18 - o primeiro passo para a salvação

Stella

O calabouço é ainda mais frio do que eu já esperava. E os nossos minutos livres sem os guardas estavam voando.

O príncipe Elliot inventou uma desculpa para os soldados que iriam nos acompanhar até os intrusos estrangeiros, dizendo que os mesmos precisavam manter os olhos atentos e reforçar a segurança do Palácio enquanto outros deveriam se certificar de que por hora o rei não desconfie de nada. O soldado assentiu e se encarregou da tarefa que lhe foi passada, mas o restante dos guardas ainda permaneceram a postos de acompanhar o príncipe herdeiro.

O príncipe Elias, o sacerdote e eu nos mantemos escondidos detrás de uma grande caixa de mantimentos de madeira. Apenas a espera de que os guardas saíssem para que entrássemos juntamente ao Elliot.

Eu não sabia o que o príncipe herdeiro havia dito ao restante dos guardas, mas todos eles saíram apressados em direção ao jardim do Palácio. O príncipe Elliot nos lançou um olhar firme e assentiu com a cabeça para que saíssemos do esconderijo, e assim o fizemos.

Ao entrar no calabouço, sentir um arrepio instantâneo percorrer pelo meu corpo. Tão forte que foi inevitável não reagir conforme a sensação, e isso atraiu a atenção do príncipe herdeiro que caminhava ao meu lado enquanto segurava uma tocha em sua mão para iluminar os nossos caminhos.

Ele me perguntou o que havia acontecido, e eu simplesmente falei que sentia uma sensação esmagadora de estranheza arrepiante, mas o mesmo não me disse nada e apenas olhou para ambos os lados como se estivesse á procura de algo assustador.

Ao caminhar pelos corredores sombrios e escuros do calabouço, fui invadida por mais um flash de memória. E dessa vez eu me lembrei claramente de um bárbaro hariano e uma contrabandista glessiana — os mais procurados por todos os reinos. E consequentemente, uns dos possíveis Heróis do Novo Mundo.

Expliquei ao príncipe herdeiro tudo o que eu havia me lembrado naquele momento, e ele me encarou confuso e assustado.

Não sabia dizer o que mais o assustava, se era o fato de termos uma brusca mudança de plano, ou a verdade de que teríamos que incluir um bárbaro e uma contrabandista nos mesmo. Mas talvez fossem os dois.

Com novos planos, seguimos o nosso caminho em silêncio para a cela dos intrusos estrangeiros.

Eu não sabia dizer estava nervosa ou até ansiosa para ver mais personagens de um livro que eu tanto gostei e li, mas respirei fundo para garantir que os meus sentimentos não me traíssem mais uma vez.

A contrabandista tem os traços fortes glessianos. Pele e olhos escuros e cabelos negros cacheados. Embora tenha um jeito férreo e duro de uma vida árdua, ela possui uma beleza delicada com o seu rosto bem desenhado.

A glessiana é uma mulher baixa, mas tem um corpo robusto. E pelo visto, ela deve possuir uma força maior do que realmente aparenta.

Já o hariano não aparentava ser um bárbaro tradicional, que trajava roupas sombrias, escuras e rasgadas com ornamentos de ossos. Ele mais parecia um homem comum, embora que estivesse nitidamente disfarçado com trajes loockanos.

Diferentemente dos demais harianos, o bárbaro possuia um rosto suave e jovial. Pois que ele aparentava ter quase a minha idade.

Seus cabelos pretos ondulados estavam grandes, quase cobrindo por completo as sobrancelhas grossas — e uma delas era marcada por uma cicatriz. Mas ainda sim, não havia nada de assustador nele.

Pelo menos, nada que me fizesse temer.

O príncipe Elliot estava contando sobre o mais novo e repentino plano em voz alta. E como o esperado, nem todos ficaram satisfeitos com a mudança.

— Vocês não irão me levar?!

O príncipe mais novo disparou indignado enquanto encarava o seu irmão mais velho.

— Elias...

— Isso é uma injustiça! — ele disparou interrompendo o irmão. — Fui eu quem planejei tudo! E se não fosse por mim, você nem estaria aqui tendo essa conversa!

