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Pronomes: ele/dele

         O som da música tocando no rádio ao lado da cama foi o que acordou o jovem, seu corpo suando frio quando se sentou sobre o colchão, o que não era novidade alguma, as cobertas tapando sua virilha e os seios para o caso de sua madrasta entrar na tentativa de pegar as roupas sujas do Lewis mais novo, que tinha o costume de dormir sem roupas.

     .   -Porra - Xingou baixinho, sob o som da música. Pendurado em seu pescoço a bala que uma vez esteve alojada em seu corpo, amassada e transformada em nada mais do que o pingente de seu colar, a prata da bala já não queimava quando tocava sua pele, muito menos o incomodava.

         Respirou fundo e se deitou novamente, alcançando seu isqueiro e seu baseado, não que fizesse algum efeito em seu corpo, mas o cheiro era forte, era algo no que ele podia se segurar sem problema algum, podia sentir o cheiro, ver a fumaça se espalhar pelo quarto no qual a luz do sol das seis da manhã entrava ao lado da cama. Oxford Comma da banda Vampire Weekend tocava ainda, o tirando de órbita por um instante.

         Tinha tempo e pela primeira vez em muito tempo não tinha treinamento, não depois de Tillamook e do incêndio fenomenal que presenciou. Era assustador e belo como as coisas aconteciam no Oregon, mas já não estava mais lá, agora estava no cu de Satanás, como gostava de dizer.

        Brookeville era diferente, era tenebrosamente diferente, o clima frio que estava muito longe de ser natural, os olhares que incomodavam. Sabia que sentiria falta de Tillamook, do calor da cidade e da floresta que estava sendo replantada, dos poucos amigos que fizera na escola, mas principalmente sentiria falta da paz que havia na cidade. Se você ficasse em Tillamook Bay por tempo suficiente, aprenderia uma coisa:

"Não mexa com ninguém que ninguém mexerá com você".

        Aquela cidade era totalmente diferente, pessoas novas eram olhadas, julgadas, chamadas e insultadas sem um motivo aparente, apenas por não agradar os gostos estranhos dos vizinhos. - Frederick - Gritou a madrasta do andar debaixo. - Já estou acordado - Gritou de volta, despertando de seu transe e apagando o baseado em seu cinzeiro, precisava bolar um desses pra levar no bolso quando estivesse na escola, na cidade anterior, uma garota, sua amiga que depois foi expulsa da escola, lhe havia ensinado a como esconder um desses no pequeno espaço que havia entre o fundo dos armários e a parte de trás da estrutura em si.

        Se levantou sem muitos rodeios e olhou em volta, haviam se mudado no início do verão, o final do primeiro ano letivo do ensino médio para ele, e foi tempo suficiente para que o seu quarto adquirisse sua própria personalidade.

        Sua cama desarrumada com os lençóis escuros e o edredom xadrez, vermelho e preto quase caindo da cama pelo fato do garoto sempre se mexer durante seu sono agitado. As paredes repletas de imagens, alguns pôsteres de bandas que curtia, alguns recortes e fotografias um tanto sugestivas - mulheres nuas, ou se beijando, assim como alguns rapazes - seu aparelho de estéreo do outro lado do quarto, próximo a sua escrivaninha com seu computador desligado, abaixo da segunda janela do cômodo, a primeira se encontrava um pouco mais ao lado direito da cama box de Lewis.

        Suas roupas jogadas no chão, o skate num dos cantos, entre seu violão e a preciosa guitarra, havia a comprado com o sonho de algum dia se acomodar em um lugar só, criar uma banda de garagem talvez, tocar algumas coisas com amigos. Mas nunca chegou nem perto disso.

       Passou a mão pelos cabelos cacheados e arrastou os pés pelo chão frio, seus olhos verdes por vezes encontrando as frases que escrevera nas paredes junto com alguns desenhos irritados enquanto procurava por sua toalha e pelas roupas que vestiria para a aula naquela manhã de quarta-feira.

       Enrolou a toalha em seu corpo e saiu do quarto rapidamente, atravessando o corredor até o banheiro, não demorou no banho, queria ficar pronto logo e ter tempo para fazer o que precisava na escola.

