que a religião não seja imposta e todos são livres para seguir o deus que quiserem. Eu por exemplo, rezo por Izai, assim como a minha mãe.

Eu estava em um canto escuro e afastado do barco, focada em minhas preces quando eu percebi alguém se aproximando. E para o meu desgosto, era o meu soldado.

Enxuguei as últimas lágrimas do meu rosto com as costas da minha mão como se estivesse demonstrando uma dignidade que eu já não tinha, e em seguida o encarei com firmeza.

— Não precisa se preocupar, eu não vou fugir. Não conseguiria mesmo que eu tentasse.

Ele me encarava um semblante firme, mas não irritado.

— Sim, por isso eu não me preocupo em te vigiar. Não vejo necessidade.

— Então o que veio fazer aqui?

Esperei raiva do mesmo, mas notei apenas um olhar curioso e inexpressivo.

— Vi que estava rezando para Izai. Também é devota dele?

Idrêses não são devotos de ninguém, cada um escolhe para que deus rezar. Ou não.

Ele franziu o cenho em confusão.

— Achei que vocês fossem devotos de Sierra, deusa dos mares.

Dei de ombros, desinteressada.

— A maioria dos idrêses sim, mas ninguém impõe religião em Claire. Tem pessoas que nem acreditam nos deuses.

— Entendo. Mas por que escolheu Izai?

Estranhei o interesse do jovem soldado e quase pude jurar que ele se sentaria ao meu lado e conversaria horas comigo sobre o deus Izai, como se eu fosse uma amiga e não uma bruxa condenada à fogueira.

Pensei em ignora-ló, afinal, o que uma crença de uma prisioneira seria do interesse de um soldado. Mas eu estava a beira do meu fim, e uma simples conversa não me mataria antes das chamas do fogo.

— Por influência da minha mãe. Mas hoje eu confesso que entre todos, ele é o que mais me agrada por abranger os dois lados da moeda.

O olhar do mesmo se tornou mais sereno e notei que ele quis sorrir com o meu comparativo.

Izai, o deus da vida e da morte, do dia e da noite, do calor e do frio, do sonho e da realidade...

— O deus de todas as causas. — dissemos em uníssono o que nos deixou surpresos.

Foi inevitável não sorrir, e até o meu soldado não se conteve e mostrou o seu sorriso perfeitamente alinhado. E no entanto, eu percebi que o jovem soldado não era muito mais velho do que eu. Ao contrário dos demais soldados que com certeza passavam dos trinta e cinco anos.

Naquele momento eram apenas dois jovens com vidas e destinos muito diferentes um do outro. Ele era um soldado que me mataria e eu era a prisioneira.

Quando nos recompomos, olhei de um lado para o outro buscando apenas uma coisa — soldados. Mas por sorte nenhum foi visto.

— Não se preocupe, eles não irão aparecer tão cedo. Estão ocupados demais enchendo a cara.

— Achei que fosse proibido beber em uma missão.

— Em missões de ataque, sim. Mas não quando...

Ele parou assustado como se tivesse tomado conta do que iria me dizer. Fiquei surpresa com a atitude dele, mas ignorei qualquer vestígio de bondade que pudesse existir naquele soldado do rosto bonito e jovial demais.

Eu não poderia me decepcionar ainda mais.

— Gostaria que o deus Izai pudesse me salvar dessa causa impossível.

Para a minha surpresa maior, o soldado sorriu com a minha mudança de assunto.

— Quem sabe ele te salve.

Foi o que o ele me disse antes de sair e me deixar novamente sozinha, e dessa vez, com os meus pensamentos confusos.

No dia seguinte, chegamos às ruínas.

A primeira vista, a antiga Cortelbrack não era tão aterrorizante quanto eu imaginei. E até pensei que pudesse existir alguém se escondendo por aqui, apesar do enorme silêncio que nos rondava.

Apenas os nossos próprios passos eram ouvidos, nenhum sinal de vida nos cercavam. Nem mesmo pássaros ousavam cruzar o céu das ruínas, e isso me causava uma sensação estranha.

Eu lancei um olhar de relance para o meu soldado, mas ele apenas continuava caminhando determinadamente seguindo o seu líder. Sem nem sequer vacilar os seus olhos fixos a frente.

Confesso que eu me entristeci com o fato dele me ignorar depois da nossa conversa de ontem, mas eu não podia negar que no fundo eu sabia que o mesmo iria continuar com a sua missão de me queimar, independentemente da nossa compatibilidade religiosa.

E de repente sentir um vazio, pois nada e nem ninguém iria me salvar do meu destino.

Eu estava com a cabeça baixa enquanto eu estava  sendo guiada direto para a morte, preferi não olhar mais para o soldado gentil que conversou comigo — até porque o mesmo não estava mais presente.

Nenhuma mulher chorou mais essa manhã, provavelmente elas já tinham aceitado a morte ou talvez não tinham mais lágrimas para derramar. E eu acredito que seja um pouco dos dois.

