36 - a transmissão
Elias
Depois de uma longa e árdua semana de estudos, o sacerdote finalmente havia aprendido a magia da transmissão.
Eu estava secretamente na sala do mesmo enquanto atento, eu ouvia as instruções que o Cedric me dizia. Quase pronto para de fato passar uma mensagem para o meu irmão.
Embora eu soubesse que eu não poderia vê-lo, eu já estava satisfeito com a ideia do mesmo me ouvir e até ver — embora a minha imagem fique magicamente estranha com o efeito de luz.
Em Loockwood, a guerra continuava firme. Vários soldados retornava à Gusmant com relatos de ataque de lobos da neve gigante e monstros horrendos de gelo, nos deixando ainda mais preocupados. Pois era algo nunca visto ou vivenciado desde a temível guerra da destruição.
Meu pai estava tão ocupado e aflito com a ameaça da guerra se espalhar por todo o reino e mundo, que mal tinha tempo de ficar parado por algum instante. A minha mãe, ficava a cada dia pior. Ela já não come direito a semanas e isso deixava o meu pai e eu ainda mais aflitos.
E eu apenas pensava em contar toda a verdade para os meus pais, embora eu tivesse a mais plena certeza de que isso não melhoraria a preocupação dos meus pais.
E eu ainda estava proibido de sair do Palácio, pelo menos, sem a companhia dos guardas. Mas com toda essa ideia de guerra e ataques de feras mágicas me deixava cada vez menos interessado em sair. Sem mencionar que há algo aqui dentro do Palácio que me interessa muito no momento.
A transmissão mágica que me fará conversar com o Elliot.
Enquanto o sacerdote se preparava para iniciar a transmissão, eu permanecia imóvel enquanto pensava ao certo o que seria dito ao meu irmão.
Eu não sabia se relatava sobre os constantes ataques e batalhas ocorrendo no sul de Loockwood, se contava sobre o nosso pai vivendo em uma pilha de nervos ou a saúde da nossa mãe que vem pirando a cada dia. E embora eu tivesse tanto para falar, eu não sabia o que dizer já que tudo parecia inadequado para o momento.
— Alteza? Está me ouvindo?
A voz do sacerdote me tirou do transe dos meus próprios pensamentos, e eu me recompus enquanto o mesmo me encarava preocupado.
— Estou, Reverendo. Eu só estava pensando.
— Sobre a sua transmissão, acredito.
— Isso mesmo. Estava filtrando o que iria dizer ao meu irmão. — respirei fundo. — Mas não sabia que seria tão difícil saber o que falar com ele.
Ele abriu um sorriso para mim.
— Acredito que a dificuldade que o senhor tem de falar com o seu irmão se refira a possível impossibilidade de ouvir uma resposta do mesmo.
Franzi o cenho para o sacerdote que ainda me encarava com um sorriso estampado em seu rosto, enquanto eu refletia o sentido da sugestão dele.
— Talvez tenha razão.
— É isso, Alteza. Mas não se preocupe que eu descobrir uma forma para que você converse com ele.
Arqueei as sobrancelhas em surpresa para o mesmo que estava com um sorriso esnobe em seu rosto.
— Como?
— Eu li bastante sobre a magia da transmissão mágica e descobrir que há formas de exercer uma conversa com a pessoa que deseja. Mas... o senhor só poderá ouvir a voz do seu irmão, e nada mais.
Eu abrir um sorriso empolgado enquanto ainda estava incrédulo com a revelação do sacerdote.
— O senhor está certo disso, Reverendo?
— Mas é claro, Alteza. — ele disse convencido. — Mas infelizmente, esse tipo de transmissão tem o limite de dez minutos para que se termine a magia.
Embora o tempo fosse pouco para conversar com o meu irmão, eu já estava grato por ter a oportunidade de ouvir a voz do mesmo.
Isso me tranquilizaria o suficiente para que eu soubesse que ele está bem, e está vivo.
— Está ótimo, sacerdote! — falei sem conter a minha felicidade ao me colocar de pé. — E estou pronto.
O Cedric assentiu para mim e então estalou os dedos de sua mão, ao se preparar para a ação. Ele se afastou e então me lançou os seus olhos verdes e firmes para mim.
— Escute, Alteza. Assim que eu disser as palavras mágicas o senhor entrará em uma espécie de bolha, e lembre-se... só aparecerá para o seu irmão assim que o senhor falar.