      Assim que estava vestido em suas calças jeans um tanto rasgadas e na camisa com um crânio de um animal manchado de sangue desenhado bem no meio, além da jaqueta e da blusa de moletom, desceu com a mochila e o skate. Planejava apenas sair de dentro de casa e evitar conversas com o pai. Não é que estivesse com raiva dele ou algo do tipo, mas dos lábios de Frederick saiam sempre as mesmas palavras no início de um ano letivo.

     -Criança, venha se sentar e comer, não pode sair de barriga vazia - Afirmou enquanto Marta, sua madrasta, servia o café da manhã, um belo prato de waffles, que por mais que o moreno tentasse recusar, não seria capaz, se havia algo em que a madrasta era boa, era na cozinha. Fred deixou suas coisas ao lado da porta e entrou na cozinha. Sentou-se a frente do pai, que folheava alguns papéis. - Valeu, M - Agradeceu, recebendo um olhar de soslaio do pai.

       Marta estava em suas vidas haviam seis anos, e a mulher era um doce, era baixa e com a pele lindamente bronzeada, o corpo mais cheio, de coxas grossas. De início, o mais novo dos dois achou que era algo bobo do pai, um namoro, mas parecia que a humana havia capturado parte dele, ainda que parte dele jamais amasse ela como havia amado Melissa, a moça o fazia feliz e era isso que importava para o filho, mesmo jamais chamasse a moça de mãe.

      Novamente, não era raiva, mas mesmo que fosse um lobo anômalo, ainda era leal aos seus instintos, aos instintos que o conectavam tão profundamente a alma de sua mãe a sua quanto as raízes conectam uma árvore ao solo, por isso, era extremamente difícil chamar aquela mulher mesmo tão doce, de mãe.

      -Já está indo pra escola, não é? - Perguntou o mais velho, sem levantar os olhos das folhas de papél que revisava. - Estou sim - Murmurou enchendo a boca ao máximo com os waffles belgas que tanto adorava, recebendo um olhar repreensivo da mulher que acabara de se sentar, pediu desculpas sem realmente emitir som, sabia o quanto a madrasta detestava esse mal costume dele de comer acelerado.

      -Você se lembra do que eu te instrui, não é mesmo? - Perguntou Frederick, finalmente o olhando, seus olhos verdes com pequenos pés de galinha nos cantos eram quentes, ofereciam muito mais calor que sua voz grave e rouca. - Fazer amizades com os humanos, mas ficar de olho nas criaturas, lembro, papai - Revirou os olhos ao final da frase, mas se arrependeu no momento em que o pai bateu a palma fortemente contra a mesa, seus olhos verdes adquirindo um tom tenebroso de branco, assustando aos outros dois a mesa. - Leve isso a sério, Emily

      O jovem apertou os talheres em suas mãos, como odiava ser chamado pelo primeiro nome, os caçadores haviam o chamado assim, haviam dado um sentindo sujo a algo que antes era tão puro. Seu pai percebeu como seus olhos piscavam entre o verde e o amarelo, seria aquele o empurrão necessário para que ele se transformasse? Infelizmente não.

      Ambos respiraram fundo e se acalmaram quando ouviram a voz da moça a mesa chamar seus nomes. - Eu perdi o apetite - Afirmou o mais novo, se levantando e deixando seus waffles pela metade no prato. Marta se levantou e o abraçou com força, ambos sabiam que não era somente um ato de carinho, era uma maneira sutil de disfarçar o cheiro forte dos dois lupinos com o cheiro adocicado da humana. - Tome cuidado, okay - Pediu a morena com carinho e preocupação. - Pode deixar, M, valeu pelos waffles. - Disse já pronto para deixar a cozinha.

      -Uma última coisa - Falou o homem, chamando sua atenção mais uma vez. O rapaz arqueou a sobrancelha, um sinal para que o mais velho prosseguisse. - Você cortou seus laços com a banshee e a amiga dela? - Indagou, era o lema, se manter invisível, sumir para aqueles que você havia conhecido um dia. - Sim, no início do verão. - Mentiu com facilidade, sentindo o celular em seu bolso vibrar com uma mensagem de Dawn.

