10 - consequências do poder
Elliot
Quando o Cedric voltou a si, ele encarou a Stella com bastante curiosidade enquanto a garota permanecia imóvel. Como se já esperasse por isso.
Acho que ela já estava acostumada a ser observada como se fosse algo estranho.
Não demorou muito até que o sacerdote voltasse os seus olhos verdes e cheios de questionamentos em mim.
— Alteza, do que ela está falando?
Percebi um pouco de desespero na voz dele, e eu apenas respirei fundo.
— É isso mesmo o que você ouviu, Reverendo. A Stella é uma leitora que no mundo dela lia um livro sobre nós e misteriosamente, está aqui conosco.
Uma onda de confusão passou pelos olhos do sacerdote que estava com uma expressão pensativa, tentando assimilar o acontecimento.
Ele olhou mais uma vez para a Stella que estava apreensiva enquanto esperava uma resposta do mesmo, e o Cedric percebeu o nervosismo dela.
— Isso tudo é... muito confuso. — disse o sacerdote confuso. — Você tem alguma ideia de como veio parar aqui, senhorita Stella?
Ela abaixou brevemente o olhar, tão triste quanto reflexivo. Antes de voltar a olhar diretamente para o Cedric.
— Não, senhor Summ. Não faço a mínima ideia.
O sacerdote franziu o cenho para a garota, mas não pela confusão do fato estranho que aconteceu e sim pela forma como ela se referiu a ele.
Stella possui costumes muito diferentes dos nossos.
— Peço perdão, Vossa Reverendíssima. Mas a Stella não sabe usar os pronomes de tratamento.
A garota olhou para o meu irmão com repreensão, mas não disse nada.
— Bom, e o que vocês querem de mim, exatamente?
— Eu quero que você me ajude a voltar para casa, Cedric.
Ela falou com um desespero nítido em sua voz e seu semblante. Eu não fazia a mínima ideia de como eram as pessoas no mundo em que a Stella veio, mas se fossem como ela, admito que todos tenham problemas ao esconder e lidar com os sentimentos.
— Eu sinto muito, senhorita Stella. Mas eu não utilizo mais a minha magia desde que a prática mágica foi proibida no reino.
— Mas Cedric, só você pode me ajudar! Você é o único cortelano vivo que tem o poder no sangue.
O sacerdote respirou fundo enquanto olhava para ela com compaixão.
— Senhorita Stella, como sabe, a magia é proibida no reino de Loockwood. E fazer isso pode ocasionar problemas com a Vossa Majestade.
Stella abaixou o olhar com tristeza, como se já tivesse desistido de tentar.
— Cedric, está tudo bem. — falei repousando a minha mão encima do ombro do mesmo. — Ninguém vai saber do que você irá fazer, é um segredo apenas nosso.
Ele me encarou confuso e temeroso.
— Mas Alteza, eu não sei o que fazer para ajudá-la. Eu sei abrir portais para o reino de Glessia ou qualquer outro reino do Mundo Mágico. — explicou ele. — Eu não faço a mínima ideia de onde ela veio.
Embora chateado, eu entendia o sacerdote. Faz quase vinte anos que o meu pai aboliu a prática de qualquer magia juntamente ao rei Marcus II de Glessia, eu não podia culpa-lo pela falta de práticas e insegurança.
Além de que o caso da Stella é um mistério que ainda nos cerca.
Eu estava pronto para insistir um pouco mais, pois apesar de tudo eu ainda confio nos esforços e inteligência do Cedric. Mas a Stella foi mais rápida.
— Tudo bem, Cedric. Eu te entendo. — ela disse triste. — Mas obrigada mesmo assim.
— Eu sinto muito mesmo, senhorita Stella. Mas mesmo que eu soubesse como te ajudar, ainda precisava da magia de uma bruxa para abrir um portal.
Uma bruxa, é claro!
O mais simples, importante e indispensável detalhe para se abrir um portal não se passou pela minha cabeça. Agora além de um feiticeiro enferrujado, teríamos que encontrar alguma bruxa que provavelmente não existe mais devido a abolição da magia e extinção das mesmas.