Eu assenti para o sacerdote, entendendo as suas instruções.
— E todos poderão me ver ou apenas o meu irmão?
— Apenas o seu irmão, Alteza. — ele respondeu franco. — Como eu não faço a mínima ideia de onde esteja o príncipe, eu precisei focar apenas nele ao invés do local.
— Eu entendo, mas... e se o Elliot estiver...
— Nesse caso, a magia não será realizada.
Abaixei brevemente o meu olhar ao imaginar o meu irmão morto e largado como um indigente em qualquer lugar desse Novo Mundo. E embora não seja do meu feitio, eu também pensei na leitora.
— Não se preocupe com isso, Alteza. Eu tenho certeza que o príncipe está bem.
Abrir um sorriso fraco em gratidão as palavra de apoio do sacerdote, finalmente me recompondo mais uma vez.
— Agora sim, sacerdote. Estou pronto!
Sem mais demorar, o Cedric disse algumas palavras em um idioma que eu desconhecia e então uma luz laranja saiu freneticamente pelos em dedos em minha direção.
Fiquei impressionado com o poder do mesmo, mas não tive tempo para dizer sequer uma palavra. Pois a luz que corria em minha direção estava passeando pelo meu corpo como uma corrente elétrica, e instantaneamente a minha visão estava em um tom alaranjada enquanto o meu corpo permanecia paralisado.
Eu me sentia distante, como se não estivesse na sala do sacerdote. Embora tudo ainda esteja no mesmo lugar, e até eu mesmo.
Além do nervosismo, eu estava aliviado pela magia ter dado certo. Isso só significava que o meu irmão ainda estava vivo, e eu não posso estar mais grato do que a oportunidade de falar com o mesmo.
Me preparei mentalmente e respirei fundo para finalmente poder ouvir a voz do meu irmão.
— Elliot, está me ouvindo?
— Elias?!
Ele perguntou em um tom assustado, e mais rápido do que eu esperava.
Fiquei feliz em poder ouvir novamente a voz do meu irmão.
— Sou eu mesmo. Quanto tempo, não?
— Elias, como você está fazendo isso?!
— Com o sacerdote. Ele tem aprendido algumas magias na sua ausência. — brinquei com o mesmo, fazendo ele rir. — Estou feliz que esteja vivo.
— Não precisa se preocupar comigo, meu irmão. Eu estou bem. — ele disse mais tranquilo. — Ou melhor, estamos bem.
Ele se apressou em me explicar que a leitora também está bem, incluindo o bárbaro e a contrabandista.
— Vocês encontraram a bruxa?
— Sim, ela está conosco agora.
Respirei aliviado por tudo está correndo bem como o planejado.
— E onde estão nesse momento?
— Estamos no barco rumo a Glessia. De lá iremos para as ruínas encontrar o templo que a Stella afirma ter.
— Um templo?
— Sim, a Stella disse que é isso que conectará todos os mundos mágicos quando os portais estiverem abertos. É isso que a dará o poder.
Parte de mim compreendeu como a leitora planeja usar a bruxa para fechar o portal sem a presença do feiticeiro.
Quebrando a fonte do poder que é o templo.
Abrir um sorriso satisfeito, ao pensar no tanto que a leitora é útil para a salvação do mundo.
— Desejo toda a sorte para vocês, irmão. Que os deuses estejam com todos.
— Obrigado, Elias. Mas você não fez essa... coisa, apenas para me perguntar como estou, não foi?
Ele perguntou nervoso, provavelmente esperando o pior. E embora me doesse ter que repartir de notícias ruins, eu precisei dividir com o mesmo.
— Pois é, Elliot. Eu tenho que te contar como vai as coisas aqui em Loockwood.
— Pela sua cara, nada bom.
— As batalhas e ataques de feras mágicas de Nevic estão ficando cada vez piores, e suponho que em todos os reinos do Novo Mundo também.
— O quê?! E o nosso pai, como está lidando com isso?
— Ele está fazendo o que pode, mas anda muito preocupado desde que você saiu de Loockwood. — fiz uma breve pausa para me recompor. — E a nossa mãe, não está bem de saúde. Está muito preocupada.
Um silêncio torturante se estendeu por alguns instantes, e eu temi que a transmissão tivesse sido impedida.
— Elliot?
— Estou aqui, meu irmão.