     Por um instante, Frederick o olhou, o avaliou, procurando algum traço de mentira em sua voz ou em seus batimentos cardíacos, mas nada era fora do comum. - Está dispensado, vá pra aula.

      Com a permissão explícita, o jovem pegou suas coisas ao lado da porta e deixou a casa para o terrível primeiro dia de aula.

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      Do outro lado da cidade, Ethal Brooke era chamada pelo irmão gêmeo. - Vamos, seus súditos a esperam - Gritou do outro lado da porta, e mesmo que a negra quisesse muito só mandar o irmão se foder, tinha de ir, sua imagem dependia disso. - Mais um ano - resmungou ao se sentar na cama de casal e passar a mão pelos cabelos, os cachos espessos e rebeldes dobrando sob o toque gentil. Em seguida esfregou os olhos, observando o ambiente a sua volta.

      O quarto de Ethal era quase literalmente um quarto de princesa, havia algo quase etéreo e selvagem no dossel feito de troncos um tanto finos e curvos, o tecido rendado e quase transparente que servia de cortina para a cama, mas evidentemente rosado, os lençóis brancos sob seu corpo negro eram macios e ela não queria realmente deixar o conforto e o calor que existia sob o edredom também rosa, mas um rosa que não machucava os olhos, apenas agradava aos seus sentidos. A garota suspirou, deixando os pés pendurados para fora da cama suspensa.

       Sentiu o ar frio da porta da varanda entreaberta lhe soprar, lhe reconhecer como um igual e lhe envolver em um abraço, os cantos de seus lábios se repuxaram levemente para cima e desceu da cama, caminhando até o banheiro, onde se banhou lentamente, fazendo questão de que seu corpo humano estava em sua melhor forma. Resolveu vestir algo marcante, como sempre. Um vestido vermelho de alças que lhe abraçava o corpo de maneira provocante e a jaqueta de couro cobria perfeitamente o decote que o corte do vestido criava. Saltos e brincos pretos completavam o visual.

       Rapidamente se maquiou, não precisava de exageros, por isso dedicou-se a destacar os olhos castanhos com uma mistura entre o dourado e o preto, tão sutis quanto a brisa que entrava no quarto. Quando Isaac, seu irmão gêmeo veio bater na porta novamente, ela já estava pronta e rapidamente abriu a porta, o assustando por um breve instante, até que o canto direito de seus lábios se curvaram para cima. - Se arrumou rápido, que milagre. - Comentou enquanto ela saia do quarto, sua bolsa pendurada no ombro por breves instantes até que foram jogadas nos braços fortes do irmão.

     -Vamos, você, como sempre me chamou tarde demais - Reclamou se direcionando as escadas, as quais desceu com toda a sua graciosidade, antes de olhar para o irmão sobre o ombro. - Vamos, não quero perder os rostinhos novos. - Seu sorriso era um tanto maldoso, mas em seu olhar, por um mero momento, um brilho cansado que só o maior foi capaz de capturar. Ele suspirou e desceu as escadas logo depois dela, ambos rapidamente seguiram para a garagem. De certa forma ainda se admiravam pelos benefícios do sobrenome que carregavam. - Vamos nessa belezinha aqui - O rapaz falou, guiando a irmã a um belo Ford Mustang GT500 preto, daquele ano.

      Ethal olhou o carro, analisando-o por um instante, preferia outro, mas não tinham realmente tempo de escolher outro, por isso, entrou no mesmo antes do irmão, que sorriu vitorioso antes de dar a volta no mesmo, o negro sorriu e deslizou os dedos pelo volante e pelo painel por um instante antes de respirar fundo e olhar para a garota ao seu lado. - Pronta? - Perguntou, recebendo em seguida um sorriso leve e um tanto arrogante da menor. - Sempre.

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        Brookeville High era a "menina dos olhos" da pequena cidade, e Frederick de certa forma entendia porque, sua última escola tinha o mesmo prestígio, tinha fama, havia dinheiro circulando entre gente importante e toda essa merda. Mas pra ele pouco importava enquanto as rodas brancas de seu streetboard deslizavam pelo asfalto e Piano Fire da Sparklehorse tocava em seus fones de ouvido, conectadas ao seu celular de flip, pelo qual mandava mensagens para as suas amigas em Tillamook: Dawn e Liz.