Stella ficou nervosa. Ela paralisou como se estivesse lembrando de algo, e em seguida olhou para mim como se estivesse tentando se comunicar por telepatia.
— Hum, uma bruxa... eu acho que sei onde tem uma.
Olhei para a mesma surpreso, incluindo o Elias e o Cedric.
— Isso é impossível! — o sacerdote disparou como se fosse uma calúnia. — Não há mais registros de bruxas vivas em nenhum lugar desse Mundo Novo!
A garota arregalou os olhos de medo com o tom firme do Cedric. Eu confesso que em todos os meus vinte e dois anos de vida, nunca o vira tão ríspido. A Stella deveria ter acertado em algo profundo dentro do sacerdote.
Profundo e secreto.
Ele limpou a garganta e se recompôs ao notar no olhar da mesma o que o comportamento repentino dele a causou.
O Cedric virou-se de costas para nós, como se quisesse esconder os sentimentos que ameaçavam vir a tona. E seja lá qual for o motivo para fazer um homem firme como o sacerdote vacilar, era algo muito forte.
— Peço perdão mais uma vez, senhorita Stella. Mas infelizmente eu não posso ajudá-la.
Ela não abaixou a cabeça dessa vez. A garota permaneceu encarando o Cedric enquanto respirava fundo para se recompor.
Não precisava ser um especialista para saber que a mesma estava devastada por dentro.
— Tudo bem, Reverendo. — Stella disse sem vacilar. — Tenha uma bom dia.
A mesma saiu sem ao menos olhar para mim ou tampouco o meu irmão, e sem dizer nenhuma palavra eu apenas fui atrás dela.
Quando chegamos no mesmo corredor estreito pelo qual viemos secretamente atrás do Cedric, eu a encontrei parada com a respiração agitada.
Ela ainda tentava ser forte com toda a sua determinação para não vacilar.
Eu me aproximei da mesma com cautela para não a assustar.
— Stella...
A garota virou-se rapidamente para mim e me abraçou na mesma velocidade, me deixando paralisado com a sua ação repentina.
Em seguida eu ouvir a mesma soluçar, e estranhamente aquilo me afetou. Apesar de eu nunca ter visto ninguém chorar com tamanha facilidade, ver a mesma soluçando me deixou mal.
— Ah, Elliot. E se eu nunca mais voltar para casa, o que eu vou fazer?
Stella disse com desespero enquanto tentava controlar os seus soluços, e embora eu fosse um príncipe herdeiro que estava sendo treinado para resolver problemas, eu não sabia como ajudá-la.
Pela primeira vez na vida eu me sentir impotente.
— Não se preocupe, Stella. Darei um jeito nessa situação, pode ficar tranquila.
Embora não fosse do meu costume, eu abracei a mesma apenas para tentar acalma-la. Mas nos afastamos no momento em que o Elias havia se aproximado de nós.
— Me perdoem por eu sempre chegar na hora errada, mas eu juro que não é proposital.
— Está tudo bem, Elias.
Stella disse enquanto enxugava as lágrimas do seu rosto.
Ela havia se referido ao meu irmão com informalidade, assim como sempre se referia a mim. Mas o Elias não comentou nada dessa vez, ele apenas a observou enquanto ela se recompunha.
— Fique tranquila, leitora. Eu irei resolver esse assunto para você.
O meu irmão disse com um sorriso orgulhoso que me deixou bastante impressionado. O mesmo estava cada vez mais crescido e seguro de si.
— O que você vai fazer?
— Não se preocupe com isso. Essa parte você pode deixar comigo.
O mesmo disse antes de virar-se e adentrar novamente na sala do sacerdote.
Eu estava curioso para saber o que o Elias iria aprontar dessa vez, mas não tive tempo de refletir as possibilidades pois um guarda se aproximou de nós — deixando a Stella aparentemente nervosa.
— Com licença, Alteza. Mas a Vossa Majestade está te esperando no Salão de reuniões.