O príncipe herdeiro respirou fundo, para tentar lidar com a discordância do seu irmão.

— Elias, eu te entendo. Mas nós dois não podemos ir nessa missão! — Elliot disse firme. — Você precisa ficar para no caso de acontecer alguma coisa comigo.

O príncipe Elias encarou o irmão de uma forma dolorida, e somente agora eu entendi o mesmo.

Ele sente medo em deixar que o irmão siga sozinho e não volte mais.

— Mas se alguém tem que ficar, essa pessoa é você, Elliot. Você é o príncipe herdeiro.

Elias insistiu mais uma vez, o que foi inútil. O príncipe herdeiro já estava decidido.

— Perdão, Elias. Mas você fica!

O garoto não disse mais nada, sabendo que não adiantaria discutir. Ele apenas fechou a cara e se afastou do seu irmão mais velho.

O bárbaro revirou os olhos de forma impaciente com a cena.

— Os irmãos príncipes já terminaram com a cena fraternal? — ele perguntou com desdém. — Seja lá o que fizeram com os guardas, tenho certeza que não irá mantê-los longe para sempre.

— Ele tem razão, precisamos ir.

O sacerdote disse em um tom firme, nos deixando alarmados.

— E como faremos para tirá-los das celas?

O príncipe Elias lançou a pergunta ao ar, e parecia que nem o príncipe herdeiro e tampouco o sacerdote sabiam o que fazer.

Rapidamente eu levei as minhas mãos até a minha nuca e retirei dois grampos de cabelo que prendiam as pontas das minhas duas tranças que formavam um simples coque, e entreguei a contrabandista e ao bárbaro.

— Deve servir para abrir o cadeado.

A contrabandista abriu um sorriso satisfeito para mim.

— Vai servir perfeitamente.

No mesmo instante, a bandida glessiana moldou o grampo de cabelos e colocou no cadeado, e girando com bastante rapdez e habilidade um ruído metálico foi ouvido pelo calabouço enquanto a mesma abria a grade da sua cela.

Em contrapartida, o bárbaro sentiu dificuldade para abrir. O que fez a contrabandista abrir um sorriso desafiador ao mesmo.

— Quer ajuda, bárbaro?

— Não preciso de ajuda para abrir um mísero cadeado, Isla!

Ele respondeu sem encara-la, enquanto se esforçava ainda para abrir o seu cadeado.

— Tem certeza que não precisa de ajuda, Kiran? — perguntei tranquila. — Parece que está sentindo muita dificuldade.

— Estou quase conseguindo, criada!

O bárbaro respondeu em um tom firme enquanto fazia força.

— Estou vendo que sim.

A contrabandista desdenhou e então o bárbaro grunhiu ao forçar o cadeado a ser aberto. Consequentemente partindo o grampo em duas partes.

Assim como todos, eu não segurei uma risada sincera. O que fez o bárbaro se irritar ainda mais.

— Infernos!

— Olhe os modos, bárbaro!

O sacerdote disparou indignado com o xingamento do mesmo, mas o hariano o ignorou.

A contrabandista respirou fundo ao se recompor e seguiu em direção a cela do Kiran para liberta-lo.

E com a mesma habilidade e um grampo de cabelo, ela abriu o segundo cadeado.

— Seria mais fácil se você tentasse entortar as grades, bárbaro.

Enquanto saia da sua cela, o hariano lançou um olhar irritado para a provocação da garota glessiana.

— Cale-se, contrabandista!

Ele ordenou em um tom de raiva e a mesma abriu um sorriso vitorioso com a atitude do hariano.
Eles matinham um relacionamento estranho de muita implicância.

Os irmãos príncipe e o sacerdote encaravam os intrusos estrangeiros com bastante desconfiança e insegurança após serem libertos. E a julgar pela fama de ambos, eu os compreendo.

Eu não os temiam como os demais, mas ficava com um pé atrás por saber muito bem do que ambos são capazes de fazer.

Mas no momento, eu só pensava em seguir com o plano para combater o mal e salvar o Novo Mundo.