Dawn:

Olha quem pintou o cabelo todo

     Logo abaixo da frase, vinha a foto de Elizabeth com o cabelo totalmente pintado de azul.

Ficou irado pacas

Liz:

Valeu :)

Dawn:

SEM EMOJI

SEM EMOJI

       Colocou o celular de volta no bolso com um sorriso no rosto quando parou a frente da escola, e o lugar era imenso, lembrava uma prisão, com suas paredes de tijolos vermelhos e as janelas com madeira azul escura rodeando os vidros. - Inferno, doloroso Inferno - Resmungou e subiu as escadas que davam acesso ao campus principal da escola, uma fonte com uma bela estátua do Brooke que deu início a tudo aquilo. - Eu te odeio Winston - Resmungou entredentes e seguiu em direção a porta, agradecendo por um instante por não ser o centro das atenções, já que todas as atenções estavam no par que acabara de chegar.

       Subiu as escadas que davam acesso a porta do prédio principal da escola a passos largos, havia dispensado a regalia de um guia na escola, pois sabia onde cada coisa se localizava, onde ficavam os dormitórios e a quadra de basquete, onde ficava o campo de futebol americano e até mesmo a piscina e a sala de cada aula específica. Num dos primeiros dias ali, quando o pai o matriculou na escola, o rapaz fez questão de surrupiar as chaves e fazer uma cópia da chave mestra. Iniciando uma rotina noturna de visitar a escola e fazer o reconhecimento do território inimigo.

        Seus passos por mais que não quisesse, eram firmes, notaveis assim como as tatuagens que ficavam aparentes quando puxava levemente as mangas das blusas que vestia como estava fazendo agora. Sentia os olhares e podia facilmente ouvir os comentários murmurados. Era um punk numa cidadezinha pequena, não era a primeira vez, mas não deixava de ser irritante. Ainda assim, continuou caminhando, seus coturnos batendo contra o chão e ecoando pelos corredores. Todos sabiam quem ele era, filho do novo detetive da cidade, o mesmo que todos suspeitavam ter destruído o carro do velho Peterson com um taco de beisebol no meio da noite e havia quebrado o braço de um dos funcionários do mercado local por ter tentado assediar aquela que todos acreditavam ser sua mãe. Todos sabiam, inclusive Ethal.

       Os saltos da garota faziam um barulho que ecoava por todo o corredor e somente esse som era capaz de fazer todos abaixarem o olhar em temor ou erguê-lo em admiração. - Dana, minha agenda de hoje? - Perguntou a uma de suas operárias mais antigas, eram poucas que haviam adquirido essa honra depois de tantos anos repetindo aquele mesmo ciclo, havia até mesmo memorizado o nome da ruiva de olhos âmbar. Detalhadamente a ruiva descreveu cada aspecto de seu dia.

     Como em todo início de ano letivo, os alunos passariam a primeira hora do dia explorando a escola e pegando os horários, para então seguir para o anfiteatro, e aquele dia não foi diferente, Dana já havia feito sua obrigação de buscar seus horários, mas Ethal era metódica, por isso seguiu com a ruiva até o quadro de avisos principal, onde as listas de atividades extracurriculares estavam fixadas.

        Não foi surpresa nenhuma ver a lista das líderes de torcida completamente cheia, e com diversas garotas ainda a anotar seus nomes nas folhas. - Saiam - Sua voz embebida de frieza quando proferiu essa palavra e como ratos quando um predador chega, cada garota seguiu para um lado diferente, apenas uma pessoa ficando. Ems sorriu sem tirar os olhos do quadro de avisos, reconheceria um cheiro desses de longe. Era leve, primaveril e enviou sinais perigosos ao seu membro, mas foi ao alcançar uma caneta em sua mochila que pôde realmente ver a quem pertencia tal cheiro.