Eu estava me preparando para o meu fim quando o meu soldado se aproximou de mim, tão perto e repentino que fez o meu corpo estremecer.

— Não diga nada, apenas concorde o que eu disser, se for necessário. Depois eu te explicarei tudo.

Ele não me deu tempo de questionar nada, apenas continuou me guiando juntamente a outros soldados que guiavam as mulheres para a morte.

Quando chegamos no centro de um lugar cheio de troncos ainda enraizados na terra, mesmo que estivessem tostados pelas chamas, pude ver que certamente era uma floresta verdejante.

O capitão dos soldados fez sinal para que parássemos e o meu coração acelerou. Uma parte temendo a minha morte enquanto a outra estava confusa com o aviso do meu soldado.

— Aqui é um ótimo lugar. Todas essas pragas morrerão juntas e acertaremos dois coelhos com apenas uma cajadada. — o capitão nos encarou uma a uma com o olhar maléfico e um sorriso satisfeito. — Ou melhor, quatro.

Uma onda de risada entre os soldados foi ouvida nas silenciosas ruínas enquanto eu engolia o meu ódio juntamente a minha vontade de gritar e chorar. Meu coração disparava de raiva enquanto eu fechava às minhas mãos com força, sentindo as minhas unhas perfurarem a minha pele. Eu sabia que tudo o que eu dissesse seria o meu fim, mas de toda a forma eu iria morrer. Não havia salvação para mim.

Estava prestes a devolver a provocação do capitão quando o jovem soldado se colocou a minha frente, me deixando surpresa.

— Senhor, aconselho que cada uma seja queimada separadamente em uma certa distância da outra para não haver sobrecarga de energia.

Os dois soldados olharam de relance para o seu líder, como se estivessem esperando por uma resposta. Mas o homem apenas sorriu.

— Isso é tolice. Vamos queimá-las juntas e agora mesmo!

Ele ordenou, mas os dois soldados não fizeram nada. Provavelmente eles temiam o que o jovem soldado dissera.

— Capitão, é melhor não brincar com essas coisas. O senhor sabe muito bem o que aconteceu com o sir Cassius após ele retornar da sua missão ao queimar aquelas bruxas.

O soldado falou claramente assustado. O que quer que tenha acontecido com o antigo soldado certamente o traumatizou.

— Mas aquelas bruxas eram diferentes. Essas daqui não tem nem a capacidade de fazer mal a uma mosca.

— Não é aconselhável subestimar as forças sobrenaturais, capitão.

O jovem soldado falou tão rápido que parecia que o mesmo já previa o que o seu líder falaria. No entanto, a agilidade do jovem soldado surpreendeu a todos. Especialmente a mim.

O capitão abriu um sorriso sombrio e bagunçou levemente os cabelos do jovem, como se ele fosse um irmão mais novo.

— Está certo. Vamos nos espalhar.

As ruínas de Cortelbrack não é tão inabitável quanto eu pensei, e também não era tão desagradável.

Tudo e todos foram queimados drasticamente pelas chamas infernais dos dragões de Firen, do terrível Mundo Flamenjante, durante a guerra da destruição. Mas ainda houve alguns materiais e objetos que se salvaram, especialmente tijolos.

Notei que as poucas casas que ainda sobraram de pé eram feitas de tijolos, provavelmente pertenceram à famílias com boas condições no passado. Mas avaliar o que sobrou da destruição não era o que iríamos fazer, e rapidamente o jovem soldado olhou para trás e ao redor com olhos fixos de águia. E mesmo instante, ele se voltou a mim e pediu para eu eu corresse. Assustada, eu corri o máximo que pude enquanto o mesmo acompanhava o meu ritmo com facilidade.

Parei assim que ele parou em minha frente. Eu não sabia o porquê, mas o soldado queria estar exatamente naquele local, em frente a uma cabana que não foi completamente queimada.

Ainda ofegante, eu o encarei confusa. E para o meu alívio, ele também me encarou.

— Escute, eu vou colocar fogo no resto dessa cabana e fingir que estive nesse mesmo lugar com você. — ele disse ofegante. — Quero que pensem que fui vítima de um acidente.

Arregalei os olhos em surpresa, quase incrédula com o que ele acabara de me dizer.

— Você vai forjar a sua morte?! Por que?!

Ele me encarou com os olhos serenos dessa vez. Eu não sabia dizer se era de compaixão ou de... Não!
O soldado não podia estar apaixonado por mim.

— Se essa for a única forma de te salvar... que assim seja.

Sentir o meu corpo gelar enquanto ele me encarava com suavidade. Mas o olhar doce do soldado foi rapidamente substituído por determinação e em seguida ele correu para a cabana e acendeu fogo na mesma.

Eu estava apenas o observando incrédula, eu ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo comigo. Olhei para o céu e me perguntei se Izai realmente havia ouvido as minhas preces, porque eu não podia esperar milagre maior.

— Quando eu pedir para você gritar, grite como se estivesse sendo de fato queimada. — o jovem soldado falou enquanto desatava os nós da corda que prendiam os meus pulsos. — E não se preocupe, as suas preces para Izai foram ouvidas. Você será salva.

