DEZESSETE

Angelina entrou em casa e sentou-se no banco, apoiando o cotovelo sobre a mesa e descansando a cabeça na palma da mão. O seu coração parecia ter se despedaçado em milhões de pedaços, por tamanhas ilusões desfeitas. Ela olhou em volta e limpou as lágrimas, decidindo voltar a terminar o ensopado que levaria para sua mãe, essa sim deveria ter toda a sua atenção.

A cada passo na escada estreita que a levava a área dos quartos, a jovem sentia o coração se apertar. Era uma dor tão profunda e dilacerante que fazia seu corpo estremecer, ela colocou a bandeja com o ensopado num degrau da escada e escorou-se na parede de pedra, pondo a mão no peito e respirando fundo continua vezes, na intenção de aliviar seus tremores. Após alguns minutos, uma sensação de leve calmaria abrandou sua aflição, então, novamente pegou a bandeja e seguiu rumo ao quarto da mãe.

— Mamãe, trouxe seu almoço — Angelina chamou com uma voz carinhosa.

Eva Jones estava de olhos fechados e com uma aparência serena.

— Vamos acordar, mamãe? — Ela tocou, mansamente, na mão da senhora e mesmo assim não houve resposta. — Mamãe? — a voz dela tornou-se um pouco exasperada.

Angelina aferiu o pulso da mãe e, para seu completo horror, ele havia cessado as suas batidas. Ela, com o coração em frangalhos e as lágrimas já copiosas escorrendo pela face, reparou na pele pálida e fria da mãe, os lábios levemente roxo, mostrando claramente que o fôlego de vida fora retirado.

O sentimento era como se a terra tivesse se aberto e ela tivesse caído dentro de um abismo de dor e luto. Angelina caiu ao chão, ao lado da cama, e pôs a mão na boca para tentar sufocar o grito que parecia corroer a sua alma. Uma profunda constatação de abandono tinha tomado de sua alma naquele momento. Parecia não haver mais nada para ela. Estava órfã no mundo e, por pior que fosse, sentia-se deixada ao acaso pelo próprio Deus.

— Por que me esmagas com tua forte mão? — ela murmurou em meio ao pranto.

Aquele quarto era um triste cenário da morte, da angústia e do sofrimento. E por Providência Divina a senhora Olivia visitou a jovem naquela tarde e, depois de muito chamar por Angelina, subiu para procura-la, encontrando-a prostrada ao lado do corpo da mãe.

— Minha filha, o que aconteceu? — A Sra. Olivia correu em direção a menina, atentando para o posição rígida do corpo de Eva, compreendo o que havia acontecido. 

Não houve resposta, apenas o som de um gemido de dor. A querida Sra. Nagael a puxou para o colo e lhe acariciou os cabelos, ficando em silêncio em respeito ao luto de Angelina, sabendo que palavras não seria consolo naquela hora, mas sua companhia muda daria algum conforto.

*

Ao pôr do sol daquele dia, um punhado de pessoas estava em volta do túmulo de Eva Jones. Angelina encontrava-se vestida de preto e demonstrava sua terrível palidez diante de todo ocorrido, não conseguira comer e nem beber. Era lastimável sua situação.

— A Sra. Jones passou os últimos anos num condição horrível de doença, mas o Senhor cuidou  dela por meio de sua filha. Ela sempre deverá ser lembrada como uma mulher que honrou seu Deus e serviu sua família.

O pastor declarava e Angelina apenas chorava, lembrando-se dos momentos em que seus pais eram vivos:

“Já está pronta para dormir?” Eva se aproximara de sua linda menina ruiva de 10 anos e começara a lhe escovar os cabelos.

“Mamãe, hoje eu achei um dente de leão” a pequena garotinha dissera.

“É mesmo? E fez um pedido?”

“Sim, eu fiz!” ela proferira, de forma empolgada.

“E qual foi o seu desejo?” Eva começara a traçar as mexas do cabelo da filha em uma trança.

“Pedi que vocês sempre estejam comigo e que um dia eu possa ter uma família tão feliz quanto a nossa”.

“É um belo pedido, Angelina. E, Se o Senhor permitir, viveremos muitos anos e veremos você casar, a ajudarei com seus filhos, pois desejo ter muito netos e mimá-los.” Ela amarrara uma fita nas pontas dos fios e continuara: “Em Cristo Jesus, o futuro será alegra e cheio de cores.”

A mãe dissera com tanta convicção e Angelina confiara em cada palavra. Com um beijo de boa noite elas se despediram e uma esperança de que sempre haveria dias melhores preenchera o coração da menina.

Mas agora ela abrira os olhos e o futuro não era promissor e nem cheio de esperança e cores. Na verdade, parecia um poço escuro e sem fundo. Nunca seu pai entraria na igreja com ela, pois partira há anos depois de uma viagem onde salteadores roubaram o comboio em que ele partira e o mataram juntamente com outros homens. Todavia, após alguns anos, ainda havia esperança, pois sua mãe estava junto dela. Mas agora, certamente, nada possuía! Sua mãe se achava debaixo de sete palmos de terra e nunca mais voltaria, nunca mais ouviria sua risada, ou canto suave. Oh, céus! Como ela suportaria essa dor? Talvez não conseguisse.

— Angelina... — ela, com a mente distante, olhou para o belo tenente. Ele parecia lhe dizer algo, mas não lhe era compreensível. — Angelina...

Tudo se tornou escuridão.