       A moça que chamara a atenção da maioria enquanto entrava, os cabelos cacheados e cheios lhe davam um ar mais selvagem, os olhos castanhos analisavam-lhe enquanto a boca dizia algo para a garota que estava ao seu lado. O vestido mostrava claramente que ela queria chamar a atenção, mas Lewis não lhe daria esse gostinho, apenas lhe mostrou um sorriso leve e pegou a caneta, se voltando para o quadro de avisos, anotando seu nome na lista do time de natação do colégio. - Kiken¹

        Seu sorriso havia se tornado desafiador enquanto guardava a caneta de volta em sua mochila. - Cão sarnento...- Foi a resposta que ouviu antes de se afastar, notando que a negra havia dispensado sua acompanhante, por quê teria feito isso? Não tentaria atacá-lo no meio do corredor, ainda que seus olhos dissessem que era um de seus desejos, apenas deixou que o moreno se afastasse, a observando com curiosidade.

       A Brooke tinha de admitir, ele lhe atiçava também, havia ouvido pelas más línguas sobre um lobo na cidade, de todas as criaturas, era a que mais odiava, com todas as suas forças. Então porquê deixara aquele lhe escapar? Seria por quê ficou curiosa para ver se além de seus braços, algum outro lugar era tatuado, ou seria por quê seu cheiro havia lhe atiçado em partes do seu corpo que não deveriam?

      Ele chamava a atenção, infelizmente tinha que reconhecer, a pele alva coberta de tatuagens não o tornava menos atraente aos olhos, muito pelo contrário, chamava para que o desvendasse, e o cheiro que irradiava, ainda que mascarado com o cheiro doce de um humano, era cru, como nada que havia sentido antes, não havia com o que comparar, e talvez nunca houvesse ou talvez devesse chegar mais perto para cheirá-lo. Ethal suspirou, precisava tirar isso de sua cabeça, ou enlouqueceria.

‡†††‡

           Depois de duas horas sacais enfiado no anfiteatro, tudo que Lewis queria era um prato de comida e esperar pelo bendito teste para a equipe de natação. Detestava o primeiro dia de aula, em qualquer escola, mas tinha de admitir que aquele até o momento estava sendo realmente interessante. E talvez ficasse mais, pensou enquanto olhava para as mesas, a maioria ocupadas por grupos específicos.

           Sempre odiou essas panelinhas, essa necessidade de deixar os outros excluídos, quantas vezes havia visto pessoas se perderem por conta disso, se tornarem uma casca do que antes eram? Tinha perdido as contas, e já havia perdido muitos rostos, apagados pelo tempo e pelas constantes mudanças, estava exaurido. Suspirou ao pegar sua comida, rapidamente carregando a bandeja para a mesa com o cheiro mais agradável ao seu olfato apurado. - Posso me sentar aqui? - Perguntou para um dos rapazes ali, seus traços leves e muito bem desenhados mostravam suas origens latinas, a mandíbula rígida e coberta por uma leve camada de pelos e um sorriso surpreso lábios foram o que o moreno recebeu do rapaz de pele dourada. - Um punk com os geeks, essa é nova - Comentou o rapaz, afastando-se o suficiente para que o outro ocupasse o lugar ao seu lado. 


     Ems revirou os olhos e sorriu, tomando seu lugar. - Eu sou mais geek do que pareço - Disse mordendo um grande pedaço do sanduíche que pegara ao se servir. - Imagino - Murmurou o rapaz do seu lado com divertimento. - Bom, eu sou o Wyatt, esses são Owen, Hayden e Justin - Se apresentou, apontando para o resto dos rapazes. - Maggie devia estar aqui pra você conhecê-la também - Mencionou Hayden, o rapaz de pele negra era alto e um tanto esguio, tapando seu olho esquerdo estava um tampão pós cirúrgico, muito bem encaixado sob o óculos de lente grossa sobre seus olhos castanhos.

   Wyatt resmungou algo incompreensível sobre sua irmã mais velha, mas logo voltou ao assunto em questão, planejavam jogar algumas partidas de algum videogame que Lewis jamais havia ouvido falar ou teria, já que o pai era bastante rígido sobre isso. O rapaz permanecera em silêncio enquanto eles conversavam, fascinado com a leveza dos garotos ao mesmo tempo que mantinha sua audição atenta no que acontecia no resto do ambiente.

