28 - mudança de rota

Kiran

Embora nós tentássemos, não conseguimos um barco que nos levasse para o mar do norte ou o reino de Glessia. Parecia que todos estavam traumatizados ao até mesmo com medo de se aproximar daquela região após notícias sobre ataques de feras mágicas de Ocewa.

Tudo o que conseguimos foi uma embarcação até Gusmant, em Loockwood.

Era tudo o que tínhamos para hoje.

Desde que subimos no barco, o príncipe herdeiro não havia dito uma palavra sequer. E embora eu adorasse o silêncio do mesmo, aquilo estava me deixando desconfortável.

Ele estaria preocupado ao pisar novamente em sua terra natal e ser pego ou com medo da guerra e o fim do mundo em que conhecemos?

A contrabandista passou a maior parte do tempo em vigia. Apesar do bom pagamento que o príncipe de Loockwood fez, os marujos e seu capitão não são confiáveis. E a bruxa estava sentada enquanto lia o livro de bruxarias que a sua avó lhe dera, ela estava empenhada em aprender o máximo que pudesse até chegarmos às ruínas.

Enquanto a leitora passava a maior parte do seu tempo na beira do barco observando o mar enorme e o incrível por do sol no horizonte. Era incrível a capacidade da mesma de relaxar e se distrair enquanto estávamos em um barco com vários estranhos que provavelmente nos matariam mesmo a troco de nada.

Ela realmente não é desse mundo.

Tentando ser o mais discreto possível, eu me aproximei da leitora enquanto ela permanecia apoiada á amurada com os pensamentos distantes. E instantaneamente eu estranhei a enorme vontade que eu sentia de saber onde estariam os seus pensamentos agora.

Quando eu cheguei perto da mesma, também me apoiei na amurada. E lancei o meu olhar para o enorme e infinito mar.

— Sabia que é muito perigoso ficar tão distraída assim, leitora?

— Eu sei. Mas eu não estou sozinha, e além do mais... — ela fez uma pausa enquanto indicava com a cabeça na direção da contrabandista que fazia a sua vigia. — Temos alguém cumprindo a primeira guarda do dia.

Sorri com a rapidez da garota ao me responder.

— Boa tentativa, leitora. Mas não é bom confiar a sua vida em qualquer um. — aconselhei. — Mesmo que a Isla seja alguém merecedora de confiança.

Ela abriu um sorriso ao assenti, me deixando satisfeito pelo entendimento.

— Tudo bem, Kiran. Foi somente dessa vez.

A leitora disse enquanto tornava a encarar o por do sol, com aflição em seu semblante.

— Preocupada, leitora?

— Com uma guerra a nossa frente, quem não está?

Abrir um sorriso ladino com a resposta ousada da mesma.

— Tem razão. — concordei enquanto olhava a mesma. — Mas não pense muito nisso, você pode acabar enlouquecendo.

Para a minha surpresa a leitora me encarou enquanto mantinha um sorriso em seu rosto.

— Isso tudo já é loucura o suficiente para mim.

Ela falou com dor em sua voz, me trazendo de volta a realidade.

Eu me senti mal pela leitora, o que é esquisito já que eu nunca me importo com mais ninguém além de mim mesmo. Mas desde que eu a vi, não sou mais o mesmo.

Eu não me sinto igual.

Respirei fundo enquanto pensava nas palavras certas a serem ditas.

— Você irá voltar para casa, leitora.

— Você acha?

Ela me perguntou com olhos esperançosos, apesar de toda tristeza e um enorme obstáculo. E embora eu não acreditasse, eu não podia tirar aquilo dela.

Não seria eu quem mataria nenhuma esperança.

— Acho sim.

Ela abriu um sorriso forçado e voltou a olhar para o mar, e então eu fiz o mesmo.

— Sabe, eu não estou muito preocupada com a guerra.

Rapidamente eu a encarei com uma sobrancelha arqueada.

— Como não?

— Embora eu não esteja lembrada do final dessa história, sei que vocês conseguirão derrotar o mal. É sempre assim.

Eu estava a encarando com confusão enquanto ela parecia não se importar, ainda fitando o mar.

— E por que acha isso?

Ela finalmente me encarou e abriu um sorriso satisfeito.