Com os prisioneiros a solta, estávamos prontos para seguir com o plano que seria o primeiro passo para a salvação. E para não perdermos mais tempo, corremos para a saída do calabouço.

O novo plano consistia em seguir para a prisão e libertar o bárbaro junto a contrabandista, para que em seguida pudéssemos seguir até um barco que seguirá destino à Ilha de Idrysia, em Claire.

Agora, estávamos nos portões de entrada e saída do calabouço. Esperando que o príncipe herdeiro ditasse uma ordem para que seguissemos um caminho até os portões de saída do Palácio.

— Está limpo. Vamos seguir.

O príncipe herdeiro disse em um tom firme e então seguiu o caminho, nos guiando para algum caminho que nos tirassem das grandes muralhas do Palácio de Gusmant.

— Com a agitação dos soldados na frente do castelo, não há como sairmos por lá.

O príncipe herdeiro disse em um tom controlado enquanto nos mantinhamos escondidos nos matagais do Palácio.

— Seria uma ótima sugestão escala-los, Alteza. — sugeriu a contrabandista atraindo as nossas atenções. — Se todos conseguissem, é claro.

— É uma boa ideia, mas infelizmente na prática não conseguiríamos. — disse o príncipe Elliot. — Temos que pensar em algo.

Ele focou o seu olhar em um ponto fixo de forma pensativa.

— Já sei! — disparei empolgada ao ter pensado em uma boa ideia. — O Elias poderia seguir até os guardas e dizer que a contrabandista e o bárbaro escaparam, e então de uma forma desesperada ele os guiariam a maior quantidade para a região do calabouço.

— Também é uma boa teoria, mas na prática não funcionará. — disse o príncipe herdeiro. — Os guardas ficarão ainda mais atentos as saídas do Palácio para impedir que saiam.

— Mas ficarão menos soldados, já que eles precisam se dispersar para encontrar os fugitivos. — expliquei. — E os poucos que restarem, o Kiran pode dar conta.

O bárbaro me lançou um olhar confuso de início, mas logo se recompôs.

— Poderia, se eu estivesse com as minhas armas.

A contrabandista revirou os olhos para o mesmo.

— Você não tem consigo nada afiado que perfure uma pele?

— Se por acaso se esqueceu, contrabandista. Os guardas loockanos levaram tudo ao me desarmarem.

— Achei que fosse mais precavido.

Ela bufou enquanto remexia na saia do seu vestido, a procura de algo.

— E ao menos você tem algo, Isla?

Um som de uma adaga sendo desembainhada foi a resposta da contrabandista.

Ela entregou a sua arma metálica letal para o bárbaro com um sorriso selvagem em seu rosto.

— Aqui, bárbaro. Faça as honras!

Ele pegou a adaga da mão da garota com um sorriso maléfico em seu rosto.

— Como desejar, senhorita.

Ambos se entreolharam com sorrisos animalesco em seus rostos. Parecendo que atacariam um ao outro.

— Certo, acho que é a minha vez de agir.

O príncipe Elias disse atraindo as nossas atenções. Ele se posicionou para sair do matagal quando o seu irmão mais velho o parou.

— Espere, Elias. — ele disse segurando o mesmo. — Há uma forma melhor de sairmos sem termos que matar ninguém.

Eu não encarei o bárbaro, mas pude sentir que o mesmo revirava os olhos para o príncipe herdeiro.

— Não temos tempo para isso, meu irmão. Temos que pensar, mas não demais.

— Mas eu não que ninguém morra! Ainda mais os nossos soldados loockanos.

O príncipe herdeiro disse em súplica. E eu entendia o mesmo.

O Elliot desde sempre foi muito ligado aos soldados e exército. A ligação entre ele e esses homens que são leais a sua segurança é algo inimaginável, quase um laço de família.

O seu irmão também sabia disso, e por isso o mesmo tentou ajuda-lo.

— É por uma boa causa, meu irmão. Estamos quase em guerra e você irá atrás de aliados. — o príncipe mais novo disse em um tom sereno. — Não será em vão.