Quando ele me soltou, eu não sabia se o agradecia, chorava ou o abraçava. A única coisa que eu sabia era que aquele não era o melhor momento para agradecimentos.

Minutos depois o soldado me deu permissão para gritar e eu gritei com todas as minhas forças tentando soar o mais convincente o possível. Me assustei quando ele fez o mesmo, mas não vacilei e continuei com a minha cena de sofrimento enquanto me mantinha escondida com o jovem soldado.

O plano foi executado perfeitamente, e passados mais alguns minutos, os soldados correram em direção a cabana ainda com as chamas vivas queimando a madeira já tostada. Eles ficaram assustados, mas gritaram o chamando na esperança de serem respondidos. O que não aconteceu. Os dois soldados desabaram em choro enquanto o capitão tentava ser forte para manter a postura, embora eu visse nos músculos dele que estava arrasado. Com relutância, os soldados foram embora com a notícia da morte do seu jovem soldado enquanto eu fiquei com o fato de que ele forjou a própria morte para me salvar, a troco de quê eu ainda não sabia.

Quando estávamos apenas nós dois nas ruínas, temi o que o soldado pretendia. O seu sacrifício não foi simplesmente movido por uma paixão juvenil, ele já sabia muito bem o que fazer. Como se já estivesse planejado a muito tempo. E independentemente do que o soldado pretendia, eu estava disposta a ajudá-lo depois do mesmo ter me poupado da morte terrível.

— Preciso da sua ajuda para realizar descobrir uma coisa, mas preciso que você fique aqui comigo.

Eu o encarei assustada e então mesmo abriu um sorriso esperançoso, que suavizou o seu semblante.

— Não se preocupe, eu tenho certeza de que vai ser útil para você também.

Eu não havia entendido, mas aceitei mesmo assim. Afinal, eu ainda estava em dívida com o soldado.

— Já que vamos ficar juntos por mais um tempo, eu posso saber o seu nome?

— Ah, claro! Eu sou o Zadock. — ele disse com um sorriso simpático. — Zadock Summ, um dos últimos sobreviventes da ruína de Cortelbrack.

Zadock Summ é descendente do reino de Cortelbrack. Ele e o seu irmão mais velho, Cedric, são os únicos e últimos sobreviventes do antigo reino. Embora que eu seja a única que saiba da sobrevivência do mais novo, a partir de hoje.

Os irmãos Summ viviam juntos no Palácio de Gusmant no reino de Loockwood. Eles foram os únicos que conseguiram fugir da destruição e foram recebidos pelo rei Gusmant no final da guerra da destruição, a vinte anos atrás. Como ainda eram jovens de vinte e trinta anos, o rei decidiu nomeá-los como soldados do reino e assim foi feito e exercido por ambos por um ano. Até Zadock ser mandando para queimar uma bruxa e morrer em um acidente ao manusear de forma errada o fogo, mudando os nossos destinos para sempre.

No dia seguinte, o mesmo me contou que planejava aprender a usar seus truques de feiticeiro — como um bom cortelano, e pediu para que eu o ajudasse em sua missão de encontrar e abrir a caixa mágica que o mesmo escondera debaixo da terra, com os meus poderes. Mas eu era uma bruxa que não usava os meus poderes, fui educada para saber mas não para usar. A minha mãe sempre teve medo de que descobrissem quem eu era, no entanto ela não me instruía a usá-los.

Os meus poderes estavam adormecidos, juntamente com todos os ensinamentos da minha mãe. Mas o Zadock soube perfeitamente como desperta-los e eu rapidamente aprendi.

A sensação de usar os meus poderes era libertadora. Era uma junção de poder e força, algo que eu nunca imaginei ser capaz de sentir. Era algo pelo qual eu fui nascida para ser, sendo oprimidos pela sociedade. Mas aos poucos eu iria dominá-los muito bem.

Na mesma semana encontramos a caixa pelas terras de Cortelbrack e eu a abrir com a minha mágica. O livro dos feiticeiros tem tantos detalhes, truque e ensinamentos quanto os das bruxas, e o meu ex soldado sabia muito bem o que procurava.

Ele me contou seu plano de ser tornar um feiticeiro completo para ser capaz de reerguer o seu antigo reino que tanto sentia falta. Com a conquista, Zadock seria o rei de um novo reino nascidos das cinzas das ruínas de Cortelbrack. Mas eu também tinha os meus desejos, e era a mais pura e nítida vingança. Aos monarcas de Glessia, por me trair e me expor. Aos monarcas de Loockwood, por me tirarem as forças da minha casa e os seus súditos que me assistiam como se eu fosse uma aberrarão e não fizeram nada. E principalmente, aos culpados por transformarem as bruxas que salvaram o mundo, como as vilas da história.

Pensar em destruir todos os que me fizeram sofrer, enchiam o meu coração de força e determinação e era esse o meu combustível para conquistar tudo o que eu queria. Principalmente, a justiça acima de tudo.

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