Eu respirei fundo para conter a exaustão que me causava apenas por me lembrar das reuniões reais sobre o reino e a sua economia com o meu pai e os seus homens. Era tudo muito chato e cansativo ficar sentado por horas enquanto ouvia opiniões e problemas para uma possível solução.
— Ele está sozinho ou terá alguma reunião hoje, soldado?
— Está sozinho, Alteza.
Respirei aliviado por um lado, mas ainda temia saber o que o meu pai queria tratar comigo tão repentinamente.
Olhei de relance para a Stella que estava me encarando ainda nervosa, sem saber o que fazer. E eu precisava guia-la.
— Enfim, criada. Avise as cozinheiras que eu quero o almoço mais cedo hoje. Preciso estar alimentado antes dos meus treinos.
Stella olhou de relance para o soldado a nossa frente que a encarava, e depois de alguns breves segundos de reflexão, ela finalmente entendeu a minha referência e virou-se para mim.
— Como quiser, Alteza. Irei repassar as suas ordens.
Eu quis sorrir de orgulho com a atuação da mesma, mas eu me controlei pelo soldado que ainda estava a minha espera.
Quando a Stella saiu do meu campo de visão, eu seguir para o Salão de reuniões juntamente ao guarda que caminhava ao meu encalço.
*
Assim que chegamos no Salão, eu não bati antes de entrar. Eu, como o filho herdeiro do rei, era permitido adentrar em qualquer lugar do Palácio sem precisar avisar — a não ser que fosse em aposentos pessoais.
O meu pai estava trajando suas roupas informais, e pelo visto não teríamos nenhuma reunião hoje. O que me deixou extremamente aliviado.
Ele estava sentado em sua cadeira de sempre, mantendo a sua pose majestosa e firme como qualquer outro rei. Eu costumo a admirar a sua postura e facilidade de lidar com situações e problemas difíceis, como se realmente fosse nascido para ser um rei.
E eu espero ser metade do que o meu pai é e faça um terço do que ele já fez para o reino.
Quando me viu se aproximar, o meu pai abriu um sorriso calmo e sinalizou para que eu me sentasse na cadeira ao seu lado, e sem questionar, apenas o obedeci.
— O senhor me mandou me chamar, pai?
Ele abriu ainda mais o seu sorriso.
— Mandei. Eu quero ter uma conversa séria com você.
Eu o encarei com preocupação.
Meu pai não costumava a ter conversas sérias comigo, pelo menos não sozinho. Sempre tinha a sua comitiva de homens de confiança.
— É algum problema, pai?!
— Não, meu filho. É solução!
Franzi o cenho em confusão.
— Solução?
Meu pai sorriu, parecendo estar se divertindo com a situação.
— Bom, sabe que logo você será coroado o mais novo rei de Loockwood. — ele disse como se saboreando cada palavras. — Mas todos sabemos que não existe um rei sem uma rainha, uma esposa para te dar herdeiros.
Eu sabia que precisava de uma esposa no momento em que o trono de Loockwood fosse passado para mim, mas eu não estava esperando que fosse já.
Ainda mais com o acontecimento misterioso que trouxe a Stella para o nosso mundo.
— Mas pai, não acha que está muito cedo para conversarmos sobre isso?
— Como cedo? — meu pai perguntou quase indignado. — Você já está com vinte e dois anos, Elliot. E não vai demorar para que assuma o trono.
Eu sabia que não adiantaria discutir com o meu pai mesmo que eu não concordasse com o mesmo, então apenas aceitei o seu simples lembrete e respirei fundo.
— Está certo, pai. Depois verei isso.
— Não precisa se preocupar. Eu já cuidei disso para você.
— Como assim?
Meu pai abriu um sorriso satisfeito com a minha confusão.
— Eu mandei uma carta para o monarca de Glessia e sugerir uma aliança com os mesmos. Através de um matrimônio, claro. E eles aceitaram.
Eu me levantei rapidamente com a surpresa da notícia.
— Por que o senhor fez isso sem me comunicar antes, pai?!