     Aquilo veio a calhar quando uma bola de futebol americano veio em direção a mesa onde estava, antes que a mesma pudesse atingir algo, sem levantar o rosto de sua comida, Frederick levantou a mão e capturou o objeto, se levantando em seguida. Seus olhos verdes perscrutaram o refeitório silencioso. - Quem jogou isso? - Perguntou, empostando sua voz um tanto rouca para que todos o ouvissem. Os rapazes do time de natação na mesa ao lado cochicharam algo sobre Ems ser magro e pequeno demais para desafiar os rapazes do time principal da escola.

    Do outro lado da sala, um dos rapazes, vestido com uma jaqueta azul com o emblema da escola sobre o peito direito levantou a mão, seu sorriso era presunçoso, mas foi diminuindo aos poucos quando a passos firmes, o garoto novo da escola se aproximava. A tensão no ar era palpável a todos ali. - Hey, foi só uma brincadeira, cara - Afirmou o rapaz, tão rapidamente quanto se aproximara, os olhos do menor tomaram uma coloração vermelha antes de retornar ao verde, um sorriso debochado nos lábios antes de colocar a sua outra mão na bola. - Uma brincadeira? Veja se você gosta dessa

      O som do objeto esportivo sendo rasgado ao meio não era nada agradável no ambiente totalmente silencioso, quando a mesma já estava repartida, Lewis levantou o que restou para todos ali verem. - Que fique de aviso, que se eu ver esse tipo de brincadeira acontecendo de novo ou sendo endossado por qualquer um, isso é o mínimo que vai acontecer, estamos entendidos? - Perguntou e quando todos os adolescentes se mantiveram em silêncio, voltou a perguntar. - ESTAMOS ENTENDIDOS? - Dessa vez, todos assentiram, ainda assustados.

        O moreno se voltou ao rapaz de cabelos loiros com a jaqueta do time de futebol, um sorriso falsamente inocente em seus lábios. - Acredito que isso seja seu - E como se fosse algo normal, jogou os restos da bola sobre as pernas do rapaz, o assustando e o fazendo pular para trás, como se aquela fosse a cabeça de um de seus companheiros de equipe, sabendo que devia agradecer por não ser a sua. Todos observaram o rapaz pegar sua mochila e deixar o refeitório apressado, os amigos recém adquiridos o acompanhando em seguida, Wyatt guiando o quarteto.

        -Hey, cara, tudo bem? - Perguntou Justin, um tanto preocupado quando o grupo encontrou o rapaz do lado de fora da escola, se protegendo com seu casaco enquanto tragava um cigarro, o boné azul do loiro lhe sombreava o rosto o suficiente para que não se pudesse notar que ele estava chapado, o que divertiu Ems, que suspirou antes de recostar a cabeça na parede, estavam protegidos da chuva que começara a cair ali fora pela estrutura da própria instituição. - Tá sim, é que...- O de olhos verdes esfregou o canto do olho direito com o anelar, onde uma aliança um tanto enferrujada repousava, o indicador e o dedo médio seguravam o cigarro já parcialmente fumado, não tardou a afastar a mão dali, voltando a tragar o cigarro por um momento antes de afastá-lo novamente, jogando as cinzas no chão. - Eu odeio esse tipo de idiotice, gente inconsequente achando que está acima dos outros...acreditem, já conheci muita gente assim...

         Owen, o mais baixo dos cinco, com cabelos pretos e olhos azuis quase tão claros quanto o céu, se recostou ao seu lado. - Pois então...seja bem vindo ao clube...

‡†††‡

         Assim que o último sinal tocou, todos os alunos, incluindo Ems e seu grupo seguiram para a piscina, o time de natação era a joia de Brookeville. As Raposas, traiçoeiros e esguios, era irônico, ao menos ao ver dele. As arquibancadas estavam cheias e algumas pessoas estavam em pé, admirando os rapazes, haviam apenas alguns poucos garotos tentando entrar naquele ano e o treinador os colocaria contra os rapazes que já faziam parte da equipe, Lewis tinha de admitir, sentia pena dos rapazes, pois todos os garotos do time pareciam prontos para atravessar o pacífico a nado se conseguissem e os candidatos não pareciam nem um pouco preparados para isso.