O bárbaro respirou fundo em tédio, prestes a interferir o momento dos irmãos. Mas a contrabandista deu uma cotovelada no mesmo.

Elias se separou do irmão e nos encarou de relance.

— Vou cumprir a minha parte agora. E desejo uma boa sorte a vocês. — Elias disse com determinação. — Acredito em vocês.

Ele disse com convicção olhando para todos de relance, mas demorando um pouco mais o seu olhar negro em mim.

Me fazendo entender o recado.

Em seguida ele saiu sorrateiramente em direção dos soldados, e chegando perto o suficiente ele correu como se estivesse assustado. Os guardas atenderam o príncipe Elias alarmado, e sem perder mais tempo correram com o mesmo em direção do calabouço.

Restaram apenas dez soldados de guarda na saída do Palácio. Fiquei supresa com a situação, mas muito agradecida com a sorte que nos auxiliavam nesse momento.

Em uma agilidade silenciosa, o bárbaro partiu em direção aos guardas que estavam de costas para nós. Sem perder mais tempo.

Ele atacou dois guardas sem sequer fazer barulho. E quando os demais perceberam, já haviam três soldados caídos. No entento, os demais atacaram o bárbaro, mas ele é muito experiente e habilidoso.

E com certeza deu conta de todos os soldados sozinho, mesmo que a contrabandista estivesse atenta caso o mesmo precisasse de ajuda.

Com todos os soldados jazidos no chão, nos apressamos para sair do Palácio. Mas enquanto focavamos em sair antes que os demais guardas se aproximassem do massacre, o príncipe herdeiro parou encarando os soldados mortos.

— O que está fazendo, príncipe?! — gritou o bárbaro ensanguentado do abate. — Vamos!

— Vamos, Elliot!

Falei ao mesmo com um tom de voz serena enquanto encarava o príncipe herdeiro exalar dor em seus olhos azuis.

— E os soldados, Stella? — ele me perguntou com tristeza. — Eles morreram de forma covarde, mal se defenderam.

— De forma covarde?! — o bárbaro trovejou ao se aproximar de nós. — Eu lutei sozinho contra dez deles!

O príncipe herdeiro estufou o peito e cerrou o maxilar com raiva, avançando para cima do hariano.

— Não precisa se gabar, bárbaro! — ele disse irritado. — Ao menos tenha respeito com os mortos!

Estávamos no portão de saída do Palácio de Gusmant quando fomos surpreendidos por som de soldados que corriam cada vez mais perto de nós.

— Precisamos sair daqui!

Gritei enquanto puxava o bárbaro e o príncipe herdeiro pelo braço.

Juntamente ao sacerdote e a contrabandista, nós corremos ao sair do Palácio. Mas não tivemos tempo para respirarmos, pois um bando de soldados que estavam do lado de fora nos avistaram e correram em nossa direção.

Corri o mais rápido que eu conseguia. Eu costumava a ser uma pessoa sedentária, sem prática de exercícios físicos. E por isso mal conseguia correr a metade do que os demais conseguiam.

Até o velho sacerdote conseguiu me ultrapassar.

— Corre, criada!

A voz do bárbaro ecoou de forma desesperada em meus ouvidos.

— Eu estou tentando!

Gritei de volta, com muito esforço devido ao meu extremo cansaço.

— Corre mais, Stella! Eles estão te alcançando!

O príncipe herdeiro gritou, mas eu ouvir de forma muito distante.

Uma onda de fraqueza percorreu pelo meu corpo enquanto as minhas pernas ameaçavam travar.

— Eu estou tentando! — gritei, quase me entregando de tanto cansaço. — eu estou tentando...

— Tudo bem. Eu peguei você!

Sentir braços fortes me pegarem pela cintura e me erguerem enquanto a voz do bárbaro ecoava na minha cabeça.

Eu estava posicionada em seu ombro largo enquanto eu ouvia de longe barulhos e sentia o hariano se movendo ao correr rapidamente.

Estava muito fraca para agradecê-lo. E tudo o que conseguir fazer foi me entregar ao peso do esgotamento físico — com tudo se tornando preto ao meu redor.

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