Ele ignorou a minha reação, como se não tivesse nenhuma importância.
— E eu precisava?
Eu soltei uma risada controlada e irônica.
— Mas é claro, pai! Isso tem haver comigo e com o meu futuro. — disparei. — Você deseja que eu me case com alguém que eu mal conheço?!
— Não por isso. Convoquei um baile real com a família de Glessia e a família dos meus homens de confiança. — meu pai explicou com preguiça. — Você terá a oportunidade de conhecer a princesa Anelise que logo atingirá a maioridade. Aceite como um presente meu.
Eu estava indignado. Tanto com o fato do meu pai tomar uma decisão importante sobre mim sem me consultar antes quanto a ideia de organizar um baile para que eu conheça a minha possível futura esposa.
Algo que ele havia dito que eu seria livre para escolher quem eu desejava para ser a minha esposa, como o mesmo foi ao escolher a minha mãe — por liberdade e amor.
— Pai, o senhor me prometeu! — disparei. — Disse que me deixaria escolher a minha esposa como o senhor escolheu a minha mãe!
Ele se colocou de pé lentamente, mantendo o seu olhar firme e austero em mim.
Eu me lembro que esse olhar sempre me fez tremer de medo quando eu era criança, mas que hoje não me afetava mais.
— E por acaso você já tem essa pessoa?
Fui pego desprevenido com a pergunta do meu pai. Eu passava a maior parte do meu tempo treinando com os soldados ou em missões simples, nunca tive tempo para procurar uma mulher para ser a minha futura esposa. Essas coisas davam trabalho e eu preferia estar em missões do que me preocupar com coisas do coração.
Involuntariamente eu pensei na Stella, e como tudo na minha vida seria mais difícil com ela. Eu não conseguiria fazer nada sabendo que ela está aqui no Palácio sozinha, confusa e com medo.
Eu sabia que ela precisa me ter por perto.
— Quem é ela, Elliot?
— O quê?
— Quem é a garota que você está apaixonado?
Eu fiquei surpreso com a pergunta do meu pai e tentei ao máximo me esforçar para não corar.
Eu sempre soube controlar muito bem os meus sentimentos, mas tudo se tornou confuso desde que eu conheci a Stella.
— Eu não estou apaixonado coisa nenhuma, pai. — disse enquanto me recompunha. — De onde o senhor tirou essa ideia?
O meu pai me encarou com uma sobrancelha arqueada enquanto me observava com atenção, e como sempre ele estava tentando me ler.
— Bom, sendo assim... creio que não se importará em dar continuidade a ideia do casamento com a princesa de Glessia.
— Mas pai, isso é injusto! O senhor me prometeu a liberdade de escolha.
— Já chega, Elliot!
Meu pai disparou irritado com a minha relutância, e eu o encarei surpreso.
Desde que eu cresci eu não o ouvir mais gritar comigo, e novamente eu me sentir uma criança que estava sendo corrigida por um erro cometido.
— Você irá participar do baile, irá conhecer a família real de Glessia e a princesa Anelise! — meu pai disse me um tom firme e austero. — E se tiver de casar, irá se casar e ponto!
— Ainda é injusto.
— Isso são umas das consequências do poder, filho. E você já deveria saber.
Ergui a cabeça e estufei o peito enquanto encarava o meu pai com firmeza e determinação, eu não iria abaixar a cabeça para ele. Mesmo que fosse o meu pai e o rei de Loockwood, eu não iria vacilar.
Eu estava sendo preparado para ser um rei, e precisava ser firme igual um.
— Se ter poder significa perder a liberdade de escolha, então prefiro não ter poder nenhum! — falei com firmeza, o que deixou o meu pai surpreso. — E se o senhor já disse tudo... irei me retirar.
Eu não esperei pela resposta do meu pai para que eu desse as costas e caminhasse até a porta. Eu já o conhecia o suficiente para saber que se ele tivesse algo a me dizer, jamais permitiria que eu saísse daquela sala até que tudo tivesse sido dito.
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