         -Vocês vão nadar até o outro lado da piscina e voltar, aqueles que forem mais rápidos que meus rapazes, entrarão para o time. - Explicou o treinador e chamou o primeiro par. - Clyde e Peterson. - Vincent Clyde era um rapaz esguio e de cabelos castanhos, a pele bronzeada e um tanto marcada por algumas queimaduras no peito mostravam que além da natação, ele se aventurava no surfe, Ems sorriu, havia tido um colega surfista quando estudou na Califórnia.

        A cada teste, Ems aproveitava para avaliar seus colegas e sentir um tanto de pena dos rapazes que haviam se candidatado ao time. O único que passará fora Paul Jenkins, um garoto baixinho e esguio, de cabelos ruivos lisos e sardas espalhadas pelo corpo, apesar de ser um tanto menor que o resto do time, Paul era rápido e habilidoso na água, provavelmente vinha tendo aulas de natação desde muito pequeno, como ele, seria legal ter um amigo que o entendesse ali no meio. Foi despertado de seus devaneios quando ouviu o treinador falar pela última vez. - Brooke e Lewis...

        Repentinamente todos os alunos ficaram em silêncio e o jovem de olhos verdes deixou seus olhos seguirem até o rapaz Brooke, ele era alto e apesar do corpo um tanto esguio, tinha músculos dignos de um atleta olímpico, a pele negra como o ébano chamava a atenção, ainda mais quando a única parte coberta de seu corpo era onde a sunga com o emblema do time estava. Ambos trocaram um sorriso, eles sabiam o que eram, o capitão do time de natação cheirava a maresia e orvalho, tão leve quanto a irmã. Lewis levantou orgulhoso e passou a se despir na frente de todos, diferente dos colegas que haviam seguido apressados ao vestiário. Ele não tinha vergonha de seu corpo, na verdade tinha orgulho, com todas as cicatrizes que tinha.

        Os suspiros foram audíveis e sincronizados na arquibancada quando Emily ficou apenas com as roupas de natação, usava um top preto sobre os seios e uma sunga da mesma cor, mostrando seu corpo e as tatuagens que o pintavam, seu peito tórax possuía tatuagens menores, mas ainda assim misteriosas, e seu corpo estava coberto disso. Um corpo que também escondia músculos, estes mais sutis, mas igualmente notáveis, seus braços e pernas eram definidos graças aos intermináveis treinos militares e chamava a atenção tanto de garotas quanto de garotos, incluindo os da equipe.

        Ambos os jovens se posicionaram lado a lado, o treinador daria a marca, essa veio instantes depois através do som dolorosamente estridente de um apito. Os dois pularam, os dois se moviam como se a água fosse uma mera extensão de seus músculos, pois ali, o lobo e a raposa se sentiam em completa paz, mas ainda assim, somente um deles chegou e voltou ao ponto inicial primeiro. Lewis emergiu rapidamente enquanto Isaac estava um metro atrás e a escola inteira vibrou com aquilo, causando ao mais novo um sorriso. O mais velho tinha um olhar surpreso, era a primeira vez que alguém o superava em muito tempo. Os olhos verdes do lobo passaram por um instante pelo amarelo quando olhou para o kitsune e um sorriso debochado lhe curvou os lábios. - Gosta do que vê?

‡†††‡

          Ems ainda estava com os cabelos molhados quando finalmente saiu do prédio da escola, depois da conversa com o treinador Willard, foi difícil se desvencilhar dos amigos e demais colegas que queriam lhe parabenizar pelo feito de ter ganhado do capitão dos raposas. Do lado de fora, a chuva começava a cair, fraca e tão leve quanto penas a tocar ao chão, o garoto sorriu, ele gostava da chuva. Ele colocou os fones nos ouvidos e deixou com que Creep do Radiohead lhe preenchesse os ouvidos enquanto colocava o skate no chão e subia no mesmo, ele tinha um encontro marcado com Darren, seu traficante e não se perdoaria se perdesse.

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Notas Finais:

Eu levei dois fucking meses pra terminar de escrever ESSE capítulo, meu bom Lúcifer.

Mas bom, é isso, o início da história de Emily Lewis, espero que gostem

Beijos, JF.

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