— Eu sou leitora, esqueceu? — ela perguntou com um ar esnobe. — Já li muito.

Arqueei a sobrancelha para a mesma, em desconfiança.

— E todas as histórias que leu terminam bem?

— Nem todas, mas a maioria sim.

— E o que te garante que essa tenha um final feliz?

A leitora desfez o sorriso em seu rosto, com o olhar ainda fixo em mim.

— Nada concreto, mas é algo em que eu me agarro.

Eu abrir um sorriso ladino para a garota.

— Cuidado com a sua esperança, leitora. Ela pode te conduzir à morte.

Para a minha surpresa ela abriu um sorriso desafiador.

— Pois é por causa dela que ainda estou aqui lutando, é por isso que eu ainda estou viva. — ela disse com determinação. — É porque eu acredito.

Parei repentinamente com a resposta inesperada da leitora enquanto eu me encontrava totalmente desestabilizado.

Ela sempre me pareceu ser uma garota frágil e delicada, mas no fundo eu notei uma força brutal em seu eu profundo. E mesmo que eu desdenhasse de toda a sua crença e esperança, eu não podia negar o fato de que a fortalecia.

Quando eu me recompus, a contrabandista se aproximou de nós. Atraindo as nossas atenções.

— Perdão se houve alguma interrupção. Mas eu preciso que você cumpra a vigia agora, bárbaro. — ela falou diretamente. — Prometi que ajudaria a bruxa em seu aprendizado.

Instintivamente, olhamos em direção da mesma que estava sentada com as pernas cruzadas enquanto posicionava o seu livro em seu colo. Folheando-o tranquilamente como se estivesse lendo um romance.

— Ela está se dedicando mesmo.

Falei a observando.

— Está. E se continuar desse jeito, irá aprender em pouquíssimos dias algumas magias. — a contrabandista disse orgulhosa, também a encarando. — Bom, a vigia agora é por sua conta, bárbaro.

Ela disse enquanto batia no meu ombro com determinação. E sem mais uma palavra, a contrabandista seguiu em direção a bruxa.

— Eu adoraria te fazer companhia na vigia mas... eu não sei lutar. — a leitora me disse em um tom de brincadeira, me fazendo sorrir. — Então eu irei me juntar a Diana e a Surya.

— Está certo. Nos vemos por aí, leitora.

Ela apenas assentiu com um sorriso radiante em seu rosto enquanto se afastava. Me deixando terrivelmente paralisado e assustado com a situação.

A Stella me deixava completamente confuso e distante da minha razão. O que era um grande perigo.

*

Uma hora depois que o sol se pôs completamente, alguns marujos estavam se preparando para servir o jantar.

O enorme movimento de ambos e o nítido cheiro de comida afirmavam a possibilidade.

Eu estava estava em minha vigia enquanto a contrabandista e a leitora estavam ajudando a bruxa em sua árdua missão de aprendizagem, e agora elas estavam ajudando a aprendiz de bruxaria a pronunciar as palavras mágicas.

Como eu era o guarda, sempre mantinha o meu olhar aos arredores enquanto também vigiava as garotas.

Já que as mesmas eram quem eu deveria proteger.

Repentinamente eu me sentir novamente estranho, porque eu nunca havia protegido ninguém na minha vida inteira. Eu apenas matava pessoas, e nunca salvava.

Nem mesmo o meu próprio povo.

Sempre fui criado com o pensamento solitário em que eu venho acima de qualquer pessoa. E
em Harian, é cada um por si. Por isso que nunca tive amigos, sempre achei uma perca de tempo.

No entanto, eu sou uma pessoa diferente agora. A guerra que pode destruir o mundo inteiro me mudou, mas ainda irei voltar aos meus costumes quando tudo isso terminar — e quando a Stella retornar ao seu mundo.

Vacilei por um breve momento ao pensar na possibilidade de nunca mais ver a leitora, mas me recompus com a ideia de que eu não tenho nada haver com a garota.

Não importa para onde ela vá se vencemos essa guerra.

Enquanto eu estava em minha missão de observação, eu não estava sozinho. O príncipe herdeiro estava constantemente próximo a mim, sentado na amurada do barco me assistindo de longe.

Era como se estivesse me avaliando, me observando ou vigiando. E eu já estava ficando exausto da sua presença repugnante ao me marcar.