*

Um riacho cristalino corria diante de seus olhos, ao seu redor havia uma imensa floresta e ela parecia estar só, no entanto, uma profunda paz a guardava, levando-a a nada temer. O vento que soprava fazia seus cabelos soltos dançarem e traziam consigo o cheiro de rosas vermelhas, era suave e, nunca sentira aquele perfume de modo tão vívido. Ela percebeu estar descalça, aproveitou da oportunidade para andar sobre aquela grama verde, chegando bem próximo as águas.

— Molhe seus pés! — uma voz masculina, porém, mansa lhe ordenou.

Angelina virou-se para o lado e enxergou um senhor de cabelos brancos, com uma roupa de lã e um cajado nas mãos, nos lábios tinha um gentil sorriso.

— Não tenha medo — ele declarou —, pois as águas são de descanso e refrigeram a alma.

Havia tamanha segurança na ordem, que ela não ousou duvidar. Ao tocar naquele líquido frio, sentiu um imenso conforto que há tempo não possuía. Naquele momento, todas as suas tribulações e dores pareciam como nada, era como se nunca tivessem existido.

O homem se aproximou e ficou ao lado dela, olhando fixamente para um ponto adiante. Angelina comprimiu os olhos, em motivo da luz do sol, e contemplou as montanhas a sua frente. Ela viu como que uma luz brilhando, mas não poderia dizer o que seria de fato.

— O que é aquele ponto de luz piscando sem cessar?

— “É para lá que sobem as tribos, as tribos do Senhor...”* — ele a respondeu.

— Podemos ir junto com eles? — Angelina tinha um sorriso no rosto e um extenso brilho de entusiasmo no olhar.

— Ainda não podes subir, em breve sim — a voz apesar de calma era firme —, mas está no caminho.

— Eu não tenho mais ninguém na terra — ela replicou.

— “Pai dos órfãos, Defensor das viúvas; eis o que é Deus na sua santa morada”* — disse o homem. — “(...) confiam, os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam”.

Angelina vislumbrou as águas do riacho novamente e ponderou firmemente nas palavras proferidas pelo homem. Em absoluto, nunca fora desamparada por Deus nas suas angústias, sempre obteve consolo, apesar da dor. Perdera os pais, mas nunca estaria sozinha, pois o Pai da Eternidade sempre lhe seria por companhia na jornada, por onde quer que fosse. Ela virou-se para o homem e recitou:

— “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida...”.*

O homem assentiu com um sorriso.

— “Tão somente conservai o que tendes, até que Eu venha!” — ele declamou.

Angelina acordou!

Os olhos azuis dela se fixaram rapidamente numa parede branca. Onde ela estaria? Aonde estaria o homem ao seu lado? Oh, céus! Sua cabeça doía imensamente.

— Finalmente acordou!

Ouviu a voz familiar da Sra. Nagael que vinha até ela com um pano molhado nas mãos.

— Achei que tivesse partido — a senhora declarou, tomando-a num feroz abraço. — Deus sabe o quanto clamei por sua vida.

— O que aconteceu? — Angelina perguntou, pois não compreendia aquela situação.

— Desde o enterro de sua mãe, você desmaiou e permaneceu desacordada por dois dias inteiros. Sua febre era incontrolável. — Ela suspirou profundamente. — Pensávamos que nunca mais acordaria. — Lágrimas escorreram pela face da Sra. Olívia.

— Pensávamos? — Angelina contraiu o cenho.

— Scott nem tem saído do seu lado. Nunca vi um homem tão devotado.

— Ele ainda não partiu com os militares?

— Não, ainda permanece conosco. — A Sra. Olívia segurou a mão fria de Angelina.

Aquela notícia afagou os ânimos de Angelina. Não poderia usar de palavras para explicar a imensa paz que repousava sobre o seu coração. Ela se lembra do imenso sofrimento que sentira, porém, agora, não havia nada mais comprimindo seu coração. Os sentimentos pareciam restaurados e tudo que restara era como uma brisa de saudade.

— Acordou!

Ambas miraram para Nathan, que se achava de pé na porta.

— Deus ainda não permitiu minha entrada no céu — Angelina sorriu, depois de tanto tempo.

— Ele não retiraria um anjo da terra, não agora. — Ele se aproximou e parou diante do leito no qual ela repousava.

— Eu nada tenho para ser de muito útil a terra. — Não desejava externar uma falsa humildade, mas, de fato, esse lhe era os pensamentos. O que poderia ofertar aos outros?

— Tem bondade, amor e misericórdia — ele replicou. — E isso falta aos montes na humanidade.

— Deixá-los-ei, por uns momentos. — Sra. Nagael partiu.

— Você passou anos cuidando de sua mãe e pouco viveu para si mesma — Nathan declarou, sentando-se a beirada da cama. — Permita-se ser cuidada e amada como deve ser.

— Você partirá! — Angelina segurou as lágrimas.

— O amanhã somente o Senhor pode decidir. — Nathan tinha essa esperança. — Cabe a você viver a nova vida que tem, ou permanecer presa ao passado.

“Mas está no caminho” — lembrou-se da fala do homem.

— Quem está no caminho anda pra frente — ela balbuciou.

— De fato! — Nathan concordou.

— Então, é nessa jornada que seguirei!

Eles seguraram as mãos.

(*Salmos 23: 2, 6/ *Salmos 122: 4/ *Salmos 68: 5/ *Apocalipse 2: 25)

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