— Peço perdão se eu o preocupei, Elliot. Mas não quero que coloque essas coisas em sua cabeça, daremos o nosso jeito. — falei firme para tranquilizar o mesmo. — Estamos todos em uma batalha, irmão. Não esqueça-se disso. Faça a sua parte e siga para as ruínas que eu segurarei as pontas por aqui.
— Cuide da mamãe, Elias. E se possível tente ajudar o papai. Eu prometo que voltarei.
Fiquei surpreso com a segurança do meu irmão ao afirmar que ele voltaria com vida para nós. E se isso acontecer, a guerra terá sido vencida.
Eram duas promessas muito sérias para ser dita sem pensar, e o Elliot jamais age por impulso.
E mesmo que eu quisesse manter os meus dois pés no chão, eu não pude evitar de me sentir esperançoso com a promessa do meu irmão.
— Farei isso. Se cuide, meu irmão. E permaneça vivo!
Ele riu com o meu pedido, aliviando o clima entre nós.
— Farei isso. Mas também quero que se cuide.
— Fique tranquilo que por aqui ficará tudo bem.
Falei com firmeza para acalmar o meu irmão, e logo um silêncio novamente reinou entre nós.
Sentir as ondas elétricas do poder do sacerdote pelo meu corpo, diminuir. E então eu notei que o nosso tempo já estava sendo finalizado.
— Elliot.
— Sim?
— Eu te amo.
Esperei que o meu irmão me zombasse por ser tão sentimental, algo que eu nunca fui e tampouco ele. Mas o fim do mundo nos muda, porque nunca saberemos de fato se essa será a nossa última conversa. Nossa última palavra.
— Eu também te amo, meu irmão.
Precisei me manter firme para não chorar na frente do meu irmão. O Elliot havia me respondido sério, sem tirar nenhuma brincadeira da sensibilidade.
Como se fosse um adeus.
Antes que algum de nós pudéssemos dizer mais alguma coisa, a eletricidade pelo meu corpo havia se dissipado e então novamente voltei a mim. Me deparando com o sacerdote me encarando com os seus olhos verdes e vibrantes, cheios de aflição.
— E então, Alteza. Como foi?
Ainda me sentindo estranhamente perdido, eu me recompus. Temendo chorar até na frente do velho sacerdote.
— Foi muito estranho, mas... bom.
O sacerdote franziu o cenho em confusão e se aproximou de mim.
— E o senhor conseguiu conversar com o seu irmão, Alteza?
— Conseguir, sacerdote. Graças ao senhor.
Pela primeira vez na vida eu vi o Cedric corar, e fiquei surpreso com o mesmo.
— Fico contente que lhe fui útil, Alteza. — ele disse ainda desconcertado, mas se recompondo discretamente. — E como ele está?
— Muito bem, Reverendo. Eles estão no barco para Glessia agora, e de lá sairão para as ruínas afim de destruir um templo.
Ele permaneceu me encarando em silêncio, mas eu sabia que o sacerdote estava juntando os pontos em sua cabeça.
— Claro! O templo! — ele disparou. — É assim que irão fechar os portais mágicos. Destruindo o templo!
Eu sabia que o sacerdote conseguiria decifrar o plano do meu irmão com apenas algumas informações básicas.
— O senhor sabe alguma coisa a respeito disso, sacerdote?
— Infelizmente, não muito. Mas posso aprender se o senhor preferir, Alteza.
Pensei em pedir para que o mesmo procurasse para mim em seus livros algo sobre templo e portais mágicos, mas instantaneamente lembrei-me do conselho do meu irmão em que pedia para que eu não me preocupasse. E no fundo, eu sabia que ele daria conta da situação.
Agora que eu conseguir notícias do Elliot, eu precisava me dedicar unicamente em ajudar o meu pai e especialmente a minha mãe.
— Não. Tudo bem, sacerdote. O senhor já me ajudou muito. — falei. — Agora preciso me dedicar a quem precisa muito de mim.
Ele abriu um sorriso satisfeito ao assentir.
— Como quiser, meu jovem.
Me afastei do mesmo ao me dirigir para a porta da sua sala, mas parei antes de abri-la e virei-me para o mesmo.
— Até breve, sacerdote.
— Até, Alteza. — ele disse educadamente. — Desejo melhoras para a sua mãe.
— Obrigado, Reverendo.
O Cedric assentiu e então eu sair de sua sala, respirando aliviado e grato por ter tido a oportunidade de falar com o meu irmão após muitas semanas.
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