— Algum problema, Alteza?

Perguntei com ironia enquanto o mesmo me encarava com firmeza e com os seus braços cruzados.

— Engraçado. Eu iria te fazer a mesma pergunta, bárbaro.

— Pois então eu te responderei, meu príncipe. — falei no mesmo tom irônico enquanto o mesmo me encarava irritado. — Não há nenhum problema, está tudo sob controle. Inclusive, sei muito bem como fazer uma vigia sozinho sem precisar de ajuda.

Com o maxilar cerrado, o príncipe herdeiro desceu da amurada e seguiu em minha direção.

— Eu sei o que você está fazendo, bárbaro! — ele disse irritado. — Ou acha que eu não vejo você de conversa com a Stella? Ou que não percebo a forma com que a olha?

Gargalhei com sinceridade do patético príncipe herdeiro que estava declarando o seu ciúmes ao me condenar. E ele me encarou ainda mais irritado.

— Do que você está falando, príncipe?

— Você sabe muito bem, bárbaro! Não se faça de sonso!

Sem paciência, saquei o meu machado para o mesmo que nem sequer se mexeu. Mantendo um olhar fixo e mortal em mim.

— Cuidado com o que você diz, principezinho! — alertei. — Ou por acaso se esqueceu de quem eu sou?

Ele abriu um sorriso despreocupado com a minha clara ameaça, o que me deixou ainda mais irritado.

— Por que, você vai me matar?

— Eu posso tentar!

— Duvido que faça. — ele disse em um tom arrogante. — Pelo menos, não enquanto a Stella ainda estiver conosco.

Revirei os olhos ao ouvir o mesmo mencionar novamente o nome da garota.

— Eu não ligo para a leitora, príncipe!

Disparei sem pensar, enfurecido.

— Também duvido, bárbaro. — ele retrucou. — Não adianta negar, eu vejo em seus olhos.

Irado, me afastei do príncipe e bati com força o meu machado em um pedaço de tronco que havia ao meu lado. Fazendo-o se partir ao meio com uma facilidade incrível, mas o loockano não parecia surpreso ou impressionado — embora eu não tivesse feito para assusta-lo.

Era apenas a minha forma de descontar a raiva.

— Já acabou, bárbaro?

Ele perguntou com um tom de preguiça em sua voz, e eu sorrir enquanto controlava a minha respiração acelerada.

— Você é um ridículo agindo como se ela fosse sua.

O príncipe vacilou o seu olhar, me deixando satisfeito por eu finalmente tê-lo atingido. Mas para a minha infelicidade, ele se recompôs.

— E você é ainda mais se pensa que ela pode ser sua, hariano!

Abrir um sorriso maléfico para o mesmo, apenas para provocá-lo. Enquanto eu escondia a minha raiva.

— Você se acha tão bom assim só porque herdará um reino, mas se esqueceu que a leitora quer ir embora para o seu mundo.

Pela expressão surpresa do príncipe herdeiro, eu havia o atingido com um golpe certeiro. E enquanto eu saboreava do meu momento de glória, fui atraído pela constante correria e agitação dos marujos. Me deixando tenso.

Ignorei o príncipe herdeiro enquanto me apressei para se aproximar de um deles.

— O que está acontecendo?

O marujo me encarou confuso, sem saber se poderia me passar tal informação.

— Senhor, eu não sei se posso informa-ló sobre isso.

Ele respondeu assustado.

— Diga logo, ou irá se arrepender, marujo!

Disse em um tom ríspido e firme, fazendo o jovem marujo se tremer.

— D-detectamos algo estranho no mar, senhor. — ele disse gaguejando. — E achamos que pode ser...

— As feras de Ocewa.

Falei em forma reflexiva o interrompendo, enquanto o jovem marujo me encarava com os olhos arregalados.

— Então o senhor já sabe.

— Sim, sabemos.

Disse enquanto olhava de relance para o príncipe herdeiro, fazendo-o se aproximar de nós.

— Sei que não é adequado. Mas têm alguma sugestão, senhores?

O marujo nos perguntou assustado, trocando o olhar de mim para o príncipe.

— Acho que teremos que executar uma mudança de rota.

Falei enquanto o marujo ainda assustado, correu em direção aos seus colegas e capitão.

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